Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

O Menino Guerreiro

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2008
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1
 
Ao amanhecer
 
 
Amanhece. Um amanhecer magnífico, no recanto desta floresta, o mais belo lugar da África. O Sol, redondo como uma bola, surge enorme, vermelho, da cor do fogo, e finge elevar-se lá nas alturas, muito devagarinho, reflectindo-se nas águas do rio grande, que dorme ainda.
 
Inesperadamente, ouve-se um cacarejar, que faz lembrar o toque de uma trombeta.
 
— Cocorococoooooó! Cocorococoooooó! Cocorococoooooó! Cocorococoooooó! Cocorococoooooó!
        
O cacarejo ecoa longe, onde quer que fique o longe. E a floresta desperta, e com ela todos os animais. E as águas do rio agitam-se, e os pássaros abrem as suas asas e voam sobre o rio. E o burburinho próprio da vida abraça a manhã. Um novo dia começa assim, alegremente, como deve ser. Sempre.
 
— Cocorococoooooó!...
 
É Trocopé, o galinho garnisé mais popular daquela serra que, do alto do seu poleiro, numa frondosa, ramalhosa e velha figueira, assim anuncia o amanhecer. Todos os dias. Mal o Sol se mostra, lá, naquele horizonte, longe, bordado com a ramagem de uma floresta, situada na outra margem do rio grande, Trocopé faz soar a sua trombeta, e não há criatura que resista a tanto cocorocó.
 
Por debaixo da velha figueira, vê-se uma palhota, construída com pequenos troncos de madeira e coberta de grandes folhas de palmeira. Quando Trocopé brada o seu último cocorocó, que se sabe que é o último porque prolonga indefinidamente o ó final, da palhota sai um menino da cor do café com leite, enrolado numa túnica vermelha, e diz, numa voz quase cantante:
 
— Bom-dia Trocopé! Bom-dia para ti e para todas as criaturas desta floresta.
 
É assim, todas as manhãs.
        
Trocopé logo que vê Não Sei, assim se chama o menino, desce da figueira aos saltinhos de garnisé, e vem saudá-lo no chão, de igual para igual. Não Sei ergue-o, beija-lhe a crista, coloca-o sobre o ombro, e vai até ao rio para um banho que serve também de diversão. E o Sol, agora amarelo, da cor da laranja, continua a fingir que se eleva lá nas alturas, deixando nas águas do rio um reflexo dourado. O Sol finge elevar-se, porque, na verdade, ele não se eleva, quem gira é a Terra, em torno dele. E o menino tenta agarrá-lo com as mãos, e o galinho, sem saber para que serve agarrar o Sol com as mãos, dá às asas e tenta ampará-lo entre as penas da cor da castanha.
 
Não Sei, apercebendo-se deste pequeno desacerto do seu pequeno amigo, diz-lhe, para que ele compreenda:
 
 — Se eu conseguisse agarrar um pedacinho de Sol com as minhas mãos, talvez pudesse transformar-me num mágico, e ajudar o meu povo a libertar-se do mal que o traz atormentado.
 
Uma superstição como outra qualquer, mas, na verdade, se alguém, algum dia conseguisse agarrar um raio do Sol com as suas próprias mãos, de certeza que esse alguém transformar-se-ia num ser muito especial.
 
Trocopé não compreende, mas cacareja, um cacarejar suave, como quem diz eu sei, eu sei
 
E é assim, todos os dias, ao amanhecer.
 
O menino repete este ritual do banho, nas águas tranquilas do rio, na esperança de que este seu pequeno desejo possa realizar-se um dia…
 
 
***
 
2
 
Na outra margem do rio
 
Não Sei é um menino misterioso. Tem um sorriso dos mais lindos que já se viram, mas raramente sorri, não porque não saiba sorrir, mas porque ainda não tem motivos para o fazer. Vive com Trocopé, naquele recanto da floresta, escondido, como se fosse um criminoso. Ele, que é apenas um menino! Não sabe a sua idade, mas não terá mais do que uns dez anos, vividos tão intensamente, como se fossem outros tantos. O seu nome também não o sabe, e a sua história dava para contar num livro, estando parte dela bem marcada na sua memória, porque nela ainda tudo é recente.
 
E esse tudo, que na verdade é pouco, começou na outra margem do rio, lá onde existe uma outra floresta, e onde o Sol, redondo como uma bola, também finge levantar-se, todas as manhãs, mas não brinca nas águas tranquilas do rio grande.
 
