Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2021

As palavras que Deus nunca diria…

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009

 

MINDINHA.jpg

A minha Mindinha - A gatinha mais sensível e meiga, de todas as gatinhas que já me acompanharam na Vida...

 

 

Se há verdades verdadeiras, uma delas é o meu inquestionável gosto pela leitura. Sem livros eu seria infeliz e vaguearia nas trevas. E porque gosto de ler, regresso quase sempre àqueles livros que em mim deixam cicatrizes na alma.

 

Desta vez reli «Da Imortalidade dos Animais – Uma esperança para as criaturas que sofrem», de Eugen Drewermann, uma edição de 1990, da Editorial Inquérito.

 

Precisava de fortalecer a minha esperança numa humanidade mais justa e mais condizente com a realidade da Vida. Não da insignificante vidinha de cada um. Mas de toda a Vida que nos rodeia: animais – humanos e não humanos – e plantas.

 

Este é um daqueles livros que deveria ser divulgado com grandes parangonas, nos meios de comunicação que habitualmente são utilizados para esmagar os nossos sentidos, com notícias de crueldades atrozes perpetradas contra essa Vida, que deveria ser preservada como um bem precioso e único. E ao contrário disso, é delapidada até ao indizível.

 

 «O que é a Vida?

Se usarmos do saber livresco diremos que Vida é o estado de actividade dos animais e das plantas. Deduzimos então que, no mundo conhecido, apenas os animais e as plantas vivem num estado de actividade desde que nascem. Uma pedra também nasce, e ali fica. Quieta. Não cresce. Morre, se a triturarem e a transformarem em pó. E o pó leva-o o vento. E quem chorará a morte de uma pedra? A galinha? Eu? Talvez outra pedra?!

 

Mas as pedras não choram, porque não vivem. A galinha vive. Eu vivo. Ambas choramos. Logo, a galinha e eu somos seres vivos. Somos animais.

 

Outros animais e plantas povoaram o Planeta muito tempo antes do homem. E cada um cumpriu a sua missão. Harmoniosamente. Animais de todas as espécies. Plantas, desde o miosótis ao mais frondoso plátano. Todos seres muito belos, mais-que-perfeitos. Seres sensíveis.

 

Só depois veio o homem, que encontrou um mundo fervilhando de vida até na mais pequenina fenda, entre os rochedos, à beira-mar.

 

No jardim vivia uma rosa. Viçosa e formosa. A rosa. O homem veio e disse: «Que linda é a rosa. É minha, pois não sou eu o dono do mundo? Vou levá-la comigo». E o homem arrancou a rosa da roseira, e a rosa murchou, e só o homem é que não viu. E continuou a clamar: «Eu sou o dono do mundo»!

 

Auto-intitulou-se um ser “superior”, só porque falava, pensava, fazia coisas com as mãos, que mais nenhum outro ser fazia. E, usando dessa pretensa “superioridade”, principiou então a maltratar os seus companheiros de vida: tortura e mata, por simples prazer, animais, plantas e até outros seres seus semelhantes. Polui as águas dos rios, dos oceanos e das fontes, que costumavam ser límpidas. Destrói as florestas que dão o oxigénio, sem o qual o planeta não respira. E tudo isto o homem vai fazendo em nome da tal “superioridade” e de interesses escusos, “valores” que desvalorizam a existência do próprio homem, e exterminam os animais e as plantas.

 

Durante milhares de anos, o planeta chamado azul foi azul da cor do céu; foi verde da cor dos prados; loiro da cor das searas; vermelho da cor do sol poente; teve todas as cores do arco-íris enquanto não veio o homem. Depois dele, e em nome da sua “superioridade”, o que foi um paraíso durante o reinado dos animais e das plantas, transformou-se em caos.

 

Se o lobo respeita o homem, porque não há-de o homem respeitar o lobo?

Se a árvore respeita o homem, porque não há-de o homem respeitar a árvore? Afinal, somos todos irmãos. Iguais, enquanto resultado do mesmo acto criador. Diferentes no modo como respeitamos a vida». (in Manual de Civilidade, da minha autoria).

 

Por esta altura (de touradas e de circos e de outros espectáculos anormais), eu, que tenho os animais não humanos e as plantas como meus irmãos (somos todos seres da mesma criação) necessito de ir buscar aos sábios, o alento que vive nas palavras que pensam e escrevem.

 

«Da Imortalidade dos Animais» começa com um poema que passo a transcrever:

 

«Vejam os animais, os bois,

as ovelhas, os burros;

acreditem, eles também têm alma,

também são seres humanos,

só que têm pêlo e

não podem falar;

são pessoas de tempos passados,

dai-lhes de comer;

vejam as oliveiras

e as vinhas... antigamente,

também elas eram seres humanos,

mas há muito, muito tempo,

e já não conseguem recordar;

mas o homem recorda

e por isso é humano.»

 

Nikos Kazantzakis

(Prestando contas a el Greco)

 

 

Neste poema, o que mais me enterneceu foi “acreditem, eles também têm alma”. Por fim, encontrei alguém que acredita naquilo que eu, desde criança, sempre acreditei.

 

Nunca tive dúvidas de que os animais têm uma alma como eu. Vivi com eles. Entre eles. Criei-os. Amei-os e fui amada por eles. Certo dia, teria eu uns sete anos, deram-me uma porquinha já desmamada. Adoptei-a como se fosse um cão ou um gato. E a minha relação com essa porquinha foi humaníssima. Era inteligente, brincalhona, limpíssima, e gostava de mim, tanto quanto eu gostava dela. Tinha a sua casinha no quintal, apenas para passar a noite. Uma casinha sem portas. Durante o dia, seguia-me para todo o lado. Há hora da sesta, dormia ao Sol, no tapete do meu quarto. Era da família.

 

Da família, foi também uma cabrinha, branquinha, que me ofereceram, quando a porquinha morreu num acidente, ao atravessar a estrada que dava para o fundo do meu quintal. E tal como a porquinha, a cabrinha também tinha alma e comunicava comigo com os seus “més” amorosos, com os seus olhares, com os seus maneios de cabeça. Tal como a porquinha, seguia-me para todo o lado, e gostava de mim tanto quanto eu gostava dela.

 

Vieram depois os pássaros, que faziam os ninhos nas árvores do meu quintal. Mais tarde, os cães, os gatos, e um ratinho branco, com uma história singular. Andava à solta na casa. Dormia onde queria. Por vezes, no meu travesseiro, e no meu ombro, enquanto eu escrevia. Com ele partilhava a maçã do meu pequeno-almoço. Tinha uns olhos penetrantes e melífluos e deixava os seus esconderijos secretos, quando eu o chamava pelo nome: Ratolinha. E ele lá vinha, a correr para a minha mão, onde se aninhava.

 

De todos os animais com quem já convivi, recebi um afecto imenso. Com eles aprendi grandes lições de vida, de felicidade, e também de profunda angústia, quando o momento final se aproximava.

 

E se os animais não têm alma, então também eu não tenho alma.

Tive uma gatinha, a mais sensível e meiga de todas as gatinhas, a qual, quando pressentiu que ia morrer, despediu-se de mim com um “miau” que ainda hoje me dói na alma (e já lá vão alguns anos).

