
Por Nuno Morna

Peguei num texto que publiquei em tempos no DN Madeira e reescrevi-o, porque me pareceu pertinente.
𝗨𝗺 𝗦𝗮𝗹𝗮𝘇𝗮𝗿
Saudades. Sempre as saudades. Como se fossem o ar que respiramos, o fado que nunca acaba, a corda que nos puxa para trás quando o mundo insiste em andar para a frente. Saudades de Salazar, dizem, e o nome vem com o peso dos olhos cansados, com o cheiro da naftalina e da roupa guardada em baús, saudades da sombra, da escuridão, da miséria transformada em virtude, da fome baptizada de "simplicidade". Saudades do tempo em que o país era pequeno, pobre, medroso, medroso e obediente. Com a cabeça baixa e o chapéu na mão acreditava-se que tudo aquilo era normal. Saudades da sopa de cavalo cansado, da broa dura que rachava os dentes, do milho com restos de espada, da sardinha partilhada por quatro, do bacalhau fiado na mercearia e pago a prestações quando o ordenado chegava... se chegava. Saudades dos casebres sem chão, sem luz, sem água, onde a diarreia matava mais do que qualquer doença estrangeira.
E havia as mães que perdiam filhos antes dos cinco anos como quem perde lenços: "tive dez, morreram-me seis, ficaram-me quatro", dizia-se sem choro, sem drama, porque o drama era o pão de cada dia. Havia os miúdos com raquitismo, com poliomielite, com as pernas em arco de tanta fome, havia os velhos que não passavam dos sessenta, enquanto na Suécia já se prometiam setenta e cinco anos de vida. Havia as chuchas de pano embebidas em vinho e açúcar para calar as crianças. Havia as escolas primárias com carteiras riscadas, as janelas a cair, os professores de régua na mão, a palmatória, a menina-de-cinco-olhos, a chapada na cara como método pedagógico, porque pensar era perigoso, e aprender a escrever e a rezar bastava. Havia o exame da quarta classe como a fronteira para o abismo. Havia as raparigas ensinadas a costurar e os rapazes ensinados a obedecer. Havia a humilhação como disciplina nacional.
E havia o silêncio, que era a música de fundo do país. Não se falava. Não se dizia. Não se sonhava. O lápis azul riscava jornais, cortava beijos de filmes, apagava canções e livros. A PIDE escutava cafés, escutava casas, escutava os pensamentos, com bufos em cada esquina, com celas prontas para os atrevidos. O medo era a gramática da vida. Dizem saudades, mas o que havia era isto: fome, miséria, silêncio e medo. Era este o país que tinham e é este o país que alguns ainda suspiram ter de volta.
𝗗𝗼𝗶𝘀 𝗦𝗮𝗹𝗮𝘇𝗮𝗿𝗲𝘀
Saudades, dizem eles, como quem acaricia um cadáver, saudades do tempo em que a moral se confundia com proibição, em que viver era uma lista de não-podes, não-deves, não-fazes. Saudades das mulheres que precisavam de autorização para casar, para sair do país, para trabalhar, para existir. Saudades do divórcio proibido, da homossexualidade tratada em manicómio, da virgindade vigiada pela família, do marido que podia matar a mulher em flagrante adultério e ser compreendido pelos tribunais, enquanto a mulher, se ousasse, ia direita à prisão. Saudades da juventude vigiada no liceu, das mini-saias proibidas, dos biquínis censurados, das calças à boca-de-sino banidas como armas de destruição moral. Saudades da Coca-Cola proibida, dos Beatles interditos, do beijo cortado no "Casablanca", da vida filtrada por um regime que temia a pele, o som, o riso, como quem teme uma bomba.
Saudades também da "justiça", essa palavra transformada em caricatura: tribunais plenários onde não havia defesa, prisões arbitrárias, tortura como rotina, assassinatos escondidos em relatórios com letras frias. Saudades de Caxias, do Tarrafal, da Guiné, onde os presos eram ossos sem nome. Saudades da rede de bufos, dos vizinhos a denunciar vizinhos, da desconfiança instalada como hábito, de um povo a viver de olhos baixos para não chamar a atenção. Saudades de um país onde a polícia política era uma sombra em cada mesa de café.
E havia a economia, se é que se pode chamar assim à estagnação. O Estado decidia tudo: que fábricas abrir, que máquinas mudar, que produtos vender. Para acender um isqueiro, licença; para montar uma bicicleta, licença; para substituir uma máquina numa empresa, licença. O condicionamento industrial como prisão, os monopólios garantidos, os produtos caros e maus, o país parado. Saudades da exportação ridícula, da agricultura medieval, do pão racionado, do salário de operário que não dava para alimentar uma família. Saudades da professora que precisava da autorização do Estado para casar, da enfermeira proibida de ter marido.
E havia a corrupção, sempre a corrupção, tão funda que se confundia com o chão. Os alvarás vendidos e trocados como cartas de baralho, os negócios do Estado feitos para os amigos, os escândalos abafados, o Ballet Rose varrido para debaixo do tapete, os Donos Disto Tudo a passear impunes. O nepotismo como lei, a cunha como passaporte, a miséria como normalidade. Dizem saudades, mas o que havia era isto: proibição, censura, violência, corrupção, um país reduzido a sombras.
𝗧𝗿𝗲̂𝘀 𝗦𝗮𝗹𝗮𝘇𝗮𝗿𝗲𝘀
Saudades, repetem eles, como se não se lembrassem do que era ter o país encharcado em bairros de lata, famílias inteiras em casas de cartão, zinco e madeira, empilhadas como lixo humano à volta de Lisboa, com cheiro a esgoto, sem água, sem luz, sem nada. Saudades das cheias de 1967, quando as enxurradas arrastaram casas e gente, quando morreram largas centenas (oficialmente 462, mas todos sabiam que eram muitos mais) e o regime respondeu com silêncio, com indiferença, com a frieza burocrática de quem vê a morte como estatística. Saudades de um Estado que não mexia um dedo para ajudar, e onde a caridade privada servia de substituto ao que chamavam governo.
E havia a saúde, se é que se podia chamar saúde a um país de endireitas, bruxas, mezinhas, chás de ervas. Havia a tuberculose a levar famílias inteiras, a cólera a rebentar nos bairros, a mortalidade infantil a ser regra e não excepção. Não havia médicos, não havia hospitais, não havia centros de saúde. Quem os procurava tinha de andar quilómetros, a pé, com os pés descalços, com as crianças doentes ao colo, e muitas vezes voltava de mãos vazias porque não havia nada. Saudades disso, dizem, da miséria transformada em rotina.
E havia a guerra, a interminável guerra, treze anos de rapazes enviados para África, para morrerem por um império que já não existia. Milhares estropiados, mortos, enlouquecidos. Saudades dos barcos cheios de jovens com vinte anos, enviados como carne para a fogueira. Saudades dos cemitérios que se enchiam de corpos anónimos. Saudades da injustiça: os filhos dos ricos com adiamentos sucessivos, protegidos por estudos ou cunhas, acabavam nos escritórios militares, longe do mato, enquanto os filhos dos pobres iam morrer em combates sem glória. Orgulhosamente sós, dizia Salazar, e os mortos amontoavam-se.
E havia a emigração, o êxodo, um milhão de portugueses a fugir do país porque cá não havia futuro. Saudades dos comboios cheios para França, da humilhação na fronteira, dos subornos aos guardas, das famílias divididas, dos filhos deixados para trás. Saudades da grande viagem da classe média: a Badajoz, comprar caramelos, porque atravessar a fronteira já era aventura. Saudades da vergonha de um país reduzido a contrabando de guloseimas. Dizem saudades, mas o que havia era isto: barracas, doenças, mortos na guerra, mortos nas cheias, emigrantes aos magotes.
𝗠𝘂𝗶𝘁𝗼𝘀 𝗦𝗮𝗹𝗮𝘇𝗮𝗿𝗲𝘀
Saudades, insistem, como se fosse possível esquecer que o país era uma prisão com a chave do lado de fora, uma vitrina de província onde tudo era proibido e tudo era controlado. Saudades do lápis azul que riscava jornais, cortava frases inteiras, apagava poemas, riscando até a imaginação. Saudades da rádio que só passava nacional cançonetismo e fados tristes, da televisão que mostrava desfiles, inaugurações de nada, o Presidente do Conselho sentado como um cadáver com óculos, e mais nada. Saudades da informação que não informava, da cultura reduzida a propaganda, dos escritores perseguidos, dos músicos silenciados, dos pintores obrigados a pintar a pátria com cores que não existiam.
