Opinião

Por António Jacinto Pascoal
Professor e escritor
20 de Maio de 2025, 12:00
Agora é que isto vai aquecer. Ainda bem que o Chega é um partido de direita, porque, agora, a mesma direita (designada não radical), sempre tão condescendente e indecisa em sancionar os extremismos e manifestos neofascistas actuais, por receio de perda de eleitorado, e refém de si mesma e dos seus fantasmas, terá de conviver (o que implica a família política alargada – conservadores, sociais-democratas, democratas-cristãos, neoconservadores, neoliberais) com um partido que é, em si mesmo, uma ameaça à democracia, à seriedade e à lisura políticas.
Agora, sim, eles não vão ter medo. O estilo caceteiro, boçal e populista do Chega inundará o Parlamento e o país (“Portugal é nosso”, cantam) de indecência política e terá todo o terreno livre para a provocação e desumanidade: “Chora, Pedro”, gritam, ainda a quente. “Eles ainda não viram nada”, asseverou Ventura. Os comentadores chamam a isto direita radical. Outros, extrema-direita. Continuamos a usar pinças nas palavras.
“O Chega derrotou o PS de Mário Soares, matou o PCP de Álvaro Cunhal, varreu do mapa o BE”, declara a jactância de Ventura. Não se poupará em palavras e novas ameaças: a História corre a seu favor.
Numa altura destas, a vitória de Montenegro soa a presente envenenado. Com questões judiciais em curso a envolvê-lo pessoalmente, resta saber em que é que isso não será uma fragilidade que permita ao Chega (e a outros) abrir uma nova crise política ou torná-la um espectro.
“Esta vitória é do povo português”, disse ainda o mesmo Ventura. Vamos lá a ver: é a vitória deles, dos que votaram Chega. O povo é muito mais do que esta gente e está em mais lados. Mas é a derrota de toda a outra direita que se pôs a jeito. E a derrota da esquerda, adormecida entre querelas sobre NATO, Ucrânia, direitos individuais e questões das minorias, quando deveria procurar uma ampla frente que distinga, de uma vez por todas, esquerda de direita, o que assenta na justiça social, na igualdade, na defesa dos sistemas públicos e na defesa de uma expressão sensata das ideias. Elementar.
Sem cairmos na falácia irresponsável de rotular o eleitorado do Chega como gente não recomendável (não é possível, perante números desta dimensão), fica a certeza de que um dos “D” de Abril, "Desenvolver", não foi logrado: não se tratava apenas de betão, estradas, pontes, parques das nações. Era necessário edificar uma massa humana dotada de valores humanistas, conhecedora, informada, educada. Isso falhou. Vemo-lo até nas escolas, em que alunos, de herança económico-social precária, em especial dos cursos profissionais e sem cultura política e qualquer atitude crítica, tecem loas ao partido de Ventura, sem saber porquê. Convém também compreender como o voto, a sul, migrou do PCP para o PS e daí para o Chega.
Agora, sim, a direita terá de se confrontar consigo mesma e com a tibieza (ideológica) de ter claudicado em forjar uma cerca sanitária conjunta para fazer face ao Chega. Teve imenso tempo para o fazer e pode dizer-se que colaborou com esta força política. Apostada em usar esse partido como trunfo para esvaziar a esquerda, incluindo o PS, não percebeu que o cancro alastra a todo o corpo.
E numa situação em que uns reclamam a sua parte no assalto ao poder e outros a sua exclusividade e sobrevivência, a gestão do caso Spinumviva pode engendrar compromissos insidiosos (como acontece entre forças que se repudiam mas respeitam) e, num caso assim, é a Constituição (e, portanto, o Estado social) que estará em risco, como, aliás, em tom rapace, avançou já Cotrim de Figueiredo na noite eleitoral. Parece que já vimos este filme em algum lado. É de ficarmos preocupados?
Fonte: https://www.publico.pt/2025/05/20/opiniao/opiniao/cerca-sanitaria-2133683
Considerações com as quais me identifico (Isabel A. Ferreira)

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, em Paris, em 12 de Junho de 2016
Those were the days my friend...
