Quarta-feira, 12 de Novembro de 2014

Dom João VI – Como um Príncipe Valente Enganou Napoleão e Salvou o Reino de Portugal e o Brasil (III Parte)

 

III Parte

 

Dom João VI – Como um Príncipe Valente Enganou Napoleão e Salvou o Reino de Portugal e o Brasil

 

«Contestação do livro «1808», de Laurentino Gomes»

(2ª versão Corrigida e Aumentada)

 

© Isabel A. Ferreira

 

(Este texto não pode ser reproduzido, no todo ou em parte, por qualquer processo mecânico, fotográfico, electrónico, ou por meio e gravação, nem ser introduzido numa base de dados. Difundido ou de qualquer forma copiado para uso público ou privado, além do uso legal como breve citação em artigos e críticas, s em a prévia autorização por escrito da autora)

 

 

Dom João VI.jpeg

(Imagem © J. A. Ferreira)

 

6

DE COMO SE DIZ QUE TUDO ESTAVA MAL NO REINO DE PORTUGAL SEM SE TEREM EM CONTA AS CIRCUNSTÂNCIAS

 

No meu entender, no capítulo 5, «A Partida» da corte portuguesa para o Brasil, deveriam igualmente ter sido tomadas em conta as circunstâncias em que as coisas aconteceram. Diz-se a dado momento: «Era uma cena impressionante, mas nem de longe lembrava os tempos heróicos, quando a esquadra de Vasco da Gama partiu do mesmo cais…». Oliveira Martins (fonte citada) chama-lhe um cortejo fúnebre.

 

Ora, este Oliveira Martins pertencia ao grupo Vencidos da Vida, o qual germinou na segunda metade do século XIX, e dele faziam parte literatas, políticos, gente da alta sociedade e aristocratas. Era um grupo, como o próprio nome indica, pessimista, que via Portugal através de vidros esfumados, que os impediam de ver a claridade das coisas.

 

Não direi que Portugal fosse (ou seja) um país brilhante, mas tinha e tem, sempre teve, gente com muito valor, em todas as áreas. Quem conhece a História de outros países, de outras cortes, de outros reinos, encontrará exactamente os mesmos defeitos com que Laurentino Gomes brinda Portugal e os Portugueses, através de fontes facciosas, desprovidas, na sua grande maioria, de rigor histórico; enfim, os defeitos daquela desditosa corte, que teve a infelicidade de deixar a Europa para ir enfiar-se numa terra agreste, ainda por desbravar e imensa.

 

Neste capítulo, diz-se a determinada altura que a falta de higiene era um problema crónico. Na cidade de Lisboa «atirava-se pela janela, sem aviso algum e a qualquer hora do dia ou da noite, a água suja, as lavaduras da cozinha, as urinas, os excrementos acumulados de toda a família» registou o francês J. B. F. Carrère. Naturalmente este senhor seria pouco viajado. Se percorresse as principais cidades europeias da época assistia exactamente às mesmas cenas, inclusive, nos bairros mais pobres da luminosa Paris. Lisboa era Lisboa e os seus arrabaldes, e nesses arrabaldes, Carrère podia ver muitas coisas.

 

Quem hoje visita o magnífico Palácio de Versalhes, encontra pomposos salões e quartos, mas não vê nenhum “quarto de banho e restante higiene”.

 

Naquela época, e em todas as épocas anteriores e posteriores, o problema da higiene sempre foi um grande problema, comum a todos os povos. Não havia água canalizada, não havia sistemas de esgotos eficientes, e tal lacuna, nas grandes cidades, onde se aglomeravam milhares de pessoas, gerava um autêntico caos, em matéria de asseio. A eliminação de dejectos, como se sabe, é comum a todos os animais, humanos e não humanos. Conheci, em Coimbra, um jovem filósofo de nome Meireles, que me dizia muitas vezes, a propósito das coisas da vida: «Não te esqueças nunca, Isabel, até a Rainha de Inglaterra vai à retrete!». Na verdade nunca me esqueci deste jovem filósofo, nem da sua teoria, muito significativa para a compreensão da condição humana.

 

O clero e a nobreza ainda iam tendo como rodear o problema, nos seus mosteiros, nos seus palácios, nos seus castelos. E o povo? O povo ainda hoje, em muitos países ditos livres, ricos e civilizados, incluindo o Brasil, e na era de todas as técnicas, sofrem dessa falta de higiene, de que apenas os portugueses são acusados no livro «1808». Ainda hoje, muita gente vive sem água canalizada, sem saneamento básico, no meio do lixo, ou pior ainda “catando lixo” para comer, bem à frente dos olhos dos grandes e poderosos senhores do mundo, que se fazem cegos e surdos aos clamores dos que vivem mal. Sempre foi assim. Espero, contudo, que um dia, deixe de ser.