 

A diferença, entre eles e eu, está apenas no verbo: eu utilizo as palavras para comunicar. Eles não. Contudo, comunicam através dos olhos, e é nos olhos dos animais que as suas almas se acolhem, e nos dizem as coisas mais extraordinárias.

 

Por tudo isto, não posso atribuir a Deus aquelas palavras que a Bíblia diz ter Ele proferido ao criar Adão e Eva: «Crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem sobre a Terra (Gn1, 28)».

 

Crescei e multiplicai-vos e enchei a Terra, talvez!

«Sujeitai-a e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem sobre a Terra», são palavras que Deus nunca diria. Fazemos parte da sua criação. Todos nós. Animais, humanos e não-humanos, e as plantas.

 

Apenas o homem seria capaz de pronunciar tais palavras, em nome de Deus, como tantas outras coisas fez e disse, em nome de Deus, apenas por conveniência, enchendo de vergonha a Humanidade.

E quem escreveu a Bíblia foram os homens. Não Deus.

 

Uma das vergonhas, entre as muitas outras vergonhas que desonram a essência humana do homem, é o modo como ele trata os animais, torturando-os, massacrando-os, experimentando-os, em nome da economia e da diversão.

 

Na contracapa «Da Imortalidade dos Animais» pode ler-se:

 

«Como corolário de uma tradição religiosa que superlativou o homem como ser imortal, destinado à salvação e à ressurreição, distinguindo-o de todas as outras criaturas terrenas, a nossa civilização despreza os animais e trata-os com uma crueldade inenarrável em nome da economia, da ciência e do espectáculo. Esta breve, mas profunda reflexão sobre a condição dos seres ditos “irracionais” é simultaneamente um manifesto em defesa dos seus direitos e uma busca dos laços que unem os homens aos animais, resultando numa visão renovada da própria espiritualidade humana».

 

Se há livros que deviam fazer parte de um estudo superior obrigatório, é este, para que os jovens possam desenvolver neles a ideia de que todos os seres animados têm alma, e se têm alma, são imortais, e se são imortais… lá nos haveremos de encontrar, e encontrando-nos, se quisermos alcançar um lugar no paraíso, teremos de prestar contas, e nessas contas, entre muitos outros dizeres, teremos de confessar: «Não maltratei nenhum animal», e os animais terão de dizer: «Não temos nenhuma queixa contra esta pessoa…». Coisas dos antigos. Mas eles sabiam o que diziam.

 

E quem assim falar, será o verdadeiro Homem, aquele a quem Deus sorrirá…

 

 

Para completar esta reflexão, eis algumas mensagens que mentes brilhantes nos deixaram acerca deste tema, todos eles Homens intemporais.

 

Chegará o dia em que todo o homem conhecerá o íntimo de um animal. E nesse dia, todo o crime contra o animal será um crime contra a humanidade.

 

(Leonardo da Vinci)

 

Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar o seu semelhante!

 

Primeiramente, é a solidariedade com todas as criaturas que torna um homem verdadeiramente humano.

 

(Albert Schwweitzer – estadista, Nobel 1952)

 

A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de carácter e pode ser seguramente afirmado que, quem é cruel com os animais, não pode ser um bom homem.

(Arthur Schopenhauer)

 

A grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser julgados pela maneira como os seus animais são tratados.

(Mahatma Gandhi)

 

A não-violência leva à mais alta ética, a qual é o objectivo de toda a evolução. Até que paremos de prejudicar todos os outros seres viventes, seremos ainda selvagens.

(Thomas Edison)

 

Para a pessoa cuja mente é liberta, há algo ainda mais intolerável no sofrimento dos animais do que no sofrimento dos humanos. Porque no caso dos humanos, pelo menos admite-se que o sofrimento é algo ruim e que aquele que o causa é um criminoso. Contudo, milhares de animais são desnecessariamente assassinados, todos os dias, sem sombra de remorso. E se alguém protesta contra isso, acaba por ser ridicularizado. E isso, por si só, é um crime imperdoável.

(Romain Rolland – Nobel 1915)

 

E só quem teve o privilégio de partilhar a existência com animais sabe que tudo isto é verdade. Eu sempre o soube, desde criança. Eles são meus iguais, porque criaturas da mesma criação. Sofrem e regozijam-se; sentem fome, frio, sede, dor, tal como eu; e quando a morte chega, olham-nos com um olhar que diz tudo o que as palavras não dizem. Eles partem, mas esperam por nós, para confirmarem: «Não temos nenhuma queixa contra esta pessoa».

E então Deus sorrirá…

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:25

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Segunda-feira, 29 de Maio de 2017

Carta aberta de Rui Palmela ao Padre Vítor Feitor Pinto

 

A propósito de um texto que escrevi em 2012, sobre a muito “franciscana” afición do padre Vítor Melícias, o Rui Palmela enviou-me um comentário, onde partilha a Carta Aberta que dirigiu ao padre Vítor Feitor Pinto, porque isto de padres católicos e touradas, são como unha e carne.

 

Nada sabem da criação do Deus que dizem representar, nem da obediência aos Papas, Pio V, Bento XVI entre outros, nem da Laudato Si’, Carta Encíclica do Papa Francisco, enfim, mas sabem de carnificina q.b.

 

Porque concordo com cada palavra do Rui Palmela, dou destaque à sua Carta e faço também minhas todas as palavras que escreveu…

É urgente que a igreja católica se transforme em Igreja Católica.

 

MELÍCIAS.jpg

Grande Corrida Caras, em 2 de Maio de 2010 na praça de Touros do campo pequeno, em Lisboa. Padre Victor Melícias (embaixador português junto da UNESCO).

 

Rui Palmela, deixou um comentário ao post «As touradas, o padre Melícias e a Assembleia da República» às 00:21, 2017-05-25.

 

Comentário:

 

Entrei casualmente no Blog e aplaudo tudo o que nele se escreve contra a Tauromaquia de que o padre Vítor Melícias é fervoroso aficionado apesar de se dizer "franciscano".

 

Gostaria de partilhar aqui também uma CARTA ABERTA que dirigi há algum tempo ao padre Vítor Feitor Pinto por causa de uma afirmação que ele fez um dia dizendo que "os animais não têm alma"... Em face disso escrevi-lhe uma carta que deixo aqui:

 

Caro sr. Padre Vítor Pinto: Confesso que sempre gostei de o ouvir como homem da Igreja cheio de grande lucidez e sensatez falando das questões humanas cuja cultura não questiono pela sua dimensão, porém surpreendeu-me bastante pela forma como se exprimiu em relação aos animais que tal como diz o Génesis da Criação são criaturas de “almas viventes” criadas por Deus que fazem na Terra o percurso de sua evolução.

 

O homem surgiria muito tempo depois para dominar sobre todas as espécies e direi mesmo que muitos já perderam sua alma e se comportam hoje como 'zombies' sem coração que devoram até às entranhas seres viventes que confiam no homem, mas este se tornou pior que as bestas-feras que mata todos os dias milhões de animais que sofrem, mas como “não têm alma” são vistos como ‘coisas’ que vivem apenas para a nossa alimentação. É assim que pensa a maioria dos humanos e o sr. padre não é excepção!

