Quarta-feira, 1 de Julho de 2020

«Ainda não vimos nada!»

 

ATERRADORA PROFECIA JÁ EM DESENVOLVIMENTO!

Uma profecia feita com a lucidez e o realismo de António Barreto. A LER com atenção e a PARTILHAR, pois é deveras preocupante e já se encontra em desenvolvimento na Europa e no Mundo.
António Barreto no jornal Público sobre a revisão da História.

Ainda não vimos nada! (José Cerca)

 

António Barreto.jpg

Por António Barreto

 

Republicanos, corporativistas, fascistas, comunistas e até democratas mostraram, nos últimos séculos, que se dedicaram com interesse à revisão selectiva da História, assim como à censura e à manipulação.

14 de Junho de 2020


É triste confessar, mas ainda estamos para ver até onde vão os revisores da História. Uma coisa é certa: com a ajuda dos movimentos anti-racistas, a colaboração de esquerdistas, a covardia de tanta gente de bem e o metabolismo habitual dos reaccionários, o movimento de correcção da História veio para ficar.


Serão anos de destruição de símbolos, de substituição de heróis, de censura de livros e de demolição de esculturas. Até de rectificação de monumentos. Além da revisão de programas escolares e da reescrita de manuais.


Tudo, com a consequente censura de livros considerados impróprios, seguida da substituição por novos livros estimados científicos, objectivos, democráticos e igualitários. A pujança deste movimento através do mundo é tal que nada conseguirá temperar os ânimos triunfadores dos novos censores, transformados em juízes da moral e árbitros da História.


Serão criadas comissões de correcção, com a missão de rever os manuais de História (e outras disciplinas sensíveis como o Português, a Literatura, a Geografia, o Meio Ambiente, as Relações Internacionais…), a fim de expurgar a visão bondosa do colonialismo, as interpretações glorificadoras dos descobrimentos e os símbolos de domínio branco, cristão, europeu e capitalista.


Comissões purificadoras procederão ao inventário das ruas e locais que devem mudar de nome, porque glorificam o papel dos colonialistas e dos traficantes de escravos. Farão ainda o levantamento das obras de arte públicas que prestam homenagem à política imperialista, assim como aos seus agentes. Já começou, aliás, com a substituição do Museu dos Descobrimentos pelo Memorial da Escravatura.


Teremos autoridades que tudo farão para retirar os objectos antes que as hordas cheguem e será o máximo de coragem de que serão capazes. Alguns concordarão com o seu depósito em pavilhões de sucata. Outros ainda deixarão destruir, gesto que incluirão na pasta de problemas resolvidos.


Entretanto, os Centros Comerciais Colombo e Vasco da Gama esperam pela hora fatal da mudança de nome.


Praças, ruas e avenidas das Descobertas, dos Descobrimentos e dos Navegantes, que abundam em Portugal, serão brevemente mudadas.


Preparemo-nos, pois, para remover monumentos com Albuquerque, Gama, Dias, Cão, Cabral, Magalhães e outros, além de, evidentemente, o Infante D. Henrique, o primeiro a passar no cadafalso. Luís de Camões e Fernando Pessoa terão o devido óbito. Os que cantaram os feitos dos exploradores e dos negreiros são tão perniciosos quanto os próprios. Talvez até mais, pois forjaram a identidade e deram sentido aos mitos da nação valente e imortal.


Esperemos para liquidar a toponímia que aluda a Serpa Pinto, Ivens, Capelo e Mouzinho, heróis entre os mais recentes facínoras. Sem esquecer, seguramente, uns notáveis heróis do colonialismo, Kaúlza de Arriaga, Costa Gomes, António de Spínola, Rosa Coutinho, Otelo Saraiva de Carvalho, Mário Tomé e Vasco Lourenço.


Não serão esquecidos os cineastas, compositores, pintores, escultores, escritores e arquitectos que, nas suas obras, elogiaram os colonialistas, cúmplices da escravatura, do genocídio e do racismo. Filmes e livros serão retirados do mercado.


