Sexta-feira, 14 de Setembro de 2018

CONSIDERAÇÕES SOBRE TOURADAS, TOUREIROS, FORCADOS E TROGLODITAS

 

ARENA VAZIA.png

E assim vai a selvajaria em Portugal: nem as moscas voam nas arenas de tortura…

Imagem: Internet

 

A propósito do documentário, glorificando as touradas, que o ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa patrocina com dinheiros públicos

 

«A tauromaquia assenta numa premeditada exploração de touros e de cavalos com requintes de tortura, ou seja, com enorme sofrimento psicológico e físico (nos touros - ... , transporte, preparativos para a lide, a lide, o bandarilhar, a pega, o retirar das bandarilhas e a extrema exaustão, dor e mau estar até à violenta morte / nos cavalos - treino duro, embocadura subjugadora provocando dor e ferimentos nas gengivas, na língua, no chanfro - se com Hackamore = serrilha, dor com a barbela na mandíbula, no ventre com esporas mais ou menos cortantes, o cavalo é obrigado a suportar ansiedade e risco de ferimento e de morte perante o touro). A crueldade vergonhosa é tamanha, que a abolição é a única solução justa e só peca por tardia, quando acontecer. É lastimável que esteja legalizada, que haja quem ganhe com isso e que haja quem goste disso e que haja quem apoie isso e que sejam concedidas verbas para a apoiar.»

(Dr. Vasco Reis – Médico Veterinário)

 

A propósito de um dito de Natália Correia

 

«O homem actual está a viver uma crise de identificação masculina, com medo das mulheres e das disfunções sexuais secundárias. A violência é uma forma de descarregar a líbido: bater, em vez de amar; em vez da luta amorosa, a luta física (e eu acrescento também verbal). Os maus tratos que inflige às mulheres com quem vive, fenómeno entre nós medonho, não passa de um álibi (inconsciente) com que disfarça a sua falta de desejo por elas. Os jovens, por exemplo, rebentam coisas, carros, motos, pessoas (e eu acrescento, Touros), porque não podem rebentar hímenes».

(Psiquiatra Eduardo Luiz Cortezão in «O Botequim da Liberdade» de Fernando Dacosta)

 

Descrição fantástica e muito real dos trogloditas que vão à vaca das cordas a Ponte de Lima

 

São muito broncos, têm um ar abestalhado, vazio, rude. O olhar transmite um alheamento e uma insensibilidade enormes. Proferem insultos, numa verborreia estupidificada de quem não sabe mais o que dizer; fazem gestos obscenos e babam ao pensar no que vão ver. Parecem sub-humanos, e mesmo a uma certa distância cheiram a vinho azedo…

(Maria do Carmo Tinoco)

 

A propósito da pretensão de se construir uma arena de tortura em Samora Correia

 

Se o termo Portugal profundo se poderá adequar algures, então será nesse concelho.

Gostava que me explicassem, como é possível em pleno séc. XXI, numa europa evoluída e civilizada, os Srs. continuarem fazendo questão em investir numa prática que tem tanto de bárbara como de medieval.

Como podem sequer ter tal requinte de perversidade, mencionando com naturalidade, que um recinto dedicado à tortura implacável de animais, para regozijo de um bando de acéfalos provincianos, possa ser utilizado também para a cultura e comércio?

O atraso civilizacional deste país fica personificado nas vossas pessoas e nas vossas gentes, e nos vossos cúmplices gananciosos, sem ética nem humanidade.

É absolutamente inaceitável e desprezível que gastem recursos importantes para a educação da população e para o avanço do país, numa prática tão vergonhosa, vil e miserável.

É esta mentalidade que nos separa da Europa evoluída, da civilização. Se tivessem a mínima ideia do quão vergonhosa é a vossa actividade, cessariam os vossos postos e colocá-los-iam à disposição de alguém competente, que não nos envergonhassem a todos, de uma só vez, de sermos portugueses.