 

Portanto, as fontes francesas ou inglesas ou americanas ou outras que escreveram o que escreveram sobre os Portugueses valem o que valem, uma vez que nos seus países, nas suas cidades, a porquidão existia, e a podridão das suas políticas, das suas ideias preconceituosas, dos seus complexos de superioridade, também a havia. O que essas fontes nos deixaram pode comparar-se àquela história do adulto (grande) que bate numa criança (pequeno), que roubou um pão para comer, não tendo em conta a fome que motivou a criança a roubar.

 

O historiador Pedro Calmon (uma fonte que também é citada no livro «1808») descreve a corte portuguesa como «uma das mais débeis e enfermiças da Europa» no final do século XVIII, época em que Dom João nasceu. E a seguir: «Os casamentos consanguíneos, a herança mórbida, a melancolia da sua corte mística, apática, estremunhada de pavores indefinidos davam-lhe, no reinado de Dom José I a fisionomia de uma velha estirpe decadente».

 

Eu bem sei que o livro «1808» trata de um pedaço da História do Brasil e de Portugal, e que talvez a História dos outros países não fosse para ali chamada. Mas, analisados os factos, assim, fora do contexto Europeu ou mesmo mundial, dá a impressão de que tudo estava mal no reino de Portugal.

 

Quando não era bem assim.

 

Um dia, passeava eu por um lugar sujo, agreste, à beira-mar, cheio de destroços que as águas trouxeram de longe, quando, de súbito, me deparei com uma belíssima pequena flor branca, que havia brotado entre todo aquele caos. Fotografei-a e eternizei-a, mais tarde, num capítulo intitulado «Indiferença – Se não reparas na flor do caminho, não mereces a sua beleza», incluído num livro que escrevi sobre uma série de conceitos muito incómodos para as consciências demasiado aquietadas, do meu tempo.

 

Ora o que pretendo dizer com isto? É que em todo o mundo, em todas as épocas, em todos os reinos, sempre houve gente débil, enfermiça, melancólica, estremunhada, e casamentos consanguíneos entre a nobreza… e que Portugal passou por fases gloriosas e outras menos gloriosas, como todos os outros reinos. Não podemos alhear-nos do que se passa à nossa volta. Entre todo aquele rebuliço que se vivia no mundo, na época em que tudo isto é relatado, em Portugal havia muitas pequenas flores brancas, nas quais ninguém reparou. E Pinas Maniques*, ainda hoje, existem por todo o mundo, em todos os países, civilizados ou não.

 

Há um detalhe que gostaria de realçar a propósito desta indiferença: em Portugal existe uma elite intelectual, que vive lá nas suas alturas, constituída por gente muito pessimista, por natureza, quanto às coisas portuguesas, daí entenderem que Portugal é um atraso de vida, mas nada fazem para dar a volta a essa situação. Depois temos o povo que se contenta com pouco, mas está alerta quanto a esse pouco que vão exigindo dos governos. E há ainda uma minoria, que no meio do caos, encontra as tais pequenas flores brancas que desabrocham nos lugares mais inesperados, e que nos dizem que nem tudo vai mal no reino de Portugal. Porém, a essa minoria ninguém dá voz. E o que é preciso é limpar os vidros esfumados, através dos quais essa gente vê o que se passa ao seu redor, para deixar entrar a luz, que brilha, sobre o meu país.

 

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* Diogo Inácio de Pina Manique foi um magistrado português. Formado em Leis pela Universidade de Coimbra, ocupou diversos cargos, antes de ser designado Intendente-Geral da Polícia (1733-1805) – Braço direito do Marquês de Pombal, Ministro do Rei Dom José I, era o terror dos fora-da-lei.

 

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7

DE COMO VIAJAR EM 1808 NÃO ERA PROPRIAMENTE CRUZAR OS MARES EM PAQUETES DE LUXO

 

No capítulo 7 do «1808», descreve-se «A Viagem».

 

As viagens, naquela época, não eram feitas propriamente em paquetes de luxo. As condições eram péssimas, medonhas, em todas as frotas, incluindo nas dos ingleses, que até tinham a melhor armada do mundo. Uma distância que hoje se percorre num dia, naquele tempo levava três, quatro ou mais meses. E nessas longas viagens, por vezes, quando os ventos não eram favoráveis, ou as tempestades desviavam os barcos da sua rota, e não podiam abastecer-se, passavam-se grandes necessidades. Faltava água potável, alimentos frescos, as pessoas viajavam apinhadas, umas em cima das outras. O problema da higiene era um grande problema. As doenças podiam ser fatais. E os ratos vinham tomar ar ao convés, tal como as pessoas. Enfim, não se recomendava a ninguém viajar em tais condições. Foram poucas as cortes (ou nenhumas), à excepção da portuguesa, que se aventuraram a viagens tão atribuladas.

 

Por norma, não costumo confiar, logo à primeira, em todas as fontes que me são apresentadas. Primeiro tenho de saber quem escreveu os textos e em que circunstâncias foram escritos. Gente que se considera melhor e maior do que todos os outros, gente preconceituosa em relação a outras raças, gente que mantenha sentimentos de rejeição pelos antigos colonizadores, gente que olha para a História através de vidros esfumados, não me merecem a menor confiança. Portanto, ponho-me logo de pé atrás.

