
Por Nuno Morna

Peguei num texto que publiquei em tempos no DN Madeira e reescrevi-o, porque me pareceu pertinente.
𝗨𝗺 𝗦𝗮𝗹𝗮𝘇𝗮𝗿
Saudades. Sempre as saudades. Como se fossem o ar que respiramos, o fado que nunca acaba, a corda que nos puxa para trás quando o mundo insiste em andar para a frente. Saudades de Salazar, dizem, e o nome vem com o peso dos olhos cansados, com o cheiro da naftalina e da roupa guardada em baús, saudades da sombra, da escuridão, da miséria transformada em virtude, da fome baptizada de "simplicidade". Saudades do tempo em que o país era pequeno, pobre, medroso, medroso e obediente. Com a cabeça baixa e o chapéu na mão acreditava-se que tudo aquilo era normal. Saudades da sopa de cavalo cansado, da broa dura que rachava os dentes, do milho com restos de espada, da sardinha partilhada por quatro, do bacalhau fiado na mercearia e pago a prestações quando o ordenado chegava... se chegava. Saudades dos casebres sem chão, sem luz, sem água, onde a diarreia matava mais do que qualquer doença estrangeira.
E havia as mães que perdiam filhos antes dos cinco anos como quem perde lenços: "tive dez, morreram-me seis, ficaram-me quatro", dizia-se sem choro, sem drama, porque o drama era o pão de cada dia. Havia os miúdos com raquitismo, com poliomielite, com as pernas em arco de tanta fome, havia os velhos que não passavam dos sessenta, enquanto na Suécia já se prometiam setenta e cinco anos de vida. Havia as chuchas de pano embebidas em vinho e açúcar para calar as crianças. Havia as escolas primárias com carteiras riscadas, as janelas a cair, os professores de régua na mão, a palmatória, a menina-de-cinco-olhos, a chapada na cara como método pedagógico, porque pensar era perigoso, e aprender a escrever e a rezar bastava. Havia o exame da quarta classe como a fronteira para o abismo. Havia as raparigas ensinadas a costurar e os rapazes ensinados a obedecer. Havia a humilhação como disciplina nacional.
E havia o silêncio, que era a música de fundo do país. Não se falava. Não se dizia. Não se sonhava. O lápis azul riscava jornais, cortava beijos de filmes, apagava canções e livros. A PIDE escutava cafés, escutava casas, escutava os pensamentos, com bufos em cada esquina, com celas prontas para os atrevidos. O medo era a gramática da vida. Dizem saudades, mas o que havia era isto: fome, miséria, silêncio e medo. Era este o país que tinham e é este o país que alguns ainda suspiram ter de volta.
𝗗𝗼𝗶𝘀 𝗦𝗮𝗹𝗮𝘇𝗮𝗿𝗲𝘀
Saudades, dizem eles, como quem acaricia um cadáver, saudades do tempo em que a moral se confundia com proibição, em que viver era uma lista de não-podes, não-deves, não-fazes. Saudades das mulheres que precisavam de autorização para casar, para sair do país, para trabalhar, para existir. Saudades do divórcio proibido, da homossexualidade tratada em manicómio, da virgindade vigiada pela família, do marido que podia matar a mulher em flagrante adultério e ser compreendido pelos tribunais, enquanto a mulher, se ousasse, ia direita à prisão. Saudades da juventude vigiada no liceu, das mini-saias proibidas, dos biquínis censurados, das calças à boca-de-sino banidas como armas de destruição moral. Saudades da Coca-Cola proibida, dos Beatles interditos, do beijo cortado no "Casablanca", da vida filtrada por um regime que temia a pele, o som, o riso, como quem teme uma bomba.
Saudades também da "justiça", essa palavra transformada em caricatura: tribunais plenários onde não havia defesa, prisões arbitrárias, tortura como rotina, assassinatos escondidos em relatórios com letras frias. Saudades de Caxias, do Tarrafal, da Guiné, onde os presos eram ossos sem nome. Saudades da rede de bufos, dos vizinhos a denunciar vizinhos, da desconfiança instalada como hábito, de um povo a viver de olhos baixos para não chamar a atenção. Saudades de um país onde a polícia política era uma sombra em cada mesa de café.
E havia a economia, se é que se pode chamar assim à estagnação. O Estado decidia tudo: que fábricas abrir, que máquinas mudar, que produtos vender. Para acender um isqueiro, licença; para montar uma bicicleta, licença; para substituir uma máquina numa empresa, licença. O condicionamento industrial como prisão, os monopólios garantidos, os produtos caros e maus, o país parado. Saudades da exportação ridícula, da agricultura medieval, do pão racionado, do salário de operário que não dava para alimentar uma família. Saudades da professora que precisava da autorização do Estado para casar, da enfermeira proibida de ter marido.
E havia a corrupção, sempre a corrupção, tão funda que se confundia com o chão. Os alvarás vendidos e trocados como cartas de baralho, os negócios do Estado feitos para os amigos, os escândalos abafados, o Ballet Rose varrido para debaixo do tapete, os Donos Disto Tudo a passear impunes. O nepotismo como lei, a cunha como passaporte, a miséria como normalidade. Dizem saudades, mas o que havia era isto: proibição, censura, violência, corrupção, um país reduzido a sombras.
𝗧𝗿𝗲̂𝘀 𝗦𝗮𝗹𝗮𝘇𝗮𝗿𝗲𝘀
Saudades, repetem eles, como se não se lembrassem do que era ter o país encharcado em bairros de lata, famílias inteiras em casas de cartão, zinco e madeira, empilhadas como lixo humano à volta de Lisboa, com cheiro a esgoto, sem água, sem luz, sem nada. Saudades das cheias de 1967, quando as enxurradas arrastaram casas e gente, quando morreram largas centenas (oficialmente 462, mas todos sabiam que eram muitos mais) e o regime respondeu com silêncio, com indiferença, com a frieza burocrática de quem vê a morte como estatística. Saudades de um Estado que não mexia um dedo para ajudar, e onde a caridade privada servia de substituto ao que chamavam governo.
E havia a saúde, se é que se podia chamar saúde a um país de endireitas, bruxas, mezinhas, chás de ervas. Havia a tuberculose a levar famílias inteiras, a cólera a rebentar nos bairros, a mortalidade infantil a ser regra e não excepção. Não havia médicos, não havia hospitais, não havia centros de saúde. Quem os procurava tinha de andar quilómetros, a pé, com os pés descalços, com as crianças doentes ao colo, e muitas vezes voltava de mãos vazias porque não havia nada. Saudades disso, dizem, da miséria transformada em rotina.