Saudades também do trabalho infantil, que não era excepção mas regra. Crianças a carregar tijolos, a apanhar batatas, a servir nas casas ricas, a viver no medo de uma reguada ou de uma fome maior. Saudades dos deficientes escondidos em casa, dos idosos abandonados a morrer em tugúrios, sem reforma, sem assistência. Saudades de um país sem segurança social até ao final dos anos 60, onde cada velho sem família era condenado à solidão e à miséria.
E havia o quotidiano da pobreza, o quotidiano da resignação. O pai a sair para o campo de enxada às costas, a voltar de noite com os pés desfeitos, a mãe a coser roupa até se lhe partirem os olhos, os filhos a dormir em esteiras no chão, todos a comer pão seco, caldo de nada, vinho de má qualidade. E se sobrava alguma energia, era para rezar, porque a religião era o único escape oferecido, a promessa de uma vida melhor, mas só depois da morte.
E havia ainda o grotesco dos "grandes feitos" do regime. Quase cinquenta anos de poder e a herança eram quatro barragens, uma ponte, uma auto-estrada que não chegava a Vila Franca, um viaduto que terminava em Gaia. Saudades dessa obra de país, sempre inacabada, sempre ridícula. Saudades de Sines, da Siderurgia Nacional, os elefantes brancos de uma industrialização improvisada que nunca funcionou. Saudades da agricultura medieval, dos campos do sul desertos, das terras do norte divididas em minifúndios improdutivos, da produção ridícula, da ausência de qualquer modernização.
𝗨𝗺 𝗦𝗮𝗹𝗮𝘇𝗮𝗿 𝗲𝗺 𝗰𝗮𝗱𝗮 𝗽𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝘂𝗲̂𝘀 𝗱𝗲 𝗯𝗲𝗺
Saudades, repetem, como se não percebessem que o que recordam não é memória mas mito, um fantasma que lhes serve de conforto contra a desordem do presente. Saudades do medo, da disciplina, da obediência, da escravidão disfarçada de paz. Saudades de um país orgulhosamente sozinho, como se o isolamento tivesse sido glória e não condenação. Saudades da cadeira de vime onde o ditador se foi desfazendo em silêncio, enquanto o mundo inteiro mudava e Portugal permanecia parado, uma ilha de atraso cercada de modernidade.
Saudades de um tempo em que o povo baixava a cabeça, de chapéu na mão, humilde até à humilhação, agradecendo o pouco que tinha como se fosse dádiva divina. Saudades de uma moral castradora que dizia sempre não: não podes, não deves, não fazes. Saudades da vida sem escolhas, porque escolher exige responsabilidade, e a ditadura poupava o esforço de pensar. Saudades de um país sem futuro, mas com a ilusão de estabilidade, com a calma podre da resignação.
E ainda assim, dizem que eram tempos melhores. Melhores para quem? Para os ricos que continuaram ricos, para os donos de tudo que ficaram donos de mais, para os amigos do regime que tinham privilégios e impunidade. Para os outros, para a maioria, só havia fome, ignorância, medo, morte, exílio. Só havia a resignação transformada em virtude nacional.
O que resta da ditadura é isto: uma saudade perversa, uma nostalgia da escravidão, uma preguiça de viver em liberdade. A liberdade é incómoda, exige escolha, exige pensamento, exige confronto, exige responsabilidade. A ditadura oferecia silêncio e nada mais. E é esse nada que alguns hoje confundem com ordem.
Saudades, sim, mas não de Salazar. Saudades de quem morreu cedo sem nunca saber o que era viver, de quem emigrou sem nunca voltar, de quem foi torturado sem nunca ter justiça, de quem ficou reduzido a pó sem nunca ter voz. Saudades do que podia ter sido e não foi, do que perdemos nesses cinquenta anos de escuridão. Saudades da vida que nos roubaram.
Porque o salazarismo não deixou nada senão isto: um país encolhido, atrasado, miserável, uma colecção de medos e silêncios. E querer voltar a isso é desejar o túmulo, não a vida.
E no fim, as saudades de Salazar não são saudades do passado. São medo do presente. São medo da liberdade. São preguiça de viver.
Outubro 2025
Nuno Morna
Fonte:
Um texto de Artur Soares, para reflectir a existência humana, o que fomos, para onde nos levam, o que dizer diante do inevitável fim do nosso percurso terreno. Valeu a pena?... (Isabel A. Ferreira)
***
Escrevi um dia que “os sonhos nocturnos, são como o vento: mal se sabe donde vêm nem porque surgem. Mas todos os sonhos são lícitos, se for para progredir, crescer e tornar os outros felizes. Não o sendo, os sonhos são fantasia, vazio ou frustração”.
E um dia destes, tive um sonho fora do vulgar!
Alguém me chamou e convidou para um passeio.
Sem poder oferecer resistência, fui.
Então, respondendo várias vezes “já vou, já vou”, senti-me a levitar. Subindo, subindo sempre, pude apreciar as torres das cidades, igrejas monumentais, o verde e o loiro de certas zonas e verifiquei que a paisagem, vista do alto, é um espectáculo sem igual!

Continuando a subir, vi o mar, esse “chão azul” sem igual, bem como os golfinhos que picavam o plano das águas marinhas, a respirar. De seguida, entrei por sobre as nuvens e concluí, que me dirigia para oriente, revendo a África, essa estouvada e sedutora terra que parece hipnotizar até, os que nunca tiveram alma cigana.
Por fim, já bem longe e bem alto, levitando pelos céus sem fim, alguém, de tapete branco nas mãos, obrigou-me a parar e, segurando-me, disse:
–Vais na direcção do Reino dos Céus. Como te justificas para transpor a Divina Porta?
– Bom, Anjo meu. Não estava nos meus planos encontrar-me contigo tão cedo. Uma vez que o percurso está feito e para trás não se pode voltar, muito posso contar e pouco me posso justificar.
– Devo dizer-te Anjo meu, que a minha infância foi desprovida de suficientes agasalhos no frio e a qualidade era precária. De alimentos, saboreei alguma mercearia, hortaliça e, as quantidades ainda hoje, penso que eram insuficientes. Daí, ter tido várias vezes o desejo de roubar algo mais para comer. E devo confessar-te também, que muitas vezes senti desejos de uma banana ou de um pouco de carne e, possível, só uma vez de vez em quando.
– Cresci na confusão e no labirinto de homens velhacos e loucos: meninos, batiam-me porque eram ricos, mais velhos ou mais atléticos que eu. Os adultos reprimiam-me, porque tudo era mal feito, queixavam-se; como adolescente, fui traquina, teimoso e, sempre em desfavor dos companheiros, perspicaz.
– Como jovem e a caminho de adulto, namorei imenso, amei pouco e menti muito mais; fui calculista, estoira-vergas, malicioso, e pratiquei a maledicência, principalmente contra os “escolhidos” pelo meu Senhor. –
Também Anjo meu participei numa guerra, não como mercenário - que são a diarreia dos prepotentes - mas obrigado. Embora não visse sentido nessa guerra, tão distante do meu país, como autoridade no terreno, nem sempre fui justo e nem sempre obedeci.
–Esbanjei sem tréguas e sem necessidade forças físicas e, fui por vezes, prepotente e desinteressado dos problemas, das lágrimas e da fome dos outros. Nessa guerra, talvez tenha matado, uma vez que os homens que me estavam confiados apareciam mortos também.
– A seguir, Anjo meu duvidei dos meus familiares, dos meus amigos, de quase todos os homens e tornei-me jactante, individualista e, até perdi a Fé!
– Nestes últimos anos, paciente Anjo, andava a sentir-me confuso, sem fé alguma nos homens, com medo de todos: uns, porque não cumpriam (nem cumprem ainda hoje) os direitos dos homens; não sentiam (nem sentem ainda) respeito e amor pela humanidade; outros roubavam (e roubam), eram (e são) mentirosos, egoístas, vaidosos, vingativos, falhados que sugavam (e ainda sugam), traidores, invejosos.