 

Daí que as descrições das fontes inglesas, francesas e outras muito citadas no «1808», não me mereçam nenhuma confiança, por serem altamente facciosas, e como tal, leio esses relatos com a descrença que eles deixam transpirar.

 

Por exemplo, posso não pôr em causa as descrições da viajante Maria Graham ou as da Laura Junot. Elas viram o que viram, porém, o que viram não era diferente do que poderiam ter visto em muitos outros lugares, incluindo nos seus próprios países. Os Portugueses não eram mais nem menos porcos do que os outros povos. Nem mais nem menos bonitos do que todos os outros. O que Laura Junot disse de Carlota Joaquina! Infeliz princesa, não se pode nascer desprovida de beleza! E Laura, seria bonita?

 

Em 1992 (portanto, na era de todas as técnicas, de todas as evoluções, de todas as revoluções, enfim…) quando estive na Irlanda do Norte, hospedei-me numa residencial. Deram-me um quarto grande, com chuveiro privado, muito bonito, com vistas para uma rua profusamente arborizada. Passei apenas uma noite naquele quarto. No dia seguinte, saí logo pela manhã. Ao regressar, pela tarde, o quarto encontrava-se vazio das minhas coisas, que haviam desaparecido. O que aconteceu? O que não aconteceu? Na minha ausência, a proprietária da residencial decidiu retirar as minhas bagagens para um cubículo, na parte de trás da casa, onde eu mal cabia. O recinto tinha uma porta e uma pequena janela, e nele havia apenas uma cama, onde eu ficava com os pés de fora (porque sou alta), uma cadeira e um lavatório com espelho. Disse-me a “Mrs.”… (já não me recordo do nome dela) que precisava do quarto grande para outra pessoa. Achei tudo aquilo muito estranho, até porque a outra pessoa é que devia ter ido para o cubículo, uma vez que eu cheguei primeiro! E porque considerei muito estranho, tratei de averiguar. O quarto grande manteve-se fechado enquanto estive lá hospedada. Portanto, mentiram-me. Qual a razão? Os banhos. Se eu quisesse tomar banho todos os dias, teria de pagar mais. Estando no cubículo que me foi destinado, não poderia tomar banho, como tinha feito no outro quarto. Como a estadia estava previamente paga, vi-me obrigada a seguir a regra da casa, que era não tomar banho todos os dias.

 

Isto apenas para dizer que nem tudo o que não reluz é carvão, e que nem tudo o que reluz é ouro, e que a Senhora Maria Graham até podia ter razão quanto aos “modos higiénicos brasileiros”, no entanto os “modos ingleses” não eram absolutamente melhores, nem ontem, nem sequer hoje.

 

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8

 

DE COMO A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL ENGRANDECEU O IMPÉRIO BRITÂNICO À CUSTA DA EXPLORAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL E DAS MULHERES

 

Tudo o que se descreve no capítulo 9 do «1808», «A Colónia» (brasileira) poderia dizer-se de qualquer uma das colónias inglesas, francesas, espanholas ou holandesas. O que se passava no Brasil, em 1808, não era pior nem melhor do que o que se passava nas outras colónias, com o seu rol de ignomínias tão grandes como as perpetradas pelos Portugueses. Tais descalabros, infelizmente, eram fruto da época e faziam parte de uma mentalidade colonizadora, pouco evoluída, apesar de todos os requintes e elegâncias dos “senhores” que os punham em prática.

 

É preciso dizer-se que foram os Ingleses que construíram o maior país capitalista do mundo, com todas as suas consequências nefastas. A Revolução Industrial nasceu em Inglaterra e floresceu graças à exploração do trabalho infantil, do trabalho das mulheres, do trabalho escravo. Se não fosse esta circunstância, talvez não tivesse tido o sucesso e o lucro que teve. É fácil falar em evolução. À custa de quem? Há sempre alguém a pagar o pato. E esse alguém, naturalmente, nunca foram os mais fortes e poderosos.

 

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9

DE COMO PODEMOS CONFIAR NUM REPÓRTER IMPROVISADO MAIS DO QUE EM FONTES FACCIOSAS

 

«O Repórter Perereca», título do capítulo 10, é sem dúvida a fonte mais confiável entre as muitas outras ilustres fontes citadas no livro, porque o Repórter Perereca era genuíno. Descrevia o que via, com deslumbramento, sim, mas sem preconceito, sem a intenção de subestimar intencionalmente o colonizador. Ele escrevia o que via e o que sentia (o que não é permitido aos jornalistas profissionais, que só podem relatar o que vêem, se bem que nem sempre esta ética seja cumprida). Fazia-o com a intenção de transmitir a realidade com todo o seu colorido, como a pintura de um quadro. Os outros transmitiam-na a preto e branco, retirando-lhe toda a carga factual, para a transformar em escárnio.

 

Imaginemos um cronista, a visitar o Rio de Janeiro, na actualidade.