 

Agora entendo porque é que muitas pessoas crentes em Deus desprezam e maltratam animais, inclusive com a bênção da Igreja Católica que não reprova as touradas por exemplo, de que o Padre Vítor Melícias é um grande aficionado apesar de se dizer “Franciscano”. Creio que Francisco de Assis ficaria escandalizado com isso e mais ainda a “Nª Srª da Conceição” que vê horrorizada o que se passa em Barrancos por altura das festas em seu nome que culminam com a tortura e morte de toiros frente à Capela, em plena praça pública, tudo feito em nome de uma 'tradição' que a Igreja aprova quando devia condenar esta situação. Mas, é claro, como “os animais não têm alma” (segundo a Igreja), então as pessoas pensam que eles não sofrem como nós e continuam a tratá-los de forma cruel e nisso tem muita responsabilidade a própria Religião. Talvez por isso o Pregador Eclesiastes já dizia o seguinte: ...”

 

«O que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, como morre um, assim morre o outro. Todos têm o mesmo fôlego (alma, pneuma, anima); e a vantagem dos filhos dos homens sobre os animais (a este respeito) não é nenhuma. Todos vão para um lugar, todos são pó (matéria perecível) e ao pó (à terra) tornarão. Quem adverte que o fôlego (alma) dos filhos dos homens sobe para cima (para os céus) e que o fôlego (alma) dos animais desce para baixo da terra (ao inferius)?» - Eclesiastes, cap. 3:19 a 21, da Bíblia.

 

Portanto, caro senhor Padre Vítor Pinto, espero que cultive melhor a palavra de Deus e não a sua que precisa ser mais repensada e cuidada para não induzir em erro quem lhe pede esclarecimentos ou explicações sobre coisas para as quais deveria estar melhor preparado e não criar mais confusões. Os animais têm mesmo sua alma e sofrem como nós e deveriam ser respeitados e não torturados nem transformados em refeições. É o que penso de minha alma e meu coração!

 

Com os meus cumprimentos,

 

 ***

Já agora, para completar este périplo pelos pecados da igreja católica no que diz respeito a esta matéria, podem consultar o texto abaixo referido, onde esta relação mórbida é abordada.

 

 

A Igreja Católica e a tourada

03 de Dezembro de 2012

http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/201627.html

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 12:01

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Quarta-feira, 7 de Agosto de 2013

TOURADAS – O SANGRENTO ESPECTÁCULO DA MORTE

 

Dedico este vídeo aos tauricidas, que se dizem católicos, e são tão falsos como Judas Iscariotes

 

Vejam se aprendem alguma coisa!

 

 

Por Airton Evangelista Costa

 

«QUANDO O TOURO acerta em cheio o traseiro do toureiro, minha alma grita "bem feito!".

 

Um caso raro, porque nesse embate o homem é sempre o vencedor. O animal dispõe apenas de seus chifres e de sua força. O toureiro, de cavalo veloz, lanças afiadas, malícia e estratégia.

 

Depois de muitos avanços inúteis no sentido de alcançar o alvo, o touro, aos poucos, perde as forças. Dá-se início à tortura. O toureiro começa a enfiar lanças no dorso do animal. O povo se anima. O espectáculo se aproxima do ponto mais emocionante.

 

Velhos e jovens, mulheres e crianças ficam atentos aos detalhes. O touro está banhado de sangue, um sangue carmesim que contrasta com a sua pele escura. Vencido pelo cansaço e por uma dor inigualável, ajoelha-se diante do seu carrasco.

 

Não tem energia nem para um último berro, como se fora um pedido de misericórdia. A matança é sem misericórdia. O povo aplaude. Chega o momento mais emocionante. O carrasco segura com as duas mãos uma afiada lança e a crava com força nas costas do animal.

 

Depois, num gesto final de humilhação dá as costas para o animal, e, eufórico, recebe os aplausos e os gritos de contentamento da multidão. Agradecido e feliz pelo bom trabalho realizado, atira seu chapéu para o alto e corre para receber o seu salário.

 

Todos vão para casa, alegres e satisfeitos por mais um domingo de muita emoção.

 

Quem é mais irracional, o touro ou o homem?

 

O homem faz o mesmo com seu semelhante: mata pelo simples prazer de matar. O homem do nosso século é o mesmo de há dois mil anos atrás. A crucificação de marginais alegrava os corações.

 

O martírio de Jesus e mais dois homens foi uma festa. O povo saiu da monotonia do quotidiano. As touradas são um péssimo exemplo de como se deve torturar um animal até a morte.

 

Em que evoluímos?

 

Deus abomina essa violência contra os animais. Vejam o que Ele disse a Jonas: "E não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive em que estão mais de cento e vinte mil homens que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e também muitos animais?" (Jn 4.11).

 

E diz mais em Provérbios: "O justo tem consideração pela vida dos seus animais, mas as afeições dos ímpios são cruéis" (Pv 12.10).

 

"O viver em rectidão, segundo a vontade de Deus, inclui a bondade para com os animais. Eles são úteis aos seres humanos, concernente ao companheirismo, trabalho, alimentação, e nunca devemos maltratá-los, nem deles fazer uso de modo cruel (Gn 1.18; 9.3; 24.32; Dt 25.4)" (Bíblia de Estudo Pentecostal).»

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:11

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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2012

Quem se considera superior às Aves do Céu não vale nada, João Pedro de Idanha- a Nova!

 

 

 

 

João Pedro deixou um comentário ao post O responsável pelos inocentes bovinos de Idanha-a-Nov já foi detido, responsabilizado e vai ser condenado como merece?  

 

«O homem não será dono do mundo, mas tem o direito à sua vida e a matar se for ameaçado e não tiver outra formas de se proteger.

 

E quanto à minha educação e lucidez, estou muito contente com elas até prova em contrario. O facto de termos visões diferentes não lhe atribui qualquer qualidade para tanto panfletarismo, como dizer que "a maioria é contra touradas", um ideia que nunca se provou até porque cada grupo acena com "estudos" de resultado oposto, ou de atribuir a todos os que não pensam da mesma forma um estatuto quase monstruoso.

 

Por respeito ao facto de estar num espaço que não é o meu nem propriamente público, não escreverei aqui sobre a forma como pretende descredibilizar quem pensa de forma diferente sem quaisquer fundamentos senão chamar-lhes "bárbaros".

 

Já que fala em valores cristãos, relembro-lhe esta passagem do Novo Testamento: "Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?" (Mateus 6, 26

 

***

 

Ó João Pedro, faça-me um favor, seja RACIONAL.

 

Vamos pensar juntos.

 

Todos temos o direito À NOSSA VIDA. Certo. Assim como todos os outros seres TÊM DIREITO À VIDA DELES. Verdade?

 

Todos temos o direito a defender a nossa vida. Certo. Mas NÃO TEMOS O DIREITO DE MATAR. Certo? A não ser que estejamos na situação de matar ou morrer. Só nessas circunstâncias teremos perdão. Certo? E mesmo assim, ficaremos com uma morte na consciência, se tivermos consciência.

 

O que não foi o caso da matança dos bovinos em Idanha-a-Nova.

 

As “autoridades” envolvidas nesta vergonhosa e criminosa iniciativa ficarão para sempre manchadas com o sangue que derramaram, quando HAVIA OUTRAS SOLUÇÕES.

 

Mas MATAR é mais fácil do que PENSAR, não é João Pedro?

