Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

MAIORIA PSD DA PÓVOA DE VARZIM INVESTE DINHEIRO DOS IMPOSTOS EM CRUELDADE

 

«A Câmara Municipal da Póvoa de Varzim atribuiu na reunião de hoje (20 de Outubro) um subsídio de 6.150 € para a realização de uma tourada. Não consigo imaginar pior destino para os nossos impostos...» (João Trocado – deputado municipal, pelo PS)

Uma tourada para os caçadores da Estela. A violência da caça a gerar violência contra pacatos bovinos…

 

TOURADA NA PÓVOA.jpg

Uma imagem do “turismo de qualidade” de que tanto se orgulha a maioria do PSD que manda na cidade…

 

Ora aqui está uma postura muito "inteligente" por parte de quem manda na Póvoa de Varzim: são eleitos para servirem um POVO que se quer culto e civilizado ou o LOBBY TAUROMÁQUICO inculto e incivilizado?

 

Os caçadores são tão predadores como os tauricidas.

 

E na Póvoa de Varzim, uns e outros dão cartas.

 

E os que mandam vergam-se a este primitivismo impregnado de uma ignorância crassa, e investem dinheiros dos impostos dos munícipes nestas crueldades.

 

Disse-se num jornal diário que este apoio à tourada dos caçadores da Estela gerou polémica na reunião de Câmara na Póvoa de Varzim.

 

Pudera!

 

Elvira Ferreira, vereadora do PS, indignou-se e recusou-se a votar a favor da cedência da praça de Touros ao clube de caçadores para a realização de uma tourada, além da atribuição dos 6.150 Euros do erário público, para a realização da dita cuja.

 

Contudo, o subsídio foi aprovado com os votos do CDS-PP (como não podia deixar de ser) e da maioria do PSD (uma maioria retrógrada que gere os destinos de uma cidade enterrada no maltrato animal até à medula: touradas, vacadas, garraiadas, tiro aos pombos, circos com animais escravizados, corridas de galgos, lutas de cães, batidas às raposas, enfim…

 

E essa maioria PSD justificou, deste modo muito “racional”, a atribuição deste dinheiro dos munícipes aos caçadores da Estela: «casa cheia e o que o espectáculo – goste-se ou não – significa em termos TURÍSTICOS para a cidade».

 

Sim… em termos TURÍSTICOS, principalmente…

 

É que a tourada dos caçadores da Estela traz à Póvoa de Varzim bastantes turistas (ingleses, alemães, japoneses, americanos...); e centenas de escritores e amantes de livros e da Literatura, os mesmos que participam no Correntes d’Escritas; e também (e já agora) os apreciadores de música erudita, que costumam assistir ao Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim.

 

Os TURISTAS que costumam assistir às touradas na arena da cidade que sorri para a crueldade, são mais que muitos… Então não são?

 

Gente de finíssima estirpe. Gente cultíssima. Gente que é capaz de pagar mais depressa um bilhete para ver a CRUELDADE de uma tourada do que uma obra de Monet no Museu d’Orsey.

 

Então não é?...

Os turistas da Estela e arredores…

Então não é?...

 

Tenham mas é vergonha! E acabem com esta “coisa” primitiva e com esta visão pobre e podre de “turismo”…

 

Fonte:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10203120687681630&set=a.1917184652879.2097629.1339881169&type=1&fref=nf

***

Ver notícia neste link:

http://www.radioondaviva.pt/index.php/noticias/2930-ps-contra-apoio-a-tourada-de-clube-de-cacadores?hitcount=0

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:34

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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Ser escritor em Portugal

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
 
 
(Aspecto da sessão de abertura do Correntes d'Escritas, com o escritor Ascêncio de Freitas em primeiro plano)
 
 
É sempre com grande interesse que, na Póvoa de Varzim, acompanho o encontro de escritores de expressão ibérica, denominado Correntes d’Escritas, que este ano celebrou a sua 10.ª edição, com participantes de Portugal, Angola, Argentina, Brasil, Cabo Verde, Chile, Colômbia, Cuba, Espanha, México, Moçambique, Peru, São Tomé e Príncipe e Uruguai, com auditório completamente cheio, numa época em que a Literatura parece estar em agonia.
 
O meu interesse por este evento abrange várias facetas: primeiramente conhecer de perto os escritores e a sua obra; ouvi-los divagar sobre variadíssimos temas, e, à margem deles, anotar o que se diz, observar o que se faz, o que se aplaude e o que se desaprova, e evidentemente, estou também atenta aos interesses que fazem mover a grande engrenagem destas Correntes, particularmente, os interesses dos editores portugueses (quase sempre os mesmos).
 
O saldo, certamente, é positivo, em todos os aspectos.
 
Nestes encontros, porém, temos de tudo um pouco: temos aqueles escritores que verdadeiramente o são, isto é, escrevem para os seus leitores e quando estes os interpelam, são simpáticos, conversam, até fazem perguntas, e nós, como seus leitores, ficamos agradados. E temos os outros: aqueles que escrevem para eles. São antipáticos, e fogem dos leitores como o diabo da cruz. São os que, depois de “fazerem o nome” transformam-se em vedetas, sobem aos seus pedestais, e é dali que nos falam, ou então não falam, limitam-se a encolher os ombros, como quem diz estou demasiado alto para te ouvir. Estes, claramente, decepcionam os seus leitores, e não são, de modo algum, os verdadeiros escritores.
 
