Sábado, 22 de Fevereiro de 2020

Doutor Pedro Girão sobre a eutanásia: «Conheço gente que ganha dinheiro à custa da falta de esperança dos outros, à custa da ignorância dos outros, à custa de tudo nos outros – na doença deles»

 

Subscrevo este texto, porque fala de uma verdade que muitos pretendem esconder.

A eutanásia, para muitos, é uma moda, como outra qualquer…

Lamentável!

 

morte tranquila.png

 

Texto do Dr.  Pedro Girão

 

«Recebi esta pergunta de um amigo: como médico, qual a tua opinião acerca da eutanásia?

 

Não publiquei nada sobre a eutanásia por vários motivos, sendo os principais a complexidade do tema e a avalanche de comentários e opiniões – um “ruído de fundo” que abafou quase todas as opiniões tranquilas. Agora que já está aprovada (pelo menos na generalidade), e julgando que possa haver um pouco mais de tranquilidade, faço um resumo do que penso acerca do assunto, sem nenhuma pretensão de ter a razão do meu lado. É, apenas, a minha opinião.

 

O meu ponto de partida é, naturalmente, este: como médico, “sou contra”. Digo naturalmente porque, conforme compreenderão, não sinto à partida como missão nem como vocação natural colocar um termo à vida. Quem não leu o conto de Miguel Torga “O abafador” pode supor que a eutanásia seja um tema “moderno” ou “civilizado”; não é tal: o conto é de 1944, reflectindo uma prática ancestral de uma aldeia perdida atrás dos montes. E, se um médico em geral procura prolongar a vida, um anestesista em particular é um “ventilador”, e não um “abafador”...

 

Dito isto, o ponto de partida não é tudo – e não é necessariamente o ponto de chegada. (A partir daqui, irei usar o termo “profissional de saúde”, para englobar médicos e enfermeiros, que são parte integrante, testemunhas e actores de uma mesma realidade.)

 

Questão prévia: qualquer profissional de saúde sabe distinguir entre eutanásia passiva e activa; e qualquer profissional de saúde sabe que a primeira, e por vezes mesmo a segunda, são diariamente praticadas nos hospitais em doentes verdadeiramente terminais, sem qualquer controvérsia. (Sublinho o “verdadeiramente terminais”, querendo com isto dizer: doentes cuja esperança de vida é de poucas horas, ou no máximo poucos dias; doentes sem qualquer esperança de recuperação.) Lamentavelmente, basta passar os olhos pelo insuportável “ruído de fundo” destes dias para saber que pouca gente sabe qual a diferença entre eutanásia activa e passiva, e pouca gente sabe que ela faz parte da realidade actual. Concretizando, num doente “verdadeiramente terminal”, que mais frequentemente é um doente com cancro, pode suspender-se o tratamento necessário à sobrevivência do doente (eutanásia passiva), ou administrar-se algum tipo de sedativo/analgésico, que habitualmente compromete também a função respiratória, abreviando um pouco a vida do doente (eutanásia activa). Esta é a prática habitual, realizada em doentes normalmente inconscientes ou, quando muito, semi-conscientes. (Uso termos não inteiramente científicos para mais fácil entendimento.) Esta forma de eutanásia parece-me totalmente aceitável. Diria que me parece humana e natural. E não vejo necessidade de se legislar sobre o assunto.

 

Ora o que está em cima da mesa na proposta de lei da eutanásia é outra coisa diversa: trata-se de satisfazer o pedido expresso e consciente de um doente não-terminal, embora portador de uma doença “incurável”. E é esta forma de eutanásia que me parece desumana e anti-natural, pelos motivos que apresento em seguida.

 

Desde logo, “incurável” é uma probabilidade diagnóstica, uma probabilidade com uma certa margem de falibilidade. Não estou à vontade para lidar com essa margem de erro. Diz-se que a esperança é a última coisa a morrer. Não sei. Na minha vida profissional não lido muito com a morte (aliás, não lido, de todo!). A minha experiência é sobretudo pessoal. Tenho visto muita gente sem esperança clínica nenhuma que mantém a vontade de viver, e gente com muitos motivos para ter esperanças de melhoras mas sem nenhuma vontade de viver. Não há regras. Esta é uma das minhas principais dúvidas: a incrível diversidade de formas de se viver a morte (tal como as de viver a vida) devia impedir-nos de enveredar por legislações formatadas.

