Sexta-feira, 10 de Julho de 2020

Ainda sobre o crime urbanístico em Piódão: a justificação do município de Arganil e a minha resposta

 

No texto que pode ser consultado neste link:

 

https://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/crime-urbanistico-em-piodao-961077?tc=44374833788

 

eu e o Pedro Quartin Graça mostrámos a nossa legítima indignação contra o crime urbanístico perpetrado em Piódão.

 

Do município de Arganil recebi esta inacreditável justificação.

Leiam e pasmem.

 

Piódão.jpeg

Fonte da imagem: 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10157182431476712&set=a.59449556711&type=3&theater

 

Resposta do Senhor Geral da Câmara Municipal de Arganil à minha publicação sobre o crime urbanístico lá cometido

 

Exma. Senhora,
Boa tarde,

 

Não podemos deixar de constatar os termos utilizados na mensagem remetida por V. Exa., pouco compreensíveis quando escritos por alguém com tanta formação, qualificação e cargos (https://blogs.sapo.pt/profile?blog=arcodealmedina). Paralelamente, também não deixa de ser curioso verificar que alguém tão acerrimamente crítico do acordo ortográfico actualmente em vigor (https://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/a-atencao-de-todos-os-que-sao-contra-o-833531), se permita escrever País com um “p” minúsculo!

 

Adiante!

 

O edifício repentinamente descoberto com grande surpresa e novidade tem uma história que remonta, afinal, a 2002! Sim; ano dois mil e dois! Na sequência de proposta elaborada pelo arquitecto Eduardo Mascarenhas de Lemos (e porque a Aldeia Histórica do Piódão é Imóvel de Interesse Público classificado desde 1978), o então Instituto Português do Património Arquitectónico emitiu pareceres vinculativos favoráveis; viabilizando a construção.

 

Nesta sequência, o Presidente da Câmara Municipal de Arganil viria a deferir a pretensão do requerente em 2 de Outubro de 2003 (dois mil e três)!

 

E o edifício foi construído!

 

Se gostamos? Não; não gostamos! Entendemos, mesmo, que é uma ferida na Aldeia, que desvirtua a coerência do conjunto. Mas isso somos nós que dizemos; que não somos arquitectos!

 

A este respeito, sugerimos consulta à discussão que este tema mereceu em 2007, acessível em: 

https://www.arquitectura.pt/forum/forums/topic/5863-piodao-edificio-multifuncional-eduardo-mascarenhas-de-lemos/

 

Com os melhores cumprimentos,

ARGANIL.jpg

 

Minha resposta:

 

Exmo. Senhor Geral

da Câmara Municipal de Arganil,

 

Os termos utilizados no texto são os mais adequados à circunstância. É que nem eu, nem o Sr. Quartin Graça estamos ali a fazer Poemas, nem Literatura. Estamos a exercer o nosso direito à indignação, com toda a legitimidade, contra a construção de um mamarracho, que lá por ter sido concebido por um arquitecto, não significa que ele seja um bom arquitecto, mas, se o é, e não duvidamos, nem tudo o que um bom arquitecto faz é bom, dependendo do contexto onde a sua obra se insere. O prédio até pode ganhar um prémio internacional de arquitectura, e ser a obra mais prima de todas as primas, mas não ali, naquele lugar, em Piódão.

 

Não podemos deixar de constatar os termos utilizados na mensagem remetida por V. Exa., pouco compreensíveis quando escritos por alguém com tanta formação, qualificação e cargos. Diz o senhor Geral.

 

Pois é precisamente pela minha formação e pelos meus cargos que tenho toda a legitimidade de usar os termos que mais se adequam ao crime urbanístico perpetrado em Piódão. Além disso, tenho o direito de me indignar aplicando termos adequados a tamanha insensatez.

 

Paralelamente, também não deixa de ser curioso verificar que alguém tão acerrimamente crítico do acordo ortográfico actualmente em vigor, se permita escrever País com um “p” minúsculo! Diz o senhor Geral.

 

Pois tenho a dizer-lhe que, no contexto desta frase: «Isto só mesmo num país corrupto, como Portugal» país é escrito com letra minúscula, pois está a referir-se a um país corrupto, que por acaso é Portugal. Portugal é um país corrupto. Lamento que o meu País não seja um país onde a corrupção não passe de uma miragem.

 

Percebeu, senhor Geral?

 

Adiante!

 

O resto da história é o blá blá blá do costume. Muitos pareceres inacreditavelmente favoráveis, arquitectos muito habilitados, e, como também sabemos, valores muito mais altos do que a razão, que sempre se levantam, para justificar os actos mais inconcebíveis.

 

Mas o que mais me surpreendeu na sua tentativa de explicar o inexplicável, Senhor Geral, foi o seu último parágrafo:

 

Se gostamos? Não; não gostamos! Entendemos, mesmo, que é uma ferida na Aldeia, que desvirtua a coerência do conjunto. Mas isso somos nós que dizemos; que não somos arquitectos!

 

Não gostaram do mamarracho. Entenderam mesmo, que é uma ferida na Aldeia, que desvirtua a coerência do conjunto.  Mas isso sois vós a dizer, porque não sois arquitectos? Então, sem terem o mínimo de espírito crítico, e assentes no argumento mais esfarrapado e inimaginável que poderiam ter arranjado, deixaram que o mamarracho fosse construído, e desfeado a Aldeia mais bonita de Portugal, quiçá, do mundo, que agora deixou de ser, a não ser que rebente (com dinamite controlada) o mamarracho do descontentamento de todos os Portugueses, que têm a noção do Bom, do Bem e do Belo, e não se deixam levar pelas ideias de arquitectos, aos quais nada diz a preservação arquitectónica de uma aldeia tão preciosa como Piódão.



Só porque não são arquitectos, deixaram destruir um conjunto arquitectónico de uma das aldeias históricas portuguesasprotegidas (o que seria se não fosse protegida). Uma aldeia que na   década de 1980, recebeu o Galo de Prata, condecoração atribuída à "aldeia mais típica de Portugal". Deixaram destruir a aldeia classificada como Imóvel de Interesse Público, porque não são arquitectos.

 

Estou a imaginar que se o arquitecto vos dissesse para pintar de vermelho, às bolinhas pretas, as belas e únicas casas de xisto, vocês podiam até não gostar, mas como não são arquitectos… Só isto diz tudo o que há a dizer da história patética deste crime urbanístico, cujos intervenientes andam no mundo só por ver andar os outros.

 

Lamentável. Muito lamentável.

 

Passe bem, Sr. Geral. Pensei que a justificação para este crime urbanístico pudesse ser algo mais racional. Enganei-me.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 11:14

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Comentários:
De Arsénio de Sousa Pires a 10 de Julho de 2020 às 22:24
Excelente resposta. Parabéns.
Subscrevo-a inteiramente.
Também protestei para a Câmara de Arganil. Ninguém me respondeu. No entanto, foi bom não ter obtido uma resposta como esta... que nada justifica em defesa daquele mamarracho vergonhoso.
Esta resposta (?) do Sr. Geral diz-nos bem da qualidade dalgumas autarquias na preservação do bem comum.
De Isabel A. Ferreira a 20 de Julho de 2020 às 18:15
Obrigada, Arsénio Pires.

Por algum motivo o autor da resposta não a assinou.
Contudo, quem ficou mal na fotografia foi o presidente da Câmara de Arganil.

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