(Rui Faustino)

 

A propósito do que dizem ser "tradição" tauromáquica

 

«Num tempo em que se pugna pela igualdade de direitos entre géneros, vemos o poder político a dar a precedência a uma tradição marialva, primária e soez. A questão não reside apenas em matar o touro - esse sim! Debate-se com galhardia ante o "mais forte" que se respalda num pobre e escravizado cavalo - mas na cobardia de fazer espectáculo para colocar hordas ululantes de imbecis sanguinários a aplaudir um gládio em que é suposto ganhar "o mais forte", ou seja, o marialva narcisista que substitui a chupeta de que ainda precisa para se afirmar e sentir-se apreciado, pela bandarilha. Abjectamente narcisista! Desonrosamente primevo! Um atentado à civilidade.»

(Conceição Lopes da Silva)

 

A propósito do Referendo Académico à garraiada

 

A crueldade para com os animais integra a avaliação psicológica do comportamento anti-social... É um indicador sério de problemas emocionais e comportamentais se acontece na infância... Imagine-se então o que pode significar se persiste e acontece na adolescência e adultez. Os estudantes, os nossos estudantes, os nossos futuros dirigentes, gestores, advogados, psicólogos, pedagogos, gestores, médicos, farmacêuticos, biólogos, químicos, físicos, professores, economistas, assistentes sociais, sociólogos, engenheiros, educadores, pais e muito mais... podiam escolher dar o exemplo de tratamento digno para com os animais... dia 13 é uma excelente oportunidade de dizerem NÃO À CRUELDADE PARA COM OS ANIMAIS, impedindo que essa crueldade seja bandeira de uma festa académica que deveria ter a bandeira da bondade, da dignidade e do respeito por todos os animais... seria um passo em frente para lembrar que nesse reino dos animais também está incluída a humanidade...

(Rosário Moura Pinheiro)

 

A propósito da morte de um Touro na Moita

 

«Este touro foi a grande vítima de uma multidão de seres humanos, eles mesmos, vítimas da circunstância onde cresceram e foram bombardeados com espectáculos violentos aplaudidos, com exemplos de crueldade glorificados, com blábláblás de tradição, até com falácias pseudocientíficas, tudo autorizado, ou não, num país atrasado em conhecimento e ignorante de verdadeira cultura e com pouco sentido de ética.

 

Tudo isto "impregna" o cérebro, tanto mais intensamente quanto mais precocemente iniciado a ser badalado com a tauromania, e maior for a frequência e o "companheirismo" nos actos de provocação, agressão e violência exercidos sobre animais inocentes.

 

Por isso, crianças são levadas a assistir aos aplaudidos actos barbarescos, existem escolas de toureio, etc.. Resultado: habituação à violência; aceitação desta como coisa vulgar, espectacular, corajosa; perda de sensibilidade; educação falsa; zero de empatia. TUDO ISTO É CORROBORADO PELA NEURO CIÊNCIA !!!.

 

É difícil que nestes cérebros se faça luz sobre a cruel realidade e que a perversa paixão se esvaia e dê lugar a compaixão. Mas é sempre possível a evolução!!! Ela sucede com frequência! É sempre bem-vinda, a bem dos touros e dos cavalos e para alívio da consciência indignada de pessoas conscientes e compassivas e para o prestígio deste país de pouco brandos costumes.

 

HÁ SEMPRE SOFRIMENTO PSICOLÓGICO, EXAUSTÃO E RISCO DE FERIMENTO EM TODAS AS MANIFESTAÇÕES TAUROMÁQUICAS, NOMEADAMENTE NAS TOURADAS À CORDA E NAS LARGADAS. E OBVIAMENTE NAS TORADAS DE PRAÇA. 

 Só ignorantes ou aldrabões afirmam o contrário!!!»