Pinturas murais, azulejos, esculturas, baixos-relevos, frescos e painéis de todas as espécies serão destruídos ou cobertos de cal e ácido. Outras comissões terão o encargo de proceder ao levantamento das obras de arte e do património com origem na África, na Ásia e na América Latina e que se encontram em Portugal, em mãos privadas ou em instituições públicas, a fim de as remeter prontamente aos países donde são provenientes.


Os principais monumentos erectos em homenagem à expansão, a começar pelos Jerónimos e pela Torre de Belém, serão restaurados com o cuidado de lhes retirar os elementos de identidade colonialista. Os memoriais de homenagem aos mortos em guerras do Ultramar serão reconstruídos a fim de serem transformados em edifícios de denúncia do racismo. Não há liberdade nem igualdade enquanto estes símbolos sobreviverem.


Muitos pensam que a História é feita de progresso e desenvolvimento. De crescimento e melhoramento. Esperam que se caminhe do preconceito para o rigor. Do mito para o facto. Da submissão para a liberdade.


Infelizmente, tal não é verdade. Não é sempre verdade. Republicanos, corporativistas, fascistas, comunistas e até democratas mostraram, nos últimos séculos, que se dedicaram com interesse à revisão selectiva da História, assim como à censura e à manipulação.


E, se quisermos ir mais longe no tempo, não faltam exemplos. Quando os revolucionários franceses rebaptizaram a Catedral de Estrasburgo, passando a designá-la por Templo da Razão, não estavam a aumentar o grau de racionalidade das sociedades. Quando o altar-mor de Notre Dame foi chamado de Altar da Liberdade caminharam alegremente da superstição para o preconceito.


E quando os bolchevistas ocuparam a Catedral de Kazab, em São Petersburgo e apelidaram o edifício de Museu das Religiões e do Ateísmo, não procuravam certamente a liberdade e o pluralismo. E também podemos convocar os Iconoclastas de Istambul, os Daesh de Palmira ou os Taliban de Bamiyan que destruíram símbolos, combateram a religião e tentaram apropriar-se tanto do presente como do passado.


Os senhores do seu tempo, monarcas, generais, bispos, políticos, capitalistas, deputados e sindicalistas gostam de marcar a sociedade, romper com o passado e afastar fantasmas. Deuses e comendadores, santos e revolucionários, habitam os seus pesadelos. Quem quer exercer o poder sobre o presente tem de destruir o passado.


Muitos de nós pensávamos, há cinquenta anos, que era necessário rever os manuais, repensar os mitos, submeter as crenças à prova do estudo, lutar contra a proclamação autoritária e defender com todas as forças o debate livre.


É possível que, a muitos, tenha ocorrido que faltava substituir uma ortodoxia dogmática por outra. Mas, para outros, o espírito era o de confronto de ideias, de debate permanente e de submissão à crítica pública.


O que hoje se receia é a nova dogmática feita de novos preconceitos. Não tenhamos ilusões.


Se as democracias não souberem resistir a esta espécie de vaga que se denomina libertadora e igualitária, mergulharão rapidamente em novas eras obscurantistas.»

 

Fontes:

https://www.publico.pt/2020/06/14/opiniao/opiniao/nao-vimos-nada-1920419

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10213756651270540&set=a.1133116028121&type=3&theater

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:05

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Comentários:
De Anónimo a 1 de Agosto de 2020 às 18:16
Grande verdade o texto está muito bem escrito e estamos a assistir a destruição do passado e de tudo o que o simboliza.
De graça a 1 de Agosto de 2020 às 20:29
Este tipo pirou de vez! Com que então Descobrimentos resumem-se a escravatura???
De Isabel A. Ferreira a 2 de Agosto de 2020 às 16:34
Vai desculpar-me, “graça”, mas quem pirou de vez é quem leu o texto de António Barreto, e não percebeu nada do que leu. Sinto muito.

Sugiro que o leia novamente, do princípio ao fim, e verá a inutilidade do seu comentário, que só diz da iliteracia que por aí vai.

Ah! E já agora: o autor do texto chama-se António Barreto, um dos mais ilustres intelectuais do nosso tempo, um ser pensante, que sabe o que diz e, principalmente, por que o diz.