– E ainda conheci e conheço os avarentos, os burocratas, os imbecis, os madraços, os cobardes, os homens de alma desabitada, os loucos, os perversos e tantos outros que brincam com a saúde e os direitos daqueles que estão permanentemente sob a alça do seu (deles) ponto-de-mira. –
Assim, Anjo meu – paciente Anjo – também fui vítima de muitos: roubado no “Ter” e no “Ser”. Fui excluído da cultura, da educação e, de certo modo, das profissões que sonhei ter, entre outras coisas.
– Desta forma me moldaram e me trataram os homens que vivem lá em baixo! Finalmente, Anjo do meu Senhor, queria afirmar-te que, na vida, sempre caminhei devagar, é certo, mas nunca parei. Andei sempre atento, rindo e chorando, mas sem nunca negar ou trair o meu país como alguns fizeram e disso hoje se ufanam.
– Ultimamente procurei conhecer melhor o meu Deus e, fruto desses conhecimentos, dei-me aos outros sem olhar a classes ou raças: dos que tive conhecimento e soube estarem moribundos, a quase todos visitei; sempre que vi necessário, dei algum do meu pouco pão; quando se juntaram dois fatos no armário e um ficou disponível, eu próprio o coloquei aos ombros do nu.
– Portanto, Anjo que me segues e interrogas, assim me apresento ao meu Senhor, que nestes últimos anos segui, servi e amei com todas as forças dos meus membros, com todo o sangue das minhas veias e com toda a força da minha capacidade intelectual.
– Que o Imperador do Céu e da Terra – continuei – me não veja como totalmente imperfeito, mas sofredor também e que Sua Mãe interfira, de forma que premeie este débil, humilde, mas convicto seguidor.
Ecce homo, Anjo meu!
Continuando a subir, vi o mar, esse “chão azul” sem igual, bem como os golfinhos que picavam o plano das águas marinhas, a respirar. De seguida, entrei por sobre as nuvens e concluí, que me dirigia para oriente, revendo a África, essa estouvada e sedutora terra que parece hipnotizar até, os que nunca tiveram alma cigana.
Por fim, já bem longe e bem alto, levitando pelos céus sem fim, alguém, de tapete branco nas mãos, obrigou-me a parar e, segurando-me, disse:
-Vais na direcção do Reino dos Céus. Como te justificas para transpor a Divina Porta?
– Bom, Anjo meu. Não estava nos meus planos encontrar-me contigo tão cedo. Uma vez que o percurso está feito e para trás não se pode voltar, muito posso contar e pouco me posso justificar.
– Devo dizer-te Anjo meu, que a minha infância foi desprovida de suficientes agasalhos no frio e a qualidade era precária. De alimentos, saboreei alguma mercearia, hortaliça e, as quantidades ainda hoje, penso que eram insuficientes. Daí, ter tido várias vezes o desejo de roubar algo mais para comer. E devo confessar-te também, que muitas vezes senti desejos de uma banana ou de um pouco de carne e, possível, só uma vez de vez em quando.
– Cresci na confusão e no labirinto de homens velhacos e loucos: meninos, batiam-me porque eram ricos, mais velhos ou mais atléticos que eu. Os adultos reprimiam-me, porque tudo era mal feito, queixavam-se; como adolescente, fui traquina, teimoso e, sempre em desfavor dos companheiros, perspicaz.
– Como jovem e a caminho de adulto, namorei imenso, amei pouco e menti muito mais; fui calculista, estoira-vergas, malicioso, e pratiquei a maledicência, principalmente contra os “escolhidos” pelo meu Senhor. –
Também Anjo meu participei numa guerra, não como mercenário - que são a diarreia dos prepotentes - mas obrigado. Embora não visse sentido nessa guerra, tão distante do meu país, como autoridade no terreno, nem sempre fui justo e nem sempre obedeci.
– Esbanjei sem tréguas e sem necessidade forças físicas e, fui por vezes, prepotente e desinteressado dos problemas, das lágrimas e da fome dos outros. Nessa guerra, talvez tenha matado, uma vez que os homens que me estavam confiados apareciam mortos também.
– A seguir, Anjo meu duvidei dos meus familiares, dos meus amigos, de quase todos os homens e tornei-me jactante, individualista e, até perdi a Fé!
– Nestes últimos anos, paciente Anjo, andava a sentir-me confuso, sem fé alguma nos homens, com medo de todos: uns, porque não cumpriam (nem cumprem ainda hoje) os direitos dos homens; não sentiam (nem sentem ainda) respeito e amor pela humanidade; outros roubavam (e roubam), eram (e são) mentirosos, egoístas, vaidosos, vingativos, falhados que sugavam (e ainda sugam), traidores, invejosos.
– E ainda conheci e conheço os avarentos, os burocratas, os imbecis, os madraços, os cobardes, os homens de alma desabitada, os loucos, os perversos e tantos outros que brincam com a saúde e os direitos daqueles que estão permanentemente sob a alça do seu (deles) ponto-de-mira. –
Assim, Anjo meu – paciente Anjo – também fui vítima de muitos: roubado no “Ter” e no “Ser”. Fui excluído da cultura, da educação e, de certo modo, das profissões que sonhei ter, entre outras coisas.
– Desta forma me moldaram e me trataram os homens que vivem lá em baixo! Finalmente, Anjo do meu Senhor, queria afirmar-te que, na vida, sempre caminhei devagar, é certo, mas nunca parei. Andei sempre atento, rindo e chorando, mas sem nunca negar ou trair o meu país como alguns fizeram e disso hoje se ufanam.
– Ultimamente procurei conhecer melhor o meu Deus e, fruto desses conhecimentos, dei-me aos outros sem olhar a classes ou raças: dos que tive conhecimento e soube estarem moribundos, a quase todos visitei; sempre que vi necessário, dei algum do meu pouco pão; quando se juntaram dois fatos no armário e um ficou disponível, eu próprio o coloquei aos ombros do nu.
– Portanto, Anjo que me segues e interrogas, assim me apresento ao meu Senhor, que nestes últimos anos segui, servi e amei com todas as forças dos meus membros, com todo o sangue das minhas veias e com toda a força da minha capacidade intelectual.
– Que o Imperador do Céu e da Terra – continuei – me não veja como totalmente imperfeito, mas sofredor também e que Sua Mãe interfira, de forma que premeie este débil, humilde, mas convicto seguidor.
Ecce homo, Anjo meu!
– Bom, caro peregrino dos mares e dos céus – interrompeu o Alguém do Tapete branco. Por mim, julgo-te justificado e aproxima-te da Porta que pretendes, pois...
E com esta última palavra “pois”, do Anjo meu, acordei e foi maravilhoso ter acordado a sorrir.
(Artur Soares)
(O autor não segue o acordo ortográfico de 1990)
Penso que Sua Excelência o Presidente da República, Marcelo de Sousa, adora protagonismo ou então gosta de falar meia-hora em cinco minutos. Também pode gostar de mostrar ao povaço, que bem não se sente se estiver quieto e calado.
Também pode querer que pensem que é o pai da nação e que o povaço não tem peitaça para pensar, e que a incultura política existente o obriga a fazer política em nome de todos.
Sua Excelência o Presidente, tem o direito de pensar o que quer e desabafar o que entende, desde que o seu desabafar não crie nódoas à Presidência da República, nem mau nome à Nação e, evidentemente, aos portugueses.
Nas festas do 50º aniversário da Abrilada em Portugal, foi altamente anunciado, que Sua Excelência entende que Portugal deve fazer “acções concretas” em reparações coloniais, “pagar os custos” da presença colonial portuguesa nos países respectivos, enfim, toda uma situação que ninguém lhe encomendou e muito menos encomendaram os chefes desses países, que estavam presentes nas comemorações Abrileiras.
Acredito que possa haver possibilidades de fazer certas “reparações” e ou devoluções aos países a quem Abril deu a independência. Pode haver coisas, várias coisas que possam ter sido usurpadas das ex-colónias portuguesas e entendo que devem ser devolvidas.
Agora “pagar custos” da presença colonial portuguesa, no mínimo, isso é demagogia, é querer protagonismo, é não ter os pés assentes no terreno da política que faz.
