Segunda-feira, 26 de Novembro de 2018

«DE QUE ESTAMOS À ESPERA PARA VOTAR DE VEZ AO ESQUECIMENTO POETAS/POLÍTICOS FALHADOS?»

 

Um excelente texto de Maria Do Carmo Tinoco publicado no Facebook

 

CIRCO.jpg

 

«Nero também achava poético ver os cristãos serem devorados e deleitava-se com os que serviam de archote para os jogos na arena.

 

Tomás de Torquemada também, deveria achar bastante poéticas as fogueiras dos autos de fé e os “artísticos” método usados para extrair as confissões nos calabouços da Inquisição.

 

Estas práticas tradicionais eram tão apelativas que nos autos de fé e demais execuções as pessoas deleitavam-se de tal forma com o sofrimento dos executados, que marcavam lugar para assistirem, com boa visibilidade, ao “espectáculo”.

 

Também foi tradição “exportar” pessoas. Eram literalmente agarradas nas suas terras de origem, agrilhoadas e despachadas para onde fosse necessário.

 

Também foi tradição vendê-las em mercados e feiras.

 

Dirão que estamos a falar de pessoas, mas lembrem-se que nesta época estas pessoas eram tratadas como animais.

 

Se estas práticas ancestrais cederam ao avanço da humanidade, por envergonharem quem as praticou, nomeadamente Portugal, no que à escravatura diz respeito em cujos primeiros passos para abolição fomos pioneiros, hoje em dia, estranhamente, deixamos esta nossa característica de pioneiros em questões de humanidade, desenvolvidas durante o Iluminismo, que dominou a Europa do século XVII até aos nossos dias, ficar relegado para um plano que apenas nos embaça o brilho.

 

Iluminismo, intelectualidade, filosofia, luz, humanidade. Foram grandes dias esses se comparados com o obscurantismo, a violência, o prazer com o sofrimento de seres que são nossos parceiros na jornada, que não foram nascidos para servirem prazeres doentios nem serem instrumentos “da banalidade do mal” que ainda entorpece quem paga para assistir a este flagelo que assola 8 países do Planeta.

 

O ser humano é o único ser que banaliza o mal, que é capaz de o praticar só porque pode e porque a quem o faz e a quem assiste lhes dá prazer. Alguns morrem neste processo hediondo e os demais chamam-lhes depois heróis. Sabe-se lá sob que dúbia perspectiva é que se vê ali heroísmo. Vê-se dor também, para satisfação dos sádicos das bancadas, que se levantam em urros e brados enquanto um animal fica na arena a escorrer sangue e cheio de dores e outro sai em braços não nas melhores condições a sangrar por dentro para vir depois a morrer vitima de uma suposta coragem embrutecida e nada lúcida que o levou a tentar enfrentar um animal ferido, acossado, dolorido.

 

Que profunda estupidez e crueldade em tudo isto, que boçalidade. Que inutilidade de vidas desfeitas de forma bárbara numa arena que teve cabimento há 2 mil anos, mas que hoje já não deveria ter.

 

De que estamos à espera para terminar de vez com esta degradante prática? De que estamos à espera para evoluir? De que estamos à espera para honrar ancestrais que foram mais humanos do que nós? E de que estamos à espera para inverter esta involução que nos agrilhoa e nos torna escravos da boçalidade, da maldade? De que estamos à espera para votar de vez ao esquecimento, poetas/políticos falhados, que nunca conseguiram alcançar a notoriedade com que sonhavam pela sua arte, quer oratória quer escrita?

 

 Maria Do Carmo Tinoco

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:42

link do post | Comentar | Ver comentários (2) | Adicionar aos favoritos
Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2012

A MORTE DO TOURO

 

 

A propósito do funeral da tauromaquia a celebrar nos finais de 2013.

 

Um extraordinário texto do grande Ferreira de Castro, que diz absolutamente tudo o que há para dizer sobre a psicopatia das touradas. E nem sequer falta a expressão “necrofilia”.

 

OBRIGATÓRIO LER

 

Texto de Ferreira de Castro

 

[Portugal; "A BATALHA" nº193]  

A propósito da legalização dos touros de morte em Portugal*

 

Eu amo a galhardia mas odeio a barbaridade. Eu amo os gestos audaciosos, arrojados, mas detesto-os profundamente sempre que eles se traduzem em crueldade. E por isso eu desprezo os heróis, aqueles sobre cuja bravura se tece uma sinistra auréola de sangue.

 

E por isso eu me tinha negado desde o início a dar a minha presença àquele número das festas com que Sevilha recebeu os jornalistas portugueses - e que era uma tourada. Da capital da Andaluzia os jardins maravilhosos, prenhes de perfumes intensos, de lagos adormecidos, de rosas, de gerânios e de cravos, desabrochando em orgias de cor, interessavam mais à minha alma do que o espectáculo bárbaro do homem a defrontar-se com o touro, naquela tarde quente, mórbida e sensual de Junho.