Fonte da imagem (que é da responsabilidade da autora do Blogue): https://www.publico.pt/2016/06/12/politica/noticia/reportagem-1734906
«Tinha de acontecer, era previsível, senão fatal como o destino, são ditames populares que, em conjunto com o adágio “Diz-me com quem andas, dir-te-ei as manhas que tens”, podem servir de justificação ao terramoto político do momento, que derrubou o primeiro-ministro do PS e com seu governo, que fora eleito por uma maioria absoluta.
Depois do abalo Sócrates que levou o país à bancarrota e originou a intervenção do fundo Monetário Internacional na orientação da nossa política económico-financeira, e dos avisos da União Europeia sobre a degradação do combate à corrupção que lavrava nos meios da administração central e autárquica, o sistema legislativo e governamental daquele partido continuou a fazer ouvidos de mercador ou a fazer de conta sem mudar uma linha no caminho que trilhava. Os homens do sistema em vigor nos tempos de Sócrates que escaparam à repressão criminal, mantiveram-se em campo uns, foram repescados outros.
Mas acontece, pelo menos tem acontecido, ser o eleitor pouco sensível à honestidade ou desonestidade com que se labora a coisa pública. Assim, como dizem os comentadores da bola na véspera dos jogos de futebol, tudo está em aberto quanto aos vencedores das próximas eleições.
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O PS não perde tempo, fiel ao princípio do rei morto, rei posto. E, garra é que não lhe falta, avança de imediato com dois candidatos à presidência do partido. Dois jovens, mas já curtidos nas andanças dos palcos políticos e suas subtilezas. Caras novas, embora de promessas antigas, apresentam o PSD, PCP e o BE, enquanto o Chega se mantém com Ventura. Afinal nada de novo na nossa democracia.
Pois quanto a mim, simples cidadão eleitor que deixou de confiar nos programas eleitorais, geralmente um rol de promessas e de mentiras piedosas, já ficaria satisfeito se todos os partidos políticos susceptíveis de eleger deputados para a próxima Assembleia da República se comprometessem, em acordo público assinado, certificado e registado em cartório notarial, a três meses depois de constituído o novo poder legislativo terem aprovada nova lei que punisse o enriquecimento ilícito.
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Assim, para não ficar de fora e ser acusado de andar a dormir na forma, ouso botar faladura sobre o caso da demissão do primeiro-ministro António Costa e o escarcéu que assola a comunicação social sobre quem recai a responsabilidade do infausto acontecimento. Na esteira do habitual, sempre que se instaura procedimento criminal contra políticos, banqueiros e poderosos, o bode expiatório de culpas alheias é o M.º P.º e a procuradora-geral da República, no caso concreto porque esta divulgou em nota oficial ter remetido ao Supremo Tribunal de Justiça certidão para abertura de inquérito tendente a averiguar se o chefe do governo tinha ou não rasca na assadura dos comparsas.
Certo é que o primeiro-ministro não esperou pelo inquérito e, sem sequer saber quais os factos que lhe eram imputados, se demitiu.
Conclusão imediata e assanhada: o M.º P.º e a procuradora-geral derrubaram o governo, opinião que esquece o tráfico de influências apontado a um ministro e ao seu próprio chefe de gabinete, como causa política suficiente para o efeito.
Tanto ética como politicamente não vejo que o facto de haver uma denúncia pendente para abertura de inquérito, só por si seja motivo suficiente para a demissão de um cargo público.
Qualquer pessoa é susceptível de ser objecto de inquérito, bastando para o seu desencadeamento a denúncia anónima, cabendo à entidade competente a sua investigação. Finda esta, pode o inquérito ser arquivado. Só após a acusação do M.º P.º, sufragada por despacho de pronúncia do juiz de instrução, se poderá falar em indícios suficientes da existência de um comportamento criminoso, o que justificaria eticamente a demissão.
Perante este quadro, incorrecto nos parece afirmar que o M.º P.º e a procuradora-geral da República derrubaram o governo em vez de anunciar que António Costa, ponderado o circunstancialismo do caso, entendeu demitir-se.
Os que berram contra o regime actual da magistratura do M.º P.º, que lhe atribui a autonomia perante o poder político, berram sem propor alternativa. É que esta vigorou durante quase meio século durante o regime salazarista e continua a manter-se nos regimes totalitários: a de ser o governo a mandar naquela magistratura. Não há meios-termos.