 

Passeia-se pelo calçadão da Avenida Atlântica; aprecia as garotas de Ipanema; maravilha-se diante das mansões de Copacabana, de Botafogo, e depois deita o olhar à sua volta e lá adiante, no morro sobranceiro ao mar, tem uma panorâmica da favela da Rocinha, que vista de longe, é deslumbrante. Decide visitá-la… Impressiona-se com o que vê e relata o que mais o perturbou nessa visita à favela, esquecendo-se de tudo o resto.

 

Daqui por uns cem anos, alguém lê essas crónicas, reescreve a História e o que terá para referir, sobre o Rio de Janeiro do ano de 2008?

 

Tudo tem, portanto, o seu contexto. Tudo tem a sua relatividade. Não pode tomar-se o todo pela parte. E esse é o maior defeito do (ainda assim) interessantíssimo livro «1808».

 

O pintor Jean Baptiste Debret (citado no livro) que se escandalizou com a falta de boas maneiras dos brasileiros ricos durante as refeições, hoje, em pleno século XXI, poderia escandalizar-se com a mesma falta de boas maneiras à mesa ou em qualquer outra parte, em determinadas cidades ou mesmo entre as famílias mais ricas e poderosas do mundo, inclusive nos subúrbios da actual Paris, ou mesmo no centro da actual Paris.

 

Temos de saber distinguir as coisas. Os ricos, a que Debret se refere, quem eram? Naturalmente os novos-ricos que fizeram fortuna, tinham dinheiro, viviam à farta, contudo, faltava-lhes a educação, o refinamento, a cultura. Numa colónia com 300 anos (o que é quase nada, tendo em conta os condicionalismos da época), onde a civilização ainda não tinha chegado, como poderiam refinar-se? Ainda hoje, na era de todas as comunicações, encontramos esse tipo de realidade, nos países mais ricos do mundo, incluindo o Brasil. Basta percorrer os arredores dos grandes centros urbanos europeus ou americanos (do Norte ou do Sul, para não falar da Ásia e da África), para vermos as grandes diferenças de estilo de vida entre os que vivem nas grandes avenidas, e os que sobrevivem nos becos e ruelas, ou mesmo na rua, nos bancos de jardim e debaixo das pontes.

 

E também há outra coisa: diz-se que em Roma sê romano. Penso que todos nós, pelo menos uma vez na vida, passámos por situações em que tivemos de fazer coisas a que não estamos habituados. Eu já. Por exemplo, na Irlanda fui irlandesa: tive de me abster do banho diário, para não destoar dos outros hóspedes. E nas crónicas que tive de escrever acerca dessa minha viagem, não valorizei estas pequenas coisas, porque o motivo que me levou à Irlanda foi outro, bem mais sério. Estou agora a contar essas pequenas coisas, devido apenas (e uma vez mais) às circunstâncias: preciso delas para ilustrar a minha teoria.

 

E no entanto, como foi extraordinário conhecer the green fields of Ireland, belíssimos e inesquecíveis.

 

Nos tempos de hoje, nos Estados Unidos da América do Norte, símbolo do capitalismo, existem milhares de pobres. A vergonha do mundo. O abismo entre os ricos e os pobres é imenso. Mas sempre foi assim. Por isso, valorizar o que não é valorizável, num determinado contexto, tem um nome: preconceito.

 

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10

DE COMO SE “FABRICAM” MONSTROS COM BASE NO PRECONCEITO

 

O capítulo 13, «D. João», começa por referir que Dom João tinha medo de siris (pequenos crustáceos), caranguejos e trovoadas. Infeliz Dom João! Conheço tantos homens com tão piores medos!

 

O autor de «1808» poderia ter começado por caracterizar Dom João, por exemplo, a partir do que diz o Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, e estaria quase tudo dito: Um homem «que não havia sido fadado pela natureza nem com grandes recursos intelectuais nem com vontade firme e esclarecida, que poderia fazer, ao longo de toda a sua vida de governante, além de procurar impossíveis equilíbrios, inviáveis mediações entre a rotina e a inovação?» E mais adiante: «No meio da solta tempestade nacional, que os ventos da Revolução Francesa desencadearam, tíbio, infeliz e bom, o rei, aos baldões dos acontecimentos, encarnou um período calamitoso da história pátria, em cujos transes se forjou o dealbar do Portugal contemporâneo».

 

Na verdade, para quem foi apanhado, de surpresa, nessa tempestade, de que se fala; para quem foi obrigado pelo acaso, a ser rei, Dom João conseguiu cumprir a missão para a qual não nasceu, com uma certa dignidade, dentro das suas modestas capacidades.