 

Quanto à “maioria ser contra as touradas” SÓ NÃO VÊ QUEM É CEGO MENTAL.

 

A esmagadora maioria do povo português e do povo do mundo É CONTRA AS TOURADAS. E sabe porquê? Porque os tauricidas são uma minoria, em tudo: apenas oito países, entre 196, que existem no mundo, são tauricidas. Dos 308 municípios que existem em Portugal, apenas quarenta e poucos são tauricidas. As pessoas que vão às touradas são cada vez menos, e as que vão ou são familiares dos intervenientes da tortura, ou gente a quem as autarquias oferecem um bilhete, e tudo o que é de borla, para o portuguesinho, é bom.

 

E por aí fora…

 

E sim, é MONSTRUOSO e BÁRBARO o facto de haver gente que gosta de ver e de TORTURAR seres vivos. Isso demonstra uma psicopatia grave, que qualquer psiquiatra ou psicólogo podem diagnosticar, de caras. E não tem nada a ver com “pensar diferente” nem com “gostos”. Tem a ver com DESVIOS COMPORTAMENTAIS.

 

NÃO É NORMAL um ser humano sentir prazer na TORTURA (algo que é completamente ANORMAL e DESUMANO). Pense um bocadinho, João Pedro. Não diga disparates. Pense primeiro.

 

Por fim cita a Bíblia. É o costume daqueles que praticam o MAL e andam sempre com o nome de DEUS na boca, e com a Bíblia debaixo do braço, sem a mínima capacidade para interpretar o que foi escrito por homens pouco cultos, num tempo arcaico.

 

Quem se considera superior às aves do céu, que nem semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros, mas também não poluem o Planeta ao qual pertencem, não destroem o que constroem, não torturam nem matam por prazer, não fazem guerras, não fabricam armas, não são sádicas, nem psicopatas, nem necrófilas, nem pedófilas, nem corruptas, nem ladras, nem assassinas, nem agiotas,  nem burlonas,  e têm o poder de voar, quem se sente superior a um ser assim NÃO VALE NADA, João Pedro, não vale o ar que respira. Não vale um tostão furado.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:07

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Quinta-feira, 18 de Outubro de 2012

Senhor padre Carlos, é verdade que quer exterminar os animais do Externato de Penafirme, carinhosamente protegidos pelo Padre Alfredo Cerca, fundador desta instituição que se diz “católica”?

 

 
O que terá a dizer a Igreja Católica Portuguesa?

 

O que está a passar-se com 40 gatos e alguns cães residentes há muitos  anos, no Externato de Penafirme, Santa Cruz, em Torres Vedras, financiado pelo Ministério da Educação?

 

O director daquele colégio e fundador de tão grande obra, o Padre Alfredo Cerca, viveu sempre rodeado pelos animais que ali habitavam.

 

Tratou-os sempre como se deve tratar os animais. Estes conviviam com as pessoas, crianças e funcionários. Nunca houve nenhum problema.

 

O Padre Cerca mandou construir as boxes para os cães, esterilizou quase todos os felinos e nunca houve uma reclamação.

 

Mas o Padre Cerca reformou-se e deixou o Externato.

 

Foi então que chegou o padre Carlos Silva, que segundo dizem (MAS NÃO ACREDITAMOS) quer exterminar os animais do Externato, não permitindo que os alimentem, e não os querendo lá, pois afirma «que não é higiénico e que ali não é lugar para ter animais».

 

É verdade, Padre Carlos?

 

O padre Carlos diz que «os cães já fizeram a sua obrigação» e pensa-se que vai mandá-los eutanasiar.

 

É verdade, padre Carlos? Mas com que direito?

 

E podemos perguntar: será que quando o senhor padre Carlos terminar de cumprir as suas funções, também deve ser eutanasiado?

 

Antes do homem, já existiam os animais. A Bíblia diz-nos que Deus criou primeiro os animais e só depois o homem.

 

Que princípios cristãos terá o padre Carlos?

 

Quem não ama os animais, é incapaz de amar também as pessoas.

 

Circula já uma petição para SALVAR os animais, que no Externato sempre tiveram o seu abrigo.

 

http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2012N30509

 

Dizem-nos que os animais ESTÃO SEM COMER JÁ HÁ DIAS...

 

É verdade, padre Carlos?

 

Sabemos que a APA de Torres Vedras teve uma reunião com o padre Carlos, que resultou infrutífera.

 

É verdade, padre Carlos?

 

Ninguém pode entrar no local porque é propriedade privada.

 

Os animais estão em vias de morrer à fome.

 

Isto é verdade, Padre Carlos?

 

Se é verdade o senhor está a cometer um crime, do qual deve ser punido severamente.

 

Que exemplo está a dar num Colégio frequentado por centenas de jovens?

 

A obra erguida e deixada pelo Padre Alfredo Cerca merece ser respeitada.

 

Mas mais respeitados merecem ser os animais, que não têm culpa da existência de um padre, que se diz católico, mas tem um pacto com o belzebu.

 

Os animais também são filhos de Deus, padre Carlos.  

 

Gostaríamos de uma resposta CRISTÃ para esta pergunta:

 

É verdade o que dizem, padre Carlos? é que não acreditamos.

 

 Isabel A. Ferreira

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:00

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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

José Saramago, a Bíblia e Caim

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
 
JOSÉ SARAMAGO
 
Porque gosto de uma boa polémica, de provocadores, de ser provocada, e também de provocar, atrevo-me a deixar aqui a minha opinião sobre a controvérsia que se gerou ao redor do «Caim» de josé saramago *.
Deixada a questão política do lado de fora deste blog, uma vez que não comungo da ideologia comunista conotada com o autor, devo confessar que, apesar disso, aprecio alguns livros de josé saramago. Não todos. Li sofregamente o «Ensaio Sobre a Cegueira» (magnífico) e «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» (interessantíssimo). Os outros, confesso, não os li com tanta “sede”. Fui lendo... Outros, ainda não os li. Estão no “monte”, à espera de vaga.
Contudo, considero saramago um dos nossos grandes autores.
Quando surgiu o seu «Caim» fiquei interessadíssima, porque foi um tema sobre o qual também já havia escrito, em 1998, e que cheguei a publicar, em vários jornais e revistas, inserido num texto intitulado «O Sexo das Palavras». Então pensei: o impacto que a leitura da história de Caim e Abel provocou em mim seria igual ao de saramago?... Fiquei curiosa.
 