 

(Dr. Vasco Reis - médico-veterinário)

***

A propósito de acharem que a tourada é “arte e cultura”

 

«Para ser arte, teria de existir o factor de elaboração, de criação, de engenho, da imaginação de um artista. A tourada consiste simplesmente em torturar um animal. Mais nada! Não é necessário ser-se artista. Basta não se ter coração. Não é uma forma de mostrar bravura, tanto que quando as coisas correm mal para o "artista", vêm logo todos afastar o touro em lugar de deixar o corpo dele colher o que plantou! Que isso é que era coragem! Não há cultura na tourada, se a há, então: onde é que numa arena cheia de sangue de um animal encurralado se vai aprender alguma coisa? Os livros ensinam, contam-nos experiências, relatam a sua época e a experiência do escritor; a música funciona da mesma forma. O que nos ensinam as touradas? Tal como há 200 anos atrás, continua a ser fechada a "cultura" dentro da arena e não vai explicar nada, não vai ensinar nada. Continua tão néscia e vazia desde que começa até que acaba, como os imbecis que a praticam ou assistem.»

(Mário Amazan)

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:58

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Terça-feira, 24 de Setembro de 2013

APROXIMAM-SE AS ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS, É CHEGADA A HORA DE MUDAR O RUMO DE UM PORTUGAL TRISTE, QUE NATÁLIA CORREIA, COM A SUA INTUIÇÃO APURADA, ANTECIPOU…

 

Precisamos de arejar os Municípios e limpar o cheiro a mofo e as teias de aranha, que por lá grassam.

 

É tempo de abrir as janelas e deixar passar o ar puro.

 

É hora de MUDANÇA. De qualquer mudança.

Por favor, não votem nos resistentes arcaicos… (IF)

 
 
 

«AS PREMONIÇÕES DE NATÁLIA CORREIA»

 

«A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista".

 

"A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança!"

 

"Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente".

 

"Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica".

 

"Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão".

 

"Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores?"

 

"As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir"

 

Natália Correia

 

Fajã de Baixo, São Miguel, 13 de Setembro de 1923 — Lisboa, 16 de Março de 1993

 

***

Todas as citações foram retiradas do livro "O Botequim da Liberdade", de Fernando Dacosta.

 

Fonte:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=636593209705658&set=a.463746676990313.106284.162999140398403&type=1&theater

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:54

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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2012

AFINAL AINDA EXISTEM POLÍTICOS COM INTEGRIDADE E VALORES, SÓ QUE NÃO INTERESSA FALAR DISSO NOS ÓRGÃOS DE INFORMAÇÃO...

 
 
DESTE EXEMPLO NINGUÉM FALA NOS ÓRGÃOS DE INFORMAÇÃO...
POR QUE SERÁ?...
 
OBRIGATÓRIO LER!
 

Texto de FERNANDO DACOSTA
 
Para reflexão, se ainda temos tempo para isso!!!
 
Afinal ainda existem políticos com integridade e valores! Quando cumpria o seu segundo mandato, Ramalho Eanes viu ser-lhe apresentada pelo Governo uma lei especialmente congeminada contra si.
 
O texto impedia que o vencimento do Chefe do Estado fosse «acumulado com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência» públicas que viesse a receber. Sem hesitar, o visado promulgou-o, impedindo-se de auferir a aposentação de militar para a qual descontara durante toda a carreira. O desconforto de tamanha injustiça levou-o, mais tarde, a entregar o caso aos tribunais que, há pouco, se pronunciaram a seu favor.
 
Como consequência, foram-lhe disponibilizadas as importâncias não pagas durante catorze anos, com retroactivos, num total de um milhão e trezentos mil euros. Sem de novo hesitar, o beneficiado decidiu, porém, prescindir do benefício, que o não era pois tratava-se do cumprimento de direitos escamoteados - e não aceitou o dinheiro.
 
Num país dobrado à pedincha, ao suborno, à corrupção, ao embuste, à traficância, à ganância, Ramalho Eanes ergueu-se e, altivo, desferiu uma esplendorosa bofetada de luva branca no videirismo, no arranjismo que o imergem, nos imergem por todos os lados. As pessoas de bem logo o olharam empolgadas: o seu gesto era-lhes uma luz de conforto, de ânimo em altura de extrema pungência cívica, de dolorosíssimo abandono social.
 
Antes dele só Natália Correia havia tido comportamento afim, quando se negou a subscrever um pedido de pensão por mérito intelectual que a secretaria da Cultura (sob a responsabilidade de Pedro Santana Lopes) acordara, ante a difícil situação económica da escritora, atribuir-lhe. «Não, não peço. Se o Estado português entender que a mereço», justificar-se-ia, «agradeço-a e aceito-a. Mas pedi-la, não. Nunca!»
 
