Segunda-feira, 3 de Agosto de 2015

«Ha tradições que merecem ser extintas…»

 

Excelente artigo de opinião de Rui Pereira (Professor Universitário e ex-ministro da Administração Interna) sobre a "queima do gato" e os maus tratos aos animais em Portugal

 

RUI PEREIRA.png

 

«Apresento uma declaração de interesses: gosto de animais em geral e de gatos em especial. Tal como Borges, creio que o gato é um sinal de indulgência dos deuses: a réplica de um tigre, cujo dorso "condescende à morosa carícia da minha mão".

 

Por isso, fiquei chocado com a notícia de que em Vila Flor, no "nosso" Trás-os-Montes, há quem se divirta queimando um gato vivo. Se é tradição, comprova-se mais uma vez que há tradições que merecem ser extintas.

 

Conheço bem o vasto arsenal de argumentos contra o reconhecimento dos direitos dos animais: não têm personalidade jurídica e não podem estar vinculados a deveres; fazem parte da nossa cadeia alimentar (pelo menos, da maioria); só alguns suscitam sentimentos de compaixão – sim, os cães, os gatos e os cavalos, mas não tanto os répteis, os insetos ou os peixes; e são um pretexto para nos esquecermos da solidariedade que devemos aos nossos semelhantes.

 

Porém, estes argumentos são falaciosos: um recém-nascido também não está sujeito a deveres, mas tem direitos; não ser vegetariano não impede ninguém de discordar de que se inflija sofrimento desnecessário aos animais (quanto ao resto, a carne é fraca, como mostrou Torga, ao descrever o sofrimento moral de um cão enquanto rilhava os ossos do falecido amigo galo); nem todos os animais são iguais – a melga não tem projeto de vida nem sente prazer ou dor.

 

Mas o argumento mais irracional é o que postula que gostar de animais nos impede de amar os seres humanos. Tal como a memória, o amor não se gasta, tem uma natureza expansiva. O que é necessário é saber graduar a importância dos objectos da nossa afeição.

 

Não seria aceitável que o recém-criado crime de maus-tratos contra animais (prisão até um ou dois anos) merecesse pena idêntica à cominada quando a vítima é uma pessoa (prisão até cinco ou oito anos).

 

Justifica-se, pois, a criminalização. Mas é necessário melhorar uma lei com flagrantes erros técnicos, a começar pela vaga definição de "animal de companhia".

 

As normas devem ter em conta o valor vital dos animais e o significado desvalioso do seu sofrimento inútil – e não, numa perspectiva antropocêntrica, a companhia que nos fazem.

 

Afinal, um gato sem dono pode ser torturado? E, já agora, poderá haver legítima defesa em nome do animal ou só do dono?»

 

Fonte:

http://www.cmjornal.xl.pt/opiniao/colunistas/rui_pereira/detalhe/a_queima_do_gato.html?printpreview=1

Via Basta de Touradas

 

***

«Os animais selvagens nunca matam por divertimento. O homem é a única criatura para quem a tortura e a morte dos seus semelhantes são divertidas por si.» James Froude

 

DOR DE ANIMAL.jpg

 Repare-se na expressão da CRIANÇA que assiste a esta violência e crueldade apoiadas por uma lei que não a protege dos danos psicológicos que a acompanhará para o resto da vida, ao interpretar esta cena como algo absolutamente normal...

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:23

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Comentários:
De Arsénio Pires a 3 de Agosto de 2015 às 17:28
EXcelente artigo do Dr. Rui Pereira, homem verdadeiramente SÁBIO.

Quando acordará Portugal para esta barbárie que é a tauromaquia?

Temos uma classe política miserável no que à Ética diz respeito.
Sabem manejar a máquina de calcular e, pelos resultados à vista, MUITO MAL!
De Isabel A. Ferreira a 3 de Agosto de 2015 às 19:29
É muito triste chegar à conclusão que o Arsénio Pires chegou.

Mas é a verdade mais nua e crua.

Enquanto tivermos governantes de baixo nível moral, social e cultural, Portugal continuará a ser um país miserável.

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