Terça-feira, 22 de Setembro de 2020

Carta aberta a D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa

 

Em 23 de Fevereiro de 2012, numa carta aberta a D. Manuel Clemente, na altura, Bispo do Porto, dirigi-lhe um apelo, contando com a clemência (implícita no nome) que todos esperamos de um servidor de Deus, para a Causa da Abolição das Touradas em Portugal.

 

O meu apelo não foi considerado.

 

Hoje, repetindo as mesmas palavras da carta de 2012, até porque passados todos estes anos, nada mudou em Portugal, a este respeito, continuando-se a torturar seres vivos, para diversão de sádicos, com a bênção da Igreja Católica Portuguesa, reitero o mesmo apelo, agora que D. Manuel Clemente é Cardeal-Patriarca de Lisboa.

 

Espero que, desta vez, me ouça e interfira, porque o tempo é outro, e é preciso evoluir, mas, principalmente, é preciso sermos clementes para com todas as criaturas de Deus: as humanas e as não-humanas.

 

Touro.jpeg

 

Exmo. Sr. D. Manuel Clemente,  Cardeal-Patriaca de Lisboa,

 

Já, por várias vezes, nos encontrámos em Arouca, em Braga, no último Congresso de Cister, enfim, e pelo que tive oportunidade de observar, fiquei com a impressão de que o Senhor D. Manuel Clemente é um homem inteligente, sensível e zeloso das suas obrigações Cristãs.

 

Por isso atrevo-me a dirigir-lhe estas linhas, com todo o respeito.

 

É que sendo eu uma defensora dos Direitos dos Animais, Humanos e Não-Humanos, e estando neste momento envolvida na Causa da Abolição das Touradas em Portugal e no Mundo, não compreendo a posição da Igreja Católica Portuguesa a este respeito, sabendo, como sabemos, que «a Tauromaquia é uma modalidade que assenta em primeira linha na exploração violenta e cruel do touro, sempre, e do cavalo nos programas em que ele é utilizado como veículo do actor tauromáquico e obrigado a tornar-se “cúmplice” da lide, sofrendo ansiedade e esgotamento e arriscando ferimento e morte», segundo a opinião do Dr. Vasco Reis, Médico-Veterinário.

 

Sabendo, como sabemos, que «a não-violência é a lei da nossa espécie assim como a violência é a lei dos brutos. O espírito jaz dormente no bruto e ele não conhece nenhuma outra lei a não ser a da força física. A dignidade do ser humano requer obediência a outra lei – à força do Espírito!», de acordo com Mahatma Gandhi.

 

E ainda, sabendo, como sabemos, que «(...) se fazem  reclames entusiastas de espectáculos, como as touradas de praça onde por simples prazer se martirizam animais e onde os jorros de sangue quente, os urros de raiva e de dor e os estertores de agonia só podem servir para perverter cada vez mais aqueles que se deleitam com o aparato dessa luta bruta e violenta, sem qualquer razão que a justifique», como refere Adriano Botelho (ilustre cidadão da Ilha Terceira – Açores).

 

Posto isto, Senhor D. Manuel Clemente, pergunto por que motivo a Igreja Católica é CÚMPLICE desta selvajaria (há muitos padres católicos aficionados), e “abençoa” os torturadores de Touros (vulgo toureiros), antes destes irem para arena massacrar um ser vivo, que tem um ADN semelhante ao humano? Um ser que sofre e sente a dor tal como nós a sentimos?

 

Não serão o Touro e o Cavalo também criaturas de Deus?

 

Jesus Cristo ensinaria ao homem a prática da violência sobre os seres vivos? Foi para isso que viria ao mundo?

 

Escrevo-lhe para solicitar a douta interferência do Senhor D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa, nesta matéria, para que a Igreja Católica Portuguesa tome uma posição pública contra esta barbárie, como é de seu DEVER, até porque se a Igreja interferir, estes massacres acabam por acabar.