 

Segundo aspecto: o decisor desta eutanásia não é o profissional de saúde, é o doente; o profissional de saúde, mais concretamente o médico, torna-se no agente que cumpre ordens de um doente, ou eventualmente ordens de uma estrutura legal. É, nesse sentido, o tal “abafador” da vida, o administrador da injecção letal. (Nota: a “receita” da injecção letal está na Internet; qualquer técnico pode ser o agente desse acto não-médico.) Não contem comigo para isso. Se algum dos meus amigos tiver uma doença incurável, ainda longe do desfecho, e estiver suficientemente desesperançado para desejar a morte imediata, espero que me dê a honra de lhe fazer alguma companhia, humana, sem fármacos. Não prometo curas nem ofereço morte, apenas solidariedade. E tempo. Quem não perceber do que estou a falar, não pode ser um profissional de saúde. Porque tu, meu amigo (meu doente, meu estranho), podes ter perdido a esperança, mas eu mantenho por ti a esperança de que talvez seja possível salvar-te. É (também) isso que me faz viver.

 

Terceiro aspecto: os abusos. Cito o filme “Relatório minoritário”: a falha do sistema é humana, é sempre humana. Qualquer sistema se presta a abusos. Eu conheço vários abusos, na Holanda, na Bélgica, na Suíça. Conheço casos de gente obviamente deprimida que conseguiu permissão para ser eutanasiada, em nome da sua “liberdade individual”. (A depressão não é um estado que permita tomar decisões, digo isto só por dizer...) Conheço gente que ganha dinheiro à custa da falta de esperança dos outros, à custa da ignorância dos outros, à custa de tudo nos outros – na doença deles. Sim, falo de profissionais de saúde, que são pessoas como as outras, tão grandiosas e tão miseráveis, tão honestas e tão corruptíveis como todas as outras. E essa gente, agora, a poder dar também a morte?!… Conheço o suficiente dos meus colegas para nem querer pensar nisso, porque não quero ter pesadelos à noite. Aliás, regra geral na minha vida: tenho como missão proteger-me, e à minha família/amigos, dos abusos da gente que sei ser má profissional; mas não tenho como missão convencer o resto do mundo acerca dessa gente. Vivo e deixo viver. Deixarei, portanto, também morrer.

 

Pequena conclusão (mas este assunto seria inesgotável…): preferia que não se legislasse, não no sentido de uma “liberalização”. A extraordinária incultura e a ignorância atrevida que o Facebook nos permite observar no nosso povo, o inqualificável baixo nível que podemos observar, devia fazer-nos optar decididamente pela Educação como um desígnio nacional. Mas não; são desígnios nacionais: o turismo, o “crescimento económico”, a diminuição do défice, o equilíbrio da banca, etc., etc., e também agora a eutanásia. Sublinho: a Saúde está cada vez pior. Não para mim, que sou médico, mas para o povo. Mas quem se importa com o povo? (Palavra que passou de moda após o 25 de Abril…) Quem quer saber que o acesso à Saúde e à Justiça seja cada vez mais desigual? Alguém? Ninguém. Agora, causas fracturantes? Isso é que interessa.

 

Este é um tema de uma enorme complexidade. Mais do que regras ou leis, cada caso é um caso, um caso humano. A suficiência de muita gente pretensamente inteligente leva-as a crer que sabem tudo e que podem impor tudo a toda a gente, barreiras e limites, regras e leis, para o bem e para o mal. É um erro. O maior erro que vejo na Esquerda moderna (com a qual me identifico naturalmente) é a falta de humildade. É desenvolverem uma ideia de civilização e de progresso – e quererem impô-la a toda a gente, presumindo que quem pensa de forma diferente é incivilizado e retrógrado. Estou contra, portanto. Estou contra o totalitarismo a que querem chamar liberdade. Estou contra a plutocracia a que querem chamar democracia. Estou contra a morte a que querem chamar vida.»