Ora, se está em causa “reparar” e “pagar custos”; se é justo assim se proceder; se uma obrigação vinda e imposta do exterior tivesse de ser cumprida, Sua Excelência o Presidente da República de Portugal – para haver contas certas – teria de exigir aos Árabes o que nos usurparam, aos Romanos idem, aos Franceses idem, e teria de exigir à Espanha a devolução de Olivença e de mais três povoações, que são de Portugal, que as invasões Napoleónicas fizeram.
Mais: “acções concretas” e “reparar ou pagar custos”, devido à permanência portuguesa em África, tem obrigação a Nação em primeiríssimo lugar, de reparar e pagar custos aos muitos milhares de portugueses que foram obrigados a enfrentar a guerra nas três ex-províncias ultramarinas, reparação e custos que nunca foram pensados e analisados pelos militares de Abril/1974 e pelos políticos que nos têm governado nestes últimos cinquenta anos.
Mais: Militares de Abril e estes democratas de ocasião, nunca “repararam nem pagaram custos”, às mães viúvas dos soldados mortos em África; aos filhos órfãos então criados; aos milhares de estropiados por balas e minas rebentadas, esqueceram, isto é, não há um serviço de saúde próprio para as centenas e centenas de stressados dessa guerra, que lutam pela sobrevivência e que não conseguem saber onde estão e quem são.
Sua Excelência o Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, ao levantar tais problemas sem que alguém lhos encomendasse – pelos menos oficialmente – pretende ser bombeiro na casa dos outros e esquece o fogo existente há muito tempo na sua casa – Portugal. Pretende enviar detergentes para limpar a casa dos outros, mas esquece que a sua casa – Portugal – tem lixo bolorento e pedregulhos perigosos do Minho ao Algarve.
Senhor Presidente da República de Portugal, Marcelo de Sousa: pense sim em ser frenético e nunca se deixar calar, pela reparação e custos aos militares vivos da guerra do Ultramar, aos estropiados e stressados, bem como ser frenético, deveras frenético, em que a Espanha devolva Olivença, que é Portugal, mesmo que se tenha de recorrer a QUEM DE DIREITO, e não andarem com paninhos-quentes e ao beija-mão a Espanha.
A espanhóis, a árabes, a romanos e aos franceses, nada devemos. Eles sim, devem. E depois de recebermos e de se pagar aos soldados, sargentos e oficiais milicianos da guerra do Ultramar, façamos então contas certas por termos sido colonizadores.
Finalmente, como escreveu Fernando Pessoa: “Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade”, o carácter e a seriedade, pois claro!
(Artur Soares – escritor d’Aldeia)
(O autor não segue o acordo ortográfico de 1990).
***
A propósito...

Sala de Leitura Real Portuguesa, Rio de Janeiro, Brasil
Fonte da imagem: https://www.facebook.com/photo/?fbid=742625181402812&set=a.723522463313084
O Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, fundado em 14 de Maio de 1837, possui a maior e mais valiosa Biblioteca de obras de autores portugueses fora de Portugal, com um acervo de 350.000 volumes. Trata-se de uma Biblioteca fundada por Portugueses, como prova de gratidão dos que foram para o Brasil procurar uma vida melhor.
E se os Portugueses quisessem que o Brasil devolvesse esta riqueza bibliográfica a Portugal, como reparo do que o Brasil fez à Língua Portuguesa?
Isabel A. Ferreira
Fonte da imagem: https://www.facebook.com/photo/?fbid=742625181402812&set=a.723522463313084
A publicação é de 23 de Novembro de 2017. Mas, desde então, o que mudou neste nosso desventurado País, desgovernado por gente que não sabe o que faz, nem tem a noção do MAL que está a provocar?
Hoje já não se fazem HOMENS com letras maiúsculas! E quem diz homens, diz MULHERES!
Os gritos da Isabel Rosete são os meus gritos também.
Um texto que subscrevo com excepção do título, que eu diria: RELES GOVERNANTES que destruíram Portugal. Portugal não tem culpa alguma de quem mal o governa.
Isabel A. Ferreira

"RELES PORTUGAL"
«PORTUGAL é um país CULTURALMENTE DEVASTADO, porque nivelado pela MEDIOCRIDADE das mentes pequenas, mesquinhas, politiqueiras, RELES politiqueiras, em vivências de APARÊNCIAS que, pelo SABER que faz CRESCER, NÃO LUTAM.
Poucos são hoje os analfabetos literais. Porém, proliferam os ANALFABETOS FUNCIONAIS encontrados, inclusivamente, dentro de algumas Universidades nacionais.
QUANTA MISÉRIA!
QUANTA ESCUMALHA!
URGE INOVAR EDUCACIONAL e CULTURALMENTE. A FALÊNCIA DESTE POVO JÁ ESTÁ À VISTA e HÁ MUITO!
- ONDE REINA A "ARTE DE SER PORTUGUÊS", de que falava/fala o Mestre Teixeira de Pascoaes na sua obra como o mesmo título?
- ONDE REINA A PORTUGALIDADE de um POVO/NAÇÃO (não Estado) de AVENTUREIROS, NAVEGANTES PELOS MARES DA NOSSA e de OUTRAS CULTURAS em intercâmbio que, outrora, também foram as nossas (não obstante a tragédia da colonização da triste África)?
MALDITA MASSIFICAÇÃO DA CULTURA, que CULTURA JÁ NÃO É!
MALDITOS POLÍTICOS que mandam EMIGRAR os poucos ILUMINADOS - OS REALMENTE ILUMINADOS - que ainda restam nesta Pátria ASSOMBRADA, REDUZIDA à ECONOMIA!
QUANTA MISÉRIA!
QUANTA ESCUMALHA!
SÓ O SABER, surgido da EDUCAÇÃO/CULTURA, pode ser o FUNDAMENTO do PODER, a sua FORTIFICAÇÃO GENUINAMENTE VÁLIDA e SÓLIDA.
O PODER sem O SABER é VAZIO!
Isabel Rosete
Fonte:
https://www.facebook.com/photo/?fbid=10208595782327083&set=a.1016096737753
E isto só acontece num país cheio de gente perversa e impiedosa!
Leiam as notícias e pasmem!

«Dentro da cidade sadina, miséria em estado puro na Parvoíce»
Metade do bairro é clandestino e quase todos os 150 residentes são muito pobres e desempregados. Por vezes passam semanas sem água. Vivem da caridade e dos apoios sociais. Na Parvoíce comer é um luxo e sobreviver é um feito.
Se fosse um filme alguém se encarregaria de lhe dar um título do género: “Viver, missão impossível”. Mas não é um filme. É a realidade. Na Quinta da Parvoíce, em Setúbal, viver é um desafio diário, onde muitos dos quase 150 residentes quase lutam com os bichos por um pouco de comida. No bairro clandestino salpicado de barracas a chegada dos voluntários da igreja, com palavras de esperança, é o balão de oxigénio de uma parte da população que há muito definha à espera de uma casa e de trabalho.
O próprio nome do local, ali nas imediações da paróquia de Nossa Senhora da Conceição, parece atrair a desgraça. Ninguém consegue explicar com lógica porque se chama Parvoíce a um local onde há seres humanos que ali quase vegetam desde o início da década de 2000, quando famílias vindas de África começaram à procura de local para viverem. Muito menos alguém consegue explicar porque razão há tanta pobreza num sítio que antes, ironicamente, se chamava Quinta da Boa Água e que era o local preferido para o abastecimento das tripulações que se faziam ao mar.
A chegada do padre Constantino Alves ao bairro é uma lufada de esperança. Ele é um dos poucos que, diariamente, se empenha para que a população ainda vá tendo com que viver. Ainda esta semana, depois de muitos contactos com a câmara de Setúbal, lá conseguiu reverter mais um corte de água, que já durava há cerca de quinze dias, e fazer com que o liquido voltasse a correr nas torneiras que por ali estão espalhadas, seja na parte do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), seja na zona das casas clandestinas. As pessoas, muitas delas desempregadas e doentes, reconhecem o seu trabalho e recebem-no de braços abertos.
À falta de condições de salubridade juntam-se constantes cortes de água
“Não trago bens nem alimentos. Isso são as pessoas que têm de ir buscar às nossas instalações e ao nosso restaurante social, até porque não temos meios para fazer a distribuição”, diz o padre ao Semmais. “Maior miséria é difícil de encontrar”, afirma Constantino Alves, lembrando a mulher sem pernas que foi mãe há cerca de um mês e que teve de suportar mais um corte de água sem sequer ter outro modo de se deslocar a não ser arrastando-se pelas ruas de terra.