E havia a guerra, a interminável guerra, treze anos de rapazes enviados para África, para morrerem por um império que já não existia. Milhares estropiados, mortos, enlouquecidos. Saudades dos barcos cheios de jovens com vinte anos, enviados como carne para a fogueira. Saudades dos cemitérios que se enchiam de corpos anónimos. Saudades da injustiça: os filhos dos ricos com adiamentos sucessivos, protegidos por estudos ou cunhas, acabavam nos escritórios militares, longe do mato, enquanto os filhos dos pobres iam morrer em combates sem glória. Orgulhosamente sós, dizia Salazar, e os mortos amontoavam-se.
E havia a emigração, o êxodo, um milhão de portugueses a fugir do país porque cá não havia futuro. Saudades dos comboios cheios para França, da humilhação na fronteira, dos subornos aos guardas, das famílias divididas, dos filhos deixados para trás. Saudades da grande viagem da classe média: a Badajoz, comprar caramelos, porque atravessar a fronteira já era aventura. Saudades da vergonha de um país reduzido a contrabando de guloseimas. Dizem saudades, mas o que havia era isto: barracas, doenças, mortos na guerra, mortos nas cheias, emigrantes aos magotes.
𝗠𝘂𝗶𝘁𝗼𝘀 𝗦𝗮𝗹𝗮𝘇𝗮𝗿𝗲𝘀
Saudades, insistem, como se fosse possível esquecer que o país era uma prisão com a chave do lado de fora, uma vitrina de província onde tudo era proibido e tudo era controlado. Saudades do lápis azul que riscava jornais, cortava frases inteiras, apagava poemas, riscando até a imaginação. Saudades da rádio que só passava nacional cançonetismo e fados tristes, da televisão que mostrava desfiles, inaugurações de nada, o Presidente do Conselho sentado como um cadáver com óculos, e mais nada. Saudades da informação que não informava, da cultura reduzida a propaganda, dos escritores perseguidos, dos músicos silenciados, dos pintores obrigados a pintar a pátria com cores que não existiam.
Saudades também do trabalho infantil, que não era excepção mas regra. Crianças a carregar tijolos, a apanhar batatas, a servir nas casas ricas, a viver no medo de uma reguada ou de uma fome maior. Saudades dos deficientes escondidos em casa, dos idosos abandonados a morrer em tugúrios, sem reforma, sem assistência. Saudades de um país sem segurança social até ao final dos anos 60, onde cada velho sem família era condenado à solidão e à miséria.
E havia o quotidiano da pobreza, o quotidiano da resignação. O pai a sair para o campo de enxada às costas, a voltar de noite com os pés desfeitos, a mãe a coser roupa até se lhe partirem os olhos, os filhos a dormir em esteiras no chão, todos a comer pão seco, caldo de nada, vinho de má qualidade. E se sobrava alguma energia, era para rezar, porque a religião era o único escape oferecido, a promessa de uma vida melhor, mas só depois da morte.
E havia ainda o grotesco dos "grandes feitos" do regime. Quase cinquenta anos de poder e a herança eram quatro barragens, uma ponte, uma auto-estrada que não chegava a Vila Franca, um viaduto que terminava em Gaia. Saudades dessa obra de país, sempre inacabada, sempre ridícula. Saudades de Sines, da Siderurgia Nacional, os elefantes brancos de uma industrialização improvisada que nunca funcionou. Saudades da agricultura medieval, dos campos do sul desertos, das terras do norte divididas em minifúndios improdutivos, da produção ridícula, da ausência de qualquer modernização.
𝗨𝗺 𝗦𝗮𝗹𝗮𝘇𝗮𝗿 𝗲𝗺 𝗰𝗮𝗱𝗮 𝗽𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝘂𝗲̂𝘀 𝗱𝗲 𝗯𝗲𝗺
Saudades, repetem, como se não percebessem que o que recordam não é memória mas mito, um fantasma que lhes serve de conforto contra a desordem do presente. Saudades do medo, da disciplina, da obediência, da escravidão disfarçada de paz. Saudades de um país orgulhosamente sozinho, como se o isolamento tivesse sido glória e não condenação. Saudades da cadeira de vime onde o ditador se foi desfazendo em silêncio, enquanto o mundo inteiro mudava e Portugal permanecia parado, uma ilha de atraso cercada de modernidade.
Saudades de um tempo em que o povo baixava a cabeça, de chapéu na mão, humilde até à humilhação, agradecendo o pouco que tinha como se fosse dádiva divina. Saudades de uma moral castradora que dizia sempre não: não podes, não deves, não fazes. Saudades da vida sem escolhas, porque escolher exige responsabilidade, e a ditadura poupava o esforço de pensar. Saudades de um país sem futuro, mas com a ilusão de estabilidade, com a calma podre da resignação.
E ainda assim, dizem que eram tempos melhores. Melhores para quem? Para os ricos que continuaram ricos, para os donos de tudo que ficaram donos de mais, para os amigos do regime que tinham privilégios e impunidade. Para os outros, para a maioria, só havia fome, ignorância, medo, morte, exílio. Só havia a resignação transformada em virtude nacional.
O que resta da ditadura é isto: uma saudade perversa, uma nostalgia da escravidão, uma preguiça de viver em liberdade. A liberdade é incómoda, exige escolha, exige pensamento, exige confronto, exige responsabilidade. A ditadura oferecia silêncio e nada mais. E é esse nada que alguns hoje confundem com ordem.
Saudades, sim, mas não de Salazar. Saudades de quem morreu cedo sem nunca saber o que era viver, de quem emigrou sem nunca voltar, de quem foi torturado sem nunca ter justiça, de quem ficou reduzido a pó sem nunca ter voz. Saudades do que podia ter sido e não foi, do que perdemos nesses cinquenta anos de escuridão. Saudades da vida que nos roubaram.
Porque o salazarismo não deixou nada senão isto: um país encolhido, atrasado, miserável, uma colecção de medos e silêncios. E querer voltar a isso é desejar o túmulo, não a vida.
E no fim, as saudades de Salazar não são saudades do passado. São medo do presente. São medo da liberdade. São preguiça de viver.