 

Fonte:

https://www.facebook.com/pedro.girao.96/posts/10222728063129183

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:01

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Terça-feira, 19 de Junho de 2018

PÓVOA DE VARZIM LIVRE DE TOURADAS (PETIÇÃO)

 

Para: ASSEMBLEIA MUNICIPAL DA PÓVOA DE VARZIM

 

Assinar Petição:

http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT89848

 

PETIÇÃO PÓVOA.png

 

Preâmbulo

 

Miguel Torga lembra-nos pelo conto Miúra que o toiro prefere a tranquilidade da campina e não existe para ser cercado numa arena de tortura física e psicológica.

 

No entanto, para tentar justificar a tourada, falam-nos de tradição como se fosse valor absoluto e de uma espécie de urgência de exprimir a coragem do homem e da sua superioridade, como se a elevação humana estivesse fora da sua inteligência e da sua sensibilidade, e precisasse de ser cruel e de se habituar ao sangue derramado.

 

Na Póvoa de Varzim sabemos que verdadeira coragem é o que leva os nossos pescadores a enfrentar um ser imensamente mais forte que eles, sem fingimentos nem ilusões, o mar. Coragem não é preparar traiçoeiramente nos bastidores escuros dos curros um animal não humano para um sacrifício irracional como divertimento de uma multidão eufórica.

 

Dos curros (qual caverna), de olhos quase cegos pela escuridão, picam o toiro que sai impetuoso para explodir no sol da arena. Eles não sabem, mas o toiro corre com o desejo irreprimível da liberdade, adivinhando que vai para indigna antecâmara da morte. Segue-se a agressão das bandarilhas que lhe dilaceram a carne e lhe roubam o sangue e a força para que o possam dominar facilmente até ao fim com o risco calculado. Às vezes, num último arremedo, há um toiro que se revolta e que magoa os que o magoam. Mas é sempre o animal não humano que é vencido cobardemente. De fora, nas bancadas circulares tudo parece irreal. Há quem se engane a si próprio chamando arte ao que é mera e evidente tortura, e a frieza da loucura colectiva não sente as dores que rasgam a carne do animal não humano, aprendendo melhor a indiferença em cada lide.

 

No nosso tempo não há Ética que possa tolerar a alegada estética que alguns insistem em ver na dor e no sangue que os seus cúmplices, falsos artistas de falsa coragem, fazem escorrer no dorso de um toiro.

 

Somos da Póvoa de Varzim de algum modo: porque aqui nascemos, porque escolhemos aqui viver ou porque aqui vimos ou gostaríamos de vir e de estar. Queremos que a nossa cidade seja um lugar que não eduque para a violência gratuita, mas que tenha em todos os seus momentos e expressões uma ética de paz, de respeito pela Vida que partilhamos em festa e não em dor com os animais não humanos.

 

POR ISSO, CONSIDERANDO QUE:

 

1 - o reconhecimento pela espécie humana do direito à existência das outras espécies animais constitui o fundamento da coexistência das outras espécies no mundo, e que o homem deve ser educado desde a infância para observar, respeitar e compreender os animais;

 

2 - os Direitos dos Animais estão consagrados pela Organização das Nações Unidas - ONU através da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, proclamada pela Unesco, em Bruxelas, no dia 27 de Janeiro de 1978), que neles se inclui o direito de nenhum animal ser explorado para divertimento do homem (v. Artigo 10º n.º 1);

 

3 - a Ciência reconhece inquestionavelmente a maioria dos animais, incluindo cavalos e touros, como seres sencientes, com memória e capazes de emoções e de sentir dor e prazer, físicos e psicológicos, bem como sentimentos de medo, angústia, stress e ansiedade

 

4 - uma cidade moderna e civilizada não admite espectáculos públicos de tortura de animais como as touradas;

 

5 - o Estado português já reconheceu o carácter violento das touradas ao tornar obrigatória a inclusão na publicidade aos espectáculos tauromáquicos de uma advertência alertando o público para que "o espectáculo pode ferir a susceptibilidade dos espectadores";

 

6 - vários estudos e especialistas concordam que a prática e a aceitação da violência contra os animais predispõe os homens para a prática e a aceitação da violência contra outros homens;

 

