Sexta-feira, 3 de Maio de 2019

«LEPROSOS»

 

«O meu encontro com a Lepra, fez-me analisar melhor o contexto que me cerca, as tradições repugnantes que se consentem, as heranças "culturais" que o álcool e a brutalidade das frustrações levam ao limite mais sórdido e essa classe política uniformizada que nos ultraja e cala, porque o povo é manso, tem medo e anestesiaram-no há muito, num faz de conta infame, lento e destruidor.»

 

Magnífico texto de Teresa Botelho no Blogue «Retalhos de Outono».

Leiam. Vale a pena ler. Não perdem tempo. Entram num mundo, onde a lucidez e a racionalidade estão aninhadas.

 

Lepra.jpg

 

Por Teresa Botelho

 

«LEPROSO

 

«Hoje veio-me à memória, um episódio insólito ocorrido há umas dezenas de anos, quando fiz dois anos de cooperação na Guiné Bissau. 

 

O calor húmido convidava-nos a aproveitar o fresco das noites, na esplanada do Grande Hotel que de "grande", só tinha o nome, mas era lá que se reunia muita gente depois do jantar, antes que cortassem a luz, para um refresco e umas conversas à toa.

 

Naquela noite, eu sentara-me com um colega do liceu, numa mesa de canto, para que ninguém ouvisse o que nos apetecia conspirar. 

  

Falávamos do nosso Portugal há pouco tempo livre que contrastava com essa Guiné independente, onde a democracia era uma miragem e a pobreza aumentava a olhos vistos, enquanto ia crescendo o pecúlio de entidades estrangeiras e dos seus governantes corruptos. 

 

Nesse serão, a conversa foi interrompida por um guineense muito magro, de calças rotas arregaçadas que deixavam ver umas ligaduras sujas amarradas nas duas pernas. 

 

Aproximou-se da nossa mesa e perguntou gentilmente, se lhe pagávamos uma cerveja. Puxámos uma cadeira e ele sentou-se satisfeito, contando que era de longe, mas que tinha vindo a Bissau, porque tinha precisado de tratamento hospitalar. 

 

Quando, chegou a cerveja, bebeu de um só trago satisfeito, levantando-se em seguida e estendendo-nos a mão ossuda para um cumprimento demorado e amistoso, enquanto finalmente confessava que tinha fugido do hospital, porque o tinham levado para lá à força, depois de lhe ter sido diagnosticada Lepra.  


Após o efusivo aperto de mão e logo que o homem se afastou, corremos cada um para sua casa, para um banho de álcool puro e roupa fervida. Ficámos depois a saber que se a Lepra for seca, não é contagiosa, nem havia razão para tanto pânico, mesmo que não o fosse.

 

A razão de me ter recordado hoje deste episódio, passado há tantos anos, num país que me ficou no coração e ao qual prometi voltar, nem que seja por poucos dias, veio de um sentimento que há muito guardo e que me faz amar perdidamente essa África despojada de tudo, menos do seu encanto, da sua simplicidade, do cheiro a terra molhada e da generosidade do seu povo ingénuo, porque jamais houve interesse de o cultivar e menos ainda respeitar. 


Hoje, vim aqui falar de um leproso que me apertou a mão e que hoje recordo com um sorriso carinhoso e emocionado, bem diferente desse sentimento que sinto pelos "leprosos" que vagueiam pelo meu país sem ligaduras, nem corpos magros de fome, mas cuja Lepra é mais contagiosa que a do guineense em fuga de um hospital abandonado e sem recursos de um país esquecido. 


A razão pela qual fui buscar uma memória antiga para a comparar com a Lepra que grassa e corrói este meu país e este meu continente enfermo, faz-me arrepender profundamente não ter abraçado esse negro franzino de chagas cobertas por ligaduras imundas, porque vejo por aí abraços e afectos bem menos espontâneos e sinceros, dados por quem, sem sombra de vergonha, usa a Lepra do seu cérebro sujo, para manipular os incautos e os ignorantes, contagiando tudo à sua volta, minando a liberdade, a decência e alicerçando dia após dia, a ideia de uma democracia podre, da qual resta hoje apenas uma fugaz miragem... 


