Sexta-feira, 19 de Agosto de 2022

«O que se espera de um bom português é que seja parvo. Que não diga mal de nada. E, se o disser, que o diga meiga e alegadamente». Mas há os que não são parvos e dizem mal do mau, sem papas na língua…

 

… como deve ser dito tudo o que NÃO honra Portugal. É que isto de «em Roma sê romano», sem deixar de ser português, tem muito que se lhe diga… e não é para qualquer um…

 

Porque também andei por terras alheias, sem nunca deixar de ser portuguesa, a defender a honra de Portugal, identifico-me plenamente com o texto de António Mota, de leitura obrigatória.

 

Isabel A. Ferreira

 

António Mota.png

 

«Sem deixar de ser Português»

 

Por António Mota

 

1.

Não podemos agradar a todos. Em circunstância alguma, ia eu dizer. Mas não digo. Existe sempre a possibilidade teórica de se poder. Não a vou negar, então. Está bem? Mesmo sendo incongruente, não a vou negar. Mas eu não gosto nada de ser incongruente. O incongruente é um medricas, um inocente, ou um hipócrita. Isto se não for, muito simplesmente, um produto sacado à estupidez.

 

2.

Quero rematar, esta magna coisa do agradar, que o agradar é pura perda de tempo, no nosso caminhar. Isto porque no esforço do agrado prioritário, algo se perde sempre. No esforço do agradar deixarás de ser autêntico. Em qualquer lugar. Até aqui nesta montra sempre pronta a mostrar quem por aqui. Essa coisa do em Roma ser romano tem em si sabedoria bastante, tanta quanta a hipocrisia potencial do fingimento oportuno consagrado. Dá-se o caso do em Roma ser romano ser uma patifaria se for só para não assumires quem és, as raízes donde e donde vens, e as responsabilidades.

 

3.

Andei um pouco pelo mundo. E pelo mundo em circunstâncias especiais. E era e fui americano crítico nos EUA, sem deixar nunca de ser português. Fui professor de tradutores e intérpretes no Parlamento Europeu, no Tribunal, na Comissão e no Banco, sem deixar nunca de ser português, porque essa era a minha honra representativa digna, e sem complexo algum, gozando até com quem só então se sentiu europeu. Eu sempre fui europeu, por direito de nascença, e não pela força dum tratado que me diz que sou. Nunca precisei de deixar de ser português para ser europeu.

 

4.

E o que é que isto interessa? Interessa que nessas minhas andanças sempre andei por minhas forças, e por sorte e mérito. Não devia nada a ninguém e era livre. Mas havia o preconceito. Lá isso havia. Os americanos achavam impossível Portugal ter uma língua própria. E esperavam, certamente, que eu fosse um palerma. Pensavam até que Portugal era um país africano, ou da América Latina. E isso intrigava-os por causa da fama da bolsa de estudos que eu tinha, primeiro, e pelo meu desempenho entre e com eles depois.

 

5.

Já no Luxemburgo, onde ministrei uma vintena de cursos intensivos (90 horas) de Língua e Cultura Portuguesa, a elementos de todas as nacionalidades, que ganhavam mais de dez vezes que eu, também esperavam, acho que, um fulano qualquer, triste e apagado, à cata duns cobres, assim a modos de mendigados, mas ao segundo dia já tinham mudado de opinião. E isso, sim, é que é ser romano em Roma, sem deixar de ser português.

 

6.

Mas em todo o lado, por onde andei, havia sempre um momento ou mais, em que os meus interlocutores, não podiam esconder mais o preconceito da nossa pequenez em tudo, que era assim que nos viam, e vêem, e disparavam contra mim, dizendo, pretendendo elogiar-me, que eu não era, ou não podia ser, português, porque eu era como eles. E era, então, que eu lhes falava de Portugal, e eles ouviam, pela primeira vez, o que nunca tinham. E depois perguntavam-me, irónicos, se eu conhecia a qualidade pouca, envergonhada, ou nula, dos deputados europeus de Portugal. E de como é que era possível.

 

7.

E por que digo isto? Porque não escrevo para agradar a ninguém, tenho vergonha da condução política do meu país, tenho vergonha dos fogos, da corrupção, da incultura e da leviandade geral. E tenho vergonha da falta de vergonha que por aqui vai, e do silêncio oculto que paira sobre a nossa desgraça, enquanto aos milhões se enchem os bolsos dos répteis, e dos políticos vermes da coutada. E, ai de quem diga seja o que for.

 

8.

Sim. O que se espera de um bom português é que seja parvo. Que não diga mal de nada. E, se o disser, que o diga meiga e alegadamente. Que é assim. E que também. Que há fogos porque é claro que, embora nada seja claro. Que se diga que a serra arde, porque o sol nasce em cada dia e não devia. Que se diga tudo, sem que se diga nada. Que se devia, mas que não se pode mandar o governo à merda, por causa da guerra. E que não se deve perguntar por que arde tudo, porque o governo anda triste e de luto. Nem se deve perguntar ao Presidente, que é o Comandante Supremo das Forças Armadas, por que é que os aviões de ataque ao fogo portugueses, com o triplo da capacidade dos outros todos, ficam em terra e não levantam voo.»

 

Fonte:

https://www.facebook.com/antonio.mota.12139

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:00

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