7 - nas observações finais sobre as terceira e quarta avaliações periódicas feitas pelo Comité das Nações Unidas Sobre os Direitos das Crianças, de 25 de Fevereiro de 2014, sobre Portugal, afirma-se a enorme preocupação com o impacto na saúde mental das crianças quanto expostas a espectáculos de tauromaquia. O mesmo documento recomenda ao estado português a adopção de medidas legislativas e administrativas no sentido de proteger as crianças envolvidas nestas situações, ao mesmo tempo que recomenda que sejam feitas campanhas de sensibilização sobre a violência física e mental associada à Tauromaquia e ao seu impacto nas crianças;

 

8 - o progressivo abandono de tradições retrógradas, contrárias a um sentido humanista de cultura como aquilo que contribui para nos tornar melhores seres humanos, é o que caracteriza a evolução mental e civilizacional das sociedades e melhor corresponde à sensibilidade contemporânea;

 

9 - massacres públicos de touros para fins de entretenimento já foram prática em toda a Europa, tendo sido banidos paulatinamente em praticamente todos os países europeus e, das quase duas centenas de países no Mundo, apenas oito têm actividade tauromáquica".

 

10 - pela Lei n.º 92/95, de 12 de Setembro - Protecção aos Animais (ver ponto 1 do Artigo 1.º ) "são proibidas todas as violências injustificadas contra animais, considerando-se como tais os actos consistentes em, sem necessidade, se infligir a morte, o sofrimento cruel e prolongado ou graves lesões a um animal", que é objectivamente o que acontece nas touradas, mesmo que, em contradição e estranha e incompreensivelmente, a mesma Lei as considere lícitas;

 

11 - não faz sentido fazer corresponder os espectáculos tauromáquicos à condição de cultura e que, num país em que, dos seus 308 municípios, apenas 44 têm actividade taurina (14,8%), é ofensivo e contraproducente para uma desejada unidade nacional e civilizacional forçar a identidade tauromáquica à população portuguesa;

 

12 - o povo português tem, nos últimos anos, afirmado uma forte posição de condenação das Touradas e de defesa do seu fim, posição que se tem manifestado de modo especialmente expressivo no Norte do país, particularmente na região do Grande Porto;

 

13 -  em Portugal, desde 2010, os espectáculos de tauromaquia perderam mais de 53% do seu público, atingindo em 2017 um número de espectadores com um peso cada vez mais insignificante no panorama dos espectáculos ao vivo em Portugal superados em número de eventos de Folclore, que, segundo dados do INE, contabilizavam mais 100.000 espectadores que as touradas (no ano passado realizaram-se 181 espectáculos tauromáquicos, dos quais 26 em Albufeira e 13 em Lisboa, enquanto nas em 27 das praças de touros existentes, ou seja, mais de 50%, se realizaram apenas uma ou duas corridas durante o ano);

 

14 - é muito clarificadora de uma nova mentalidade a sondagem feita pela Universidade Católica à população de Lisboa entre 5 e 20 de Maio de 2018, em que se concluiu que, desde a reabertura do renovado Campo Pequeno em 2006, onde passaram a realizar diversos tipos de eventos, só 11% dos lisboetas foi à tourada, que 79% não concorda com a utilização de dinheiros públicos para apoiar/financiar as touradas e que 96% dos cidadãos concorda com a realização de outros eventos não relacionados com as touradas;

 

15 - em Espanha, país considerado berço da tradição tauromáquica, segundo uma sondagem Gallup feita no país em Outubro de 2006, já 72% dos espanhóis declaravam não ter qualquer interesse nas touradas, existindo mais actualmente mais de 40 cidades e vilas anti-touradas;

 

16 - a Póvoa de Varzim é uma cidade que se pretende mais moderna, desenvolvida e progressista, para a qual o Turismo é um elemento-chave para a economia local, ganhando muito em imagem e oportunidades promocionais do ponto de vista turístico livrando-se da permissão e realização de espectáculos cruéis envolvendo animais como as touradas;

 

17 - a existência de touradas no século XXI constitui um embaraço para Portugal e para a Póvoa de Varzim perante a comunidade internacional, configurando a imagem de um país e de uma cidade com pessoas e práticas bárbaras;

 

PROPOMOS

que o MUNICÍPIO DA PÓVOA DE VARZIM adopte as seguintes DECISÕES:

 

Primeira

 

Declarar a PÓVOA DE VARZIM LIVRE DE TOURADAS, assumindo-se oficial e simbolicamente oposta à promoção e realização de corridas de touros e de quaisquer actos de violência ou de tortura contra animais que lhes possam causar ansiedade, angústia, medo ou sofrimento físico ou psicológico e emocional de alguma ordem.