O silêncio caído sobre o gesto de Eanes (deveria, pelo seu simbolismo, ter aberto telejornais e primeiras páginas de periódicos) explica-se pela nossa recalcada má consciência que não suporta, de tão hipócrita, o espelho de semelhantes comportamentos. “A política tem de ser feita respeitando uma moral, a moral da responsabilidade e, se possível, a moral da convicção”, dirá.
 
Torna-se indispensável “preservar alguns dos valores de outrora, das utopias de outrora”. Quem o conhece não se surpreende com a sua decisão, pois as questões da honra, da integridade, foram-lhe sempre inamovíveis. Por elas, solitário e inteiro, se empenha, se joga, se acrescenta- acrescentando os outros. “Senti a marginalização e tentei viver”, confidenciará, “fora dela.
 
Reagi como tímido, liderando”. O acto do antigo Presidente («cujo carácter e probidade sobrelevam a calamidade moral que por aí se tornou comum», como escreveu numa das suas notáveis crónicas Baptista-Bastos) ganha repercussões salvíficas da nossa corrompida, pervertida ética. Com a sua atitude, Eanes (que recusara já o bastão de Marechal) preservou um nível de dignidade decisivo para continuarmos a respeitar-nos, a acreditar-nos - condição imprescindível ao futuro dos que persistem em ser decentes.
 
 para reflexão, se ainda temos tempo para isso!!!
 
Nota: Já escrevi algures no Expresso um comentário sobre Ramalho Eanes, mas sinto-me na obrigação de dizer algo mais e que me foi contado por mais que uma pessoa. Disseram-me que perante as dificuldades da Presidência teve de vender uma casa de férias na Costa de Caparica e ainda que chegou a mandar virar dois fatos, razão pela qual um empresário do Norte lhe ofereceu tecido para dois.
 
Quando necessitava de um conselho convidava as pessoas para depois do jantar, aos quais era servido um chá por não haver verba para o jantar. O policia de guarda em vez de estar na rua de plantão ao fio e chuva mandou colocá-lo no átrio e arranjou uma cadeira para ele não estar de pé. Consta que também lhe ofereceram Ações da SLN-BPN, mas recusou.
 
publicado por Isabel A. Ferreira às 15:19

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Sábado, 12 de Dezembro de 2009

«Os Mal-Amados», livro de Fernando Dacosta

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
No dia do seu aniversário, a minha modesta homenagem, Fernado Dacosta.
 
 
Parabéns Fernando Dacosta!
Em 12 de Dezembro de 1945, nasce em Caxito, Angola, completando precisamente hoje, 64 anos.
Não conheço pessoalmente Fernando Dacosta. Só de nome. E que nome! Só da obra. E que obra! Um dia, talvez, me depare com ele, algures, num lugar de livros, e então, se ele não for vedeta (como penso que não será, porque quem é grande não precisa dessas coisas menores, como muitos que eu já tive o desprazer de conhecer), aproximar-me-ei dele e agradecer-lhe-ei a estética das palavras que deixou escritas nos seus livros, para meu deleite.
Sou uma leitora compulsiva. Tenho sempre uma montanha de livros à espera de serem lidos, mas nem sempre as coisas correm conforme o meu desejo. Gostaria de ter mais disponibilidade para a leitura. Mas em mim, existe também o apelo da escrita, e todas as coisas menores de um quotidiano de mulher, em idade activa, confinada à casa, porque o mercado de trabalho para alguém que escreve é absolutamente nulo. Sim, pode escrever, mas de borla (dizem-me). De borla, como se alguém pudesse alimentar-se de “borla”! O que me vale são algumas traduções e revisões tipográficas que dão para o vício: a compra de livros.
Se temos um livro para publicar, há que pagar a edição, com dinheiro que ainda não ganhámos. Talvez sejamos os únicos “obreiros” em Portugal (nos países com gente inteligente dentro, não é assim) que têm de pagar o que produzem, a “patrões”, que só mais tarde, (e é preciso andar a mendigar dois, três anos) nos dão uma migalhinha do produto desse trabalho, que, por vezes, demora anos a executar. E a sensação com que ficamos é a de que pegue lá uma esmolinha, e que seja pelas alminhas do purgatório! Quando for para o Céu, Deus Nosso Senhor a recompensará! O trabalho de criação é nosso, mas temos de pagá-lo, ao contrário das coisas normais. Isto é imoral, mas é a realidade portuguesa dos desapadrinhados da Literatura. No entanto, na primeira, quem quer cai, na segunda cai quem quer. Continuo a aguardar tempos mais inteligentes.
Daí sentir-me também mal-amada!
Mas quem sou eu, comparada com os mal-amados sobre os quais Fernando Dacosta fala no seu belíssimo livro? Não sou ninguém! E isso que importa? Nada, também!
No entanto, não é de mim, nem da minha marginalidade, como autora, que venho aqui tratar. Quero falar de Fernando Dacosta. Deste seu livro, em particular, que me deu um especial prazer a ler, e da sua escrita límpida, irrepreensível, fora da norma actual, que é a má escrita que por aí prolifera. Mas é essa má escrita que vende, e são os próprios agentes da cultura (os editores) que investem e promovem essa mediocridade. Logo ninguém se admire do estado da Nação.
 
