Quinta-feira, 8 de Março de 2018

UHF – VERNÁCULO (PARA UM HOMEM COMUM)

 

Magnífico poema, em vernáculo, como eles, os tais, os anafados, os eleitos merecem.

Uma voz que grita o sentimento e o cansaço de todo um povo, e o meu sentimento e o meu cansaço também.

Obrigada, António Manuel Ribeiro.

 

(Vídeo Oficial)

 

 

«Estou cansado, pá

Cansado e parado por dentro

Sem vontade de escolher um rumo

Sem vontade de fugir

Sem vontade de ficar

Parei por dentro de mim

Olho à volta e desconheço o sítio

As pessoas, a fala, os movimentos

A tristeza perfilada por horários

Este odor miserável que nos envolve

Como se nada acontecesse

E tudo corresse nos eixos.

Estou cansado destes filhos da puta que vejo passar

Idiotas convencidos

Que um dia um voto lançou pela TV

E se acham a desempenhar uma tarefa magnífica.

Com requinte de filhos da puta

Sabem justificar a corrupção

O deserto das ideias

Os projectos avulso para coisa nenhuma

A sua gentil reforma e as regalias

Esses idiotas que se sentam frente-a-frente no ecrã

À hora do jantar para vomitar

O escabeche de um bolo de palavras sem sentido

Filhos da puta porque se eternizam

Se levam a sério

E nos esmigalham o crânio com as suas banalidades:

O sôtor, vai-me desculpar

O que eu quero é mandá-los cagar

Para um campo de refugiados qualquer

Vê-los de Marlboro entre os dedos a passear o esqueleto

Entre os esqueletos

Naquela mistura de cheiros e cólicas que sufoca

Apenas e só -- sufoca.

 

Estou cansado

Cansado da rotina

Desta mentira que é a vida

Servida respeitosamente

Com ferrete

Obediente

Obediente.

 

Estou cansado de viver neste mesmo pequeno país que devoram

Escudados pelas desculpas mais miseráveis

Este charco bafiento onde eles pastam

Gordos que engordam

Ricos que amealham sem parar

Idiotas que gritam

Paneleiros que se agitam de dedo no ar

Filhos da puta a dar a dar

Enquanto dá a teta da vaca do Estado

Nada sabem de história

Nada sabem porque nada lêem além

Da primeira página da Bola

O Notícias a correr

E o Expresso, porque sim!

Nada sabem das ideias do homem

Da democracia

Atenas e Roma

Os Tribunos e as portas abertas

E a ética e o diálogo que inventaram o governo do povo pelo povo

Apenas guardam o circo e amansam as feras

Dão de comer à família até à diarreia

Aceitam a absolvição

E lavam as manípulas na água benta da convivência sã

Desde que todos se sustentem na sustentação do sistema

Contratualizem (oh neologismo) o gado miúdo

Enfatizem o discurso da culpa alheia

Pela esquizofrenia politicamente correcta:

Quando gritam, até parece que se levam a sério

Mas ao fundo, na sacristia de São Bento

O guião escrito é seguido pelas sombras vigentes.

 

Estou cansado

Cansado da rotina

Desta mentira que é a vida

Servida respeitosamente

Com ferrete

Obediente

Obediente.

 

Estou farto de abrir a porta de casa e nada estoirar como na televisão

Não era lá longe, era aqui mesmo

Barricadas, armas, pedradas, convulsão

Nada, não há nada

Os borregos, as ovelhas e os cabrões seguem no carreiro

Como se nada lhes tocasse -- e não toca

A não ser quando o cinto aperta

Mas em vez da guerra

Fazem contas para manter a fachada:

Ah carneirada, vossos mandantes conhecem-vos pela coragem e pela devoção na gritaria do futebol a três cores

Pelas vitórias morais de quem voa baixinho

E assume discursos inflamados sem tutano.

 

Estou cansado

Cansado da rotina

Desta mentira que é a vida

Servida respeitosamente

Com ferrete

Obediente

Obediente.

