Aproveitando a presença do Senhor Secretário de Estado da Cultura, na Póvoa de Varzim, para a cerimónia de abertura do Correntes d'Escritas, um evento cultural de grande prestígio, entreguei-lhe em mãos a presente carta, a tratar de outro evento menos "cultural" mas que o Governo Português teima em considerar "Cultura e Arte", ou seja, a cultura e a arte da tortura de Touros e Cavalos. Entendi ser oportuno, este meu acto, num lugar onde se realizou CULTURA CULTA. Será que devemos meter tudo no mesmo saco?
Póvoa de Varzim, 23 de Fevereiro de 2012
Exmo. Sr. Dr. Francisco José Viegas, Secretário de Estado da Cultura:
Como defensora dos Direitos dos Animais Humanos e Não Humanos, cidadã portuguesa, com direito à indignação, venho expressar o meu profundo desagrado com a política cultural do meu País, que não tem culpa de não ser bem governado (estando muito mal visto lá por fora), e também a minha decepção quanto ao modo inculto como a Cultura Portuguesa está a ser tratada.
O Sr. Dr. Francisco José Viegas não quererá ficar para a História como o «Secretário de Estado da INCULTURA» do XIX Governo Constitucional de Portugal. Por isso, atrevo-me a deixar aqui uma sugestão, com todo o respeito.
Daquilo que me deu a entender numa entrevista que o Senhor Secretário deu, outro dia, sobre a questão do sórdido espectáculo denominado tourada, pareceu-me que titubeou, e nem foi carne, nem peixe, e não tem uma opinião definida. Aliás, salvo raras excepções, nenhum dos governantes portugueses parece ter uma opinião clara sobre algo que é indigno de um ser humano e de um país que se preze.
E porquê? Porque se baseiam numa lei absolutamente obsoleta, ultrapassada, a cair de podre, de tão velha. Mas se a lei está velha então faça-se uma nova lei, baseada em novos conceitos humanos, na lucidez, na evolução, na civilização, e não fiquem parados num tempo medieval, com contornos embrutecidos, pacóvios, ignorantes, de uma baixeza humana e moral atroz.
E um Secretário de Estado da Cultura, de quem se espera que defenda uma Cultura Culta, não tem opinião formada sobre algo que é a vergonha do País?
O Senhor Secretário olhe com olhos de ver esta imagem do Campo Pequeno, de uma “cultura” e de uma “arte” protegidas pela lei portuguesa, e diga alto e em bom som, se nela vê alguma DIGNIDADE.
Será que o que vê é de uma cultura requintada, digna de constar nos livros de Arte Universal? Tem a coragem de dizer isso aos portugueses?
Quem é a favor da tortura de Touros e de Cavalos numa arena dificilmente muda de opinião, ainda que lhes apresentemos argumentos suficientemente racionais e óbvios. E porquê? Porque são mentalmente cegos. E essa é a pior das cegueiras, pois não conseguem ver o que é visível aos olhos. Não lhes permitindo “beber” o néctar de uma cultura culta. Dizem: «sempre gostei de ver touradas, e é como gostar de futebol...».
Pois não é. No futebol ninguém tortura seres vivos. E o que está em causa numa tourada, não é o gosto pessoal, é o SOFRIMENTO de um animal não humano. Muito, muito diferente de qualquer outro espectáculo.
Os aficionados são deseducados desde o berço nessa escuridão, e crescem às apalpadelas, desconhecendo o chão que pisam e acreditando que a verdade é aquela mentira grosseira que lhes contaram logo à nascença: os Touros nasceram para serem toureados, e os Cavalos para servirem os torturadores.
Então tentam justificar a injustificável Tortura dos Touros, baseando-se em lugares comuns, que, no entanto, são facilmente contraditados.
Li algures que «as touradas enaltecem a nobreza do Touro».
E também li algures que «só uma mente muito ignorante ou distorcida pode realmente acreditar que os Touros quando vão para uma arena cumprem um qualquer desígnio divino. A justificação de que o Touro é nobre por lutar pela vida numa tourada vem de quem alimenta o seu negócio e enriquece à custa deste espectáculo perverso mas rentável. A nobreza é um conceito inventado pelo homem. Na natureza todos os animais são iguais e todos lutam pela sobrevivência. Ninguém duvida de que o Homem, numa luta com as suas armas e condições consegue ser superior a qualquer outro animal. Provar isso numa luta desigual não é nobre, é ESTÚPIDO».
Portanto Sr. Secretário de Estado, não existe a mínima justificação moral ou cultural para se causar sofrimento a um animal, em circunstância alguma, muito menos para diversão.
A insistência na preservação de um espectáculo cujo âmago é o sofrimento cruel de dois magníficos animais – o Touro e o Cavalo – tem a sua génese numa gritante falta de cultura e educação, na ignorância e estupidez, e numa chocante falta de carácter.
Vem o Senhor Secretário de Estado, presidir à abertura do Correntes d’Escritas, à Póvoa de Varzim, uma cidade que acolhe este evento de alto nível Cultural, mas também apoia a tourada, a batida às raposas, e possui um canil municipal à medida dos campos de concentração nazis.
Uma vergonha.
O que pretendo, Senhor Secretário de Estado?
Pretendo que Portugal evolua e o Governo Português destrua este lixo “cultural”, que só nos envergonha e suja o nome, para que possamos viver num País verdadeiramente civilizado, e não termos vergonha de sermos portugueses.
Com os meus melhores cumprimentos,
Isabel A. Ferreira
(Jornalista, Autora, Licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra).
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