Este não é o país do qual me orgulho, apenas porque me calhou ter nascido nele, mas se a África, é terceiro mundo, porque quem a colonizou e escravizou fez questão de desinvestir na cultura, na defesa das liberdades individuais e na educação das suas gentes, por cá a diferença não é tão grande, perante o laxismo e a impunidade que a cada passo nos agridem, bem como pelo atraso civilizacional a que muitas das nossas comunidades são votadas, com a conivência de uma religião que por cá impera, sem grande diferença das missões africanas que apenas prolongam, em grande parte dos casos, a submissão e a apatia dos rebanhos que só a fome reúne ao seu redor. 

 

O meu encontro com a Lepra, fez-me analisar melhor o contexto que me cerca, as tradições repugnantes que se consentem, as heranças "culturais" que o álcool e a brutalidade das frustrações levam ao limite mais sórdido e essa classe política uniformizada que nos ultraja e cala, porque o povo é manso, tem medo e anestesiaram-no há muito, num faz de conta infame, lento e destruidor.»

 

Teresa Botelho

Fonte:

https://retalhosdeoutono.blogspot.com/2018/09/leprosos.html?fbclid=IwAR3qU3wl-GkZKI6yfE9ggptVd8WBXU4w2PgRKLiyMN0-iEdBJczuhD9zpyI

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:00

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PAN LISBOA QUER FIM DAS BEATAS NAS RUAS DE LISBOA

 

O Grupo Municipal do PAN luta por uma Capital Verde Europeia 2020 digna do nome e propõe medidas que “limpem” a cidade e o país dos filtros de cigarro.

 

bituca.jpg

Origem da foto: Internet

 

De acordo com o Comunicado do PAN, o Grupo Municipal deste partido vai apresentar à Assembleia Municipal de Lisboa, no próximo dia 14 de Maio, uma Recomendação e uma Moção que visam alertar para o impacto ambiental provocado pelas beatas de cigarro no chão, bem como para a importância de uma correcta classificação, separação e tratamento deste resíduo.

 

Estas propostas têm por base a composição do cigarro, pois para além das substâncias químicas, o filtro é feito de acetato de celulose (plástico) e demora mais de 10 anos a degradar-se. A maioria do lixo recolhido na limpeza das ruas de Lisboa são as beatas de cigarro, resultado do que é, ainda, um comportamento socialmente aceitável da população fumadora.

 

«A beata de cigarro é muito leve e móvel. Quando é deitada para o chão, rapidamente é transportada pelo vento ou chuva e acaba por contaminar os solos, os mares e todos os organismos vivos e ecossistemas que com ela tenham contacto. Existem até relatos de crianças que ingerem filtros de cigarro que apanham nos parques. A maioria das pessoas não tem, ainda a noção da toxicidade e perigosidade deste resíduo e do impacto ambiental que tem. Apesar da importância de se passar a prever coimas para quem deita beatas para o chão, devem existir acções de sensibilização e fiscalização, assim como infra-estruturas para as descartar correctamente», afirmou Inês de Sousa Real, deputada municipal do PAN em Lisboa.

 

A Moção apresentada visa essencialmente realizar um estudo sobre o filtro do cigarro que permita classificá-lo relativamente à sua perigosidade e determinar, a partir daí, a sua recolha selectiva e o seu tratamento mais adequado e sustentável. A proposta inclui ainda instalar depósitos exclusivos para filtros de cigarro, criar campanhas de sensibilização e educação ambiental para o perigo do filtro de cigarro e sobre como o descartar correctamente, e ainda apelar à indústria tabaqueira e à academia que estude alternativas de materiais para a composição do filtro que sejam menos nocivas para o ambiente.

 

Na Recomendação, o PAN propõe a realização de uma campanha de sensibilização concertada, entre todas as freguesias de Lisboa, que alerte para o perigo ambiental e de saúde pública de deitar filtros de cigarro para a rua, bem como a criação de um órgão de fiscalização municipal dedicado à poluição das ruas, equipar a cidade com colectores específicos para os filtros de cigarro e reforçar a instalação de caixotes do lixo com cinzeiro.

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:32

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«PÁTRIA E LÍNGUA DESACORDADAS»

 

«No Brasil preparam-se para rasgar o Acordo Ortográfico de 1990.»

Um excelente texto de Sarin, no Blogue Nem Lixivia nem Limonada, para reflectirmos Brasil e Portugal, há quase dois séculos, na senda dos desencontros, nomeadamente, dos linguísticos.


