Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

PELA ABOLIÇÃO DA TOURADA - RESPOSTA A UM GANADEIRO ESPANHOL QUE ME INTERPELOU (I PARTE)

 

 

(É esta "arte" que existe no toureio, que o señor R. teme

que eu não esteja aberta para ver?)

 

 

PELA ABOLIÇÃO DA TOURADA

 

(Obs: Abstenho-me de identificar o ganadeiro, por uma questão de delicadeza, uma vez que esta questão está a ser tratada em mensagens privadas, e só a torno pública pelo interesse do seu conteúdo para a Causa)

 

Escreveu-me um ganadeiro espanhol, numa mensagem, a propósito de um comentário que fiz sobre um seu toureiro:

 

«No sé si Vd. ha asistido a una corrida de toros, ni qué conocimientos taurinos tiene. Yo admito que en estos tiempos en que la bravura y casta de los toros ha disminuido hasta el punto de que una buena parte de los toros actuales no quieren pelear e incluso huyen de los toreros y se acobardan, no deberían ser lidiados. También admito que una parte de las corridas pudieran modificarse y reducir el castigo que recibe el animal, básicamente porque no lo necesita para ser dominado por el torero.
Tal vez no haya interpretado bien el significado que Vd. quiso darle a su frase: «Este tipo tiene ceguera mental». Pero teniendo en cuenta que Vd. conoce perfectamente el idioma español, deberá saber que el calificativo  “tipo” tiene sentido despectivo y por “ceguera mental” entiendo que es calificarle de idiota, tonto, memo, bobo, etc.

 

Conozco su biografía y sé que es Vd. una persona culta y razonable, pero demasiado apasionada cuando ataca a las corridas de toros, me temo que no esté abierta a ver lo que de arte hay aprovechable en el toreo.
Si entráramos en contacto más prolongado tal vez me convenciera Vd. de que la solución está en suprimir totalmente las corridas o tal vez le convenciera yo de que no hay que suprimirla, sino modificarla.
Yo estoy dispuesto a continuar tratando sobre nuestra discrepancia, si Vd. cree que vale la pena.»

 

Respondi-lhe o seguinte:

 

Senõr R.:

 

Tenho por hábito NÃO falar daquilo que não sei. É óbvio que para defender, como defendo, a abolição TOTAL da corrida de Touros, já assisti a uma, uma só, e bastou, porque tive de sair a meio do primeiro Touro, tal as náuseas que me causou ver o que vi: sangue a jorrar do Touro e do Cavalo, dois magníficos e inocentes seres vivos, a serem cruelmente torturados numa arena, diante de uma assistência apatetada, que aplaudia cada jorro de sangue que manchava o chão.

 

Não, señor R., aquele era um espectáculo demasiado bárbaro, cruel e primitivo para a minha sensibilidade.

 

Naturalmente que também tenho os conhecimentos taurinos suficientes para dizer que a tauromaquia não passa de uma “arte” de torturar um ser vivo, com requintes de malvadez, executada por um covarde.

 

A bravura e a casta dos touros nunca estiveram em causa. Eles são o que são, por natureza. E para entrarem numa arena vão já enfraquecidos pelas barbaridades que sofrem ANTES da lide. E o que vemos na arena é um torturador metido a valente, diante de um ser vivo debilitado pela atrocidade que já sofreu. Basta retirar um touro do pasto e metê-lo num transporte para que ele entre em stress e já não seja o Touro INTEIRO que pastava tranquilamente no campo.

 

Quando o señor R. refere «también admito que una parte de las corridas pudieran modificarse y reducir el castigo que recibe el animal»… CASTIGO? Castigo porquê? O Touro não é cruel para com o homem, porque haverá o homem de ser cruel para com o Touro? CASTIGO porquê? Se o Touro não está na arena por sua livre e espontânea vontade, e não fez qualquer mal à humanidade? É um ser completamente inocente. É como levar um niño pequenito para ser sacrificado aos deuses (como era TRADIÇÃO em alguns povos primitivos).