 

Segunda

 

No âmbito dessa decisão, expressar a vontade institucional do Município da Póvoa de Varzim de que não sejam promovidas ou realizadas quaisquer corridas de touros na cidade e no concelho, tudo fazendo para a proibição de qualquer espectáculo tauromáquico, não atribuindo licenças a qualquer actividade ou evento deste tipo em espaços públicos do concelho, no âmbito das suas competências e atribuições e convertendo a Praça de Touros da Póvoa de Varzim ao uso exclusivo para actividades que provam a valorização dos cidadãos e que não envolvam a inflação de sofrimento físico ou psicológico e emocional a animais.

 

Terceira

 

Expressar, junto do Parlamento e do Governo, a vontade do Município da Póvoa de Varzim de ver as corridas de touros proibidas em todo o país através de uma Lei da República, a bem de Portugal enquanto país que se quer moderno e continuamente progressista, a bem da sociedade portuguesa, que não admite a violência contra animais, e a bem dos animais.

 

Póvoa de Varzim, 2018. Junho. 19

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:14

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Sexta-feira, 3 de Junho de 2011

O preconceito bacoco contra a Edição de Autor

 

 

«Portugal é feito de belas paisagens de água, como as do Oceano Atlântico e das suas ondas ora poderosas, ora mansas, a beijar-lhe a costa, pontilhada de recantos paradisíacos, de areais imensos, e de penedias, sobre as quais voejam as gaivotas; como as dos rios que serpenteiam por entre vales e planícies verdejantes e majestosas montanhas; e as dos barcos que descansam nas águas, ao entardecer.

 

Portugal é feito de paisagens de campo, de paisagens citadinas, belas e coloridas, como a magnífica cidade do Porto, Património Mundial, com o seu casario a escorrer para o rio, onde os barcos rabelos emprestam um ar bucólico à foz do Douro, e que o Sol poente matiza das mais variadas cores.

 

Portugal é feito de aldeias e vilas antigas, casas senhoriais, palácios, castelos altaneiros, lugares que ainda conservam a essência das suas origens, monumentos fabulosos, uma arte requintada, como o Estilo Manuelino (uma variação portuguesa do Gótico) que surpreende pela sua beleza, e a admirável azulejaria que ainda pode ser apreciada na fachada das casas de muitas localidades.

 

Portugal é feito da música das guitarras de Coimbra ou do fado de Lisboa; é feito de muitas cores, de muitos verdes, de Sol e das palavras luminosas dos seus poetas.»

 

...

 

Estas palavras, escrevi-as na minha «Contestação» do livro «1808», da autoria do jornalista brasileiro Laurentino Gomes, onde Portugal e os Portugueses e o nosso Rei Dom João VI são muitíssimo amesquinhados, maltratados, predominando a mentira, e o preconceito do colonizado sobre o colonizador.  

 

Na verdade, Portugal é um paraíso onde poderíamos viver placidamente, não fosse estar cheio de pessoas e políticos com mentes tacanhas que, empoleirados em cargos maiores, transformam o País lá no quintalinho deles, deixando tudo o que faz parte da sociedade portuguesa, por aí à deriva, sem rumo, e se não somos um povo maior, a essas mentes tacanhas o devemos.

 

Diz-se que um povo que não se sente não é filho de boa gente, por isso aqui estou, uma vez mais, a defender, desta vez não o País, mas algo que faz parte da sua Cultura e são desprezadas pelo preconceito bacoco que reina entre os pseudo-intelectuais, que por aí andam e mandam no caduco sistema editorial português: as Edições de Autor.

 

Vocês sabiam que a maioria dos livros que por aí circulam são, no fundo, edições de autor? Porque quem paga a edição é o próprio autor. Mas como levam a chancela de Editoras, umas mais, outras menos afamadas, são acolhidas como “filhas” e têm o aval das livrarias e dos próprios leitores. Podem não valer nada como leitura ou Literatura, mas trazendo o “selo” de uma editora, entram em todo o lado. As outras, as Edições propriamente ditas de Autor, são tratadas, injustamente, como “enteadas”.