 

Meus companheiros, porém, insistiam, argumentavam - faziam agigantar a meus olhos a tradicional beleza pagã que reside nas touradas. Por último o notável escritor sevilhano Muñoz San Roman, embora inimigo do espectáculo bárbaro, aconselhava-me a que assistisse a ele, para assim fazer uma ideia mais concreta sobre touro e homem, para assim melhor poder combater o homem e defender o touro...

 

Muñoz San Roman é uma sensibilidade delicadíssima e suas palavras decidiram-me. A praça, larga, ampla, enorme, estava cheia duma multidão heterogénea, cujos olhos, descendentes dos de Nero, se fixavam impacientes sobre a arena ainda vazia.

 

Um sol inclemente, impiedoso adusto, derramava sobre as arquibancadas da direita a sua cornucópia de luz, e milhares de mãos agitando os clássicos abanicos davam a sensação de asas encarceradas, debatendo-se nervosamente por detrás das grades duma gaiola incomensurável.

 

Próximo de mim, nos camarotes engalanados, grupos de mulheres formosas, perturbantes, palestravam com amenidade, espraiavam seus olhos negros, profundos e misteriosos desde a trincheira até às últimas arquibancadas e irradiavam em seu redor ondas quentes de sensualidade.

 

Toda aquela multidão fremia ocultamente e sobre a praça pairava uma densa expectativa, uma comoção e uma curiosidade ilimitadas. E, pouco a pouco estabelecia-se um silêncio colectivo; aqueles milhares de lábios cerravam-se numa espera voluptuosa, trágica, de tigre aguardando a presa, de fiéis aguardando o ídolo.

 

Ia reaparecer Juan Belmonte - o soberano, o deus, um dos primeiros actores de toda a Espanha daquele espectáculo primitivo. E por isso aquela comoção, aquela curiosidade, aquele silêncio - só perturbado por alguns miseráveis apregoando água fresca por entre as arquibancadas.

 

Por fim Belmonte surgiu... É uma figura pequena, sem imponência, sem trajes sumptuosos a assinalá-lo sobre o cavalo branco em que monta. Mas a multidão já delira, um frémito de alegria intensa já percorre a multidão. Eu quedo-me a contemplar o touro negro, altivo, desdenhoso, que agora entra na arena.

 

Seu primeiro gesto é correr para o toureiro célere, mas logo se detém, certo da sua força, certo que inutilizará o inimigo numa luta leal. Há desdém, há piedade do homem forte para o homem fraco que afronta, naquele touro negro que está parado no centro da praça a olhar Belmonte e o seu cavalo branco.

 

Mas instigam-no. As capas amarelas e vermelhas surgem na sua frente como estandartes provocadores. E o touro avança então. E a luta estabelece-se. Nada de grandioso, de extra-humano; nada de homem lutando com um tigre, vencendo-o; nada de leão subjugado pelas melenas, sob o poderio de umas mãos hercúleas.

 

É uma luta de ciladas, de traições, órfã de beleza, viúva de assombro. Eu não sinto mas compreendo a beleza brutal daqueles que lutaram com as feras nos circos romanos, - o que eu não compreendo nem sinto é a proclamada beleza da tourada, com um homem magro, candidato a um sanatório da Suíça, esgueirando-se ao lado do touro sobre um cavalo lesto, fazendo da fuga inteligente a principal arma de defesa...

 

Todavia a multidão desvaira, crispa-se de entusiasmo e solta das suas mãos, delirantemente, as pombas do aplauso. O toureiro desce do seu cavalo, toma uma espada e dirige-se ao centro da arena. Vai matar o touro que está vomitando sangue, rugindo de dor.

 

Cerro as pálpebras e quando o meu olhar converge de novo para a praça, já o animal está tombado, com a espada fundida entre as omoplatas. O golpe não foi certeiro e é necessário que o indivíduo encarregado de apagar estes fracassos venha, com um pequeno estoque, concluir a morte do touro.

 

Entretanto, Belmonte, romano regressado das conquistas, deus descido do Olimpo, vai colhendo as rosas do triunfo, as palmas quentes, fartas, que miríades de mãos lhe dispensam, prodigamente, entusiasticamente.

 

A cena repete-se com o segundo touro, - e quando na arena surgem os cavalos, o espectáculo ultrapassa os domínios da barbárie, e toureiros e espectadores dir-se-ão selvagens brotados da própria selva da Antropofagia. Têm algo de fúnebre, algo de cavalos recém-desatrelados dum carro mortuário, esses que são conduzidos pelos indivíduos que os montam ao encontro do touro, - e que levam os ouvidos cerrados e uma faixa negra, lutuosa, a vendar-lhes os olhos.

 

Eles ignoram o perigo que se acerca, ninguém os procura defender, - a multidão, lá em cima, exige, com requintes de necrófilos, que os seus intestinos se quedem espalhados pela arena, como troféus de asquerosa glória.