 
Só agora tive oportunidade de ler «Os Mal-Amados» (que ficou em espera desde 2008), versão recriada do «Nascido no Estado Novo» (2001). Gosto de livros que falem de homens e de mulheres que deixam um rasto luminoso, por onde passam, e são esses, quase sempre os mal-amados.
Fernando Dacosta, jornalista e escritor de grande mérito, também ele um ser luminoso, tem uma escrita escorreita, cristalina, sem falhas, sem erros, sem obscenidades (agora tão na moda). Palavras correctamente dispostas, com grande sensibilidade, para dizer de existências, de pensamentos, de histórias, de sentimentos, de saberes.
Em «Os Mal-Amados», Fernando Dacosta fala-nos de factos da nossa História, de personalidades que a marcaram, e com quem privou e bebeu-lhes a essência da sobrevivência, neste nosso país, que parece ter nascido malfadado, mas riquíssimo em existências, gestas e gestos valorosos, que poderiam colocar-nos nos píncaros, se o povo que aqui nasceu não se tivesse em tão má auto-estima, e deixasse de venerar a inferioridade que vem de além-fronteiras.
No livro de Fernando Dacosta, além de me deleitar com a leitura da Língua Portuguesa utilizada de um modo magnífico, fascinaram-me as confidências de personalidades que, cada uma ao seu jeito peculiar, contribuíram para acrescentar ao nosso já tão rico espólio (não importa qual) algo de muito invulgar, ou não fossem essas personalidades pessoas invulgares.
Algumas delas tive também o prazer de conhecer pessoalmente, como Agostinho da Silva e Mário Viegas, entre outros, e com os quais partilhei pequenos episódios pitorescos, que talvez um dia, me dê para divulgar. Mas antes tenho muito caminho pela frente, para poder chegar aonde chegam os grandes (se é que algum dia chegarei!); ou então como chegam os que têm vidinhas pequeninas e redondinhas para contar.
Dizia então que «Os Mal-Amados» é um livro que os amantes da leitura devem ler, por todos os motivos e mais um. E esse mais “um”, é o que diz Baptista-Bastos (também este um Grande Homem Português, do Jornalismo e das Letras), na badana do livro: «Grande jornalista (o Fernando), porventura o maior repórter da sua geração; trouxe a sensibilidade, o colorido, o lado humano, secreto, porventura quase insondável dos factos quotidianos».
Abriu-nos uma janela para uma paisagem grande do nosso País e de alguns dos protagonistas da nossa história comum.
Obrigada, Fernando Dacosta.
Parabéns pelo livro, e pelo aniversário.
 
Isabel A. Ferreira
 
 
publicado por Isabel A. Ferreira às 16:41

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