Terça-feira, 21 de Novembro de 2023

Reflexões sobre a crise política que, actualmente, assola Portugal, por José Marques Vidal

 

Considerações com as quais me identifico (Isabel A. Ferreira)

 

Those were the days my friend.PNG

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, em Paris, em 12 de Junho de 2016

Those were the days my friend...

Fonte da imagem (que é da responsabilidade da autora do Blogue): https://www.publico.pt/2016/06/12/politica/noticia/reportagem-1734906

 

Por José Marques Vidal

 

 «Tinha de acontecer, era previsível, senão fatal como o destino, são ditames populares que, em conjunto com o adágio “Diz-me com quem andas, dir-te-ei as manhas que tens”, podem servir de justificação ao terramoto político do momento, que derrubou o primeiro-ministro do PS e com seu governo, que fora eleito por uma maioria absoluta.

 

Depois do abalo Sócrates que levou o país à bancarrota e originou a intervenção do fundo Monetário Internacional na orientação da nossa política económico-financeira, e dos avisos da União Europeia sobre a degradação do combate à corrupção que lavrava nos meios da administração central e autárquica, o sistema legislativo e governamental daquele partido continuou a fazer ouvidos de mercador ou a fazer de conta sem mudar uma linha no caminho que trilhava. Os homens do sistema em vigor nos tempos de Sócrates que escaparam à repressão criminal, mantiveram-se em campo uns, foram repescados outros.

 

Mas acontece, pelo menos tem acontecido, ser o eleitor pouco sensível à honestidade ou desonestidade com que se labora a coisa pública. Assim, como dizem os comentadores da bola na véspera dos jogos de futebol, tudo está em aberto quanto aos vencedores das próximas eleições.

 

***

 

O PS não perde tempo, fiel ao princípio do rei morto, rei posto. E, garra é que não lhe falta, avança de imediato com dois candidatos à presidência do partido. Dois jovens, mas já curtidos nas andanças dos palcos políticos e suas subtilezas. Caras novas, embora de promessas antigas, apresentam o PSD, PCP e o BE, enquanto o Chega se mantém com Ventura. Afinal nada de novo na nossa democracia.

 

Pois quanto a mim, simples cidadão eleitor que deixou de confiar nos programas eleitorais, geralmente um rol de promessas e de mentiras piedosas, já ficaria satisfeito se todos os partidos políticos susceptíveis de eleger deputados para a próxima Assembleia da República se comprometessem, em acordo público assinado, certificado e registado em cartório notarial, a três meses depois de constituído o novo poder legislativo terem aprovada nova lei que punisse o enriquecimento ilícito.

 

***

Assim, para não ficar de fora e ser acusado de andar a dormir na forma, ouso botar faladura sobre o caso da demissão do primeiro-ministro António Costa e o escarcéu que assola a comunicação social sobre quem recai a responsabilidade do infausto acontecimento. Na esteira do habitual, sempre que se instaura procedimento criminal contra políticos, banqueiros e poderosos, o bode expiatório de culpas alheias é o M.º P.º e a procuradora-geral da República, no caso concreto porque esta divulgou em nota oficial ter remetido ao Supremo Tribunal de Justiça certidão para abertura de inquérito tendente a averiguar se o chefe do governo tinha ou não rasca na assadura dos comparsas.

 

Certo é que o primeiro-ministro não esperou pelo inquérito e, sem sequer saber quais os factos que lhe eram imputados, se demitiu.

 

Conclusão imediata e assanhada: o M.º P.º e a procuradora-geral derrubaram o governo, opinião que esquece o tráfico de influências apontado a um ministro e ao seu próprio chefe de gabinete, como causa política suficiente para o efeito.

 

Tanto ética como politicamente não vejo que o facto de haver uma denúncia pendente para abertura de inquérito, só por si seja motivo suficiente para a demissão de um cargo público.

 

Qualquer pessoa é susceptível de ser objecto de inquérito, bastando para o seu desencadeamento a denúncia anónima, cabendo à entidade competente a sua investigação. Finda esta, pode o inquérito ser arquivado. Só após a acusação do M.º P.º, sufragada por despacho de pronúncia do juiz de instrução, se poderá falar em indícios suficientes da existência de um comportamento criminoso, o que justificaria eticamente a demissão.

 

Perante este quadro, incorrecto nos parece afirmar que o M.º P.º e a procuradora-geral da República derrubaram o governo em vez de anunciar que António Costa, ponderado o circunstancialismo do caso, entendeu demitir-se.