Falar com os residentes é uma tarefa difícil. Andam equipas de televisão pelo bairro e a população tenta esconder a miséria das câmaras. Ainda assim conseguimos trocar breves impressões com uma mulher. Uma congolesa de 50 anos, cujo nome foi de todo impossível de perceber, e que vive numa casa com três quartos na companhia do marido, de quatro filhos, noras e genros e sete netos. Ao todo são 17 pessoas. “Vim Congo/Angola e Angola/Portugal”, diz a mulher que está desempregada, tal como o marido, e que tem problemas ósseos. Medicamentos? “Uma vez marido faz biscate. Outra vez Segurança Social paga”. Não sabe quando acabarão os seus dias de miséria. Sabe apenas que “entra muita água na casa” e que espera “há muito tempo” pela habitação que terá sido prometida pela câmara municipal.»
Fonte:
https://semmais.pt/2020/10/31/dentro-da-cidade-sadina-miseria-em-estado-puro-na-parvoice/
***
E pensar que a presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria das Dores Meira (CDU), assumiu em reunião com a prótoiro, que a tauromaquia irá ter continuidade na cidade, e até anunciou que as obras de remodelação da praça de Touros Carlos Relvas poderão arrancar no início de 2021.
Como é que isto é possível com tanta miséria no concelho?
Só mesmo “artes” do diabo!
Senhora Maria das Dores Meira, tenha ao menos um pingo de solidariedade para quem não teve as mesmas oportunidades que a senhora teve na vida, para chegar onde chegou, ainda mais com a pretensão de esbanjar os dinheiros públicos na prática bárbara de tortura de touros.
Gaste esse dinheiro em algo útil. Os impostos dos Setubalenses não são para serem gastos em práticas cruéis.
Isabel A. Ferreira

Ler esta notícia insólita e macabra neste link:
Tudo o que se lê no texto, que mais abaixo é reproduzido, é uma verdade que ainda hoje podemos encontrar em determinados "esconderijos" de Portugal, de que ninguém tem ordem para esmiuçar.
Um novo fascismo espreita. Uma nova ditadura impõe-se sorrateiramente. Quem acha que vive numa democracia engana-se. Estão adormecidos. Acordem, porque ditaduras de esquerda e de direita vão dar ao mesmo.
Não se iludam.
Em Democracia, o POVO é quem mais ordena. E no actual regime quem ordena são uns pequenos ditadores com pretensão de chegar a grandes. E o povinho vai dormindo, enquanto a caravana da nova ditadura vai passando, cantando e rindo, levada, levada sim, pela letargia de um povo que ressona de olhos abertos, olhos que apenas olham e nada vêem...
Isabel A. Ferreira

«Tão felizes que nós éramos
Por Clara Ferreira Alves, num texto publicado no Expresso, em 18/03/2017
Anda por aí gente com saudades da velha Portugalidade. Saudades do nacionalismo, da fronteira, da ditadura, da guerra, da PIDE, de Caxias e do Tarrafal, das cheias do Tejo e do Douro, da tuberculose infantil, das mulheres mortas no parto, dos soldados com madrinhas de guerra, da guerra com padrinhos políticos, dos caramelos espanhóis, do telefone e da televisão como privilégio, do serviço militar obrigatório, do queres fiado toma, dos denunciantes e informadores e, claro, dessa relíquia estimada que é um aparelho de segurança.
Eu não ponho flores neste cemitério.
Nesse Portugal toda a gente era pobre com excepção de uma ínfima parte da população, os ricos. No meio havia meia dúzia de burgueses esclarecidos, exilados ou educados no estrangeiro, alguns com apelidos que os protegiam, e havia uma classe indistinta constituída por remediados.
Uma pequena burguesia sem poder aquisitivo nem filiação ideológica a rasar o que hoje chamamos linha de pobreza. Neste filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia observar-se o mundo português continental a partir de uma rua.
O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós. Numa rua de cidade havia uma mercearia e uma taberna. Às vezes, uma carvoaria ou uma capelista. A mercearia vendia açúcar e farinha fiados. E o bacalhau. Os clientes pagavam os géneros a prestações e quando recebiam o ordenado. Bifes, peixe fino e fruta eram um luxo.
A fruta vinha da província, onde camponeses de pouca terra praticavam uma agricultura de subsistência e matavam um porco uma vez por ano. Batatas, pêras, maçãs, figos na estação, uvas na vindima, ameixas e de vez em quando uns preciosos pêssegos.
As frutas tropicais só existiam nas mercearias de luxo da Baixa. O ananás vinha dos Açores no Natal e era partido em fatias fininhas • para render e encharcado em açúcar e vinho do Porto para render mais.
Como não havia educação alimentar e a maioria do povo era analfabeta ou semianalfabeta, comia-se açúcar por tudo e por nada e, nas aldeias, para sossegar as crianças que choravam, dava-se uma chucha embebida em açúcar e vinho. A criança crescia com uma bola de trapos por brinquedo, e com dentes cariados e meia anã por falta de proteínas e de vitaminas. Tinha grande probabilidade de morrer na infância, de uma doença sem vacina ou de um acidente por ignorância e falta de vigilância, como beber lixívia. As mães contavam os filhos vivos e os mortos era normal. Tive dez e morreram-me cinco.
A altura média do homem lusitano andava pelo metro e sessenta nos dias bons. Havia raquitismo e poliomielite e o povo morria cedo e sem assistência médica. Na aldeia, um João Semana fazia o favor de ver os doentes pobres sem cobrar, por bom coração.
Amortalhado a negro, o povo era bruto e brutal. Os homens embebedavam-se com facilidade e batiam nas mulheres, as mulheres não tinham direitos e vingavam-se com crimes que apareciam nos jornais com o título ‘Mulher Mata Marido com Veneno de Ratos’.
A violação era comum, dentro e fora do casamento, o patrão tinha direito de pernada, e no campo, tão idealizado, pais e tios ou irmãos mais velhos violavam as filhas, sobrinhas e irmãs. Era assim como um direito constitucional. Havia filhos bastardos com pais anónimos e mães abandonadas que se convertiam em putas.
As filhas excedentárias eram mandadas servir nas cidades. Os filhos estudiosos eram mandados para o seminário. Este sistema de escravatura implicava o apartheid.
Os criados nunca dirigiam a palavra aos senhores e viviam pelas traseiras.
O trabalho infantil era quase obrigatório porque não havia escolaridade obrigatória. As mulheres não frequentavam a universidade e eram entregues pelos pais aos novos proprietários, os maridos.
Não podiam ter passaporte nem sair do país sem autorização do homem. A grande viagem do mancebo era para África, nos paquetes da guerra colonial. Aí combatiam por um império desconhecido.
A grande viagem da família remediada ao estrangeiro era a Badajoz, a comprar caramelos e castanholas. A fronteira demorava horas a ser cruzada, era preciso desdobrar um milhão de autorizações, era-se maltratado pelos guardas e o suborno era prática comum.
De vez em quando, um grande carro passava, de um potentado veloz que não parecia sujeitar se à burocracia do regime que instituíra uma teoria da excepção para os seus acólitos. O suborno e a cunha dominavam o mercado laboral, onde não vigorava a concorrência e onde o corporativismo e o capitalismo rentista imperavam. Salazar dispensava favores a quem o servia.
Não havia liberdade de expressão e o lápis da censura aplicava-se a riscar escritores, jornalistas, artistas e afins. Os devaneios políticos eram punidos com perseguição e prisão. Havia presos políticos, exilados e clandestinos. O serviço militar era obrigatório para todos os rapazes e se saíssem de Portugal depois dos quinze anos aqui teriam de voltar para apanhar o barco da soldadesca.
A fé era a única coisa que o povo tinha e se lhe tirassem a religião tinha nada. Deus era a esperança numa vida melhor. Depois da morte, evidentemente.»
Fonte:
Tal como um Dom Quixote há muito que também eu luto contra o Medo, contra a Injustiça e contra a Ignorância… muitas vezes com êxito, outras, nem por isso.
Em 2016, escrevi o texto que aqui hoje reproduzo, porque já naquele tempo eu pressentia um mundo a vir, povoado por algo que não podia ainda imaginar.
