Quarta-feira, 25 de Março de 2020

«Coronavírus: o cisne negro da modernidade»

 

«Era bom que depois de atravessarmos o perigo do coronavírus e de lamentarmos cada uma das mortes que ele vai provocar, conseguíssemos sair do perigo com novos hábitos de vida, mais cientes das nossas limitações e da nossa fragilidade, mas mais solidários, menos consumistas, mais amigos do outro e do planeta. Isso é não só possível como desejável.» (António Costa Silva)

 

Magnífico texto! Obrigatório ler.

Uma excelente reflexão de como esta crise global poderá levar os homens à construção de um mundo onde a Vida terá mais valor do que o vil metal. Porque é esta a mensagem que este coronavírus nos veio dar. Que não reste qualquer dúvida.

Saibam os que governam o mundo entendê-la.

 

António Costa Silva.jpg

 

Por António Costa Silva

 

 

«O filósofo Karl Popper, em páginas brilhantes em que discutiu a nossa relação com a realidade e o mistério da percepção humana, usou o exemplo dos cisnes brancos e dos cisnes negros para mostrar as limitações do nosso quadro mental face à complexidade do mundo. A percepção ocidental de que os cisnes eram todos brancos sofreu um abalo sísmico quando os primeiros navegadores britânicos chegaram à Austrália e se depararam com cisnes negros. Isso estilhaçou o quadro mental existente e abriu novos horizontes para a percepção humana. Hoje utilizamos o conceito dos cisnes negros para designar fenómenos raros que têm baixa probabilidade de ocorrência mas que, quando aparecem, mudam tudo. É o caso do coronavírus. Face a ele as nossas certezas desabam. Vivíamos ciosos de que podemos controlar o mundo, a economia, o planeta. E, de repente, o mundo fica de pernas para o ar. O coronavírus vem lembrar-nos que o mundo é feito de incerteza e mudança, que a nossa civilização é frágil, que a vida é precária, que o nosso sonho de tudo dominar acaba sempre dominado pela realidade.

 

O coronavírus é trágico porque mata e cada morte é uma perda que nada pode reparar. Os especialistas vêm lembrar que as mortes provocadas por outras epidemias ou pelos acidentes de viação são em muito maior número. Só que essas mortes já fazem parte do nosso quadro mental e por isso já não temos medo. O que assusta é o vírus desconhecido, cuja vacina ainda não existe, e parece muito contagioso. E por isso o coronavírus é um acelerador do medo. Nós vivemos em sociedades do medo que às vezes se torna desmesurado. Um estudo da Universidade de Harvard indica que se o coronavírus se transformar numa pandemia global, um em cada seis adultos no mundo pode ser infectado, mas que destes 98% vão sobreviver. Será que a taxa de letalidade é baixa? Não sabemos, porque varia de país para país, depende do ritmo de propagação do vírus, da capacidade de interromper as cadeias de contágio, da qualidade dos sistemas de saúde e das políticas de prevenção adoptadas. É um grave problema global de saúde pública e convém usarmos a racionalidade tanto quanto possível, murar o medo e confinar o catastrofismo.

 

Mas o coronavírus veio também questionar o nosso modo de vida. Nós vivemos na civilização da pressa, do movimento contínuo, das viagens constantes, do consumo frenético, da delapidação exponencial dos recursos E, além de tudo isso, estamos confrontados com a mudança climática e com a necessidade de mudar comportamentos. Durante anos vimos os parcos resultados das sucessivas conferências climáticas, das proclamações dos líderes, dos gritos dos activistas. Muito pouco aconteceu. De repente o coronavírus obrigou-nos a parar, a moderar a pressa, a viajar muito menos, a reduzir as reuniões, as conferências, as deslocações, reduzir as visitas aos centros comerciais e aos pólos de consumo. Obrigou-nos a ficar em casa, a pensar e a reflectir, a reinventar o trabalho à distância, a substituir as reuniões por meios digitais, a mudar hábitos. Afinal, é mesmo possível mudar e viver de outra maneira. Depois das cruzadas contra as tecnologias, afinal podemos viver e trabalhar digitalmente, e isso pode fazer toda a diferença.

 

Por outro lado, o coronavírus pode levar a uma redução das emissões de CO2 e contribuir para estabilizar o clima do planeta. Quando vemos as fotografias de satélite das cidades chinesas, que estão entre as mais poluídas do mundo, onde o trânsito é reduzido, podemos dizer que esta pausa é má para a economia, mas boa para o planeta. 2020 arrisca-se a ser o ano da queda significativa das emissões de CO2 no mundo. Vamos tirar férias do planeta e o planeta de nós e isso pode ser o início de um novo caminho. O que pode acontecer é que daqui a uns meses, quando a vacina for descoberta, tudo regressa à normalidade, e esta mudança de hábitos não deixar rasto. E isto não devia acontecer. O escritor inglês Gilbert Chesterton dizia que o despropósito do mundo advém do facto de nós nunca perguntarmos qual é o propósito. Temos de deixar de viver numa civilização em que a pressa é tudo, o movimento é tudo e o objectivo não é nada.