 

Os que berram contra o regime actual da magistratura do M.º P.º, que lhe atribui a autonomia perante o poder político, berram sem propor alternativa. É que esta vigorou durante quase meio século durante o regime salazarista e continua a manter-se nos regimes totalitários: a de ser o governo a mandar naquela magistratura. Não há meios-termos.

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:56

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Comentários:
De O apartidário a 21 de Novembro de 2023 às 17:50

O PS só se lembra de Santa Bárbara quando troveja… ou da Justiça quando algum dos seus está metido em sarilhos. É triste, mas o Estado de Direito já conheceu melhores dias.

21 nov. 2023, 00:17 no Observador

Ao lamentar não ter sido feita no PS uma reflexão “no pós-socratismo”, a ex-ministra e ainda deputada, Alexandra Leitão – responsável anunciada pela moção de estratégia de Pedro Nuno Santos –, cometeu um erro de palmatória.

É que nunca houve “pós socratismo” no PS pela razão simples de que a influência de José Sócrates permaneceu sempre viva no seio da família socialista, como se viu pelos seus fiéis que foram alçados, em funções relevantes, nos governos de António Costa, desde João Galamba, a Vieira da Silva, a Augusto Santos Silva ou ao próprio Pedro Nuno Santos, além de tantos outros, sem esquecer Pedro Silva Pereira no Parlamento Europeu.

Dinis de Abreu no Observador (coluna de opiniāo)
De Isabel A. Ferreira a 21 de Novembro de 2023 às 17:59
O PS fez de Portugal o quintal dele, e destruiu-o sem dó nem piedade.
Merece uma boa lição.
De zé onofre a 21 de Novembro de 2023 às 19:49
Boa tarde, Isabel

Diz no seu comentário - "O PS fez de Portugal o quintal dele, e destruiu-o sem dó nem piedade."

Desculpe não concordar. O PS, o PPD/PSD e o CDS/PP, fizeram de Portugal o quintal da CEE/UE.

Nós, os tristes portugueses, escolhemos os capatazes da quinta, que como todos os capatazes tentam tirar o maior proveito da confiança nele depositados pelos Patrões (UE, Capital Monopolista Financeiro, OTAN).
E tanto faz que o capataz seja Rosa, Laranja, Azul e Amarelo ou mesmo Vermelho, enquanto formos quintal dos outros é a eles que o capataz presta conta e os portugueses nada interessam nessa cadeia de poder.

Zé Onofre

De Isabel A. Ferreira a 21 de Novembro de 2023 às 22:20
Concordo que não concorde comigo, Zé Onofre. E também peço desculpa por não concordar consigo. A nossa entrada para a CEE/UE veio evitar que continuássemos a saltar pocinhas por estradas poeirentas e a puxar carroças de vacas, por caminhos pedregosos, isto metaforicamente, falando, como é óbvio.

Os tristes portugueses, nos quais não me incluo, devido à falta de cultura política, da qual não têm muita culpa, porque não lhes dão mais nada a não ser incultura, nunca souberam escolher os nossos representantes (afinal a CEE/EU é constituída por mais 27 países, e nós estamos na cauda dessa Europa, em tudo). Os tristes portugueses escolhem os que mandam, mas não escolhem os outros, os seus acólitos, e os que mandam servem esses outros, os lobbies, que se implantam no Parlamento, e é a partir daqui que transformam Portugal no quintal deles, principalmente o PS, nestes últimos anos, que tem atirado o País para o caos.

Nós não somos o quintal dos que mandam e desmandam na Europa. Nenhum outro País europeu se transformou num quintal, excepto Portugal, porque está cheio de políticos incompetentes, mentirosos, desonestos, corruptos, que exercem os seus cargos sem um pingo de dignidade e ética.

Concordo que tanto faz serem rosas, laranjas, azuis, amarelos ou vermelhos, todos têm contribuído para um Portugal empobrecido, completamente caquéctico, terceiro-mundista, basta ver as filas nos centros de saúde e nos restantes serviços públicos, os casebres, os sem-abrigo, a pobreza extrema que por aí vai, o tráfico de seres humanos. Querem que se peça desculpa pela escravatura dos tempos dos Descobrimentos, cujos maiores traficantes de escravos eram os próprios negros africanos. Desta escravatura dos tempos que correm, ali para os lados de Évora e Cuba, por exemplo (mais há mais em outras partes do País) quem pede desculpa?

Nos últimos oito anos Portugal desintegrou-se. Caiu num buraco. Perdeu a sua identidade, e hoje não passa de uma colónia de um ex-colonizado, e anda por aí à deriva, pisado, maltratado, amesquinhado.

Não há ordem, não há leis, não há justiça.

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