 

Conheço (todos conhecemos) gente que passou pelo Poder, deixando um rasto de atrocidades bem maiores do que o medo dos crustáceos (eu aqui dar-lhe-ia outra designação, talvez repulsa). E o medo das trovoadas poderia ter origem em traumas da infância. Todos sabemos como eram tratadas as crianças nesses tempos, basta recordar que a Declaração Universal dos Direitos das Crianças foi proclamada apenas em 1959, até aí os mais pequenos eram tratados como os animais. Se até das crianças o grande filósofo Aristóteles dizia que elas «careciam de todas aquelas qualidades que elevavam o homem acima das bestas, uma vez que lhe faltava a capacidade de pensar racionalmente», o que me dá liberdade de questionar: quando era criança, Aristóteles teria sido, então, uma pequena grande besta? Até os mais sábios cometem erros.

 

Daí que não possamos julgar os homens pelos seus medos, pelo seu aspecto físico, pela sua infeliz condição, mas tão-somente pelos seus actos.

 

Neste capítulo, as descrições do desventurado Dom João são as mais grotescas que se possam imaginar. O nosso querido Jô Soares é bem mais obeso do que o Dom João foi, e no entanto é tão amado por Brasileiros e Portugueses. Conheço duas expressões simpáticas para designar os gordinhos – gente de dimensões robustas ou gente espaçosa. Nem todos podem ser um Brad Pitt. Não se deve menosprezar um homem pela sua falta de beleza física. Os homens não podem ser ajuizados pela sua feiura.

 

Na biografia de Hitler, um indivíduo que não é propriamente “adorado” no mundo, não se diz que ele usava um horroroso bigodinho, que lhe dava um ar muito apalermado, talvez porque esse pormenor não seja importante para a análise do seu legado político. Mas que o bigodinho era horroroso, lá isso era!

 

No capítulo dedicado à Dona Carlota Joaquina, o capítulo 14, comete-se a mesma descortesia. A desventurada Dona Carlota até no nome foi um pouco infeliz. Mas que culpa teve ela? Não escolheu o nome. Não escolheu a vida de rainha. Não escolheu o marido. Casaram-na aos 10 anos com alguém que desconhecia. Foi mandada, com essa idade, para um país estranho, para ser educada por gente estranha. Infortunada menina! Tais circunstâncias só poderiam conduzir a uma personalidade irascível. Além disso, nem todas as princesas nascem belas, e Dona Carlota Joaquina teve uma tripla infelicidade: a de ser retirada à família, ainda muito menina; a de, na realidade, não ter sido fadada por Afrodite; e a de lhe terem dado por marido um príncipe que não era nem encantado, nem encantador.

 

Em «O Ataque ao Cofre», capítulo 15, do «1808», diz-se da corte portuguesa que era uma corte cara, perdulária e voraz. Até podia ser, mas compare-se a nossa modesta corte com as luxuosas cortes europeias.

 

Uma vez mais, não se teve em conta os contextos. O mundo, desde a antiguidade, sempre viveu entre o poder da riqueza (nas mãos de uma minoria) e a fraqueza da pobreza (a esmagadora maioria). Fizeram-se revoluções, utilizou-se todo o género de repressões para derrubar os oprimidos, quando se rebelavam. Contudo, até aos dias de hoje, o poder da minoria, que detém a riqueza e o poder, é a grande mola do mundo. É esse poder que desequilibra a balança da equidade. Estamos todos a afundar-nos num abismo de fome, de falta de água potável, de lixo, de poluição e de destruição da vida no Planeta, em nome da ganância. Mas a minoria rica e poderosa continua a fazer os seus estragos, em nome da voracidade e da ambição desmedida por mais riquezas. A maioria assiste, impotente.

 

O que mudou no mundo, a este respeito? Absolutamente nada. Pelo contrário, cada vez, os governantes são mais desmedidos, mais ambiciosos e mais corruptos.

 

E evidentemente, não são os Portugueses os grandes destruidores do Planeta.

 

Em 1808, o Brasil já contava com 300 anos de História. Várias gerações já haviam nascido naquelas terras. Embora descendentes de vários povos europeus (de bons hábitos), entre eles, os Portugueses (ditos de péssimos hábitos no livro «1808»), indígenas e africanos, havia já uma população maioritariamente brasileira. Se para os Brasileiros, os Portugueses eram um povo pequeno que constituía um entrave à evolução do Brasil, a partir de 7 de Setembro de 1822, data da sua independência, esse estorvo deixou de existir. O que se passou depois desse dia até aos dias de hoje não pode ser atribuído à corte cara, perdulária e voraz que (des) governou o Brasil, nem tampouco aos Portugueses que o deram a conhecer ao mundo.

 

Também se diz no livro que havia uma corte que se julgava no direito divino de mandar… É preciso dizer que esse direito não era exclusivo daquela corte. Já os faraós e os imperadores romanos se consideravam deuses; e Napoleão dizia-se tão divino, que no dia da sua coroação, a 2 de Dezembro de 1804, na Catedral de Notre-Dame de Paris, ignorando a presença do Papa Pio VII, tomou o diadema das suas mãos e coroou-se a si próprio, de frente para o público, e de costas para o Papa, como se, ali, ele é que fosse o “divino”. A tão criticada corte portuguesa, não era mais nem menos divina do que foram as outras cortes, ao longo de séculos de História, concorde-se ou não com este delírio dos poderosos.