Não Sei teve pai e teve mãe como todos os meninos. Mas pouco se recorda deles. A última imagem que conseguiu reter da mãe, tinha apenas uns quatro anos, é a de uma mulher correndo desesperadamente, entre muitas outras mulheres e muitos outros meninos, numa estrada poeirenta.
 
E ela gritava:
— Corre! Corre! Corre!...
        
Ouvia-se o som assustador de metralhadoras a disparar, e passos cada vez mais próximos. E gritos ferozes.
 
Mas o menino era ainda muito pequeno, e não correu o suficiente. Foi ficando para trás, muito para trás, entre o mato que o escondia, quase por completo. E as mulheres correndo, lá mais adiante. E os outros meninos, mais crescidos, correndo também, atrás delas. Mas o nosso menino foi ficando sozinho, perdido, naquela estrada poeirenta. Quando já não se via ninguém, e os gritos e os disparos das armas deram lugar ao silêncio, o menino sentou-se no chão, entre os abetos, e esperou. O quê? Não sabia. Por ele viu passar uns homens com umas botas que lhe pareceram muito grandes. Corriam e gritavam. E tão apressados iam que nem repararam no menino, assustado e indefeso. Imóvel entre a folhagem. À espera. De quê? Como podia saber?
 
E veio a noite, e o menino adormeceu, no chão de folhas secas da floresta, entre os verdes abetos. E uma bela coruja, naquela noite, velou o seu sono.
 
No dia seguinte, o Sol fingiu levantar-se, naquela margem do rio, como todos os dias. E os pássaros voaram. E o menino despertou. A seu lado estava uma mulher muito, muito velha. Não era a sua mãe. E a mulher perguntou-lhe:
 
— Que fazes aqui, menino?
 
E o menino respondeu:
 
— Não sei.
— Quem és tu?
— Não sei.
— De quem és filho?
— Não sei.
— A que aldeia pertences?
—Não sei.
— Pelo menos sabes o teu nome? – perguntou a mulher velha, já muito irritada com tanto não sei.
 
— Não sei – respondeu o menino, uma vez mais, com toda a inocência do mundo, começando a chorar, um choro miudinho, sufocado, um choro de menino perdido, indefeso e só.
 
De facto, aquele menino de nada sabia. Não sabia a resposta para nenhuma daquelas perguntas. Andara sempre fugindo, com a mãe, de monte em monte. De floresta em floresta. Não se lembrava de nenhuma aldeia que fosse a sua. Nunca tinha ouvido a mãe chamá-lo por um nome, que fosse o seu. As palavras que mais ouvia eram corre, está calado, não chores, está quieto, não há, dorme... e aquele não sei, simplesmente seco, com que a mãe respondia às constantes perguntas que ele, querendo saber do mundo, fazia.
 
Além do mais, a sua mãe era mulher de poucas palavras, porque, na verdade, também pouco ou nada sabia do que estava a acontecer ao seu povo, por isso, pouco ou nada era também o que tinha para dizer. E o menino lembrava-se muito bem e apenas do que ela lhe gritava, muito constantemente: Corre! Corre! Corre!
 
Como a mulher velha também não sabia que Não Sei não era nome de gente, o menino ficou a chamar-se assim, por responder não sei, quando lhe perguntou o nome.
 
A mulher velha vivia só. O menino também estava só, e ela levou-o para a sua aldeia, e obrigou-o a trabalhar para ela. Na aldeia todos lhe chamavam Não Sei. E os dias foram passando, até que passaram três anos e, uma noite, quando a aldeia foi atacada e incendiada por uns homens mascarados, Não Sei fugiu, no meio da confusão e dos gritos.
 
E correu, correu muito, a noite toda, sem parar, até chegar a uma cidade grande, que tinha automóveis e casas a sério, altas, com muitas janelas, como ele nunca tinha visto.
 
 
Amanhecia, e a cidade despertava para um dia igual a todos os dias. Ali chegado, Não Sei escondeu-se numa casa grande, abandonada, cheia de pequenos buracos nas paredes.
 
 
in O Menino Guerreiro (10 €)
 
 
Este livro pode ser adquirido através do e-mail:
 isabelferreira@net.sapo.pt
 
publicado por Isabel A. Ferreira às 19:38

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