 

Mas o coronavírus interroga também os fundamentos do nosso modelo de desenvolvimento económico e social. Ele está a paralisar a economia, fecha as fábricas, causa a ruptura das cadeias logísticas e de abastecimento, cerceia o comércio mundial, diminui drasticamente o turismo. Nós vivemos numa civilização que coloca todos os dias no ar 12 milhões de passageiros. É muita coisa. O coronavírus vai obrigar-nos a repensar. Se olharmos para as grandes epidemias da história, elas tiveram um impacto brutal no modelo económico do seu tempo. O caso mais paradigmático é o da Peste Negra. Ela causou a desintegração do modelo de produção feudal. O coronavírus pode levar à desintegração do modelo de capitalismo selvagem, o capitalismo sem regras, sem regulação, sem controle, que periodicamente abala o planeta com crises que causam um sofrimento atroz. O capitalismo cria riqueza, prosperidade e bem-estar, mas o capitalismo selvagem aprisiona a maior parte da riqueza gerada no topo dos mais ricos. É preciso repensar o modelo, distribuir a riqueza, repensar o papel das empresas, ir além do mantra do lucro a todo o custo para um capitalismo que sirva os “stakeholders” e gere bem-estar para accionistas, trabalhadores, comunidades e a sociedade em geral. Esta paragem abrupta da economia global pode levar a uma introspecção profunda e à geração de novas ideias. É difícil porque vamos a caminho de uma recessão global e de muita dor e sofrimento. Mas precisamos de um novo modelo que seja moderado e sustentável na gestão e consumo dos recursos, não faça perigar o planeta e, ao mesmo tempo, assegure que as pessoas de menos rendimentos e recursos não caiam abaixo da linha de pobreza.

 

No que concerne a Portugal, o coronavírus vai testar as capacidades do SNS e da governação. Vai questionar o nosso modelo de desenvolvimento económico e a sua excessiva dependência do turismo. O turismo tem desempenhado um papel relevante na economia portuguesa e oxalá que continue a desempenhar, mas sabemos que a aposta excessiva no turismo torna a economia frágil e volátil porque quando as pessoas deixam de vir os problemas são brutais. É essencial diversificar a economia, criar novos motores de riqueza, repensar o desenvolvimento dos recursos nacionais e não usar o turismo para asfixiar tudo o resto. Podemos pagar muito caro esta falta de visão. Mas o coronavírus pode levar também ao fecho do futebol e sem jogos vamos ter um espaço público mais saudável, sem os trogloditas do costume, que se insultam em directo e fomentam o ódio. Seria a ironia suprema: o coronavírus calar, durante algum tempo, o vírus dos taliban do futebol nacional.

 

O poeta alemão Hölderlin escreveu um dia: “Quem atravessa o perigo toca a salvação.” Era bom que depois de atravessarmos o perigo do coronavírus e de lamentarmos cada uma das mortes que ele vai provocar, conseguíssemos sair do perigo com novos hábitos de vida, mais cientes das nossas limitações e da nossa fragilidade, mas mais solidários, menos consumistas, mais amigos do outro e do planeta. Isso é não só possível como desejável.»

 

 Professor do Instituto Superior Técnico

 

Fonte:

https://www.publico.pt/2020/03/17/mundo/opiniao/coronavirus-cisne-negro-modernidade-1907617?fbclid=IwAR0K5BoCzhNdFJb2LCXoZzD8F1zLGViPN1TRoQ6uMbQ_mGgQ4lQfc2VQNu0

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:42

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«Estatutos do Homem», de Thiago de Mello

 

 

Enfrentamos um dos momentos mais difíceis da Vida dos Povos, desde a Segunda Guerra Mundial.

Atravessamos um tempo em que o Homem precisa de parar para reflectir que Vida pretender viver, depois deste pungente alerta, que a Mãe Natureza nos lançou, depois de nos ter mandado sinais menos intensos, aos quais o Homem se fez cego, surdo e mudo, julgando que era ele o dono do mundo.

Mas ainda existem oásis.

Deixo-vos com os “Estatutos do Homem” para que vigorem logo que o coronavírus entenda deixar-nos respirar em liberdade.

 

  

 

Tenho por hábito coleccionar papeladas, textos, coisas antigas, que passados uns anos volto a encontrar nas gavetas, e surpreendo-me.

 

Foi este o caso.

 

Encontrei um belo documento, feito poema, escrito por Thiago de Mello, poeta brasileiro, que continua tão actual como outrora: «Estatutos do Homem».

 

Ora leiam:

 

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
Que agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais de 
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Thiago de Mello


Santiago do Chile, Abril de 1964

 

 
publicado por Isabel A. Ferreira às 15:26

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