Outubro 2025
Nuno Morna
Fonte:
5 - Trouxe-nos um elevado índice de POBREZA (DOIS milhões de pobres, entre eles crianças a passarem fome, e a viverem em barracas junto com ratazanas e lixo); trouxe-nos pensões de miséria; trouxe-nos muitos sem-abrigo a viverem nas ruas das principais cidades portuguesas; trouxe-nos outras formas de miséria, entre elas, misérias morais, sociais, civilizacionais, culturais e educacionais, nunca antes vistas.

Uma imagem cinzenta da Revolução dos Cravos.
As crianças aguardam ainda que lhes dêem o prometido futuro no paraíso.
Penso que todos os que viveram o 25 de Abril de 1974, como eu vivi, deram saltos de alegria, a pensar numa nova liberdade – digo nova, porque, no meu caso, nunca deixei de ser livre, apesar de estar na mira da PIDE.
O que é que a Revolução dos Cravos me trouxe, a mim, cidadã livre-pensadora, contestatária, habituada a driblar a PIDE, escrevendo nas entrelinhas o que não podia escrever nas linhas?
Bastou uma carta, para me aperceber de que tinha de arranjar uma estratégia para contar o que se passava dentro dos muros de Coimbra, e que os órgãos de informação pré-25 de Abril, não podiam dizer abertamente.
Escrevi uma carta a meu Pai, que se encontrava no Brasil, a dar conta dos motivos que me “obrigaram” a fazer greve aos exames. Eu tinha chegado a Coimbra em Janeiro de 1968, para continuar os meus estudos universitários, iniciados no Brasil.
A carta nunca chegou ao seu destino, porque o meu Pai, escreveu-me a perguntar por que não tinha notícias minhas há tanto tempo. Eu escrevia-lhe semanalmente.
Nesse entretanto, recebi uma carta da PIDE, muito “amável”, a dizer que, como tinha vindo do Brasil (estava “catalogada” como aluna brasileira) talvez desconhecesse as leis portuguesas, por isso, escreveu o que escreveu, e que não podia dizer o que disse, em hipótese nenhuma, nem em cartas privadas para o Pai [vi logo que a minha carta tinha sido interceptada], e que desta vez estaria desculpada, mas se fosse apanhada novamente teria de sofrer as consequências, de acordo com as leis de Portugal.
Fiquei tão irritada, que rasguei a carta aos pedacinhos, muito pequeninos, com uma fúria incontida, e atirei os pedacinhos daquela carta para o caixote do lixo, onde (pensei) era o lugar de tal folha de papel.
Passada a fúria, arrependi-me. Como me arrependi!!! Como pude destruir uma carta da PIDE, um documento precioso, que testemunhava a opressão que existia naqueles tempos ditatoriais?
O que tínhamos antes de 25 de Abril de 1974?
1 - Tínhamos uma ditadura fascista de direita, e não podíamos votar livremente.
2 - Tínhamos o Tarrafal, para onde iam aqueles que ousavam PENSAR alto. A censura era o pão nosso de cada dia, através do famoso “lápis azul”.
3 - Tínhamos a já referida PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) responsável pela repressão de todas as formas de oposição ao regime político do Estado Novo.
4 - Tínhamos o ditador António Oliveira Salazar que, ao menos, sabia escrever correCtamente a Língua Portuguesa, algo que se estendia à população portuguesa alfabetizada.
5 - Tínhamos um elevado índice de analfabetismo.
6 - Tínhamos um elevado índice de pobreza.
7 - Tínhamos uns Joões Semanas que garantiam os cuidados de saúde, aos mais pobres.
8 – Tínhamos, na governação, poucos vigaristas, corruptos, ladrões e mentirosos.
9 – Tínhamos um Ensino que, apesar de servir o Regime, NÃO tratava as nossas crianças como idiotas.
10 – Tínhamos um País que estava na cauda da Europa, com salários baixos e uma classe trabalhadora bastante explorada.
11 - Tínhamos carência de ar para respirar.
***
Que mudanças trouxe o 25 de Abril para MIM?
1 - O direito e a liberdade de votar.
2 - A liberdade de tornar a escrever nas linhas o que fui obrigada a escrever nas entrelinhas, ou seja a liberdade de expressão. A outra liberdade, a minha liberdade de pensar, de ser e de estar passou incólume, pela ditadura.
3 - Não precisar de andar a correr pelas ruas, à frente de polícias anafados [para as “sensibilidades” modernas, infectadas com o vírus da Estupidez, quero dizer que anafados é igual a gordos, e nada têm a ver com grandes], os quais nunca conseguiam deter-me, durante as manifestações, porque era magrinha, levezinha e voava quando corria, e os polícias que corriam atrás de mim, perdiam o fôlego antes que eu sumisse ao virar de uma esquina. Tive a sorte de nunca ter sido perseguida por polícias que largtavam os cães, e tinha-se de subir às árvores.
***
Que mudanças trouxe o 25 de Abril aos Portugueses, estando nós no exacto dia 25 de Abril do ano de 2023?
1 – Por muito que não gostem que se diga, trouxe-nos uma ditadura fascista de esquerda, (aqui e ali eivada de atitudes nazistas), disfarçada de Democracia, onde uma censura camuflada existe em grande escala; onde a PIDE foi substituída por "inteligências artificiais" e big brothers mais modernos; onde Três Mosqueteiros absolutistas , a saber, Marcelo Rebelo de Sousa, Augusto Santos Silva e António Costa, desmandam, e mantém Portugal nas garras de estrangeiros.
2 - Trouxe-nos o direito de votar, isto é, o direito de escolher os nossos governantes, para que governem, NÃO conforme a vontade do Povo, conforme as regras democráticas, mas conforme a vontade deles e da dos grupos de pressão económica, mais conhecidos por lobbies.
3 - Trouxe-nos os já referidos Três Mosqueteiros a escreverem “incurrêtamente” a Língua Oficial de Portugal -- a Língua Portuguesa -- adoptando a mixórdia ortográfica introduzida em Portugal através de um acordo ortográfico criado no Brasil, para destruir a Língua de Portugal, e impondo-a ilegalmente nas escolas e na função pública, e, por extensão, a todos os que se prestaram a ser servilistas. E esta política, é uma política nazista.
4 - Trouxe-nos a continuidade de um elevado índice de analfabetismo, sendo o mais elevado da Europa.
5 - Trouxe-nos um elevado índice de POBREZA (DOIS milhões de pobres, entre eles crianças a passarem fome, e a viverem em barracas junto com ratazanas e lixo); trouxe-nos pensões de miséria; trouxe-nos muitos sem-abrigo a viverem nas ruas das principais cidades portuguesas; trouxe-nos outras formas de miséria, entre elas, misérias morais, sociais, civilizacionais, culturais e educacionais, nunca antes vistas.