Hoje, que o mundo anda virado do avesso, devido a uma essência invisível, mais poderosa do que o mais poderoso dos homens, repito essas palavras, escritas com desalento, mas mantendo a esperança de que a mudança surja na próxima curva da estrada…
Foi nessa esperança que Dom Quixote assentou toda a exuberância da sua saga…

É com profundo descrédito no bom senso, na inteligência e no poder de discernimento dos homens que entro no ano de 2016 [leia-se 2020].
… No entanto, mantenho a esperança de que a mudança surja na próxima curva da estrada…
Bem gostaria de aqui deixar uma mensagem optimista dos tempos que estão para vir, mas as notícias que nos chegam do mundo não são as mais propícias.
Quanto mais a Humanidade avança no tempo, mais retrocede o poder de raciocínio do homem, mais irracional ele se torna e, por este andar, não tarda, regressaremos ao tempo das trevas, ou talvez ao fim de uma era.
Até há alguns anos, à partida, para mim, todos os homens eram bons, até demonstrarem o contrário. Hoje, o meu pensamento mudou: tantas foram as decepções, tantos foram os desaires!...
Hoje, à partida, para mim, todos os homens são maus, até demonstrarem o contrário. E esta mudança, bastante radical, confesso, começou a operar-se depois que entrei neste mundo imundo que aqui vou denunciando, quando fui penetrando a fundo nos problemas políticos, melhor dizendo, nos desajustes dos políticos que estão na base de todos (ou quase todos) os desequilíbrios sociais, económicos, morais, culturais e até religiosos de toda a sociedade humana.
O avanço tecnológico, mal orientado e mal aproveitado, tem levado a Humanidade ao caos. Os valores humanos estão a diluir-se, e o homem está a transformar-se num ser vazio e irracional.
Já não há respeito pela vida, não há respeito pelos outros animais, mão há respeito pelo Ambiente, não há respeito por absolutamente nada, porque o homem deixou de se respeitar a si próprio, e este é o pior dos desrespeitos, é o começo da desestruturação do ser, que leva à desintegração de toda a sociedade.
E aqueles que, agarrados a um fiozinho da racionalidade que ainda se vislumbra algures, entre as ruínas do mundo, parece que perdem o seu tempo, tentando abrir os olhos e os ouvidos daqueles que há muito deixaram de ver e ouvir, não por motivo de alguma doença súbita, mas levados por um egoísmo desmedido que os lançou na ignorância, ao ponto de se ignorarem a si próprios.

(Origem da imagem)
http://semeadoresdadiscordia.blogspot.pt/2008/01/chico-mendes.html
Recordo, hoje, aqui e agora, Chico Mendes, um seringueiro, sindicalista, activista político e ecologista brasileiro, assassinado nas vésperas do Natal de 1988, apenas porque compreendia as árvores, acarinhava a água e respeitava as flores, ao ponto de não querer flores no seu enterro, pois sabia que as iam arrancar da floresta…
Chico Mendes era um ambientalista, que apenas pretendia defender a Amazónia, pretendia defender a vida do nosso Planeta, e os tais ignorantes assassinaram-no.
Por todo o mundo, em pleno século XXI depois de Cristo, ouvimos falar de guerras, de um terrorismo com consequências incalculáveis, porque os governantes endoideceram, e o povo endoideceu com eles, e não há nada nem ninguém que faça parar esta loucura.
Na Rússia e nos EUA passa-se fome. Em países da dita civilizada Europa vegeta-se e morre-se. Na África, milhares de pessoas estão condenadas. Nos países ricos esbanjam-se bens, esbanja-se dinheiro e esbanjam-se vidas.
Um desequilíbrio cósmico instalou-se no nosso Planeta, e mais perigosamente no íntimo dos homens, e a poluição do meio ambiente aliou-se a uma poluição mental, que está a conduzir o mundo para o abismo.
Num destes dias, em conversa com uns amigos, chamaram-me a atenção para a visão pessimista que eu tenho em relação à sociedade, aos políticos, aos governantes…
É verdade!
Mas que motivos terei eu para ser optimista?
… No entanto, mantenho a esperança de que a mudança surja na próxima curva da estrada…
Podem chamar-me de desatinada, quando me vêem sorrir para as flores, mas é que eu entendo a linguagem das flores…
Podem chamar-me de desatinada quando canto ao desafio com os pássaros, mas eu sei de cor todas as canções que os pássaros cantam, sem pauta, sem métrica, mas com muita harmonia…!
Podem chamar-me de desatinada, quando me encontram a acarinhar um Lobo, mas eu tenho alma de Lobo, sei das emoções dos meus irmãos animais…
Podem chamar-me de desatinada quando me quedo a escutar o silêncio, mas podem crer que o som do silêncio é extasiante, é o mais eloquente som da Natureza.
Não me perguntem como, nem por que tenho a percepção deste meu mundo feito de coisas invisíveis, acantoado por detrás desse outro mundo que todos julgam real, mas que, na realidade, não passa de uma miragem no infinito deserto, que é a vida dos que não conseguem ver o invisível…
Que razões tenho eu para ser optimista quando os que me rodeiam não conseguem ver o mundo das flores; não conseguem acompanhar o canto harmonioso dos pássaros; não conseguem sentir a respiração da alma dos Lobos; ou ouvir o vibrante som do silêncio?
Apenas uma certeza faz com que possa vislumbrar uma luz ao fundo do túnel: é que, tal como Miguel de Cervantes, eu também acredito ferverosamente que «Deus suporta os maus, mas não eternamente» …
Por isso, um a um, aqueles homens maus, cujo único objectivo da existência deles é violar a harmonia cósmica, cairão um dia. Sempre assim foi, desde o princípio dos tempos… Todos os tiranos da Humanidade caíram inevitavelmente… E aos maus, jamais nenhum Homem de bem ergueu uma estátua. E se as ergueram, por equívoco, logo as derrubaram.
E nesta mensagem de Ano Novo que aqui vos deixo, um tanto ou quanto pessimista, continuo a manter a esperança de que a mudança surja na próxima curva da estrada…
Isabel A. Ferreira
Fonte:
https://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/no-entanto-mantenho-a-esperanca-de-608100
Um alerta vermelho dos cientistas, para que haja futuro!
Não é o homem quem domina o mundo.
Aprenda-se a lição que o novo coronavírus veio dar à Humanidade.

«Investigadores afirmam que a pandemia de Covid-19 deve ser encarada como um aviso mortal. Ou seja, devemos pensar nos animais como parceiros, cuja saúde e habitats têm de ser protegidos para evitar o próximo surto global.
O novo coronavírus, que já atravessou o mundo para infectar mais de um milhão de pessoas, começou como tantas pandemias e surtos no passado: dentro de um animal. O hospedeiro original do vírus foi quase certamente um morcego, tal como aconteceu com o ébola, o SARS, o MERS e vírus menos conhecidos como o Nipah e o Marburg. O VIH migrou para os seres humanos há mais de um século, vindo de um chimpanzé. O influenza A “saltou” das aves para os porcos e para as pessoas. Os roedores espalharam a febre de Lassa na África Ocidental. Mas, segundo os cientistas que estudam as doenças zoonóticas, que passam dos animais para as pessoas, o problema não são os animais, somos nós.»
«Os animais selvagens sempre foram portadores de vírus. O tráfico mundial de animais selvagens no valor de milhares de milhões de dólares, a intensificação da agricultura, a desflorestação e a urbanização estão aproximando as pessoas dos animais, dando aos seus vírus aquilo que precisam para nos infectar: oportunidade. A maioria falha, mas alguns são bem-sucedidos. Muito poucos, como o SARS-CoV-2, triunfam, ajudados por uma população humana interligada que pode transportar um agente patogénico para todo o mundo e em poucas horas.
À medida que o mundo se esforça por fazer face a uma crise económica e de saúde pública sem precedentes, muitos investigadores da doença afirmam que a pandemia de Covid-19 deve ser encarada como um aviso mortal. Isso significa pensar nos animais como parceiros, cuja saúde e habitats devem ser protegidos para evitar o próximo surto global.
