Quinta-feira, 10 de Outubro de 2013

OS PROTECTORES DE ANIMAIS: ESSES SERES ESQUISITOS

 

“Quando se é capaz de lutar por animais, também se é capaz de lutar por crianças ou idosos. Não há bons ou maus combates, existe somente o horror ao sofrimento aplicado aos mais fracos, que não podem defender-se.” (Brigitte Bardot)

 

 

Por ROSE MUSSI

 

Surgem em tempos de lutas sociais, com representantes de vários segmentos da sociedade, os “protectores” de animais. Pessoas que além de salvarem cães, gatos, cavalos e outros animais, lutam pelo seu direito a uma vida digna e contra os maus-tratos que sofrem na convivência com os seres humanos.

 

Mas, afinal, quem são essas pessoas que dedicam o seu tempo, grande parte da sua renda e muito afecto para resgatarem animais abandonados e maltratados por uma sociedade em que a maioria das pessoas é indiferente a tal crueldade?

 

Quem são esses indivíduos que nada se importam se terão alguma recompensa material depois de tanto trabalho, empenho e sacrifício? Serão pessoas que precisam ocupar o tempo por tê-lo ocioso ou apenas estariam sem saber o que fazer com o seu saldo positivo no banco?

 

O número de pessoas que se dedicam à “causa animal” está a aumentar. Que movimento é esse que toma conta de (…) vários países pelo mundo? São pessoas que se unem por um motivador subjectivo, algo que faz com que o pensamento capitalista seja deixado para segundo plano e o seu tempo passe a não valer mais dinheiro e sim o número de vidas inocentes que são resgatadas por dia. Isso não seria tão diferente dos casos em que pessoas se dedicam a minorias sofridas se as vítimas não fossem seres considerados tão inferiores e, para muitos, insignificantes. Ah! E com uma agravante: os sacrificados não podem levantar o seu clamor pelos seus direitos.

 

Os media (…) já perceberam que algo está a acontecer, mas até agora, não sabem bem de onde vem a fumaça. Algumas emissoras de televisão, algumas revistas e jornais noticiam de maneira superficial a tragédia em que vivem os animais abandonados e mostram algumas pessoas envolvidas na luta para diminuir o problema.

 

Teimam em passar a ideia de que as referidas iniciativas sejam resultado de uma vida excêntrica ou consequência de distúrbios emocionais causados pela solidão ou pela senilidade. Entretanto, quem serão os “esquisitos” realmente? Se “normais” são os que não se sentem absolutamente nada responsáveis e se resguardam o máximo direito de sequer se compadecerem do sofrimento que está escancarado pelas esquinas desse país, a palavra “misericórdia”, que em alguns dicionários aparece como sinónimo de “amor”, deveria ser excluída do léxico da língua portuguesa.

 

Porém, a questão é mais complexa. Passa pela cultura, pela filosofia e crenças de um povo.

 

Torna-se ainda mais misteriosa a natureza desses valentes, quando fica clara sua vida quotidiana tão semelhante à daqueles que nada fazem pelos animais nos quais tropeçam todos os dias pelas ruas.

 

São pessoas que trabalham, mulheres e homens que têm horários, afazeres comuns e enfrentam a correria do dia-a-dia naturalmente. Todavia, encontram um jeito de esticar as 24 horas e encaixarem uma tarefa árdua, sofrida e muitas vezes com um final triste e dramático. Porque não é sempre que um animal resgatado sobrevive. Mesmo depois do socorro, dos cuidados veterinários, há aqueles que sucumbem, para os quais todo esforço não foi suficiente. Animais que já estão há muito tempo nas ruas, sem alimento, doentes e sofrendo maus-tratos, muitas vezes são resgatados apenas para morrerem em situação mais digna. No entanto, ao contrário do que poderia se esperar, o “protector” não julga ter perdido tempo. Ele lamenta, chora por ter perdido uma vida.

 

Assim também, há outro grande desafio para esses heróis marginalizados, vistos como insanos pela parte alienada da sociedade, que é desembolsar financeiramente uma quantidade enorme de despesas com transporte dos resgatados, atendimento veterinário, medicamentos, lares temporários e outros contratempos que geralmente ocorrem.

 

É dessa forma que o trabalho se torna ainda mais interessante, pois em consequência dessa necessidade, as pessoas envolvidas na “causa” unem-se, apoiam-se, passam a fazer parte de uma grande família. Os sites de relacionamento propiciam essa interacção e, cada vez mais, servem como sala de reunião para esse grupo de pessoas que, a despeito da falta de apoio das autoridades governamentais, abraçaram um problema que tem se tornado de calamidade pública em algumas cidades.

 

Se formos esperar que a história siga seu curso, resta saber de onde surgirá a Princesa Isabel, a Redentora,*** que virá abolir a situação triste, submissa e humilhante em que vivem os nossos irmãos, chamados pela sábia ciência desavisada de “irracionais”.

 

Em 1986, a actriz francesa Brigitte Bardot fundou uma instituição em defesa dos animais. A actriz declarou: – “Quando se é capaz de lutar por animais, também se é capaz de lutar por crianças ou idosos. Não há bons ou maus combates, existe somente o horror ao sofrimento aplicado aos mais fracos, que não podem defender-se.

 

Vêm da mesma casta os “protectores” anónimos para o mundo das celebridades. Comungam da mesma convicção de que somos todos iguais, habitantes do mesmo Planeta onde convivem fortes e fracos e no qual a luta pela justiça tem sido causa de batalhas do passado, presente e sem data para terminar.

 

*** A Princesa Isabel, cognominada a Redentora, enquanto Regente do Império brasileiro, assinou a Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil. 