6 - Trouxe-nos uma liberdade de expressão que, no entanto, não serve para nada, uma vez que gritada publicamente, a VOZ do POVO NÃO é ouvida, nem considerada, porque os governantes fazem-se de cegos, surdos e mudos aos constantes e inúmeros protestos e apelos de um Povo que se vê espoliado dos seus direitos, e só têm DEVERES.
7- Trouxe-nos uma Constituição da República Portuguesa que o actual presidente da República NÃO cumpre, nem defende, como prometeu fazer, na tomada de posse.
8 - Trouxe-nos o CAOS em todos os sectores públicos, nomeadamente na Educação, na Habitação, nos Serviços Públicos, numa Justiça lenta e cara, havendo uma justiça para pobres e outra para ricos.
9 - Trouxe-nos o CAOS num Serviço Nacional de Saúde, cada vez mais desgastado, sem Joões Semanas, para garantirem os cuidados de saúde ao mais pobres, morrendo-se sentados em cadeiras nas urgências.
10 - Trouxe-nos uma governação cheia de vigarices, corrupção, ladroagem e mentiras. Cheia de taxas, taxinhas e tachões, e uma política cada vez mais degradante, e com ela a degradação das instituições.
11- Trouxe-nos salários dos mais baixos e impostos dos mais elevados da Europa.
12 - Trouxe-nos um Ensino que trata as nossas crianças como idiotas, um Ensino pobre, degradante, onde se ensina os alunos a escreverem “incurrêtâmente” a sua Língua Materna, a que está em vigor, a grafia de 1945.
13 - Trouxe-nos um desinvestimento total na Saúde, na Habitação Social, na Cultura, na Educação, na Defesa do Ambiente e da Fauna e Flora portuguesas; trouxe-nos um desinvestimento total no bem-estar das pessoas, obrigando os nossos jovens a emigrarem em busca de salários condizentes com a sua formação académica, e enriquecerem os países para onde emigram, com a sua prole.
14 - Trouxe-nos um investimento nos imigrantes, nomeadamente brasileiros, que têm todos os privilégios, graças a um “Acordo de Amizade”, realizado num secretismo, a abeirar os de uma seita; porém, nem todos os imigrantes, que o Chefe de Estado português aconselha a vir para Portugal, têm mordomias: vivem nas ruas, mal instalados, mal pagos e, muitas vezes, em situação de escravatura.
Enfim, passados 49 anos sobre aquela madrugada de Abril, o nosso País, por falta de políticas sérias, continua na cauda da Europa, e embora não gostem que se diga, temos o PIOR governo e o PIOR presidente da República desde Dom Afonso Henriques.
Por que avalio deste modo a “governação” portuguesa actual? Porque passados tantos anos, ainda não se conseguiu atingir um nível razoável de bem-estar, em Portugal, apesar de haver condições para tal. E porquê? por causa da corrupção, das vigarices, da ladroagem, das mentiras com que atacam e insultam a dignidade dos Portugueses.
Não vislumbro uma luz ao fundo do túnel, que possa devolver ao MEU País os sonhos que aquela madrugada do dia 25 de Abril de 1974 nos fez sonhar: uma Democracia Plena. O que temos é uma maioria absolutista, que quer, pode e manda, e NÃO ouve o Povo.
Continuo à espera, e penso que muitos dos meus concidadãos também, de governantes que olhem, com olhos de VER, para Portugal e para os Portugueses, e lhes dêem o que eles rogam, para poderem viver com a mínima dignidade, e que deixem de andar a BAJULAR os que nos querem tramar. E só os cegos mentais é que não vêem isto.
Hoje, parece-me que temos pouco para celebrar, mas MUITO para lamentar, porque o espírito do "25 de Abrl" foi desvirtuado.
Isabel A. Ferreira
Tudo o que se lê no texto, que mais abaixo é reproduzido, é uma verdade que ainda hoje podemos encontrar em determinados "esconderijos" de Portugal, de que ninguém tem ordem para esmiuçar.
Um novo fascismo espreita. Uma nova ditadura impõe-se sorrateiramente. Quem acha que vive numa democracia engana-se. Estão adormecidos. Acordem, porque ditaduras de esquerda e de direita vão dar ao mesmo.
Não se iludam.
Em Democracia, o POVO é quem mais ordena. E no actual regime quem ordena são uns pequenos ditadores com pretensão de chegar a grandes. E o povinho vai dormindo, enquanto a caravana da nova ditadura vai passando, cantando e rindo, levada, levada sim, pela letargia de um povo que ressona de olhos abertos, olhos que apenas olham e nada vêem...
Isabel A. Ferreira

«Tão felizes que nós éramos
Por Clara Ferreira Alves, num texto publicado no Expresso, em 18/03/2017
Anda por aí gente com saudades da velha Portugalidade. Saudades do nacionalismo, da fronteira, da ditadura, da guerra, da PIDE, de Caxias e do Tarrafal, das cheias do Tejo e do Douro, da tuberculose infantil, das mulheres mortas no parto, dos soldados com madrinhas de guerra, da guerra com padrinhos políticos, dos caramelos espanhóis, do telefone e da televisão como privilégio, do serviço militar obrigatório, do queres fiado toma, dos denunciantes e informadores e, claro, dessa relíquia estimada que é um aparelho de segurança.
Eu não ponho flores neste cemitério.
Nesse Portugal toda a gente era pobre com excepção de uma ínfima parte da população, os ricos. No meio havia meia dúzia de burgueses esclarecidos, exilados ou educados no estrangeiro, alguns com apelidos que os protegiam, e havia uma classe indistinta constituída por remediados.
Uma pequena burguesia sem poder aquisitivo nem filiação ideológica a rasar o que hoje chamamos linha de pobreza. Neste filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia observar-se o mundo português continental a partir de uma rua.
O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós. Numa rua de cidade havia uma mercearia e uma taberna. Às vezes, uma carvoaria ou uma capelista. A mercearia vendia açúcar e farinha fiados. E o bacalhau. Os clientes pagavam os géneros a prestações e quando recebiam o ordenado. Bifes, peixe fino e fruta eram um luxo.