A BÍBLIA
 
(Página da Bíblia dos Capuchinhos)
 
Naquela altura escrevi: «Isto do mundo dividido entre o masculino e o feminino não dá com nada. (...) O homem sem a mulher não existiria e o vice-versa também não. Embora, segundo a história bíblica, que foi inventada por homens, a primeira e única mulher da época – Eva – foi criada a partir de uma costela de Adão – o único homem de então. Deste casal, nasceram dois filhos – Caim e Abel. Caim matou Abel. E assim aconteceu o primeiro homicídio da humanidade (quando havia apenas quatro seres no mundo) com a cumplicidade do próprio Deus, pois foi Deus que disse ao assassino, quando este, diante Dele se mostrou com medo que o matassem também: «Quem matar Caim terá um castigo sete vezes maior», e Deus marcou-o então com um sinal para que em toda a parte se soubesse que nenhum mal poderia atingi-lo.
E foi deste modo ilibado pelo próprio Deus em pessoa que Caim partiu para o país de Nod, sem que justiça fosse feita, como convinha a quem inventou a história. Talvez esta passagem bíblica explique porque os nossos bandidos sempre foram tão protegidos pelas leis que temos (também todas feitas por homens).
Depois deste primeiro homicídio, nunca mais houve parança, e as matanças sucederam-se e continuaram a suceder-se em massa, até aos nossos dias, sob o olhar impávido e indiferente dos homens, enquanto as mulheres, que são um pouco mais poupadas a essas matanças, choram os filhos mortos.
De quatro seres (Adão, Eva, Caim e Abel) ficaram apenas três, a vagar pela Terra imensa. O que se passou depois é um verdadeiro enigma. Diz a Bíblia que o assassino foi para o país de Nod. Caim nunca mais falou com o Senhor, mas não foi por Ele abandonado, apesar de ter assassinado o irmão. Deus premiou-o com o poder de fundar uma cidade e até lhe concedeu uma mulher. O que não nos foi explicado é de onde saiu esta mulher.
E assim, deste modo enigmático, os homens foram-se multiplicando à face da Terra, até dar no que deu: um superpovoamento, onde milhões morrem à fome, e outros milhões vomitam a fartura».
Como não sou saramago, esta minha intromissão no Velho Testamento, não teve qualquer repercussão, em nenhum aspecto. Ninguém me disse que não deveria ter lido a Bíblia de um modo literalista. Também, até hoje, não ouvi nenhum padre da Igreja Católica explicar o sentido simbólico desta história, ou das outras histórias bíblicas em que Deus aparece como um justiceiro irado.
Quando era menina, como todas as meninas, andei na Catequese. Tinha nove anos. E esse foi o pior tempo da minha vida. A catequista, uma senhora já de certa idade, incutiu-me (a mim e às outras crianças, mas falo por mim) um tal temor a Deus, que à noite tinha pesadelos, dos mais terríveis. Tudo era pecado. Tudo Deus castigava com grande violência, acenando-nos com o fogo do Inferno, para toda a eternidade, e Satanás a picar-nos com a sua forquilha, rindo dos nossos gritos aflitivos, mostrando os dentes ameaçadores.
O medo de Deus era imenso. Ensinaram-me, não a amá-lo, mas a temê-lo mais do que ao Diabo. Literalmente. Contudo, esse era um segredo só meu. Nunca o partilhei com os meus Pais, como devia.
Essa respeitável senhora ensinou-nos igualmente, que no dia da nossa Primeira Comunhão, tinha eu oito anos, ao recebermos o Senhor, não podíamos encostar a hóstia aos dentes, ou “trincá-la”, uma vez que poderíamos ferir a carne de Nosso Senhor, e os nossos vestidos, imaculadamente brancos, ensanguentar-se-iam. Morder a carne de Nosso Senhor (que, na altura, para mim, era uma pessoa), soou-me a canibalismo, desde então).
Ora eu, que era um pouco atabalhoada, vi-me muito aflita para não encostar a hóstia aos dentes, e na aflição de não o fazer, trinquei-a, e foi então que começou o meu martírio. Passei o resto da cerimónia a ver se o meu vestidinho branco estava manchado com o sangue de Cristo. Não dei conta disso, mas estragou-me aquele dia, e todos os dias que vieram a seguir, durante alguns anos. Escusado será dizer que dali em diante, comungar, foi para mim uma tortura.
Como gostava de ler, tive curiosidade de ler a Bíblia. E ao ler a Bíblia, evidentemente, comecei pelo Velho Testamento, e lá encontrei o Deus cruel e vingativo, do qual a minha catequista nos falava, e do qual também nos fala saramago. E nunca ninguém nos disse que o que estava escrito na Bíblia, na verdade, não era o que estava escrito. Era outra coisa. Ora para uma adolescente, o que é, é, o que não é, não é. E penso que sempre assim foi, em todos os tempos. E a Bíblia era (é) para ser lida por gente comum, que nada sabe sobre Exegese (o que é isso?)...
Talvez, por este motivo, josé saramago, que é inteligente e tem sentido crítico, disse o que disse sobre a Bíblia, que obviamente conhece bem: «A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade – A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura! (…) Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca». E no início do seu «Caim» faz uma citação, do que chama «Livro dos Disparates», ou seja, a Bíblia.
Pois na parte que me toca a mim, o meu martírio durou até aos meus quinze anos, altura em que o meu sentido crítico começou a despertar, e cheguei à conclusão de que nada daquilo que me ensinaram sobre as coisas de Deus podia ser verdade. A missa não me dizia nada; comungar ainda me dizia menos; confessar-me, nem pensar, e decidi então acabar com todo o mal-estar que as coisas da Igreja me provocavam.
Procurei um padre franciscano, e com ele desabafei durante umas duas horas, sentados ambos numa pedra, nos claustros exteriores do Convento de Santo António, no alto do Morro com o nome do Santo, no Rio de Janeiro. Contei-lhe as minhas mágoas, os meus temores, as minhas aflições, e principalmente a minha ideia de Deus, que não coincidia com nada do que me haviam dito Dele, até àquele momento. Ele ouviu-me, em silêncio. No final, aconselhou-me a seguir sempre o meu coração e o meu instinto, libertando-me, desse modo, de conceitos religiosos totalmente castradores.
A partir de então, comecei a minha busca de Deus (que durou vários anos) de um modo racional. A Bíblia, tornei a lê-la com outros olhos, muitos anos mais tarde, já adulta, e ao contrário de josé saramago, desta vez, não encontrei, no Velho Testamento, o Deus cruel que me atormentou na adolescência. Mas sim um deus inventado pelos homens que escreveram todas aquelas histórias à medida da conveniência política, moral e social, da época, e de acordo igualmente com a incultura e a mentalidade pouco evoluída de então.
A Bíblia, para mim, deixou de ter o sentido “sagrado” que lhe era (é) atribuído. E já me apeteceu reescrevê-la à luz do meu conceito de Humanidade e de Deus. Por vezes, escrevo textos onde pode ler-se «o que Deus nunca diria».
Hoje, a Bíblia, nomeadamente o Velho Testamento, para mim, e até que algum padre da Igreja Católica consiga explicar, com lógica, o simbolismo de algumas histórias, como a de Caim, não passa de um conjunto de livros, uns mais interessantes do que outros, sem o Deus, no qual eu acredito, dentro. O Deus em que eu acredito não está lá. O Deus do Novo Testamento aproxima-se do Ser Cósmico, da Luz, da Energia, do que se lhe queira chamar, que rege o Universo, e no qual até Einstein acreditava. O que a Ciência não consegue explicar, aí está Deus.
Não considero a Bíblia, como saramago, o «Livro dos Disparates». Ela é, tal como outros livros ditos “sagrados”, um livro escrito, há milhares de anos, por homens com mentalidade pouco evoluída, e deve ler-se como se lêem as tragédias dos grandes autores clássicos gregos. Nem mais, nem menos. Literatura, da qual se gosta ou não se gosta.
Durante a polémica gerada pelas declarações de saramago, vi padres católicos criticarem o autor, na televisão, mas não ouvi nenhum contar a história de Caim como dizem que deve ser interpretada. Que simbolismo terá este primeiro assassinato da Humanidade, com o aval de Deus?
Ocorre-me então uma pergunta: quando se traduziram e juntaram os livros da Bíblia, pensar-se-ia que ela iria ser lida apenas por exegetas? Se não, ou se traduziam os livros de modo a que pudéssemos ler as duas versões (a literal e a simbólica) ou então não se admirem de haver homens com sentido crítico, a denominarem-na «Livro dos Disparates».
 