 

 

(Texto adaptado para a Língua Portuguesa)

Fonte:

http://alcancei.com.br/os-protetores-de-animais-esses-seres-esquisitos/

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 11:12

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Sábado, 12 de Dezembro de 2009

«Os Mal-Amados», livro de Fernando Dacosta

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
No dia do seu aniversário, a minha modesta homenagem, Fernado Dacosta.
 
 
Parabéns Fernando Dacosta!
Em 12 de Dezembro de 1945, nasce em Caxito, Angola, completando precisamente hoje, 64 anos.
Não conheço pessoalmente Fernando Dacosta. Só de nome. E que nome! Só da obra. E que obra! Um dia, talvez, me depare com ele, algures, num lugar de livros, e então, se ele não for vedeta (como penso que não será, porque quem é grande não precisa dessas coisas menores, como muitos que eu já tive o desprazer de conhecer), aproximar-me-ei dele e agradecer-lhe-ei a estética das palavras que deixou escritas nos seus livros, para meu deleite.
Sou uma leitora compulsiva. Tenho sempre uma montanha de livros à espera de serem lidos, mas nem sempre as coisas correm conforme o meu desejo. Gostaria de ter mais disponibilidade para a leitura. Mas em mim, existe também o apelo da escrita, e todas as coisas menores de um quotidiano de mulher, em idade activa, confinada à casa, porque o mercado de trabalho para alguém que escreve é absolutamente nulo. Sim, pode escrever, mas de borla (dizem-me). De borla, como se alguém pudesse alimentar-se de “borla”! O que me vale são algumas traduções e revisões tipográficas que dão para o vício: a compra de livros.
Se temos um livro para publicar, há que pagar a edição, com dinheiro que ainda não ganhámos. Talvez sejamos os únicos “obreiros” em Portugal (nos países com gente inteligente dentro, não é assim) que têm de pagar o que produzem, a “patrões”, que só mais tarde, (e é preciso andar a mendigar dois, três anos) nos dão uma migalhinha do produto desse trabalho, que, por vezes, demora anos a executar. E a sensação com que ficamos é a de que pegue lá uma esmolinha, e que seja pelas alminhas do purgatório! Quando for para o Céu, Deus Nosso Senhor a recompensará! O trabalho de criação é nosso, mas temos de pagá-lo, ao contrário das coisas normais. Isto é imoral, mas é a realidade portuguesa dos desapadrinhados da Literatura. No entanto, na primeira, quem quer cai, na segunda cai quem quer. Continuo a aguardar tempos mais inteligentes.
Daí sentir-me também mal-amada!
Mas quem sou eu, comparada com os mal-amados sobre os quais Fernando Dacosta fala no seu belíssimo livro? Não sou ninguém! E isso que importa? Nada, também!
No entanto, não é de mim, nem da minha marginalidade, como autora, que venho aqui tratar. Quero falar de Fernando Dacosta. Deste seu livro, em particular, que me deu um especial prazer a ler, e da sua escrita límpida, irrepreensível, fora da norma actual, que é a má escrita que por aí prolifera. Mas é essa má escrita que vende, e são os próprios agentes da cultura (os editores) que investem e promovem essa mediocridade. Logo ninguém se admire do estado da Nação.
 
 
Só agora tive oportunidade de ler «Os Mal-Amados» (que ficou em espera desde 2008), versão recriada do «Nascido no Estado Novo» (2001). Gosto de livros que falem de homens e de mulheres que deixam um rasto luminoso, por onde passam, e são esses, quase sempre os mal-amados.
Fernando Dacosta, jornalista e escritor de grande mérito, também ele um ser luminoso, tem uma escrita escorreita, cristalina, sem falhas, sem erros, sem obscenidades (agora tão na moda). Palavras correctamente dispostas, com grande sensibilidade, para dizer de existências, de pensamentos, de histórias, de sentimentos, de saberes.
Em «Os Mal-Amados», Fernando Dacosta fala-nos de factos da nossa História, de personalidades que a marcaram, e com quem privou e bebeu-lhes a essência da sobrevivência, neste nosso país, que parece ter nascido malfadado, mas riquíssimo em existências, gestas e gestos valorosos, que poderiam colocar-nos nos píncaros, se o povo que aqui nasceu não se tivesse em tão má auto-estima, e deixasse de venerar a inferioridade que vem de além-fronteiras.
No livro de Fernando Dacosta, além de me deleitar com a leitura da Língua Portuguesa utilizada de um modo magnífico, fascinaram-me as confidências de personalidades que, cada uma ao seu jeito peculiar, contribuíram para acrescentar ao nosso já tão rico espólio (não importa qual) algo de muito invulgar, ou não fossem essas personalidades pessoas invulgares.
Algumas delas tive também o prazer de conhecer pessoalmente, como Agostinho da Silva e Mário Viegas, entre outros, e com os quais partilhei pequenos episódios pitorescos, que talvez um dia, me dê para divulgar. Mas antes tenho muito caminho pela frente, para poder chegar aonde chegam os grandes (se é que algum dia chegarei!); ou então como chegam os que têm vidinhas pequeninas e redondinhas para contar.
Dizia então que «Os Mal-Amados» é um livro que os amantes da leitura devem ler, por todos os motivos e mais um. E esse mais “um”, é o que diz Baptista-Bastos (também este um Grande Homem Português, do Jornalismo e das Letras), na badana do livro: «Grande jornalista (o Fernando), porventura o maior repórter da sua geração; trouxe a sensibilidade, o colorido, o lado humano, secreto, porventura quase insondável dos factos quotidianos».
Abriu-nos uma janela para uma paisagem grande do nosso País e de alguns dos protagonistas da nossa história comum.
Obrigada, Fernando Dacosta.
Parabéns pelo livro, e pelo aniversário.
 
Isabel A. Ferreira
 
 
publicado por Isabel A. Ferreira às 16:41

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