Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

CONVERSAS PRA BOI DORMIR...

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
 
 
Hoje despertei com saudades dos lugares da minha infância, passada lá no outro lado do Atlântico, num país de enormes contrastes, onde uma vegetação tropical exuberante e uma fauna variadíssima coexistem lado a lado, com regiões extremamente desérticas, dominadas por terras secas, onde nem as salamandras se atrevem a explorar.
Viver num país como o Brasil, enriquece a existência de qualquer mortal, mormente quando nos propomos ser protagonistas de tudo o que nos rodeia, como se a vida fosse um enorme palco, onde todos pudéssemos fazer de actores.
Foi no Brasil que aprendi as primeiras letras, ouvi as primeiras histórias, vivi as minhas primeiras aventuras, e os sonhos, muitas vezes, transformaram-se em realidade, tanto que hoje, é-me difícil separar com nitidez, as experiências sonhadas, das experiências vividas. Porém, a riqueza do conteúdo da vida é muito mais importante do que qualquer conceito do real ou do imaginário.
A minha existência foi, desse modo, povoada de uma infinidade de pequenos episódios, os quais, cada um por si só, daria grandes temas para longas conversas, como aquele do meu encontro com uma enorme aranha negra, que se passeava tranquilamente pelo chão de terra batida, de um barraco de favela, deixando-me totalmente paralisada, tal o medo, o respeito e o fascínio que aquele belíssimo ser exerceu sobre mim.
As pessoas que me rodeavam, uma preta velha, uma criança e a mãe desta, reagiram como se estivessem diante do próprio demónio, embora (só mais tarde o soube) aquela não fosse a primeira vez que se viam em tal situação.
Para mim, porém, a visão de uma aranha negra com a dimensão de um ovo estrelado, no chão de um mísero barraco, constituiu o meu primeiro despertar para os medos, as dificuldades, os tormentos dos que vivem em favelas.
E a presença de enormes aranhas não era tudo. Pouco a pouco, fui descobrindo o mundo de privações que é o de uma favela, apenas compensadas pela glória suprema de se ser rei ou rainha de uma Escola de Samba, e desfilar no asfalto escaldante das grandes avenidas engalanadas, rodeadas de multidões.
Um pouco mais abaixo, vivia eu, numa casa visitada apenas pelos carapanãs (mosquitos sugadores de sangue), nos dias mais quentes. Ao fundo do meu quintal, costumava brincar “aos tarzans” com o meu irmão, em cima de uma goiabeira, que dava goiabas quase tão grandes como laranjas. Ali, eu era livre e estava resguardada dos perigos. Sabia que não seria surpreendida por nenhuma enorme aranha negra intrometida.
Contudo, a minha existência, naquele fim de mundo, foi povoada por outros animais bem menos terríveis. Num terreno atrás da casa onde eu vivia, um Português, que tinha negócio de leitaria, dava guarida a uma porca que se encontrava prenhe. Quando nasceram os leitõezinhos, o leiteiro ofereceu-me uma leitoa, logo que foi desmamada.
Criei-a como se fosse uma gatinha. E a leitoa foi crescendo, comendo, crescendo, até ficar enorme, e era tão limpa como o seria uma gata. Havia, porém, um particular: a leitoa gosta de dormir a sesta em cima do tapete do meu quarto, onde o Sol fazia pouso.
Criei igualmente uma cabrinha branca, como se fosse uma cachorrinha – a Ximbica – e ela era também da casa. Cirandava de cá para lá, no quintal, e, por vezes, atrevia-se a entrar, timidamente na cozinha ou nos quartos, sempre com muito respeito pelo espaço que ela sabia não lhe pertencer.
Levava-a, então, a pastar nos prados que existiam atrás do meu quintal, e, enquanto a cabra pastava, sentava-me à sombra de uma enorme mangueira, a ouvir as “conversas pra boi dormir” (conforme ele próprio dizia) que um preto velho me contava enquanto guardava o seu rebanho, que assim como o meu, era constituído por uma só cabra.
E como aquelas conversas me encantavam e faziam pensar! Conduziam-me até à África onde viviam intrépidos guerreiros e feiticeiros mascarados. Transportavam-me ao tempo da escravatura, e eu “vivia” o cativeiro dos antepassados daquele preto velho, quase com tanto realismo como ele próprio vivia. E também chorava com ele.
Enquanto a conversa rolava, monotonamente, entre terras africanas e grandes engenhos de açúcar, as duas cabrinhas pastavam tranquilamente, alheias aos grandes dramas que fizeram a história de um povo.
Um dia, a porca morreu. E a cabra foi atropelada quando atravessava a estrada que dividia o prado e as traseiras do meu quintal.
Lembro-me que chorei. A experiência tinha sido fantástica. Afinal, o homem consegue conviver com qualquer animal, humanamente, desde que o trate como tal.
Apesar de já não ter cabra para levar a pastar, continuei a ir ouvir as conversas pra boi dormir que me contava o preto velho, à sombra daquela enorme mangueira, e o mundo, já então, me parecia tão cruel para aqueles que nascem de costas voltadas para o Sol.
 
 
Hoje deixei que recordações invadissem o meu espírito e me transportassem ao tempo em que, entre coqueiros, palmeiras, mangueiras, goiabeiras e as águas límpidas e tranquilas das praias que frequentava, sonhava que o mundo seria um paraíso igual ao que eu havia sonhado para mim.
Afinal, como estava enganada!...
publicado por Isabel A. Ferreira às 14:15

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