 

Os Portugueses roubaram riquezas das colónias? Penso que o termo roubar é um tanto descabido, uma vez que as colónias eram pertença do país colonizador, logo as riquezas, que lá existiam, pertenciam-lhe, por direito de descoberta. Roubar, roubariam hoje, se se atrevessem a ir ao Brasil, país independente, surripiar uma arvorezinha da borracha, ou um pauzinho-brasil.

 

Além disso é preciso ter em conta que todos os outros colonizadores Ingleses, Franceses, Espanhóis, Holandeses usavam as riquezas das suas colónias para os mais variados fins. Era uma prática da época, bem como os cerimoniais do beija-mão, ou a da banda de música (esta ainda hoje é usada por vários povos, incluindo o do Brasil) e de todos aqueles rituais descritos no livro, com tanto escárnio.

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11

DE COMO A INGLATERRA DEVE A UMA RAINHA PORTUGUESA O REQUINTADO COSTUME DO “FIVE O’CLOCK TEA

 

Prosseguindo na leitura do «1808», aparece-nos o capítulo 17, intitulado «A Senhora dos Mares» (a frota inglesa), onde se realça a capacidade dos Ingleses no domínio marítimo, estendendo aos quatro cantos da Terra o maior império que a Humanidade tinha conhecido até então (1808). Londres era a maior cidade do mundo (…) Multiplicavam-se fortunas (inglesas) graças a invenções revolucionárias, como a locomotiva a vapor. Nesse ambiente criativo e dinâmico, as ideias circulavam livremente…». (…) Como resultado da Revolução Industrial, combinada com o domínio dos oceanos e a expansão comercial, a riqueza de Inglaterra duplicou entre 1712 e 1792». E por aí adiante…

 

A Inglaterra era o modelo de riqueza, prosperidade, modernidade. É verdade. Mas isso teve um preço, que Laurentino não salientou no seu livro, e a que já aludi: o da exploração do trabalho infantil e das mulheres, o trabalho escravo e também das riquezas retiradas das suas colónias.

 

Entretanto, embora afastada da época focada no livro, poderia ter-se referido, a título de curiosidade, a influência na corte inglesa de uma rainha portuguesa, que na opinião da autora inglesa Lillias Campbell Davidson foi uma das «melhores rainhas que alguma vez se sentaram no trono de Inglaterra».

 

Esta Rainha chamava-se Dona Catarina de Bragança, filha do Rei Dom João IV de Portugal e da sua mulher, a Rainha Dona Luísa de Gusmão. A biografia de Dona Catarina é extraordinária. Educada num convento, viu-se, de repente, conduzida para um país de que apenas ouvira falar. A adaptação não foi fácil, mas Dona Catarina não só sobreviveu às intrigas e a um marido muito mulherengo, como soube usar da sua inteligência e do seu poder. Foi graças a ela que os Ingleses adquiriram o hábito de beber chá, o famoso “five o’clock tea”, uma vez que foi ela quem introduziu o chá, em Inglaterra. Levou também para Inglaterra a porcelana e a ópera italiana, isto em 1662, quando se casou com o Rei Dom Carlos II. O que significa que, ao contrário do que demasiadas vezes se insinua no livro «1808», a corte portuguesa não era assim tão insignificante e desrequintada quanto se quis descrever. Os ingleses desconheciam a porcelana e a ópera italiana, numa época em que já a nobreza portuguesa se deliciava a tomar chá por uma chávena de boa faiança, e se deleitava a ouvir as magníficas óperas italianas.

 

Este é um pormenor a não desprezar. Evidentemente que a corte portuguesa teve os seus altos e os seus baixos, como todas as outras cortes. Naturalmente nunca passou pela magnificência da corte de Luís XIV, o chamado Rei-Sol, porém, toda aquela ostentação da corte de Versalhes era perfeitamente dispensável, numa época em que o povo vivia em condições miseráveis. Além disso, não devia ser, de todo, confortável, andar ataviado com todos aqueles panos e laços, perucas e pó-de-arroz. Era de facto, um exagero. De qualquer modo, essas modas francesas chegariam também a Portugal.

 

Neste capítulo, poderia ter-se referido também como os dinâmicos Ingleses se aproveitaram da fragilidade do pequeno povo português para se “governarem” melhor. Basta referir o “abarrotamento” dos portos brasileiros com mercadorias perfeitamente inúteis e inusitadas, impingidas pelos nossos “aliados”. Imagine-se o que entraria nos portos, se eles, os Ingleses, não fossem nossos aliados!

 

Mas isto sempre se fez. Os mais fortes sempre dominaram os mais fracos. O que não pode é escamotear-se os factos e apresentar a História através de vidros esfumados, denegrindo um povo e iluminando outro, apenas por preconceito.