 

Quando escrevi aquela frase: «este tipo tem cegueira mental» estava a escrever para portugueses, e TIPO em Portugal, é o mesmo que sujeito, indivíduo, fulano. Não gosto de chamar HOMEM a quem não é HOMEM, porquanto um verdadeiro HOMEM não maltrata um ser que está em desvantagem perante ele. Um torturador de Touros tem espadas, tem bandarilhas, ferros, e o Touro? Ao torturador chamo COVARDE, não HOMEM. E um covarde para mim é um tipo desclassificado. Um tipo.

 

Entendeu mal, sim, Señor R.. Um “cego mental” é aquele que não consegue VER O ÓBVIO. Se não conseguindo ver o ÓBVIO é tonto, idiota, memo... bem, isso já fica por conta de quem interpreta.

Sim, sou uma pessoa culta e razoável, e muiiiiito apaixonada por TOUROS e por CAVALOS e em geral por TODOS os animais não humanos, meus IRMÃOS, que partilham o mesmo Planeta que eu, e têm uma VIDA tal como EU. E defendo-os com todas as minhas garras, tal como defendo los niños, los viejos, las mujeres y los hombres agraviados. Faz parte da minha natureza humana.

 

E na minha cultura não vejo qualquer “arte” no toureio, a não ser a arte da crueldade, com muito requinte de malvadez, señor R.. A arte para mim, é a Música, a Dança, a Pintura, a Escultura, a Literatura, o Teatro, o Cinema, e a Arte Circense, SEM ANIMAIS.

 

A arte não pode incluir CRUELDADE, TORTURA, SANGUE E MORTE.

 

A minha luta é pela ABOLIÇÃO TOTAL de TODOS os espectáculos onde os animais não humanos são utilizados: circos, touradas, lutas, jardins zoológicos, enfim, tudo o que retire o animal do seu habitat natural e o faça viver uma vida para a qual não nasceu. O TOURO e o CAVALO não são excepções. Não poderão existir touradas “modificadas”. NUNCA. O Touro tem o DIREITO de viver a sua vida tranquilamente. Não nasceu para ser TORTURADO numa arena. Tal como EU. Tal como o señor R..

 

Lembre-se señor R., ele é BIOLOGICAMENTE IGUAL a Vd. e a mim. Nós somos tão animais como ele.

 

Coloque-se no lugar do Touro. Lembre-se do que os romanos faziam com os gladiadores: homem contra homem, mas também leões e tigres contra homem, mas aí levavam vantagem os animais não humanos: estavam esfomeados. E que eu saiba, acabou-se o circo romano, mas não se extinguiram os leões e os tigres.

 

Portanto, senõr R., nunca conseguirá fazer-me aceitar a corrida de Touros, como está ou “ modificada”, porque ela é algo ANÓMALO sob o ponto de vista HUMANO.

 

Termino esta exposição das minhas ideias com uma citação que, creio, diz muita coisa:

 

«Estou disposto a acreditar que sempre que o cérebro começa a gerar sentimentos primordiais – isso poderá acontecer bastante cedo na história evolutiva – os organismos tornam-se sencientes numa forma primitiva. A partir desse momento, poderá vir a desenvolver-se um processo de eu [self] organizado que se acrescenta à mente, garantindo assim o início de mentes mais complexas. Os répteis, por exemplo, merecem esta distinção, as aves mais, e para os MAMÍFEROS não há qualquer dúvida».

 

António Damásio, in «O Livro da Consciência»

 

Lembre-se, señor R., o TOURO é um MAMÍFERO SUPERIOR, tal como eu e Vd..

 

A tauromaquia é uma acção patológica, de desvio de personalidade. Ninguém em sã consciência se atira para cima de um ser vivo com farpas e espadas para o retalhar, por gozo e com gozo.