A fruta vinha da província, onde camponeses de pouca terra praticavam uma agricultura de subsistência e matavam um porco uma vez por ano. Batatas, pêras, maçãs, figos na estação, uvas na vindima, ameixas e de vez em quando uns preciosos pêssegos.
As frutas tropicais só existiam nas mercearias de luxo da Baixa. O ananás vinha dos Açores no Natal e era partido em fatias fininhas • para render e encharcado em açúcar e vinho do Porto para render mais.
Como não havia educação alimentar e a maioria do povo era analfabeta ou semianalfabeta, comia-se açúcar por tudo e por nada e, nas aldeias, para sossegar as crianças que choravam, dava-se uma chucha embebida em açúcar e vinho. A criança crescia com uma bola de trapos por brinquedo, e com dentes cariados e meia anã por falta de proteínas e de vitaminas. Tinha grande probabilidade de morrer na infância, de uma doença sem vacina ou de um acidente por ignorância e falta de vigilância, como beber lixívia. As mães contavam os filhos vivos e os mortos era normal. Tive dez e morreram-me cinco.
A altura média do homem lusitano andava pelo metro e sessenta nos dias bons. Havia raquitismo e poliomielite e o povo morria cedo e sem assistência médica. Na aldeia, um João Semana fazia o favor de ver os doentes pobres sem cobrar, por bom coração.
Amortalhado a negro, o povo era bruto e brutal. Os homens embebedavam-se com facilidade e batiam nas mulheres, as mulheres não tinham direitos e vingavam-se com crimes que apareciam nos jornais com o título ‘Mulher Mata Marido com Veneno de Ratos’.
A violação era comum, dentro e fora do casamento, o patrão tinha direito de pernada, e no campo, tão idealizado, pais e tios ou irmãos mais velhos violavam as filhas, sobrinhas e irmãs. Era assim como um direito constitucional. Havia filhos bastardos com pais anónimos e mães abandonadas que se convertiam em putas.
As filhas excedentárias eram mandadas servir nas cidades. Os filhos estudiosos eram mandados para o seminário. Este sistema de escravatura implicava o apartheid.
Os criados nunca dirigiam a palavra aos senhores e viviam pelas traseiras.
O trabalho infantil era quase obrigatório porque não havia escolaridade obrigatória. As mulheres não frequentavam a universidade e eram entregues pelos pais aos novos proprietários, os maridos.
Não podiam ter passaporte nem sair do país sem autorização do homem. A grande viagem do mancebo era para África, nos paquetes da guerra colonial. Aí combatiam por um império desconhecido.
A grande viagem da família remediada ao estrangeiro era a Badajoz, a comprar caramelos e castanholas. A fronteira demorava horas a ser cruzada, era preciso desdobrar um milhão de autorizações, era-se maltratado pelos guardas e o suborno era prática comum.
De vez em quando, um grande carro passava, de um potentado veloz que não parecia sujeitar se à burocracia do regime que instituíra uma teoria da excepção para os seus acólitos. O suborno e a cunha dominavam o mercado laboral, onde não vigorava a concorrência e onde o corporativismo e o capitalismo rentista imperavam. Salazar dispensava favores a quem o servia.
Não havia liberdade de expressão e o lápis da censura aplicava-se a riscar escritores, jornalistas, artistas e afins. Os devaneios políticos eram punidos com perseguição e prisão. Havia presos políticos, exilados e clandestinos. O serviço militar era obrigatório para todos os rapazes e se saíssem de Portugal depois dos quinze anos aqui teriam de voltar para apanhar o barco da soldadesca.
A fé era a única coisa que o povo tinha e se lhe tirassem a religião tinha nada. Deus era a esperança numa vida melhor. Depois da morte, evidentemente.»
Fonte:
Os governantes pós-25 de Abril mataram a Revolução dos Cravos. Os sucessivos governos, desde então, sufocaram-na com as cordas da corrupção, das vigarices, da roubalheira, do desgoverno, das falsidades, do desleixo, de condutas terceiro-mundistas, de imposições ditatoriais.
E os cravos de Abril murcharam.
Portugal desconstruiu-se e, hoje, vive num caos (ainda mais acentuado com a invasão vírica), pendurado no abismo, por um fio de teia de aranha. É a chacota do mundo, que lhe finge amizade, por mero interesse, algo que a cegueira mental não permite vislumbrar.
É urgente uma mudança.
É urgente uma nova Revolução, desta vez, a sério. Sem cravos, sem armas, sem ilusões vãs.
É urgente uma Revolução inteligente, que devolva a Portugal a Dignidade e a Identidade perdidas.
Já não somos Portugal.

Em 25 de Abril de 1974, um grupo de ousados Capitães, que já estão na História como os Capitães de Abril, abriram uma porta para um futuro que se esperava promissor, sem correntes, sem pides, sem o regime opressivo do Estado Novo, sem mentiras, sem qualquer vestígio do passado, sem censura. Os Capitães de Abril abriram uma porta para as tão ansiadas Democracia e Liberdade.
Mas o Poder é uma célula cancerígena corrosiva, que ataca quem ambiciona o Poder apenas pelo Poder. E depressa a ilusão da Democracia e da Liberdade foi abafada pela ganância e pela incompetência dos que iam jurando, por uma honra que neles não habitava, cumprir a missão que lhes era confiada.
E Portugal, que se abriu para o futuro, em Abril de 1974, tem vindo a regredir a olhos vistos, e Abril ainda não se cumpriu.
O Povo que, por essa altura, estava unido e pensava que jamais seria vencido, foi sub-repticiamente sendo enganado e alienado pelas manobras de diversão que, entretanto, os governantes foram promovendo, com a ajuda de uma comunicação social servilista, até à alienação total.
Foi-se desenvolvendo a política do pão e circo, uma política que nasceu no Império Romano, e que consistia no modo como os imperadores romanos lidavam com o Povo, para mantê-lo subjugado à ordem estabelecida e conquistar o seu apoio. A designação panem et circenses, no original em Latim, tem origem na Sátira X de Juvenal, humorista e poeta romano que, no seu contexto original, criticava a falta de informação do povo romano, que não tinha qualquer interesse pelos assuntos políticos, e só se preocupava com o pão para a boca (hoje, dinheiro no bolso) e com o divertimento.
Os tempos são outros, mas a política romana mantém-se, e o Povo só sai às ruas por motivos ligados ao vil metal. Os bolsos mais ou menos cheios e o futebol, as novelas, os reality shows de má catadura, mantêm o Povo amansado, alienado, distante do que é essencial, cego aos jogos políticos que se jogam em São Bento, e nos vão afastando da evolução.