 

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12

DE COMO A ESCRAVATURA FOI A NÓDOA NEGRA NA SEDA BRANCA DE TODOS OS POVOS COLONIZADORES

 

No capítulo 20, sobre «A Escravatura», os portugueses são considerados uns brutos no que respeita ao tratamento que davam aos escravos. Nesta questão, não há bons nem maus. Todos são maus: Portugal, Inglaterra, França, Espanha, Holanda, Dinamarca, Estados Unidos da América. São todos maus.

 

Todos beneficiaram da descoberta de novas rotas marítimas pelos Portugueses. Todos foram potências coloniais. Todos traficaram escravos em massa. Todos praticaram genocídio.

 

Mas é preciso ter em conta dois detalhes, se bem que a escravatura não tenha justificação possível:

 

Primeiro, a escravatura existe desde tempos imemoriais. Com que mão-de-obra construíram os Egípcios os seus piramidais monumentos? Os próprios sábios gregos, os grandes filósofos, criadores da chamada demos-kratia, tinham escravos brancos. Os civilizados romanos praticavam a escravatura. Quem não conhece a história da grande revolta dos escravos, protagonizada por Spartacus, um trácio, branco, que foi feito escravo? Era comum, quando um povo poderoso invadia um povo menos poderoso, fazer dele seu escravo, e violar-lhe as mulheres. Isto sempre se fez e, infelizmente, continua a fazer-se, até aos dias de hoje. Nada evoluiu, nesse aspecto. A violação de mulheres, por soldados invasores de terras, perdura desde as primeiras invasões conhecidas na História, mas o pior de tudo isto é que, apesar de todas as declarações dos Direitos Humanos, continua a persistir no século XXI depois de Cristo.

 

Segundo, a escravatura dos negros africanos partiu da própria África. Negros poderosos capturavam negros menos poderosos para os vender aos brancos. E os brancos, apesar de se dizerem cristãos, aproveitaram-se dessa exploração de negros pelos próprios negros.

 

Ainda hoje, na era de todas as evoluções, a escravatura existe, com negros, brancos, crianças, mulheres, bem nas barbas das organizações, ditas defensoras dos direitos da Humanidade. Quantas mulheres brasileiras (entre muitas outras mulheres e crianças de ambos os sexos), em pleno século XXI, não são escravas sexuais na Europa, e noutras partes do mundo?

 

A inglesa Maria Graham (uma das fontes de Laurentino Gomes) traçou uma visão constrangedora da escravidão no Brasil. Não teria ela conhecimento da escravatura e massacre dos milhões de índios das magníficas tribos americanas, dos africanos e asiáticos que foram mortos ou escravizados pelos colonos Ingleses? Os barcos flamengos e holandeses abarrotavam de escravos, para abastecerem as suas possessões na América do Sul, Pacífico e África. Em 1640, os Holandeses tornam-se os principais fornecedores de escravos da Espanha. Em meados do século XVII, os mesmos holandeses eram o povo que mais traficava escravos no mundo, aproveitando-se das rotas abertas pelos portugueses.

 

Foram os Holandeses, Ingleses, Franceses, Alemães e Portugueses que produziram o monstruoso conceito da superioridade do homem branco, mais tarde aproveitado pelo alucinado Hitler e seus seguidores.

 

Diz-se no livro «1808», que os Portugueses foram os últimos a abolir a escravatura. Sim? Mas foram os primeiros a abolir a pena de morte, e dos poucos que, actualmente, não têm pena de prisão perpétua.

 

E quando o pequeno e pobre povo português manteve os portos brasileiros fechados, não fez mais do que preservar dos olhos gulosos dos outros colonizadores, um pedaço de território que era seu, por direito de descoberta. Está mal? Claro que está. Mas visto à luz da mentalidade da época estava muito bem.

 

Veja-se os actuais países africanos que se libertaram do jugo de França, no século XX (Marrocos, Tunísia, Guiné, Camarões), e o que foi o legado do Império Colonial Francês! Veja-se o que se passa actualmente na África do Sul (colonizada por Holandeses e Ingleses) onde reinou até há poucos anos o pior dos regimes racistas: o apartheid. Veja-se também em que estado ficaram as ex-colónias africanas portuguesas. Não há que rir uns dos outros. Todos são culpados de crimes contra a Humanidade. É preciso que isto fique bem claro.

 

As fontes utilizadas em «1808» para consubstanciar o capítulo sobre a Escravatura não foram as mais felizes, uma vez que os países de origem dos escribas cometeram também as maiores atrocidades, e a partir do modo como estas fontes apresentaram o assunto, fica-se com a impressão de que apenas os Portugueses foram cruéis. O viajante espanhol Juan Francisco de Aguirre, que tão mal disse da actuação dos Portugueses, relativamente ao trato dos escravos, saberia dos massacres que o seu povo praticou contra os Incas, brilhante civilização implantada na região andina, desde o sul da Colômbia, até ao norte da Argentina e do Chile, e que os espanhóis destruíram no século XVI? Conheceria o que Fernando Cortés, conquistador espanhol, fez ao povo Asteca, um povo que atingiu um alto grau de civilização, cultura e organização política? O último imperador asteca foi supliciado em 1522, por Cortés. Saberia Aguirre das torturas infligidas aos Maias, índios da América Central, que os espanhóis colonizaram?