Como acompanho desde a segunda edição estas Correntes, habituei-me já a separar o trigo do joio, e do “trigo” selecciono os melhores grãos, e tiro proveito do que realmente me interessa.
 
De tudo isto ocorreu-me divagar sobre o que é ser escritor em Portugal.
 
No meu entender, a arte da escrita banalizou-se. Hoje, qualquer um que tenha um livro publicado é tido como um “escritor”. E eles nascem por aí como cogumelos. Basta aparecer na televisão, com uma vidinha mais ou menos turbulenta ou escandalosa, e logo dali nasce um “livro”, a vender milhares de exemplares, porque o que interessa aos editores é ganhar dinheiro. «A Cultura que se lixe», como os meus ouvidos já tiveram a infelicidade de ouvir. Proteger a Língua Portuguesa ou divulgar a Literatura propriamente dita, já não é da competência dos editores. Pelo menos de alguns.
 
Então, além da proliferação de livros que contam vidinhas e escândalos, os “escritores” da moda, os best-sellers, são os que andam por aí: badalados e mediáticos. A sua sobrevivência depende do mediatismo. Sem esse mediatismo não sobreviveriam. E até há quem fale em “escritores parasitas”, isto é, aqueles que pagam a alguém para escrever livros e depois colhem os louros.
 
É preciso estar no lugar certo, no momento certo, com a pessoa certa para que possa singrar-se no mundo da escrita.
 
Um dia, ouvi (ou li, não sei agora precisar) José Saramago dizer que se o escritor faz um trabalho de escrita, não deveria ter um salário de acordo com o trabalho que realiza? A escrita é a “mercadoria” do escritor, a única coisa que ele tem para vender, então por que não lhe pagam o justo valor?
 
Talvez porque não haja um “justo valor”. Põe-se o problema das horas de trabalho: como contabilizá-las? Existe uma certa frustração na realização do trabalho da escrita (pelo menos no que me diz respeito): gastam-se horas, dias, semanas, meses e até anos a escrever uma obra, que depois fica na gaveta porque ou não se é suficientemente mediático ou não se tem um bom padrinho, para ter o direito de publicá-la; ou se a publicamos não recebemos o justo pagamento. Os intermediários são tantos, que para o criador sobra a ínfima parte. Isto em Portugal, porque lá fora, o escritor recebe uma quantia razoável antes de ser publicado, e depois uma percentagem sobre os exemplares vendidos, o que é muito mais justo. Desse modo, impõe-se ao editor o dever de divulgar a obra, para este poder reaver o dinheiro investido e mais algum.
 
Em Portugal passa-se exactamente o contrário. Se queremos ser editados pagamos ao editor e este, não tendo investido nada, nada tem a perder, logo, nada faz para divulgar a obra, e esta, sem divulgação, acaba por ficar encalhada, por muito interessante que seja.
 
Há quem pense que a escrita (as Artes em geral) não é para ser paga. É algo que transcende o materialismo. No entanto, quando o apelo da escrita nos invade terá de ser amarfanhado pelas necessidades da sobrevivência?
 
 
A escrita requer determinadas condições: silêncio, isolamento, lugar envolto pela natureza e disponibilidade de horas (todas as horas só para a escrita). As dificuldades económicas do escritor (e dos artistas em geral) são a vergonha das sociedades, dos governos. Há muito desrespeito pelo seu trabalho. Parece que ele tem a “obrigação” de escrever e sobreviver apenas do ar que respira. A Cultura é ainda uma questão menor.
 
Hoje em dia, ninguém investe num desconhecido, ainda que a escrita desse desconhecido tenha qualidade. O que interessa é vender, e só vende quem se mostra, quem aparece, quem acontece, quem…
 
No entanto há tão bons escritores portugueses, que nunca são referidos nos jornais, nas revistas da especialidade, na televisão. E eu pergunto-me: porquê?
 
Os escritores contemporâneos meus preferidos são o Fernando Campos, o Luís Rosa, o Altino do Tojal, a Luísa Dacosta, entre outros. No entanto quem ouve falar acerca destes mestres da Língua Portuguesa?
 
Um dia, fui apresentada a um senhor editor de uma conceituada editora portuguesa, na altura da loucura do Big Brother. Ao ser apresentada disseram: Esta é uma escritora que faz edições de autor. E eu acrescentei: Faço edições de autor porque não vou ao Big Brother. O editor disse: Sabe, foi uma encomenda de uma grande superfície…
 
A encomenda era um livro do rapaz que mais mal falava (logo escrevia) no tal programa televisivo. Mas foi um best-seller. Tive a curiosidade de ler um excerto, quando fui a uma consulta médica e dei de caras com uma revista, onde se fazia parangona ao livro, logo na capa. Fiquei horrorizada com a “literatura” à qual a tal conceituada editora dava cobertura. Uma editora que já me havia recusado um texto. Não quero dizer com isso que eu seja uma “Saramago”, mas considero que a minha escrita é um pouquinho melhor do que a do tal rapaz.
 
E se quero ser editada por uma editora tenho de pagar o preço de ser escritora em Portugal. Assina-se um contrato, que nunca é cumprido pela editora. E não há lei alguma que obrigue as editoras a cumprir o que está estipulado no contrato. E as contas que deviam fazer-se semestralmente, passa-se um ano, passam-se dois, passam-se três e o escritor que viva do ar que respira, abundante e gratuito…
 
Será este um modo de servir a Cultura, em Portugal?
 
Isabel A. Ferreira
 
 
publicado por Isabel A. Ferreira às 19:27

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