E com esta política, acolitada pelo mais poderoso veículo de comunicação social, a televisão, instalou-se de tal modo no País, que o Povo acabou por ser vencido, sem se dar conta, por um Poder fantasiado de uma “democracia”, que esconde uma prepotência pior do que a de Oliveira Salazar, porque esse, ao menos, fazia as coisas às claras, e sabíamos com que contar.
Sim, podemos dizer que muitas coisas mudaram, depois de 25 de Abril de 1974.
Por exemplo, podemos votar livremente e escolher quem queremos que nos desgoverne.
Porém, de que serve o voto livre, se a maioria dos votantes não faz a mínima ideia do que faz, porque não é esclarecida? O padre da freguesia diz na missa: votem naqueles, e eles votam naqueles, sem saberem que aqueles vão para o Governo gerir os interesses dos lobbies e não os interesses do Povo, os interesses do País. Por isso, Portugal é, hoje, o paraíso de povos de várias nacionalidades, que aqui se abancam, podem e mandam e têm mais privilégios do que os Portugueses, e os portuguesinhos aceitam isto passivamente, servilmente, humildemente, parvamente, achando que o que é estrangeiro é que é bom, é que é moderno, é que é bué fixe.
Para complicar ainda mais as coisas, o Zé Povinho é adepto dos partidos políticos, como se os partidos políticos fossem o clube de futebol dele, portanto, vota nas cores dos partidos da sua predilecção, ainda que os candidatos possam ser incompetentes, corruptos, mentirosos e vigaristas. Mas esta parte não interessa ao Povo.
E isto não tem nada a ver com Democracia, mas com cegueira mental, ignorância, alienação, seguidismo.
As Democracias só funcionam plenamente quando o Povo é maioritariamente esclarecido, informado, instruído, pensante, dotado de espírito crítico. E não estou a referir-me aos canudos, porque os canudos só dão conhecimento específico em determinadas matérias. Um analfabeto pode ser muito mais esclarecido e informado e educado e pensante e dotado de espírito crítico do que muitos doutores, que por aí andam de gravata ao peito, sendo a gravata a sua única medalha de mérito.
Em Democracia, os governantes são meros serviçais do Povo, que lhes paga o salário chorudo que ganham, para (des)governarem o País.
Em Democracia, os governantes, sendo nossos serviçais, têm o dever de responder às questões que o Povo lhes coloca, por escrito ou oralmente. Ora acontece que os governantes remetem-se ao silêncio, desprezando os apelos do Povo. Ignorando o Povo. E este desprezo não faz parte da Democracia que, se for verdadeira, o Povo é que é o detentor do Poder.
Daí a pergunta: o 25 de Abril entregou-nos uma Democracia a sério?
Os cravos de Abril murcharam, e Portugal não avançou para o futuro. Está prisioneiro de políticas retrógradas e de políticos (salvo raras excepções) incompetentes, corruptos, vigaristas, sem honra e sem brio, numa vergonhosa subserviência aos estrangeiros.
O Portugal hodierno limita-se a Lisboa, Porto, (e vá lá) Coimbra e ao Algarve, onde quem manda são os estrangeiros. O resto é território terceiro-mundista, nomeadamente o interior do País, onde ainda se vive sem água encanada, sem electricidade, onde ainda se passa fome, na maior miséria. Ao abandono total.
Eis o que temos para celebrar na passagem dos 46 anos (já dos 45 foi mais do mesmo) do 25 de Abril (que os servilistas grafam “25 de abril”):
- Um país, onde ainda se continua a viver em pobreza extrema, com crianças e idosos a passarem fome.
- Um país, que continua a ter a maior taxa de analfabetismo da Europa.
- Um país dos que menos gasta na Saúde, com um Serviço Nacional de Saúde caótico, onde falta quase tudo, e o aumento da Tuberculose diz do subdesenvolvimento, do retrocesso e da miséria que ainda persistem por aí.
- Um país que empurra para o estrangeiro os seus jovens mais habilitados: enfermeiros, médicos, engenheiros, investigadores, artistas.
- Um país com o terceiro pior crescimento económico da Europa.
- Um país com a 3ª maior dívida pública da União Europeia.
- Um país cheio de desigualdades sociais, onde os ricos são cada vez mais ricos, e os pobres, cada vez mais pobres.
- Um país cheio de banqueiros e outros que tais ladrões.
- Um país cheio de berardos a jogar ao gato e ao rato com o dinheiro do Povo.
- Um país onde a Justiça ainda é extremamente cara, desigual, lenta e injusta.
- Um país que promove a violência contra animais não-humanos, o que por sua vez gera a violência contra os seres humanos.
- Um país com um elevado índice de violência doméstica.
- Um país com um elevadíssimo número de crianças e jovens em risco.
- Um país que atira crianças para arenas de tortura de animais, e permite que sejam iniciadas em práticas violentas e cruéis, roubando-lhes um desenvolvimento normal e saudável, o que constitui um crime de lesa-infância.
- Um país cheio de grupos e grupelhos de trabalho, de secretários, de secretários de secretários, de assessores, de secretários de assessores, de comissões, de subcomissões, que não servem absolutamente para nada, a não ser para ganharem salários descondizentes com os serviços que (não) prestam; e com ex-presidentes da República com gabinetes e mordomias.
- Um país que descura a sua Flora e a sua Fauna, mantendo uma e outra ao abandono e à mercê de criminosos impuníveis.
- Um país que mantém as Forças de Segurança instaladas em edifícios a caírem de podres, e com falta de quase tudo.
- Um país onde ainda existem Escolas com instalações terceiro-mundistas, sem as mínimas condições para serem consideradas um lugar de aprendizagem; e com tribunais, como o de Monsanto, que parece um galinheiro ao abandono.
- Um país onde as prisões são lugares de diversão, com direito a vídeos publicáveis no Facebook.
- Um país cheio de leis e leizinhas retrógradas, que não servem para nada, a não ser para servir lobbies dos mais hediondos, e proteger criminosos impuníveis.
- Um país que não promove a Cultura Culta, e para o qual apenas a cultura inculta conta, e é assegurada, contra tudo e contra todos.
- Um país, cujo Sistema de Ensino é dos mais caóticos, desde a implantação da República, com a agravante de se estar a enganar as crianças com a obrigatoriedade da aprendizagem de uma ortografia que não é a portuguesa, a da Língua Materna delas, estando-se a incorrer num crime de lesa-infância.