 

Não é de um bom cristão torturar seres vivos para se divertir, mas os torturadores de Touros e Cavalos são cristãos e torturam seres vivos para ganharem dinheiro e divertirem os sádicos.

 

Penso que o Senhor D. Manuel Clemente, como homem sábio que é,  estará de acordo comigo.

 

Repare-se na cara patética deste “cristão”, na imagem mais acima,  que além de torturador é cobarde, e no sofrimento atroz estampado na expressão do Touro, caído no chão, exaurido, dorido, esvaziado da sua dignidade de ser vivo.

 

São estes ensinamentos que a Igreja pretende que se transmita às crianças?

 

E a Igreja Católica Portuguesa nada terá a dizer sobre isto?

 

Isto faz parte de um tempo primitivo e obscuro. Estamos no Século XXI, depois de Cristo. É preciso evoluir, Sr. D. Manuel Clemente.

 

É preciso colocar Portugal entre os países evoluídos. E a Igreja Católica, tendo a influência que tem no nosso povinho, ainda tão ignorante, tem o DEVER de esclarecer esse povo, e não ser passiva quanto a esta matéria tão cruel, que só desprestigia o Ser Humano.

 

O senhor D. Manuel Clemente, tal como eu, historiador, saberá que os factos históricos são importantes. A Igreja Católica ficará manchada, para a História, como CÚMPLICE desta barbárie, se não tomar uma posição firme e essencialmente cristã, assim como ficou tristemente enlameada em tantas outras ocasiões, por nada ter feito, como na vergonhosa cumplicidade com as atrocidades cometidas durante a II Guerra Mundial contra os judeus, e nas Santas Cruzadas, e na Santa Inquisição, (apenas para referir os mais conhecidos casos de omissão da Igreja Católica). E é CÚMPLICE quem sabe e nada faz.

 

Espero que esta minha carta possa servir para acordar a “adormecida” Igreja Católica Portuguesa para esta grave lacuna, do seu apostulado. Os púlpitos são lugares apropriados para passar a mensagem da não-violência contra todos os seres humanos e não-humanos. Não é lugar para se falar de política. É lugar para se falar no que Jesus Cristo nos deixou de mais valioso, o preceito áureo: «não faças aos outros (e nesses outros estão incluídos todos os seres não-humanos) o que não gostas que te façam a ti.» Se todos os homens cumprissem esta simples regra, o mundo seria o lugar ideal para se viver, sem leis, sem governantes, sem polícias, sem armas, sem guerras, sem todos esses horrores, que o animal humano, e apenas o animal humano, inventou.

 

Porque é preciso acabar de uma vez por todas com esta macabra, patética, sangrenta e sádica prática chamada TOURADA, onde dois magníficos seres vivos (Touro e Cavalo) são barbaramente torturados por psicopatas.

 

E a Igreja Católica Portuguesa tem o seu quinhão de culpa nisto.

 

Com os meus melhores cumprimentos,

 

Isabel A. Ferreira

 