 

Eu faço edições de autor, por opção, e devo confessar que tenho grande dificuldade em escoar os livros, precisamente devido a esse preconceito bacoco contra o facto de os livros não terem o suporte de uma editora.

 

Decidi, por uma vez, experimentar a publicação da «Contestação» através da Chiado Editora   (ainda com pouco nome, mas era uma editora). Imprimiram-se 500 livros. Paguei-os todos (e não foi pouco). E ainda tive de dar uma percentagem. E o contrato que se assinou, então, não foi cumprido, pela parte da editora. Viram-se com o dinheiro no bolso, e a cláusula que diz: a editora obriga-se a distribuir, promover e divulgar a obra, ficou no papel do contrato.

 

Ora para isso, prefiro fazer as minhas próprias edições de autor. Pago o livro, tenho grandes dificuldades em os distribuir, promover e  divulgar, mas também não tenho de dar percentagens a quem devia distribuir, promover e divulgar o livro e não o faz (para isso se dá a percentagem).

 

E qual a diferença entre a publicação com chancela ou sem chancela? Absolutamente nenhuma. O conteúdo é o mesmo, a paginação, capa e revisão são feitas por gente do meio. A única diferença é o “selo”.

 

A Comunicação Social vai pelo mesmo caminho. Entregar edições de autor aos media para divulgação é o mesmo que as deitar ao caixote do lixo. Os próprios “divulgadores” de livros (como as publicações da especialidade) e o próprio Marcelo Rebelo de Sousa (divulgador de livros numa estação de televisão) que um dia, no "Correntes d’Escritas" na Póvoa de Varzim, disse que «é preciso acarinhar as Edições de Autor», desprezam-nas (e eu que o diga, pois os livros que enviei a todos, incluindo a  Marcelo, foi o mesmo que os atirar ao caixote do lixo).

 

Só divulgam as edições de autor dos amigos, e este é o lado perverso da edição em Portugal.

 

Contudo, nem toda a Edição de Autor é lixo. E nem toda a Edição, com a chancela de Editoras, tem qualidade.

 

Nos tempos que correm, os novos autores não são escritores. São futebolistas. São apresentadores de televisão. São apresentadores de telejornais. São pessoas com vidinhas escandalosas. São Josés Castelos Brancos. São os Big Brothers. São os policiais. Enfim, são todos aqueles que diariamente têm visibilidade, aparecem nas televisões, nas revistas cor-de-rosa, com mais ou menos protagonismo. E eles é que vendem. A Literatura é marginal.

 

São vendas garantidas. As edições são pagas (tive muitas ofertas dessas) pelos autores. Os editores só têm a ganhar.

 

A verdadeira Literatura deu lugar às caras que aparecem nos ecrãs e nas  revistas. E é a essa “cultura” que os editores dão o seu aval.

 

É a mediocridade a progredir. É o País a regredir.

 

Além destes, apenas são publicados os autores já consagrados. Autores sem nome no mercado (a não ser que sejam amigos de amigos dos editores, ou filhos de figuras públicas) não são publicados. Ponto final. Tenham ou não tenham obra de qualidade.

 

Culpo os escritores portugueses, que nunca se rebelaram contra esta situação humilhante. O que lhes interessa é publicar, nem que seja a troco de umas migalhas.

 

O que resta fazer, então? O inusitado. O imprevisto. Porque, como já dizia Miguel Torga, que começou por fazer Edições de Autor: «Ser livre é um imperativo que não passa pela definição de nenhum estatuto. Não é um dote, é um dom».

 

Por estas e por outras, os talentos portugueses estão a singrar no estrangeiro. E Portugal a afundar-se, cada vez mais, na mediocridade.

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:56

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Em defesa da Língua Portuguesa, a autora deste Blogue não adopta o Acordo Ortográfico de 1990, devido a este ser inconstitucional, linguisticamente inconsistente, estruturalmente incongruente, para além de, comprovadamente, ser causa de uma crescente e perniciosa iliteracia em publicações oficiais e privadas, nas escolas, nos órgãos de comunicação social, na população em geral, e por estar a criar uma geração de analfabetos escolarizados e funcionais.

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