«CAIM» – O LIVRO
 
 
Ao ler os dois primeiros capítulos de «Caim», confesso que fiquei decepcionada. Ocorreu-me comentar com alguém que saramago havia envelhecido, e com a velhice perdera a criatividade literária que o conduziu ao Prémio Nobel. Entrara em decadência.
Porém, desta vez (ao contrário, por exemplo, do que aconteceu com «Todos os Nomes»), decidi avançar na leitura, até porque ainda não tinha chegado propriamente à história de Caim. E continuava curiosa. Foi então que me surpreendi. Apesar de não ter os atributos criativos d’ «O Evangelho Segundo Jesus Cristo», a narrativa começava a interessar-me.
Dir-se-ia que josé saramago teve a ideia de escrever sobre o tema, e ainda não o tinha bem elaborado, quando começou a passá-lo para o papel; só ao cabo de algumas páginas, deixando-se conduzir pelas palavras, ei-lo no caminho da verdadeira narrativa saramaguiana.
Devo dizer que achei o livro muito interessante, exceptuando os primeiros dois capítulos, como já referi (o que considerei um autêntico despropósito) e aqui e ali uma linguagem de muito mau gosto, que um laureado com o Nobel não deveria utilizar (no meu entender, claro). A Língua Portuguesa é demasiado rica em palavras e expressões que podem descrever de um modo subtil e lírico, o que nem sempre é delicado e romântico. E a arte de quem escreve também está no modo como descreve determinadas cenas, eventualmente chocantes, tornando-as aprazíveis aos sentidos. Uma poça de água choca pode tornar-se quase um lago, se lhe chamarmos um charco.
Para finalizar, tenho duas observações a fazer: a primeira é que, afinal, interpretei a história de Caim, tal como saramago – literalmente – nem as Bíblias anotadas conseguem explicar o sentido daquela história, de modo a que satisfaça as mentes pensadoras e com sentido crítico; a segunda, é que ao ler o «Caim» de saramago, cheguei à conclusão de que não fora as declarações que o autor fez publicamente sobre a Bíblia, o livro passaria quase despercebido. É interessante, mas não josé saramago no seu melhor.
 
* Uma vez que no livro «Caim», o autor utilizou letras minúsculas para escrever os nomes das personagens, deduzi que talvez não goste que se utilize letras maiúsculas para escrever o seu próprio nome, daí ter optado por escrevê-lo também em minúsculas.
 
publicado por Isabel A. Ferreira às 10:50

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Domingo, 2 de Agosto de 2009

As palavras que Deus nunca diria

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
 

MINDINHA.jpgA minha Mindinha - A gatinha mais sensível e meiga, de todas as gatinhas que já me acompanharam na Vida...

 
 
Se há verdades verdadeiras, uma delas é o meu inquestionável gosto pela leitura. Sem livros eu seria infeliz e vaguearia nas trevas. E porque gosto de ler, regresso quase sempre àqueles livros que em mim deixam cicatrizes na alma.
 
Desta vez reli «Da Imortalidade dos Animais – Uma esperança para as criaturas que sofrem», de Eugen Drewermann, uma edição de 1990, da Editorial Inquérito.
 
Precisava de fortalecer a minha esperança numa humanidade mais justa e mais condizente com a realidade da Vida. Não da insignificante vidinha de cada um. Mas de toda a Vida que nos rodeia: animais – humanos e não humanos – e plantas.
 
Este é um daqueles livros que deveria ser divulgado com grandes parangonas, nos meios de comunicação que habitualmente são utilizados para esmagar os nossos sentidos, com notícias de crueldades atrozes perpetradas contra essa Vida, que deveria ser preservada como um bem precioso e único. E ao contrário disso, é delapidada até ao indizível.
 
 «O que é a Vida?

Se usarmos do saber livresco diremos que Vida é o estado de actividade dos animais e das plantas. Deduzimos então que, no mundo conhecido, apenas os animais e as plantas vivem num estado de actividade desde que nascem. Uma pedra também nasce, e ali fica. Quieta. Não cresce. Morre, se a triturarem e a transformarem em pó. E o pó leva-o o vento. E quem chorará a morte de uma pedra? A galinha? Eu? Talvez outra pedra?!
 
Mas as pedras não choram, porque não vivem. A galinha vive. Eu vivo. Ambas choramos. Logo, a galinha e eu somos seres vivos. Somos animais.
 
Outros animais e plantas povoaram o Planeta muito tempo antes do homem. E cada um cumpriu a sua missão. Harmoniosamente. Animais de todas as espécies. Plantas, desde o miosótis ao mais frondoso plátano. Todos seres muito belos, mais-que-perfeitos. Seres sensíveis.
 
Só depois veio o homem, que encontrou um mundo fervilhando de vida até na mais pequenina fenda, entre os rochedos, à beira-mar.
 
No jardim vivia uma rosa. Viçosa e formosa. A rosa. O homem veio e disse: «Que linda é a rosa. É minha, pois não sou eu o dono do mundo? Vou levá-la comigo». E o homem arrancou a rosa da roseira, e a rosa murchou, e só o homem é que não viu. E continuou a clamar: «Eu sou o dono do mundo»!
 
Auto-intitulou-se um ser “superior”, só porque falava, pensava, fazia coisas com as mãos, que mais nenhum outro ser fazia. E, usando dessa pretensa “superioridade”, principiou então a maltratar os seus companheiros de vida: tortura e mata, por simples prazer, animais, plantas e até outros seres seus semelhantes. Polui as águas dos rios, dos oceanos e das fontes, que costumavam ser límpidas. Destrói as florestas que dão o oxigénio, sem o qual o planeta não respira. E tudo isto o homem vai fazendo em nome da tal “superioridade” e de interesses escusos, “valores” que desvalorizam a existência do próprio homem, e exterminam os animais e as plantas.
 
Durante milhares de anos, o planeta chamado azul foi azul da cor do céu; foi verde da cor dos prados; loiro da cor das searas; vermelho da cor do sol poente; teve todas as cores do arco-íris enquanto não veio o homem. Depois dele, e em nome da sua “superioridade”, o que foi um paraíso durante o reinado dos animais e das plantas, transformou-se em caos.
 
Se o lobo respeita o homem, porque não há-de o homem respeitar o lobo?
Se a árvore respeita o homem, porque não há-de o homem respeitar a árvore? Afinal, somos todos irmãos. Iguais, enquanto resultado do mesmo acto criador. Diferentes no modo como respeitamos a vida». (in Manual de Civilidade, da minha autoria).
 
Por esta altura (de touradas e de circos e de outros espectáculos anormais), eu, que tenho os animais não humanos e as plantas como meus irmãos (somos todos seres da mesma criação) necessito de ir buscar aos sábios, o alento que vive nas palavras que pensam e escrevem.
 