 

Isabel A. Ferreira

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:54

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Comentários:
De Pedro a 5 de Janeiro de 2012 às 14:39
Não sou extremista nas minhas posições, e tenho uma cultura apreendida que provém do Ribatejo. Da sua resposta depreendo que defenda para si e para a sua familia uma vida ao ar livre, sem estradas, prédios, carros, centros de saúde, supermercados, escolas (edificios), resumindo, tudo o que implique alteração do meio ambiente.
Ah, e também em relação à sua alimentação, depreendo que voçê a sua familia só coma vegetais, ou tudo o que cresça nas àrvores. Sim, porque mesmo o leite, implica que as vacas estejam aprisionadas e os ovos o mesmo em relação às galinhas.
É fácil atacar as touradas, o problema é os argumentos que se usam, e mais importante, aquilo que se pratica no dia a dia.
Consigo compreender os argumentos anti-tourada, mas sou mais adepto da livre expressão do que da livre-repressão.
De Isabel A. Ferreira a 5 de Janeiro de 2012 às 18:28
Pedro sabe qual é o seu problema? É não saber distinguir um boi de um palácio, ou melhor um Touro de um palácio.

Da minha resposta você depreendeu tudo errado. Que culpa tenho eu?

E quer saber? Não consegue compreender os argumentos anti-tourada, nem com muito esforço. E sim, acredito que seja mais adepto da livre expressão... de asneirar, porque livre-repressão? O que é isso? É o que fazem aos pobres Touros? São reprimidos por livre e espontânea vontade dos seus torturadores. É isso?
De Ana Drago a 5 de Janeiro de 2012 às 19:19
Concordo plenamente consigo! A Tauromaquia não é "arte" nenhuma, é torturar ( e matar) animais inocentes apenas para o nosso divertimento. Milhares de pessoas dizem que não se deve provocar dor num animal inocente e indefeso, mas mesmo assim continuam a comer carne, peixes, ovos e leite e a assistir a touradas e todos os outros tipos de coisas horríveis com animais. E depois ainda dizem que o ser humano é inteligente e racional...
De Isabel A. Ferreira a 6 de Janeiro de 2012 às 11:05
Não é preciso grandes investigações para se saber que a DOR e o SOFRIMENTO existem também nos animais não humanos.

Basta convivermos diáriamente com animais para o sabermos empiricamente. Nem sequer é preciso fazer experiências horrorosa para o comprovar.

E isto é tão óbio, Ana Drago, que não sei como ainda há gente que duvide e que precise de PROVAS. Chamo a isso IGNORÂNCIA.
De salomemarquesnunes@gmail.com a 6 de Janeiro de 2012 às 11:50
Abençoada seja Anabela. Obrigado.
De Isabel A. Ferreira a 6 de Janeiro de 2012 às 14:16
????????????????????????
De cmsv a 17 de Janeiro de 2012 às 15:15
Bom texto sem dúvida. Touradas são eventos primitivos protagonizadas por mentalidades medievais ao mesmo nível que os referidos espetáculos romanos.
As touradas tem vindo a acabar com os touros de morte em todo mundo assim como o evento em si devido ao factor civilizatório e evolucional inerente às mesmas. Portugal a seu tempo também lá chegará. Espanha provavelmente será ulltimo devido a sua arrogância e fanfarronice cultural e histórica.

Matar algo e chamar-lhe arte encaixa no perfil de um Hannibal Lecter ; também apreciado por muitos neste planeta.
De Isabel A. Ferreira a 17 de Janeiro de 2012 às 17:41
Obrigada, cmsv, pela sua passagem por aqui.

Gostei especialmente do último parágrafo que escreveu: «Matar algo e chamar-lhe arte encaixa no perfil de um Hannibal Lecter; também apreciado por muitos neste planeta.»

Hannibal Lecter, bem visto. Infelizmente ainda vão existindo por aí, e há quem goste, o que é mais grave.

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