- Um país, que tinha uma Língua Culta e Europeia, e hoje tem um arremedo de língua, uma inconcebível mixórdia ortográfica, imposta ditatorialmente por políticos pouco ou nada esclarecidos e servilistas, que estão a fabricar, conscientemente, os futuros analfabetos funcionais, e a promover a iliteracia. E já sou poucos os que escrevem correctamente a sua Língua Materna.
- Um país onde, parvamente, se começou a dizer “olá a todos e a todas, amigos e amigas, portugueses e portuguesas”.
- Um país, com um presidente beijoqueiro e viciado em selfies, e um primeiro-ministro que não tem capacidade para ver o visível, muito menos o invisível, que qualquer cego, de nascença, vê à primeira vista.
- Um país, que em 2018/2019 foi marcado por uma constante contestação social, com o número mais elevado de sempre de greves em todos os sectores da sociedade portuguesa, número que continuaria a aumentar no corrente ano não fosse a invasão invisível do coronavírus.
- Enfim, um País que perdeu o rumo, e faz de conta que é um país. E amanhã, contra tudo e contra todos, e violando o Estado de Emergência em que Portugal está mergulhado, os governantes irão dar um mau exemplo ao País, com a ilusão de que estarão a celebrar o 25 de Abril, que ainda não se cumpriu inteiramente.
Enquanto tudo isto (e muito mais, que agora não me ocorre) não sair da lista do que não se quer para um País de Primeiro Mundo, evoluído e civilizado, o que há para comemorar neste 25 de Abril?
Há o facto de eu poder escrever este texto, sem ir parar ao Campo de Concentração do Tarrafal, o campo da morte lenta, para onde os médicos iam assinar certidões de óbito e não curar, criado pelo Estado Novo, na ilha de Santiago, Cabo Verde, num lugar ironicamente chamado de Chão Bom, de muito má memória.
Isabel A. Ferreira
***
Para complementar este texto, leia-se este outro, da autoria de Manuel Damas, publicado no Facebook, em 24 de Abril do ano passado, mas que poderia ter sido escrito hoje, e faço minhas todas as palavras que Manuel Damas escreveu.
45 anos depois...
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2332540223434593&set=a.133659383322699&type=3&theater
Os governantes pós-25 de Abril mataram a Revolução dos Cravos. Os sucessivos governos, desde então, sufocaram-na com as cordas da corrupção, das vigarices, da roubalheira, do desgoverno, das falsidades, do desleixo, de condutas terceiro-mundistas, de imposições ditatoriais.
E os cravos de Abril murcharam.
Portugal desconstruiu-se e hoje vive num caos, pendurado no abismo, por um fio de teia de aranha. É a chacota do mundo, que lhe finge amizade, por mero interesse, algo que a cegueira mental não permite vislumbrar.
É urgente uma mudança.
É urgente uma nova Revolução, desta vez, a sério. Sem cravos, sem armas, sem ilusões vãs.
É urgente uma Revolução inteligente, que devolva a Portugal a Dignidade e a Identidade perdidas.
Já não somos Portugal.

Em 25 de Abril de 1974, um grupo de ousados Capitães, que já estão na História como os Capitães de Abril, abriram uma porta para um futuro que se esperava promissor, sem correntes, sem pides, sem o regime opressivo do Estado Novo, sem mentiras, sem qualquer vestígio do passado. Os Capitães de Abril abriram uma porta para as tão ansiadas Democracia e Liberdade.
Mas o Poder é uma célula cancerígena corrosiva, que ataca quem ambiciona o Poder apenas pelo Poder. E depressa a ilusão da Democracia e da Liberdade foi abafada pela ganância e pela incompetência dos que iam jurando, por uma honra que neles não habitava, cumprir a missão que lhes era confiada.
E Portugal, que se abriu para o futuro, em Abril de 1974, tem vindo a regredir a olhos vistos, e Abril ainda não se cumpriu.
O Povo que, por essa altura, estava unido e pensava que jamais seria vencido, foi sub-repticiamente sendo enganado e alienado pelas manobras de diversão que, entretanto, os governantes foram promovendo, com a ajuda de uma comunicação social servilista, até à alienação total.
Foi-se desenvolvendo a política do pão e circo, uma política que nasceu no Império Romano, e que consistia no modo como os imperadores romanos lidavam com o Povo, para mantê-lo subjugado à ordem estabelecida e conquistar o seu apoio. A designação panem et circenses, no original em Latim, tem origem na Sátira X de Juvenal, humorista e poeta romano que, no seu contexto original, criticava a falta de informação do povo romano, que não tinha qualquer interesse pelos assuntos políticos, e só se preocupava com o pão para a boca (hoje, dinheiro no bolso) e com o divertimento.
Os tempos são outros, mas a política romana mantém-se, e o Povo só sai às ruas por motivos ligados ao vil metal. Os bolsos mais ou menos cheios e o futebol, as novelas, os reality shows de má catadura, mantêm o Povo amansado, alienado, distante do que é essencial, cego aos jogos políticos que se jogam em São Bento, e nos vão afastando da evolução.
E com esta política, acolitada pelo mais poderoso veículo de comunicação social, a televisão, instalou-se de tal modo no País, que o Povo acabou por ser vencido, sem se dar conta, por um Poder fantasiado de uma “democracia”, que esconde uma prepotência pior do que a de Oliveira Salazar, porque esse, ao menos, fazia as coisas às claras, e sabíamos com que contar.
Sim, podemos dizer que muitas coisas mudaram, depois de 25 de Abril de 1974.
Por exemplo, podemos votar livremente e escolher quem queremos que nos desgoverne.
Porém, de que serve o voto livre, se a maioria dos votantes não faz a mínima ideia do que faz, porque não é esclarecida? O padre da freguesia diz na missa: votem naqueles, e eles votam naqueles, sem saberem que aqueles vão para o Governo gerir os interesses dos lobbies e não os interesses do Povo, os interesses do País. Por isso, Portugal é, hoje, o paraíso de povos de várias nacionalidades, que aqui se abancam, podem e mandam e têm mais privilégios do que os Portugueses, e os portuguesinhos aceitam isto passivamente, servilmente, humildemente, parvamente, achando que o que é estrangeiro é que é bom, é que é moderno, é que é bué fixe.