 

Estou cansado, pá

Sem arte, sem génio, cansado:

Aqui presente está a ementa e o somatório erróneo do desempenho de uma nação

Um abismo prometido

Camuflado por discursos panfletários:

Morte aos velhos!

Morte aos fracos!

Morte a quem exija decência na causa pública!

Morte a quem lhes chama filhos da puta!

- E essa mãe já morreu de sífilis à porta de um hospital.

Mataram os sonhos

Prenderam o luxo das ideias livres

Empanturraram a juventude de teclados para a felicidade

E as famílias de consumo & consumo

Até ao prometido AVC

Que resolve todas as prestações:

Quem casa com um banco vive divinamente feliz

E tem assistência no divórcio a uma taxa moderada pela putibor.

Estou cansado, pá

Da surdez e da surdina

Desta alegria por porra nenhuma

Medida pelo sorriso de vitória do idiota do lado

Quando te entala na fila e passa à frente

É a glória única de muita gente

Uma vida inteira...

 

Eleitos, cuidem da oratória..."

 

Letra e música: António Manuel Ribeiro

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:04

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Terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

O paralelismo entre a tauromaquia e o mito do Minotauro

 

Como é que algo, que pertence ao mundo sanguinário dos mitos, continua a ser admitido numa época em que os mitos não passam disso mesmo: mitos?

A nossa realidade é bem outra, mas a tauromaquia que assenta num mito sanguinário, continua tão primitiva quanto nesses tempos que já se perderam no tempo.

Está mais do que na hora de abolir essa reminiscência que transforma o homem, dito moderno, na besta que o Touro nunca foi.

 

Representação do Minotauro num vaso ático de 515 a.C.
 

Foto: © Marie-Lan Nguyen / Wikipedia

 

«Tauromaquia: do grego ταυρομαχία. Combate com touros.

 

Cnossos, Creta: o berço dos primeiros eventos com touros originou uma das histórias mitológicas mais trágicas e fascinantes do mundo; a lenda do Minotauro ainda assombra-nos pela crueza dos acontecimentos, envolvida num acto de bestialidade que deu origem a um ser híbrido assassino de humanos.

 

Todavia, como poderá estar este mito interligado com as corridas de touros?

 

A religião minóica era recheada de rituais orientados para o culto da vegetação. A morte e o renascimento dos deuses, bem como a representação simbólica e sagrada de alguns animais, eram a base primordial da cultura religiosa praticada. O touro, como um dos animais sagrados, eram obviamente utilizados nos cultos, especialmente em combates.

 

A magnificência e imponência do animal não passaram de todo despercebidas, originando o mito perturbador do Minotauro: este, rapidamente, tornou-se no símbolo do animalesco, roçando a barbaridade, a irracionalidade e o caos.

 

É importante salientar que apesar da crueldade do Minotauro estar associada ao seu lado animal, tal afirmação é incongruente: sabemos que o touro não mata pessoas por bel-prazer e que, muito menos, alimenta-se delas. Já o caso muda de figura em relação ao próprio ser humano, que não hesita em matar o seu semelhante num piscar de olhos. Podemos, desta forma, considerar que a violência imensa do Minotauro deve-se mais pelo seu lado humano: todavia, assim como as mulheres, os animais eram utilizados nos mitos para representar uma esfera negativa, daí a conspurcação exclusivamente feminina nesta história (a relação física de Pasífae com um touro) e a simbologia da destruição aliada somente à figura do animal presente no Minotauro.

 

O mito

 

O rei Minos de Cnossos recebeu um touro branco, vindo dos mares, como aprovação do deus Poseídon pelo seu reinado. Apesar de ter conhecimento do dever de sacrificar o animal em homenagem ao deus, Minos ficou tão admirado pela sua beleza sobrenatural que decidiu mantê-lo e sacrificar outro na esperança que tal passasse incógnito.

 

A tentativa de ludibriar Poseídon falhou: este, furioso, lançou um feitiço a Pasífae, esposa do rei, para que esta se apaixonasse perdidamente pelo touro branco. A mulher solicitou a ajuda de Dédalo para conseguir envolver-se amorosamente com o animal. O artesão construiu uma espécie de vaca em madeira, cujo interior abrigava e disfarçava Pasífae.