Peter Daszak, ecologista de doenças e presidente da EcoHealth Alliance, uma organização de saúde pública que estuda as doenças emergentes afirmou que «As pandemias, no seu conjunto, estão a aumentar de frequência. Não é um acto aleatório de Deus. É causado pelo que fazemos ao meio ambiente. Temos de começar a ligar essa cadeia e fazer estas coisas de forma menos arriscada. (…) Os pontos mais propícios à propagação de vírus têm três coisas em comum: muitas pessoas, diversas plantas e animais e rápidas mudanças ambientais.»
Segundo os cientistas, cerca de 70% das doenças infecciosas emergentes nos seres humanos são de origem animal e podem existir cerca de 1,7 milhões de vírus por descobrir na vida selvagem. Muitos investigadores estão à procura dos próximos vírus que poderão passar de animais para os humanos.
Thomas Gillespie, ecologista de doenças da Universidade de Emory, no estado da Geórgia, nos Estados Unidos da América afirmou que «os roedores e morcegos são dos mais prováveis hospedeiros para as doenças zoonóticas. Cerca de metade das espécies de mamíferos são roedores e cerca de um quarto são morcegos. Os morcegos constituem cerca de 50% dos mamíferos nas regiões tropicais com maior biodiversidade e, embora sejam valiosos polinizadores e devoradores de pragas, são também espantosos transmissores de vírus. Têm um sistema imunitário que é uma espécie de super-herói que lhes permite tornarem-se “reservatórios de muitos agentes patogénicos que não os afectam, mas que podem ter um impacto tremendo em nós se forem capazes de dar o ‘salto’”. E cada vez tornamos o “salto” mais fácil.»
No final do ano passado, um coronavírus de morcego-de-ferradura surgiu na China, onde o comércio de animais exóticos é impulsionado por gostos de luxo, pela caça e pela procura de produtos utilizados para fins medicinais. No Wet Market [mercados de animais selvagens ao ar livre] em Wuhan, ligado aos primeiros casos de Covid-19, pelo menos uma loja vendeu animais como filhotes de lobo e gatos-civeta para consumo. Estes mercados, dizem os especialistas, apresentam animais stressados e doentes, empilhados em gaiolas, num ambiente repleto de fluidos corporais, onde também se mata animais e corta carne — condições ideais para o “salto” do vírus entre espécies.
Embora os morcegos-de-ferradura sejam caçados e comidos na China, não é fácil perceber como é que o vírus do morcego infectou as primeiras pessoas. O rasto dos primeiros casos levou ao mercado de animais, mas o espaço foi fechado e higienizado antes de os investigadores conseguirem localizar o animal que poderia estar implicado. E provavelmente esta nem foi a localização do tal “salto” do vírus para os humanos em si, o que poderá ter acontecido semanas antes, possivelmente em Novembro. Alguns dos primeiros casos não tinham qualquer ligação com o mercado de animais.
Como o novo coronavírus não é idêntico a nenhum vírus conhecido de morcego, houve algures entre o morcego e o ser humano uma mutação em pelo menos um intermediário, talvez o ameaçado pangolim, um mamífero muito traficado pelas suas escamas.
O surto de SARS de 2003, que acabou por ser associado aos morcegos-de-ferradura por cientistas que se embrenharam em escorregadias grutas forradas por guano [acumulação de fezes de morcegos e aves], foi também rastreado até aos mercados de animais selvagens. Os cientistas acreditam que esse coronavírus “saltou” de morcegos para gatos-civeta — mamíferos semelhantes a gatos, vendidos para consumo — para humanos.
Chris Walzer, director executivo do programa de saúde global da Wildlife Conservation Society (WCS), disse aos jornalistas que «um dos principais ambientes para a ocorrência destes ‘saltos’ são os mercados e o comércio internacional de animais selvagens».
Por sua vez, Fabian Leendertz, veterinário que estuda doenças zoonóticas no Instituto Robert Koch, em Berlim disse que «na África, a diminuição das populações de grandes mamíferos faz com que a caça aponte o alvo a espécies cada vez mais pequenas, incluindo roedores e morcegos, afirmou. Embora alguns animais sejam consumidos para subsistência ou fins tradicionais, as vendas de carne exótica são também uma “enorme economia” nas megacidades em rápido crescimento. É algo que eu pararia primeiro. O risco reside “numa maior pressão de caça e numa maior taxa de contacto para aqueles que vão caçar e para aqueles que depois tratam a carne».
Daszak afirmou que «o comércio internacional de animais exóticos, como répteis e peixes, também é preocupante, porque os animais raramente são testados para detectar agentes patogénicos que possam adoecer os humanos. Quando penso no principal factor de risco, é a gripe A, que está ligada à produção de porcos e galinhas». E Gillespie remata: «Assim como as grandes “explorações fabris” repletas de animais.»
Mas a criação de animais não é o único local em que um vírus pode passar a barreira de espécies. Os seres humanos partilham cada vez mais espaço com a vida selvagem e alteram-na de forma perigosa, dizem os investigadores. A doença de Lyme, causada por uma bactéria, propaga-se mais facilmente no Leste dos Estados Unidos porque as florestas fragmentadas têm menos predadores, como raposas e gambás, que comem ratos que albergam carraças que espalham Lyme, dizem estudos. A construção de edifícios leva a uma coexistência mais estreita com alguns animais selvagens, incluindo morcegos, disse Leendertz.
Os cientistas apontam o aparecimento na Malásia, em 1998, do vírus Nipah, que matou centenas de pessoas em vários surtos na Ásia, como um exemplo vívido de um vírus que passou a barreira e “saltou” para os humanos, alimentado pelas alterações ambientais e pela intensificação da agricultura. A desflorestação de florestas tropicais para a produção de óleo de palma e madeira deslocou morcegos-da-fruta, alguns dos quais acabaram em explorações de suínos, onde também cresciam mangueiras e outras árvores de fruto. Os morcegos “caem mais do que comem”, disse Gillespie — a saliva e as fezes infectaram os porcos que se encontravam em baixo. Os porcos adoeceram e infectaram os trabalhadores agrícolas e as pessoas próximos da indústria.
«Onde quer que estejamos a criar novas interfaces, este é provavelmente um risco que temos de considerar seriamente”, afirmou. “Estamos a forçar a vida selvagem a procurar novas fontes de alimento. Estamos a forçar a mudar o seu comportamento de formas que os colocam em melhor posição para transferir o patogénico para nós».
A Wildlife Conservation Society e outros grupos exortam os países a proibir o comércio de animais selvagens para fins alimentares e a fechar os mercados de animais vivos. Anthony S. Fauci, o maior especialista em doenças infecciosas dos EUA e o rosto da resposta do país à pandemia, disse que a comunidade mundial deveria pressionar a China e outras nações que acolhem esses mercados para os fechar. «Fico perplexo como, quando temos tantas doenças que emanam dessa invulgar interface humano-animal, não nos limitemos a desligá-la», disse Fauci à Fox News.
A China, que interrompeu brevemente o comércio de gatos-civeta após o surto da SARS, anunciou em Fevereiro uma proibição do transporte e venda de animais selvagens, mas apenas até que a epidemia do novo coronavírus seja eliminada. É necessária legislação permanente, afirmou Aili Kang, directora executiva do programa WCS para a Ásia.
«É necessária uma vigilância mais rigorosa das doenças dos animais selvagens — encará-los como “sentinelas», disse Leendertz. «Certo é que há uma percepção generalizada de que a construção em habitats selvagens pode alimentar crises de saúde pública» afirmou Gillespie. Muitos investigadores afirmam que a actual pandemia sublinha a necessidade de uma abordagem mais holística de “saúde única”, que encara a saúde humana, animal e ambiental como estando interligadas.
«É necessário que haja uma mudança cultural a partir de um nível comunitário sobre a forma como tratamos os animais, a nossa compreensão dos perigos e dos riscos para a biossegurança a que nos expomos», afirmou Kate Jones, professora de Ecologia e Biodiversidade do University College London. «Isso significa deixar os ecossistemas intactos, não destruí-los. Significa pensar de uma forma mais duradoura».
Fontes: ANDA
Uma extraordinária Lição de História, recebida via e-mail, a propósito das considerações do Primeiro-Ministro de Portugal, ao dizer que o discurso do Ministro das Finanças holandês o repugnava, quando este Bóer, disse que a Espanha não devia ser ajudada da catástrofe em que o coronavírus está a deixá-la, porque depois não conseguia pagar a dívida.