«Da Imortalidade dos Animais» começa com um poema que passo a transcrever:
 
«Vejam os animais, os bois,
as ovelhas, os burros;
acreditem, eles também têm alma,
também são seres humanos,
só que têm pêlo e
não podem falar;
são pessoas de tempos passados,
dai-lhes de comer;
vejam as oliveiras
e as vinhas... antigamente,
também elas eram seres humanos,
mas há muito, muito tempo,
e já não conseguem recordar;
mas o homem recorda
e por isso é humano.»
 
Nikos Kazantzakis
(Prestando contas a el Greco)
 
 
Neste poema, o que mais me enterneceu foi “acreditem, eles também têm alma”. Por fim, encontrei alguém que acredita naquilo que eu, desde criança, sempre acreditei.
 
Nunca tive dúvidas de que os animais têm uma alma como eu. Vivi com eles. Entre eles. Criei-os. Amei-os e fui amada por eles. Certo dia, teria eu uns sete anos, deram-me uma porquinha já desmamada. Adoptei-a como se fosse um cão ou um gato. E a minha relação com essa porquinha foi humaníssima. Era inteligente, brincalhona, limpíssima, e gostava de mim, tanto quanto eu gostava dela. Tinha a sua casinha no quintal, apenas para passar a noite. Uma casinha sem portas. Durante o dia, seguia-me para todo o lado. Há hora da sesta, dormia ao Sol, no tapete do meu quarto. Era da família.
 
Da família, foi também uma cabrinha, branquinha, que me ofereceram, quando a porquinha morreu num acidente, ao atravessar a estrada que dava para o fundo do meu quintal. E tal como a porquinha, a cabrinha também tinha alma e comunicava comigo com os seus “més” amorosos, com os seus olhares, com os seus maneios de cabeça. Tal como a porquinha, seguia-me para todo o lado, e gostava de mim tanto quanto eu gostava dela.
 
Vieram depois os pássaros, que faziam os ninhos nas árvores do meu quintal. Mais tarde, os cães, os gatos, e um ratinho branco, com uma história singular. Andava à solta na casa. Dormia onde queria. Por vezes, no meu travesseiro, e no meu ombro, enquanto eu escrevia. Com ele partilhava a maçã do meu pequeno-almoço. Tinha uns olhos penetrantes e melífluos e deixava os seus esconderijos secretos, quando eu o chamava pelo nome: Ratolinha. E ele lá vinha, a correr para a minha mão, onde se aninhava.
 
De todos os animais com quem já convivi, recebi um afecto imenso. Com eles aprendi grandes lições de vida, de felicidade, e também de profunda angústia, quando o momento final se aproximava.
 
E se os animais não têm alma, então também eu não tenho alma.
Tive uma gatinha, a mais sensível e meiga de todas as gatinhas, a qual, quando pressentiu que ia morrer, despediu-se de mim com um “miau” que ainda hoje me dói na alma (e já lá vão alguns anos).
 
A diferença, entre eles e eu, está apenas no verbo: eu utilizo as palavras para comunicar. Eles não. Contudo, comunicam através dos olhos, e é nos olhos dos animais que as suas almas se acolhem, e nos dizem as coisas mais extraordinárias.
 
Por tudo isto, não posso atribuir a Deus aquelas palavras que a Bíblia diz ter Ele proferido ao criar Adão e Eva: «Crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem sobre a Terra (Gn1, 28)».
 
Crescei e multiplicai-vos e enchei a Terra, talvez!
«Sujeitai-a e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem sobre a Terra», são palavras que Deus nunca diria. Fazemos parte da sua criação. Todos nós. Animais, humanos e não-humanos, e as plantas.
 
Apenas o homem seria capaz de pronunciar tais palavras, em nome de Deus, como tantas outras coisas fez e disse, em nome de Deus, apenas por conveniência, enchendo de vergonha a Humanidade.
E quem escreveu a Bíblia foram os homens. Não Deus.
 
Uma das vergonhas, entre as muitas outras vergonhas que desonram a essência humana do homem, é o modo como ele trata os animais, torturando-os, massacrando-os, experimentando-os, em nome da economia e da diversão.
 
Na contracapa «Da Imortalidade dos Animais» pode ler-se:
 
«Como corolário de uma tradição religiosa que superlativou o homem como ser imortal, destinado à salvação e à ressurreição, distinguindo-o de todas as outras criaturas terrenas, a nossa civilização despreza os animais e trata-os com uma crueldade inenarrável em nome da economia, da ciência e do espectáculo. Esta breve mas profunda reflexão sobre a condição dos seres ditos “irracionais” é simultaneamente um manifesto em defesa dos seus direitos e uma busca dos laços que unem os homens aos animais, resultando numa visão renovada da própria espiritualidade humana».
 
Se há livros que deviam fazer parte de um estudo superior obrigatório, é este, para que os jovens possam desenvolver neles a ideia de que todos os seres animados têm alma, e se têm alma, são imortais, e se são imortais… lá nos haveremos de encontrar, e encontrando-nos, se quisermos alcançar um lugar no paraíso, teremos de prestar contas, e nessas contas, entre muitos outros dizeres, teremos de confessar: «Não maltratei nenhum animal», e os animais terão de dizer: «Não temos nenhuma queixa contra esta pessoa…». Coisas dos antigos. Mas eles sabiam o que diziam.
 
E quem assim falar, será o verdadeiro Homem, aquele a quem Deus sorrirá…
 
 
Para completar esta reflexão, eis algumas mensagens que mentes brilhantes nos deixaram acerca deste tema, todos eles Homens intemporais.
 
Chegará o dia em que  todo o homem conhecerá o íntimo de um animal. E nesse dia, todo o crime contra o animal será um crime contra a humanidade.
 
(Leonardo da Vinci)
 
Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar o seu semelhante!
 
Primeiramente, é a solidariedade com todas as criaturas que torna um homem verdadeiramente humano.
 
(Albert Schwweitzer – estadista, Nobel 1952)
 
A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de carácter e pode ser seguramente afirmado que, quem é cruel com os animais, não pode ser um bom homem.
(Arthur Schopenhauer)
 
A grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser julgados pela maneira como os seus animais são tratados.
(Mahatma Gandhi)
 
A não-violência leva à mais alta ética, a qual é o objectivo de toda a evolução. Até que paremos de prejudicar todos os outros seres viventes, seremos ainda selvagens.
(Thomas Edison)
 
Para a pessoa cuja mente é liberta, há algo ainda mais intolerável no sofrimento dos animais do que no sofrimento dos humanos. Porque no caso dos humanos, pelo menos admite-se que o sofrimento é algo ruim e que aquele que o causa é um criminoso. Contudo, milhares de animais são desnecessariamente assassinados, todos os dias, sem sombra de remorso. E se alguém protesta contra isso, acaba por ser ridicularizado. E isso, por si só, é um crime imperdoável.
(Romain Rolland – Nobel 1915)
 
E só quem teve o privilégio de partilhar a existência com animais sabe que tudo isto é verdade. Eu sempre o soube, desde criança. Eles são meus iguais, porque criaturas da mesma criação. Sofrem e regozijam-se; sentem fome, frio, sede, dor, tal como eu; e quando a morte chega, olham-nos com um olhar que diz tudo o que as palavras não dizem. Eles partem, mas esperam por nós, para confirmarem: «Não temos nenhuma queixa contra esta pessoa».
E então Deus sorrirá…
 
publicado por Isabel A. Ferreira às 15:16

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Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

O irmão gémeo de Deus

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
 
 
(Depois do caos ... harmonia...)
 