Os outros, esses outros que não sabem pensar, é que são o TIPO de gente que faria melhor estar calada, ou então fosse estudar Língua Portuguesa, que anda pela rua da amargura, daí a proliferação da iliteracia, que não permite compreender o que se escreve.
De Sandra a 2 de Agosto de 2020 às 19:01
Minha senhora, leia outra vez o que está escrito.
De Isabel A. Ferreira a 2 de Agosto de 2020 às 19:36
Sandra, não sei a qual "senhora" se refere.
Se é à senhora "graça", penso que sim, ela deve ler outra vez, com atenção, o que António Barreto escreveu, com muita sapiência.
De Anónimo a 3 de Agosto de 2020 às 18:28
Mais um texto brilhante do dr.António Barreto.
De Isabel A. Ferreira a 3 de Agosto de 2020 às 18:46
Concordadíssimo.
De victor brito a 4 de Agosto de 2020 às 11:40
Felicito o ilustre autor.
Os tempos que vivemos são de destruição.
Se não reagirmos vamos começar por perder a nação
e a não termos nada para nos orgulharmos de um passado
de quase 9 séculos. Passado de muias lutas, de muitas vitórias e, naturalmnte, de alguns dramas mal sucedidos
dos quais me permito destacar a forma desastrosa, irresponsável, vergonhosa como foi conduzida a
descolonização. Com tudo isto na nossa históia recente,
é caso pª nos perguntarmos "quo vadis domine?"
Bem haja Sr. Dr. A Barreto|
Victor de Brito
Cor pil aviador (ref)

De Bernardeth Vera a 5 de Agosto de 2020 às 18:20
Muitissimo bem comentado!
Todos devemos reagir!
Afinal quando foi preciso chamaram o "povo", os anonimos.
Agora teremos e queremos impedir que meia duzia de doutores,
destruam todo o nosso patrimonio comum.
De Telmo a 9 de Agosto de 2020 às 08:34
O Professor António Barreto, aplica métodos científicos nas suas análises.
É muito elucidativo e obriga-nos a repensar temas muito importantes.
Este artigo foca um conjunto de técnicas comuns a qualquer percurso inicial das ditaduras.
O que se está a passar é sem dúvida muito sério e destrutivo.
De Isabel A. Ferreira a 10 de Agosto de 2020 às 14:56
O que está a passar-se é assustador, Telmo.

Caminhamos, a passos largos, para uma nova ditadura. Se é que já não podemos chamar ao regime vigente uma ditadura disfarçada de democracia.
De SILVANA FAZAN a 10 de Agosto de 2020 às 14:49
Perfeita reflexão futurista mas real. uma sociedade se referencia exatamente pelo que já viveu e está registrado ao longo dos séculos. Na minha modesta opinião, não se constrói futuro sem voltar ao passado, que serve de parâmetro para aquilo que se deve mudar ou aprimorar. Somos seres pensantes e em pleno movimento, tudo muda o tempo todo, mas jamais deve se anular o que foi vivido. Parabéns António Barreto.
De José Álvaro a 11 de Agosto de 2020 às 08:58
Tenho 56 anos, a minha formação infantil passou por armas e barões assinalados, apesar da minha idade, nenhum idiota irá destruir a história de Portugal atacando os símbolos que embelezam as nossas cidades , a bandeira ou o hino que me faz ainda correr lágrimas, porque eu não deixo.
Como eu, são já milhões os portugueses fartos do desrespeito dos nossos costumes, antevejo tempos de grande tribulação, os mouros também eram muitos mas o mar é maior...
De Isabel A. Ferreira a 11 de Agosto de 2020 às 16:08
Meu caro José Álvaro, os tempos serão de grande tribulação, sim, já estão a ser, porque somos governados por gente sem nenhuma cultura, sem nenhuma visão de futuro, sem perspectivas; gente que não se respeita a si própria, como poderá respeitar o País, que nada lhe diz?

Mas é como refere: os mouros também eram muitos, mas o MAR é maior, e ALMA portuguesa, ainda mais. Não permitiremos que os joguetes levem a melhor.

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