 

O acto sexual deu origem ao monstruoso Minotauro: o seu crescimento suscitou problemas ao tornar-se cada vez mais feroz. Por ser fruto de uma união não-natural entre um humano e um animal não-humano não tinha qualquer fonte natural de alimento, atacando e devorando homens para a sua sobrevivência. Minos decidiu recorrer à genialidade de Dédalo para arquitectar um imenso labirinto próximo ao seu palácio, no qual o ser híbrido foi encerrado.

 

9248_knossos_frise_taureau-edit.jpg

Fresco no palácio de Cnossos, representando o culto do touro através da prova da resistência física com as mãos nuas - 1500 a 1400 a.C.

 

Veja-se que o labirinto não é somente o símbolo da perdição: os minóicos detestavam espaços fechados - o palácio e as restantes residências apresentavam imensas divisões em aberto - e o facto de o labirinto ter paredes altíssimas que permitiam ver o exterior sem poder alcançá-lo constituía uma fobia extrema que levava à loucura. O Minotauro, como humano, sofria com a solidão: como touro, sofria com a claustrofobia imensa do ambiente. Sabe-se que os touros adoram estar em liberdade e que necessitam de luz solar para o seu bem-estar: num labirinto escuro e frio tal era inacessível ao ser mitológico. Essa dupla castração despertou a violência extrema que acompanhou o monstro até à sua morte. E é aí que a tauromaquia e o mito aproximam-se ainda mais.

 

Os gregos odiavam os cretenses. Acusavam-nos de mentirosos, arrogantes e traidores. O próprio poeta Homero quase nunca indicou o povo de Creta nos seus poemas, exceptuando n'A Ilíada - em que estes lutavam ao lado de Tróia.

 

O mito do Minotauro foi, então, transformado num conto heróico ateniense através de Teseu: o filho de Egeu ofereceu-se como sacrifício, relacionado com a taxa imposta por Minos, por este ter saído vencedor numa guerra contra Atenas. Essa taxa comportava a entrega de sete jovens rapazes e sete donzelas, a cada nove anos, para serem devorados pelo Minotauro.

 

Deste modo, o rei cretense dava a certeza que não repetiria qualquer ataque bélico à cidade grega.

 

Ariadne, filha de Minos, apaixonou-se por Teseu. Mortificada por este estar prestes a ser engolido pelo assombroso labirinto, entregou-lhe um novelo de lã para marcar o caminho e assim conseguir sair ileso. Munido de uma espada, Teseu entregou-se ao labirinto de pedra e matou o Minotauro com um único golpe, cortando-lhe a cabeça.

 

Esta viragem no mito influenciou a visão humana sobre o touro: os atenienses cortaram com o véu sagrado que protegia-o e sacrificavam-no num verdadeiro culto sanguinário. O touro era agora simbolizado como uma besta hedionda e perigosa e matá-lo era sinónimo de coragem e força: o presente perfeito para os deuses do Olimpo. Os combates com touros intensificaram-se, com os actos violentos a aumentar cada vez mais. Havia até um costume absurdo que implicava a morte de um touro: tal arrastava-se numa espécie de jogo de acusações para descobrir-se quem, na verdade, o matou (?!).

 

A tradição de utilizar o touro para eventos, que resultavam invariavelmente na sua morte, foi absorvida pelos romanos após a invasão, que também utilizavam variados animais nos circos mortais, e consequentemente enraizada na Península Ibérica. A tourada que hoje em dia continua a ser realizada é, de facto, fruto de uma cultura que negativizou a imagem do touro em detrimento de um povo que era odiado. Foi pela rivalidade e pela inimizade entre homens que o grande animal viu a sua vida a ser selvaticamente alterada ao longo dos tempos.

 

Mas quiçá, tal e qual como uma história tem um ponto final, a barbaridade que continua a ser-lhe administrada findará também

 

Fonte:

http://grito-silenciado.blogspot.pt/2014/02/o-paralelismo-entre-tauromaquia-e-o.html

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:09

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