 

Quanto à posse de escravos pela Igreja Católica, depois das Santas Cruzadas e da Santa Inquisição, de muito má memória, tudo era possível! Não foi apenas a Igreja portuguesa que se portou mal. A Igreja de qualquer outro país onde se praticava o Catolicismo não é isenta de culpa. De grande culpa. Em nome de Deus, cometeram-se e continua a cometer-se as maiores atrocidades e os maiores crimes contra a Humanidade, durante um longo tempo. E quem começou essa matança? Certamente não foram os Portugueses.

 

Este capítulo acaba com uma observação interessante: «Em muitos casos, a liberdade (dos escravos) era um mergulho no oceano de pobreza composto por negros libertados, mulatos e mestiços, à margem de todas as oportunidades, incluindo educação, saúde, moradia e segurança – um problema que, 120 anos depois da abolição oficial da escravatura, o Brasil ainda não conseguiu resolver».

 

Como já foi referido, em 1808, o Brasil já contava 300 anos de História. Várias gerações já haviam nascido naquelas terras. Embora descendente dos indígenas, do branco europeu (de bons hábitos) entre eles os Portugueses (considerados por Laurentino de péssimos hábitos), e dos negros africanos, havia já uma população marcadamente brasileira. O que impede, então, os Brasileiros de, passados 120 anos sobre a abolição oficial da escravatura, não conseguirem resolver os problemas que são apresentados no livro? A dita pequenez do colonizador português? As audácias dos outros povos brancos que com eles se misturaram? Ou a ineficácia de um povo que ainda não se encontrou e tem vergonha de si próprio?

 

Fazendo uma pesquisa na Internet, deparei-me com uma frase procedente de uma brasileira, que resume uma ideia (que eu já conhecia quando frequentava a Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro: «Vejamos os EUA por exemplo: lá foram colónia de ocupação, nós aqui (Brasil) de exploração».

 

Isto é uma ideia completamente errada. Quando começará a ensinar-se aos Brasileiros a História do Brasil tal como ela é? Vejo que pouco mudou nesse sentido. Enquanto estudei no Brasil, eu, que tinha já feito alguns estudos em Portugal, vi-me obrigada a “ouvir” bastantes disparates no que respeita à História dos dois países. Nessa época estava eu a fazer o exame de História Mundial, para ingressar numa universidade do Estado (já havia feito o de Língua Portuguesa, com a nota máxima de 10), o professor abeirou-se da minha pessoa (que fugia um pouco ao padrão brasileiro – tinha pele clara, era alta, esguia, olhos castanho-esverdeados, cabelos a pender para o louro, presos à moda das índias) e perguntou-me se eu era brasileira. Como nunca reneguei a minha origem, disse-lhe que não. Então de onde era? Portugal. Respondi. Imediatamente o professor marcou a minha prova com um “x”. Na altura, aquele gesto não me disse grande coisa, embora ficasse um pouco intrigada. Porém, na minha inocência, nada que fosse impensável. Passados uns dias, regressei para fazer o exame de História do Brasil e a minha prova foi novamente marcada com outro “x”. Desta vez, fiquei com a pulga atrás da orelha. E logo que a pauta das notas saiu, o impensável aconteceu: à frente do meu nome, nos dois exames de História, havia um mísero 2 ou 3, quando eu tinha a certeza de ter feito exames para 8/9. Na pauta ao lado, a do exame de Língua Portuguesa (quando ainda ninguém sabia a minha nacionalidade) lá estava, o meu brilhante 10. A conclusão foi rápida: uma portuguesa nunca entraria numa universidade do Estado, no Rio de Janeiro, por isso a minha prova foi marcada com um “x”.

 

Apesar da decepção, não desisti, e fui fazer exame para as vagas da Universidade Gama Filho. Éramos cerca de 250 alunos, para 14 vagas. Eu fiquei entre os 14. Lá, o meu saber foi recompensado. Era um lugar de Estudo, onde se pagava bem, e o dinheiro é daquelas coisas que não têm nacionalidade.

 

O território onde hoje se encontram os EUA era habitado por magníficas tribos de índios, tal como o Brasil. E o que é que os Ingleses (colonizadores) e os Americanos (descendentes dos Ingleses) fizeram com eles? Massacraram-nos, e os que sobreviveram reduziram-nos a reservas. E o que fizeram com os escravos que levaram de África? Exploraram-nos e torturaram-nos. Que ideia fará aquela brasileira, de ocupação e de exploração, para dizer o que disse?

 

© Isabel A. Ferreira

(Continua)

 

(I Parte)

http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/dom-joao-vi-como-um-principe-valente-485068

 

(II Parte)

http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/dom-joao-vi-como-um-principe-valente-485454

 

(IV Parte)

http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/dom-joao-vi-como-um-principe-valente-489691

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 19:17

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