Segunda-feira, 25 de Maio de 2020

In Memoriam Maria Velho da Costa

 

Maria Velho da Costa no seu melhor, ou Myra – O Romance

Obrigada, Maria.

Até sempre, Maria

 
 

 

(Origem da Foto de Maria Velho da Costa: Internet)

  

Copyright © Isabel A. Ferreira 2010

 

Acabei de ler Myra, o romance vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa, no «Correntes d’Escritas/2010».

 

Nada falta neste romance, que nos esmaga e fere a alma, de tão cru e cruel, de tão verdadeiro e actual.

 

Maria esgaravatou nas trevas, o lado negro do ser humano, e foi tecendo uma história, com os fios mais sombrios da existência. Mas foi também buscar à luz a beleza e a inocência dos seres nascidos na lama, que com o mundo têm de travar uma luta titânica para sobreviver ou então deixar-se morrer.

 

 

O Romance começa com uma frase simples: «Myra atravessou os carris desconjuntados em direcção ao mar», o bastante para nos prender, uma vez que queremos saber quem é Myra, e o que a levou a atravessar os carris desconjuntados em direcção ao mar.

 

E esse desejo de saber mais não nos larga até ao último parágrafo, com um desfecho apenas previsto umas linhas antes, que depois de lidas, nos faz pensar, quase com alívio: «Era precisamente isto que eu faria, se estivesse no lugar de Myra». E ficamos substancialmente aquietados.

 

E no entanto, o desfecho deixa-nos um gosto amargo, que nos acompanha, muito para lá do fim da leitura. Mas o que aconteceu era o único meio de devolver a Myra a sua inocência e talvez o seu sonho.

 

A acompanhar Myra desde praticamente o início do romance está um cão fiel. Humano como o mais humano dos humanos, embora treinado para matar, por desumana gente, um pormenor que empresta ao romance um toque de angústia que não mais nos larga.

 

Ao entrarmos no enredo, um medo latente apodera-se de nós, porque ficamos cativos da fragilidade de Myra, do seu instinto de sobrevivência, do seu sonho, mas também da sua força, pois o ser humano acossado, instintivamente, vai buscar alento ao mais fundo do seu ser, para dar razão à desrazão da vida.

 

E Myra é uma jovem com sonhos carregados de pesadelos.

 

Bem escrito, bem urdido, neste romance, Maria põe lado a lado uma linguagem sublime e a mais rasteira que possa imaginar-se. As suas personagens são reais. Existem, por aí. Infelizmente aos montes. Conseguimos até identificá-las.

 

Quem não conhece alguém como Myra? Quem não conhece um cão como Rambo? Quem não conhece uma Dona Mafaldinha, velha artista com amante demasiado novo, o Kleber? Quem não conhece um velho cego e aleijado, que partilha o pão com um velho cão? Quem não conhece um rapaz pardo, elegante, lindo como as estrelas, e cheio de mistérios? Quem não conhece uns mânfios que assaltam carros na estrada e falam assim: «Bute ripar daqui, antes que acena fique ugly mesmo. Saca a garina e o cão marado e ‘bora ir. Chega de guita ao barulho.»

 

Quem não conhece um poderófilo ou outro, por aí?

 

Myra é um romance que fala de afectos. De amores. De ódios. De pobreza da alma e do corpo. De crimes sem castigo. De beleza e de uma feiura extrema. Um romance que nos marca. Que nos toca. Que nos fere. Que nos esmaga. Que nos faz querer gritar: «Basta!» Precisamos de um mundo novo, com seres humanos que tenham a Humanidade do cão Rambo.

 

Obrigada, Maria. O romance Myra deu-me alento para continuar as minhas áridas e impotentes lutas, por um mundo onde existir possa ser sinónimo de exultação e não de inferno.

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 11:13

link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Mais sobre mim

Pesquisar neste blog

 

Julho 2020

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Até breve!

O esperado aconteceu: PS,...

Ainda sobre o crime urban...

«A Indústria Tauromáquica...

Os trogloditas do costume...

Os trogloditas do costume...

Debate na TVI sobre proib...

Morreu Ennio Morricone, c...

Fim de subsídios público...

Depois da saída do PAN, p...

Arquivos

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Direitos

© Todos os direitos reservados Os textos publicados neste blogue têm © A autora agradece a todos os que os divulgarem que indiquem, por favor, a fonte e os links dos mesmos. Obrigada.
RSS

Acordo Ortográfico

Em defesa da Língua Portuguesa, a autora deste Blogue não adopta o Acordo Ortográfico de 1990, devido a este ser inconstitucional, linguisticamente inconsistente, estruturalmente incongruente, para além de, comprovadamente, ser causa de uma crescente e perniciosa iliteracia em publicações oficiais e privadas, nas escolas, nos órgãos de comunicação social, na população em geral, e por estar a criar uma geração de analfabetos escolarizados e funcionais.

Comentários

Este Blogue aceita comentários de todas as pessoas, e os comentários serão publicados desde que seja claro que a pessoa que comentou interpretou correctamente o conteúdo da publicação. Serão eliminados os comentários que contenham linguagem ordinária e insultos, ou de conteúdo racista e xenófobo. Em resumo: comente com educação, atendendo ao conteúdo da publicação, para que o seu comentário seja mantido.

Contacto

isabelferreira@net.sapo.pt