 
 
A chuva que cai tão intensamente não me deixa ouvir os meus próprios pensamentos. O vento fustiga. As árvores tentam equilibrar-se, nas suas raízes. A tempestade ousa invadir o meu canto. E eu, frágil criatura de Deus, resigno-me diante de toda esta demonstração de força.
 
Ah! Sim, não estou só. Tenho a meu lado, o ser exótico que me chamou a atenção para o sexo das palavras. É um ser tão solitário quanto admirável.
 
Gosta de conversar. Eu também gosto. Visita-me frequentemente. E é nessas ocasiões que trocamos ideias, e as palavras, já tão gastas pelo uso, adornam-se e tomam outro significado.
 
Partilhamos os dois o poder da tempestade. Também ele se sente estremecido. Raios e trovões reduzem-nos à nossa insignificância. Tal ambiente de fim-de-mundo, lembra-nos o caos. O Cavaleiro do Apocalipse. O holocausto. O ano 2000 que se aproxima. A previsão dos visionários. Nostradamus. A luta entre o Bem e o Mal. Quem vencerá?
 
Temos de esperar para saber, garantiu-me o ser exótico, que além de exótico é um místico confesso. Disse-me ele:
 
— Sabe que o Bem e o Mal são duas personagens cósmicas que coexistem desde o início dos tempos? O Bem é Deus. O Mal é o Diabo. O que têm de comum?... São simplesmente irmãos gémeos.
 
Fiquei estupefacta, como devem calcular. O ser exótico chama-lhe pensamento filosófico, muito simples de deduzir. Desde que o mundo é mundo (contou-me ele, como se sempre tivesse existido) houve sempre uma renhida luta entre as forças do Bem (Deus) e as forças do Mal (o Diabo), aliás, um conceito muito em voga na injustamente chamada Idade das Trevas – a Idade Média.
 
Deus e o Diabo (que para o ser exótico não é um anjo pervertido) não têm princípio nem fim. Pura e simplesmente são. Do nada surgiram, num instante único. Exactamente ao mesmo tempo. Ambos omnipotentes. Omnipresentes. Omniscientes. Forças cósmicas que há muito lutam entre si pelo poder absoluto, com diferentes objectivos.
 
Deus é criador, é bondade, é pacificador. O Diabo é destruidor, é maldade, é guerreador. Deus quer o poder tão-somente para proporcionar aos seres por Ele criados (pois foi Deus quem criou o mundo e todas as suas criaturas) uma vida onde predomine a harmonia, o equilíbrio, a paz.
 
O Diabo, pelo contrário, dominado por um ódio incontrolável, por não ter sido ele o primeiro a lembrar-se da criação do universo, luta para exercer sobre as criaturas concebidas pelo seu irmão gémeo, um domínio maléfico, destruidor, caótico, E as mais débeis criaturas rendem-se, e rastejam a seus pés, totalmente desprovidas de senso e de vontade.
 
Por isso, disse-me o ser exótico (que não se importa nada que eu o trate deste modo) neste nosso mundo há gente muito boa e gente diabólica. Madres Teresas de um lado e Bin Ladens do outro. Cristos e Hitlers. Oprimidos e ditadores. As Teresas, os Cristos e os oprimidos são gente de Deus. Os Bin Ladens, os Hitlers e os ditadores são gente do Diabo.
 
Neste nosso fim de século, os dois irmãos travam a batalha final, a batalha de todas as batalhas, de uma guerra que já dura desde o início dos tempos, com vitórias e derrotas ora para um, ora para outro. Hoje, porém, muito próximo do virar do século XX (data limite para o fim do mundo – lembremo-nos que algures na Bíblia se pode ler «a mil chegarás, de dois mil não passarás») os dois omnipotentes irmãos resolveram medir forças, de uma vez por todas, para que uma nova ordem seja estabelecida.
 
O fim dos tempos de que nos falam os mais abalizados visionários do mundo, não é senão o termo desta luta entre o Bem e o Mal. E a nova ordem, não é mais do que o triunfo do Bem, isto é, a vitória de Deus sobre o Diabo.
 
Repare no que está a acontecer em todo o mundo, observou o ser exótico. As forças do mal parecem dominar. Os homens endoideceram. Guerreiam-se. Matam-se uns aos outros com requintes de malvadez. Os valores morais escorrem pelos canos de esgoto. A droga, quais fezes liquefeitas, substituem o sangue nas veias dos que escolhem a morte como meta de vida. As armas são preferidas aos alimentos. Destruir é a palavra de ordem. O caos instalou-se em toda a parte. Já não pode confiar-se em nada, nem em ninguém. Nem nas leis, que não são cumpridas e só servem os maus, nem nas autoridades, que a esses maus por vezes se juntam.
 
A toda esta perversão social dos auto-denominados seres humanos, que nem sequer têm capacidade de conviver com as outras criaturas, a que eles injustamente chamam irracionais, junta-se a revolta da Mãe Natureza que, descontentíssima com os desmandos desses homens desmedidamente soberbos e arrogantes, movidos pela avidez do lucro e de uma falsa glória, pretendem domar o indomável: a lei natural.
 
Daí que a toda-poderosa e soberana Natureza lance sobre os homens todo o tipo de catástrofes de que é capaz: terramotos, maremotos, tempestades, vendavais, furacões, chuvas, neve, enchentes, calor abrasador, fogos, como forma de protesto por terem perturbado a harmonia e o equilíbrio do seu ser.
 
— O que me diz, a minha amiga?
 
— Depois desta lição, que devo dizer? Que força terei para contestar estas ideias? É uma teoria tão exótica quanto a personagem que a elaborou. Mas tenho algo a dizer, sim. Vejo que, actualmente, as forças do Mal dominam as forças do Bem, e por este andar, é muito provável que a tal nova ordem não seja imposta por Deus, mas pelo seu irmão gémeo.
 
Vade retro Satanás! Que mau agouro esse! O Bem impor-se-á, com toda a sua força, ou eu não me chame...
 
Pare! Combinámos que não faríamos apresentações... Eu acredito na sua teoria. Preciso de acreditar, aliás. De outro modo, endoideço. Por isso, espero, com toda a sinceridade, que o tal irmão gémeo de Deus seja definitivamente derrotado.
...
Lá fora, a chuva continua a cair intensamente e os raios e os trovões a impor a sua força de tal forma que até os nossos pensamentos chegam a estremecer. E de rostos colados às vidraças da janela, eu e o ser exótico, meu amigo, esperamos, pacientemente, que a Natureza se acalme e nos devolva a lucidez...
 
 
Escrevi este texto em 1998.
O fim do mundo não veio.
Entrou-se no terceiro milénio, com o Mal a ganhar vantagem, agora com novos e horrorosos actos e actores em cena.
Continuamos na expectativa.
Quem vencerá?
E a nova ordem depois do caos, de que falava o ser exótico, devemos esperá-la?...
Penso que essa é a nossa única alternativa.
 
Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
publicado por Isabel A. Ferreira às 11:55

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