No Brasil deturpa-se a História e a Língua comuns. Era a minha maior tristeza, quando por lá andei a estudar. E à língua chamavam-lhe Portuguesa. E ainda chamam, apesar do fosso cavado pelo desportuguesamento da Língua, desde 1943.


E agora temos de levar com mais esta: "Portugal colonizador quer colonizar a Língua Portuguesa"? Já lá vão 187 anos, desde o Grito do Ipiranga, e o Brasil ainda não encontrou o seu próprio rumo, e Portugal ajuda à missa.


Tudo corria bem, até que alguém se lembrou de colonizar a Língua Portuguesa, e Portugal aceitou. Assim é que é.

(Isabel A. Ferreira)

 

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"Fernando Pessoa", de Almada Negreiros

 

«PÁTRIA E LÍNGUA DESACORDADAS»

 

Por Sarin

 

«No Brasil preparam-se para rasgar o Acordo Ortográfico de 1990.


Podem mesmo mudar a língua e o português do Brasil passar a ser brasileiro. É uma opção política, embora não propriamente protagonizada por Bolsonaro. Talvez que a ênfase colocada nos símbolos pátrios a exacerbe, mas não é de sua autoria.

 

Na verdade, desde 1911 e do primeiro acordo ortográfico que a ideia estaria latente em algumas elites intelectuais e políticas. Mas, aparentemente, este AO90 reacendeu o debate inflamando-o até às cinzas.

 

Intriga-me a mecânica do processo: o acordo com que pretendiam harmonizar a escrita e consolidar uma língua vai acabar por criar duas línguas em países que durante duzentos anos se entenderam. Há quem ao AO90 chame Caixa de Pandora, para mim sempre se assemelhou a um boomerang.

 

Não tenho argumentos técnicos nem políticos para defender se deve ou não deve ser uma nova língua, e confesso que não me interessa desde que continue a perceber o que dizem e escrevem do lado de lá.

 

Gostaria também de dizer "desde que perceba o que sentem", mas... não percebo. De todo.

 

Sinto-me a viver outra dimensão perante alegações como "Portugal colonizador quer colonizar a Língua Portuguesa", perante outras acusações que vou ouvindo e que mais me parecem tentativas de branquear a sua brasileira vergonha por em duzentos anos de independência não terem estancado aquilo de que nos acusam. Branquear não no sentido de lavar, mas de colar aos portugueses brancos de Portugal. No caso, os males da História, presente passado e futuro.

 

Não peço desculpa por me ter reconciliado com a História do meu país, mesmo com aquelas passagens vergonhosas, e não foram poucas!, ou aquelas horríficas, das quais imagino apenas esboços sem vislumbre real do imensas que foram.

 

Mas no agora o verbo conjuga-se no presente, não no pretérito. E o pretérito que a uns foi ensinado mais-que-perfeito e a outros imperfeito não é mais do que pretérito, simples.

 

Não aceito que me cobrem no presente qualquer dos pretéritos vividos e sofridos pelos nossos ancestrais. Sim, os meus avós também foram colonizados, também foram expulsos dos seus lares, também foram escravos, também morreram na gleba. E foram arrancados das casas que reconstruíram tantas vezes para atravessarem os mares e morrerem longe destes seus. Por isso respeitemos os mortos. Onde quer que tenham caído.

 

E não me queiram condoída pelas vossas línguas indígenas: em plena campanha, o vosso presidente anunciou pretender reduzir o espaço onde algumas ainda se podem considerar nativas! Onde esteve a vossa preocupação? Onde está, quando os índios que não dizimámos continuam a cair às vossas próprias mãos?!

 

Portanto, lambam as feridas como as lamberam os meus avós, como eu lambo as minhas. E avancemos, porque a gramática não pára o relógio e os vivos precisam de atenção, não de cucos!

 

Podemos construir sociedades melhores se aceitarmos que não podemos refazer a nossa História comum. Mas que podemos e devemos aprender com ela.

 

Afinal, em português (pt) ou em português (br), em língua portuguesa ou em língua brasileira, futuro grafa-se, ainda, da mesma exacta maneira.

Fonte:
https://sarin-nemlixivianemlimonada.blogs.sapo.pt/patria-e-lingua-desacordadas-73919

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:33

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