 

E os cornos do touro sevam-se no ventre indefeso desses cavalos, - e destes, como a multidão deseja, as vísceras quedam-se, sangrentas, trágicas, expostas no centro da arena e para elas, com uma oculta cumplicidade, o Sol converge seus raios ardentes. Sufoco. Um ódio intenso, profundo, enorme, subjuga-me.

 

Orgulhosamente, brutalmente, sinto-me demasiado humano, sinto-me também fera - mas no sentido inverso daqueles que me rodeiam. E parecem-me sinistros, repelentes, os lábios húmidos, grossos e vermelhos duma mulher de rara formusura que está próximo de mim, - lábios de inebriantes voluptuosidades e que agora riem de perversa satisfação, ante a carnificina que lá em baixo se consuma.

 

Minha revolta aumenta, amplia-se, toma proporções estranhas, - e quando Belmonte é colhido pelo touro, quando se enreda nas hastes deste, minha alma, que se comove ante uma simples ferida, foi iluminada por um relâmpago de íntima alegria.

 

Eu tinha suposto que aquele homem já não sairia senão morto de sob a cabeça do touro... Recordo ainda com horror, com o frio das sensações inconfessáveis, esse desejo monstruoso que brotou, como uma faúlha, da minha alma revoltada contra o espectáculo bárbaro. Mas segundos depois essa faúlha apaga-se, porque já o toureiro se ergue e foge, ligeiro e ileso, do seu inimigo.

 

 E então, ante os novos cavalos que já transpunham a trincheira para serem sacrificados, eu levanto-me e protesto e abandono a praça, - abandono aquela multidão desvairada.

 

É a mesma multidão odiosa das arenas de Roma, é a mesma multidão que nas madrugadas das execuções se proscreve dos leitos, para ir contemplar, numa bestialidade repugnante, o corpo dos condenados à morte a contorcer-se no garrote ou na forca, a cabeça dos decapitados dependurando-se sangrenta, clamando vingança, não das mãos delicadas, voluptuosas, da filha de Herodíades, mas sim das mãos imundas, indignas, do carrasco.

 

Ferreira de Castro

 

A Batalha Suplemento Semanal Ilustrado nº 29, 16/6/1924

 

*A Batalha tem pergaminhos na luta contra as touradas tão antigos como o próprio jornal. Iniciada a sua publicação em 23 de Fevereiro de 1919 logo em 11 de Março declarava que "touradas só para combatê-las falaremos delas". E falou abundantemente. Só no Suplemento Semanal Ilustrado que se publicou entre 3/12/1923 e 31/1/1927 saíram duas dúzias de artigos repudiando este bárbaro espectáculo. De resto em 21 de Agosto de 1924 a União Sindical Operária de Lisboa convidou todas as colectividades humanitárias e pedagógicas a unirem-se a ela na oposição à pretensão de restabelecer os touros de morte em Portugal e em 28 desse mesmo mês iniciou “A Batalha” uma campanha contra as touradas com o apoio das associações zoófilas e de instrução. Neste momento do restabelecimento legal dos touros de morte em Portugal, que nos envergonha, publicamos um texto de Ferreira de Castro, colaborador assíduo d' A Batalha de então…

 

Fonte:

https://www.facebook.com/notes/campanha-contra-as-touradas-no-mundo/a-morte-do-touro-ferreira-de-castro/184892991561193

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 19:14

link do post | Comentar | Ver comentários (4) | Adicionar aos favoritos

Mais sobre mim

Pesquisar neste blog

 

Setembro 2020

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
15
16
24
25
26
27
28
29
30

Posts recentes

«DE QUE ESTAMOS À ESPERA ...

A MORTE DO TOURO

Arquivos

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Direitos

© Todos os direitos reservados Os textos publicados neste blogue têm © A autora agradece a todos os que os divulgarem que indiquem, por favor, a fonte e os links dos mesmos. Obrigada.
RSS

Acordo Ortográfico

Em defesa da Língua Portuguesa, a autora deste Blogue não adopta o Acordo Ortográfico de 1990, devido a este ser inconstitucional, linguisticamente inconsistente, estruturalmente incongruente, para além de, comprovadamente, ser causa de uma crescente e perniciosa iliteracia em publicações oficiais e privadas, nas escolas, nos órgãos de comunicação social, na população em geral, e por estar a criar uma geração de analfabetos escolarizados e funcionais.

Comentários

Este Blogue aceita comentários de todas as pessoas, e os comentários serão publicados desde que seja claro que a pessoa que comentou interpretou correctamente o conteúdo da publicação. Serão eliminados os comentários que contenham linguagem ordinária e insultos, ou de conteúdo racista e xenófobo. Em resumo: comente com educação, atendendo ao conteúdo da publicação, para que o seu comentário seja mantido.

Contacto

isabelferreira@net.sapo.pt