Fonte:
https://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/87535.html

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:49

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Comentários:
De Maria R. V. G. a 22 de Setembro de 2020 às 18:25
D. Manuel Clemente:
Aqui do Brasil, concordo plenamente com o texto perfeito de Isabel A. Ferreira.
É uma enorme hipocrisia as fotos que vi com a Igreja desfilando antes de touradas e com festejos taurinos cheios de torturas em comemoração de DIAS SANTOS, em Portugal ou Espanha. Os Santos são comemorados com atrocidades cometidas por instintos maus liberados nesses dias. ISSO É COISA DA PARTE CONTRÁRIA DE DEUS. Uma hipocrisia que não agrada a Deus. A Igreja quer agradar a Deus ou aos perversos?
Deus escolheu Seu filho , o Senhor Jesus, o mais Santo de todos, a nascer numa manjedoura, entre animais, inclusive um boi, não é? Com isso, Ele mostrou a pureza, humildade e simplicidade dos animais.
Pense nisso. Aqui, no Brasil, esperamos em Deus e nas providências de D. Manuel Clemente numa atitude de amor, compaixão e bom-senso.
Obrigada,
Maria.
De Isabel A. Ferreira a 22 de Setembro de 2020 às 19:09
Maria, agradeço o seu comentário. Pode ser que D. Clemente ouça o seu apelo, vindo do Brasil.
De Maria RVG a 22 de Setembro de 2020 às 22:26
Sim, sou grata ao seu combate também.
Espero que D. Clemente leia tudo e reflita que o mundo já está de olho nessas atrocidades com touros ou novilhos e cavalos também. Deus tudo está olhando. D. Clemente tem a escolha entre uma missão de mudar o mundo para uma atitude de caridade ou continuar aprovando algo que atualmente já se sabe que é CAUSAR DOR E SOFRIMENTO A UM SER SENCIENTE, QUE TUDO SENTE E TEME.
A Caridade é o dom preferido de Deus, é eterna, é o verdadeiro amor, e deve se estender a todos os seres da criação de Deus. A Caridade é o que salva o espírito humano e não apenas sentar numa Igreja.
D. Clemente, incentive a Caridade e não a Tradição de tortura, sangue e dor. Mesmo quem não é vegetariano, se tem a Caridade, não quer torturar um animal.
Nós, do Brasil, esperamos sua decisão caridosa. Tortura é tradição pagã.
De Isabel A. Ferreira a 23 de Setembro de 2020 às 11:05
De Arsénio de Sousa Pires a 25 de Setembro de 2020 às 11:18
Não nos enganemos e não esperemos em vão. A Igreja Católica portuguesa, como instituição, nunca vai condenar pública e oficialmente a MATANÇA de touros. Está muito comprometida com esta vergonha nacional e internacional.
Falta-lhe, assim como sempre faltou à Igreja Católica em geral, força e coragem para liderar um sólido Movimento para defender os Direitos dos Homens e dos animais a par dos direitos de toda a Natureza como criação de Deus. Ela chega sempre tarde! A sociedade civil é quem encabeça essa luta. E, assim, a Igreja Católica foi perdendo os operários, os intelectuais, os jovens e, se calhar, até os velhos que quase ninguém defende!
E quem, neste planeta, teria e terá mais OBRIGAÇÃO de encabeçar a luta por estes valores ESSENCIALMENTE CRISTÃO?
Ela esquece até que o Papa Pio V, no dia 1 de novembro de 1567, horrorizado pela crueldade dos espetáculos taurinos procurou pôr fim a estes festejos ao publicar a Bula “Salute Gregis Dominici” proibindo determinantemente as corridas de touros e decretando pena de excomunhão imediata a qualquer católico que as permitisse ou participasse nelas. Ordenou igualmente que não fosse dada sepultura eclesiástica aos católicos que pudessem morrer vítimas de qualquer espetáculo taurino.

Para quem tiver curiosidade sobre o que aconteceu depois:

https://basta.pt/igreja-catolica-e-touradas/
De Isabel A. Ferreira a 25 de Setembro de 2020 às 16:21
Eu sei, Arsénio Pires, que é bastante provável que D. Manuel Clemente despreze o meu apelo.

Contudo, os meus irmãos planetários, Touros e Cavalos, não podem "dizer" que não tentei.
De Arsénio de Sousa Pires a 25 de Setembro de 2020 às 17:08
Certo, Isabel. Insistir e confrontar é o caminho que a Isabel tem seguido e continua.
Neste caso, a Igreja Católica não só ignora os seus e nossos desafios como não tem em conta a bula do Papa Pio V e, mais grave ainda, parece desconhecer a encíclica do Papa Francisco, Laudato Si... também no referente ao cuidado pelos animais.
De Isabel A. Ferreira a 25 de Setembro de 2020 às 19:28
Desconhecer, não desconhecerão, Arsénio, mas é mais fácil fazerem-se de cegos,surdos e mudos, do que darem
o braço a torcer, e deixar de receber os proventos que a tauromaquia lhes dá, como se não fosse mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que os abastados sacerdotes no Reino dos Céus!

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