Para complicar ainda mais as coisas, o Zé Povinho é adepto dos partidos políticos, como se os partidos políticos fossem o clube de futebol dele, portanto, vota nas cores dos partidos da sua predilecção, ainda que os candidatos possam ser incompetentes, corruptos, mentirosos e vigaristas. Esta parte não interessa ao Povo.
E isto não tem nada a ver com Democracia, mas com cegueira mental, ignorância, alienação, seguidismo.
As Democracias só funcionam plenamente quando o Povo é maioritariamente esclarecido, informado, instruído, pensante, dotado de espírito crítico. E não estou a referir-me aos canudos, porque os canudos só dão conhecimento específico em determinadas matérias. Um analfabeto pode ser muito mais esclarecido e informado e instruído e pensante e dotado de espírito crítico do que muitos doutores, que por aí andam de gravata ao peito, sendo a gravata a sua única medalha de mérito.
Em Democracia, os governantes são meros serviçais do Povo, que lhes paga o salário chorudo que ganham, para (des)governarem o País.
Em Democracia, os governantes, sendo nossos serviçais, têm o dever de responder às questões que o Povo lhes coloca, por escrito ou oralmente. Ora acontece que os governantes remetem-se ao silêncio, desprezando os apelos do Povo. Ignorando o Povo. E este desprezo não faz parte da Democracia que, se for verdadeira, o Povo é que é o detentor do Poder.
Daí a pergunta: o 25 de Abril entregou-nos uma Democracia a sério?
Os cravos de Abril murcharam, e Portugal não avançou para o futuro. Está prisioneiro de políticas retrógradas e de políticos incompetentes, corruptos, vigaristas, sem honra e sem brio, numa vergonhosa subserviência aos estrangeiros.
O Portugal hodierno limita-se a Lisboa, Porto, (e vá lá) Coimbra e ao Algarve, onde quem manda são os estrangeiros. O resto é território terceiro-mundista, nomeadamente o interior do País, onde ainda se vive sem água encanada, sem electricidade, onde ainda se passa fome, na maior miséria. Ao abandono total.
Eis o que temos para celebrar na passagem dos 45 anos do 25 de Abril (que os servilistas grafam “25 de abril”):
- Um país, onde ainda se continua a viver em pobreza extrema, com crianças e idosos a passarem fome.
- Um país, que continua a ter a maior taxa de analfabetismo da Europa.
- Um país dos que menos gasta na Saúde, com um Serviço Nacional de Saúde caótico, onde falta quase tudo, e o aumento da Tuberculose diz do subdesenvolvimento, do retrocesso e da miséria que ainda persistem por aí.
- Um país que empurra para o estrangeiro os seus jovens mais habilitados: enfermeiros, médicos, engenheiros, investigadores, artistas.
- Um país com o terceiro pior crescimento económico da Europa.
- Um país com a 3ª maior dívida pública da União Europeia.
- Um país cheio de desigualdades sociais, onde os ricos são cada vez mais ricos, e os pobres, cada vez mais pobres.
- Um país cheio de banqueiros e outros que tais ladrões.
- Um país cheio de berardos a jogar ao gato e ao rato com o dinheiro do Povo.
- Um país onde a Justiça ainda é extremamente cara, desigual, lenta e injusta.
- Um país que promove a violência contra animais não-humanos, o que por sua vez gera a violência contra os seres humanos.
- Um país com um elevado índice de violência doméstica.
- Um país com um elevadíssimo número de crianças e jovens em risco.
- Um país que atira crianças para arenas de tortura de animais, e permite que sejam iniciadas em práticas violentas e cruéis, roubando-lhes um desenvolvimento normal e saudável, o que constitui um crime de lesa-infância.
- Um país cheio de grupos e grupelhos de trabalho, de secretários, de secretários de secretários, de assessores, de secretários de assessores, de comissões, de subcomissões, que não servem absolutamente para nada, a não ser para ganharem salários descondizentes com os serviços que (não) prestam.
- Um país que descura a sua Flora e a sua Fauna, mantendo uma e outra ao abandono e à mercê de criminosos impuníveis.
- Um país que mantém as Forças de Segurança instaladas em edifícios a cairem de podres, e com falta de quase tudo.
- Um país onde ainda existem Escolas com instalações terceiro-mundistas, sem as mínimas condições para serem consideradas um lugar de aprendizagem.
- Um país onde as prisões são lugares de diversão, com direito a vídeos publicáveis no Facebook.
- Um país cheio de leis e leizinhas retrógradas, que não servem para nada, a não ser para servir lobbies dos mais hediondos, e proteger criminosos impuníveis.
- Um país que não promove a Cultura Culta, e para o qual apenas a cultura inculta conta, e é assegurada, contra tudo e contra todos.
- Um país, cujo Sistema de Ensino é dos mais caóticos, desde a implantação da República, com a agravante de estar a enganar-se as crianças com a obrigatoriedade da aprendizagem de uma ortografia que não é a portuguesa, a da Língua Materna delas, estando-se a incorrer num crime de lesa-infância.
- Um país, que tinha uma Língua Culta e Europeia, e hoje tem um arremedo de língua, uma inconcebível mixórdia ortográfica, imposta ditatorialmente por políticos ignorantes e servilistas, que estão a fabricar, conscientemente, os futuros analfabetos funcionais, e a promover a iliteracia. E já sou poucos os que escrevem correctamente.
- Um país onde, parvamente, se começou a dizer “olá a todos e a todas”.
- Um país, com um presidente beijoqueiro e viciado em selfies, e um primeiro-ministro que não tem capacidade para ver o visível, muito menos o invisível, que qualquer cego, de nascença, vê à primeira vista.
- Um país, que em 2018 foi marcado por uma constante contestação social, com o número mais elevado de sempre de greves em todos os sectores da sociedade portuguesa, número que continua a aumentar no corrente ano.
- Enfim, um País que perdeu o rumo, e faz de conta que é um país.
Enquanto tudo isto (e muito mais, que agora não me ocorre) não sair da lista do que não se quer para um País de Primeiro Mundo, evoluído e civilizado, o que há para comemorar neste 25 de Abril?
Há o facto de eu poder escrever este texto, sem ir parar ao Campo de Concentração do Tarrafal, o campo da morte lenta, para onde os médicos iam assinar certidões de óbito e não curar, criado pelo Estado Novo, na ilha de Santiago, Cabo Verde, num lugar ironicamente chamado de Chão Bom, de muito má memória.
Isabel A. Ferreira
***
Para complementar este texto, leia-se este outro, da autoria de Manuel Damas, publicado no Facebook:
45 anos depois...
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