António Costa criticou as conclusões do Conselho Europeu extraordinário LUSA/ANTÓNIO PEDRO SANTOS
Origem da foto:
«Não vou discutir a questão dos Eurobonds, que já é velha e em que a posição dos diversos países europeus não mudou. O que me ocorre comentar é o acinte do ministro holandês para com a Espanha.
Porquê em especial a Espanha?
Há coisas da História que ficam na memória colectiva dos povos, não tanto enquanto memória dos factos, mas como memória emocional, em ódios e estimas. E o facto é que há na Holanda um ressentimento secular contra Espanha e também contra Portugal, como se constata em blogs e ciber-grupos quando se fala dos Descobrimentos ibéricos. Donde vem isso?
É que a Espanha e a Holanda travaram uma guerra durante 80 anos, entre 1568 e 1648! A qual acabou com a vitória holandesa na Europa, mas a derrota no Ultramar espanhol. É uma longa história, que não vou desenvolver, mas referir apenas que, sem justificação, a Holanda alargou essa guerra a Portugal, no que foi sem dúvida a primeira guerra imperialista moderna da História europeia.
Por cá é pouco conhecida, como tudo o que respeita à História do nosso império ultramarino, mas essa guerra foi a guerra mais longa que Portugal travou na sua História, a seguir à guerra contra os mouros.
Basicamente, a Holanda procurou roubar a Portugal o seu império ultramarino. Começou por piratear sistematicamente os nossos galeões e caravelas, e no Oriente tirou-nos tudo o que pôde - Ceilão, as Molucas (actual Indonésia, de que só nos deixou Timor), o comércio com o Japão, e só não nos tirou Macau por que o imperador chinês nos protegeu, ao contrário do imperador japonês.
Na África tirou-nos o Cabo, não conseguiu tirar Moçambique, mas tentou também tirar-nos o Brasil e as colónias da África atlântica. Que foi onde a guerra foi mais acesa e longa.
A guerra no Brasil foi pela apropriação das plantações de açúcar, e durou 65 anos. Foram os próprios brasileiros quem derrotou e expulsou os holandeses, embora estes tenham depois ido plantar açúcar na Guiana. Como o açúcar brasileiro (que todos os outros depois copiaram no Haiti, em Cuba, etc.) era uma agro-indústria inviável sem os escravos africanos, a Holanda tomou-nos São Tomé e Príncipe, a Mina na costa da Guiné, e em 1640, quando já não éramos súbditos dos espanhóis e, portanto, sem desculpa, Luanda. Mas apenas Luanda, nunca conseguindo desalojar os portugueses das suas posições no interior, graças aos nossos aliados africanos e também à ajuda brasileira.
Também no Brasil, como em Angola, os holandeses nunca conseguiram passar de algumas cidades costeiras para o interior. No interior dominaram sempre os portugueses, os luso-brasileiros, e em Angola os luso-africanos. No Brasil os luso-brasileiros mantiveram cercadas as cidades costeiras sob domínio holandês, desbaratando-os quando tentavam penetrar no interior. E foram os brasileiros quem financiou, construiu e equipou a armada que foi a Luanda e a São Tomé recuperar aquelas fontes de escravos para as plantações de açúcar. A historiografia brasileira oficial considera que foi nessa guerra que se forjou a sua nacionalidade, com a luta combinada de destacamentos luso-brasileiros brancos, tropas índias, e tropas negras formadas por ex-escravos. Todos juntos contra os holandeses.
A questão religiosa foi importante, neste desfecho da guerra luso-holandesa. A aversão calvinista dos holandeses aos ícones religiosos católicos, aos santinhos e aos andores com a Nossa Senhora, às relíquias sagradas e ao Papa, não colhia apoio entre africanos e índios cristianizados pelos estimados jesuítas. Pelo contrário, escandalizava-os.
A Holanda perdeu essa guerra no Atlântico, portanto, mas ficou ressentida.
Nota: a Holanda era a parte norte de uma nação mais vasta, os "países baixos", cuja parte sul acabou por ficar do lado espanhol. Não só com a maioria católica do sul que não se revia no calvinismo holandês, como de parte dos próprios protestantes de outras igrejas, dada a intolerância calvinista. Essa parte sul acabou por conseguir a sua independência em 1830 e é desde então a Bélgica. Com quem Portugal sempre se deu bem.
A História tem muita força...
OBS:
Bem esteve o António Costa quando afirmou que o discurso do Ministro das Finanças holandês, o repugnava, quando este calmeirão Bóer, disse que a Espanha não devia ser ajudada da catástrofe em que o coronavírus a está a deixar porque depois não conseguia pagar a dívida.
Com os melhores cumprimentos
José Abílio Mourato
Portalegre
Só há paz na aldeia, enquanto houver água no poço
(Anónimo)
Isto não é uma vergonha para Portugal?
É.
Mas só se envergonham os que amam Portugal, e os que se preocupam em proteger a fauna, que os governantes portugueses tanto desprezam, porque interesses financeiros tilintam acima do pulsar da Vida das aves que ali têm o seu habitat.
Senhores governantes: não me venham falar que têm medidas de protecção do meio ambiente, porque estarão a MENTIR!

«Abaixo-assinado explica que temem que ave-símbolo da Holanda seja afectada pelos aviões depois de sair de África e criticam aeroporto numa zona protegida pela União Europeia.
A associação para a defesa das aves da Holanda, em parceria com a Organização Não Governamental BirdLife Europe, está a promover uma petição contra o novo aeroporto no Montijo. O texto altamente crítico para o projecto já reuniu 26 mil assinaturas.
O abaixo-assinado, promovido pela Vogelbescherming Nederland, tem por título “Maçarico Sim! Aeroporto Não!” e tem como objectivo proteger as centenas de milhares de aves do estuário do rio Tejo e em particular uma espécie: o maçarico-de-bico-direito (Limosa limosa).
À TSF, o porta-voz da associação explica que o maçarico-de-bico-direito é a ave nacional da Holanda, país por onde passam, uma vez por ano, cerca de 85% dos animais desta espécie.
“O maçarico-de-bico-direito passa o Inverno na África Ocidental, perto da Serra Leoa e Guiné, e vem até à Holanda reproduzir-se, passando por Portugal e por Espanha, parando, para ‘se reabastecer’, digamos assim, perto de Lisboa, nos campos de arroz”, detalha Thijs den Otter.
Thijs den Otter acrescenta que a área perto de Lisboa é crucial e se há um problema a meio caminho entre África e a Holanda é grande o risco de consequências graves para o maçarico.
A viagem “tão cansativa para um pássaro tão pequeno” pode ser prejudicada fazendo com que as aves cheguem à Holanda numa fase em que não encontram comida.
“Chocados com aeroporto”
Os defensores das aves na Holanda ficaram “chocados” quando souberam que existia o plano para construir o aeroporto no Montijo, um projecto que afectará, acreditam, não apenas os maçaricos como as centenas de milhares de outras aves que passam pela zona.
Sobre o maçarico-de-bico-direito a associação sublinha que “o aeroporto vai perturbá-los, afugentando-os, podendo significar o fim de uma espécie que já está ameaçada”: “O estuário do Tejo é essencial para esta ave migrar da África para a Holanda e estes campos de arroz são vitais para a sua sobrevivência”.
Zona protegida
Admitindo-se “estupefacta”, a associação que defende as aves não percebe como é que o Governo português planeia uma obra destas numa zona que faz parte da Rede Natura 2000, ou seja, uma rede de áreas designadas para conservar os habitats e as espécies selvagens raras, ameaçadas ou vulneráveis na União Europeia, falando-se mesmo num eventual “desastre ecológico”.
Os cientistas estimam que entre Janeiro e Fevereiro o Estuário do Tejo seja usado como abrigo e fonte de alimento por cerca de 50 mil maçaricos-de-bico-direito.
Uma das críticas feitas durante a participação pública sobre o Estudo de Impacto Ambiental do novo aeroporto sublinha que “podem existir conflitos nas aproximações pelo cone norte e descolagens para norte, face à existência de várias concentrações de aves acima dos 10 mil indivíduos na trajectória de voo das aeronaves, apenas a 2000 pés de altitude”. “A maioria dessas aves”, salienta-se, “são maçaricos-de-bico-direito que voam frequentemente a alturas muito superiores a 2000 pés”.
Holandeses contra aeroporto do Montijo: 26 mil já assinaram petição
Fontes: