Terça-feira, 19 de Maio de 2015

AS TOURADAS TRAZEM REALMENTE UM BENEFÍCIO ECONÓMICO?

 

 

DINHEIROS PÙBLICOS.jpg

 

Livro Negro da Tourada à corda

 

Muitas vezes é dito que as touradas são uma mais-valia económica para a ilha Terceira, constituindo uma actividade que movimenta um grande volume de negócio. Mas esta afirmação é totalmente leviana e irreflectida. Pelo contrário, as touradas são na realidade um buraco negro para a economia da ilha Terceira.

 

Antes de mais, deve ficar claro que desde o ponto de vista económico a actividade tauromáquica não é uma actividade produtiva. Não há nada nela que crie riqueza nem benefício para a economia. A actividade tauromáquica é uma actividade destinada exclusivamente ao espectáculo, e tal como acontece para qualquer espectáculo são as pessoas e a sociedade que investem e pagam dinheiro para que ela possa existir. Assim, as touradas não criam riqueza, elas consomem riqueza. E tal como acontece para qualquer espectáculo, seja teatro, desporto ou qualquer outro, o dinheiro gasto nele estará justificado ou não em função da satisfação que as pessoas obtenham dele como espectadores ou, no caso dos espectáculos culturais, daquilo que ele possa aportar para o crescimento moral ou intelectual do espectador.

 

Sendo claro que as touradas não criam riqueza nenhuma, é afirmado então que movimentam muito dinheiro e que são importantes para determinado tipo de comércio, nomeadamente no que se refere à venda de comidas e bebidas que tem lugar à volta das touradas. Esta é portanto uma relação indirecta. O comércio não depende das touradas mas da concentração de pessoas que se reúne à volta delas. Ora, essa concentração de pessoas é típica de qualquer tipo de festividade, com tourada ou sem ela. Assim, é perfeitamente possível substituir uma tourada por qualquer outro tipo de festa sem que o comércio de comidas e bebidas fique por isso minimamente afectado. Conclui-se portanto que essa movimentação de dinheiro, que beneficia só a um determinado número de comerciantes e não à população em geral, não depende da existência das touradas.

 

E ainda podemos perguntar-nos se essas vendas de comidas e bebidas correspondem a produtos regionais ou, como no caso das habituais cervejas, a produtos importados, com o qual o que na realidade se está a fazer é injectar dinheiro para fora da região, o que se está a fazer é pagar dinheiro açoriano para criar riqueza fora das nossas ilhas.

 

Se as touradas não criam riqueza e também não são necessárias para a movimentação de dinheiro no sector da restauração, se não têm um efeito económico positivo, será que elas têm talvez efeitos económicos negativos? Pois certamente que têm, muitas vezes ocultos, e não são poucos.

 

É sobejamente conhecido, até por relatos antigos, o efeito negativo que as touradas têm sobre a produtividade laboral dos terceirenses, o que é o mesmo que dizer sobre a economia da ilha Terceira. Durante os muitos meses que duram as touradas, ocorre nesta ilha mais de uma tourada por dia. Ora, se contabilizamos o número de pessoas que estão nas touradas todos esses dias é bem fácil calcular as horas de trabalho que são perdidas e a riqueza que deixa de ser produzida. Ainda, o facto de muitas ruas e estradas ficarem com o trânsito interrompido durante essas touradas gera sem dúvida problemas e constrangimentos a todas as actividades económicas.

 

Nos campos da ilha, muitas pastagens são utilizadas para a produção dos touros, quando podiam ser muitas vezes utilizadas para a criação de riqueza, mediante a agricultura ou a produção de lacticínios, mesmo quando são utilizados terrenos das zonas altas da ilha que não são os mais idóneos para esta função. Mas o certo é que nestas zonas altas da ilha as pastagens também podiam ser substituídas por matas de vegetação endémica e turfeiras, que acrescentariam um valor ecológico e também económico à ilha, por exemplo mediante a retenção das águas, a protecção da biodiversidade e o turismo.

 

Mas o principal prejuízo que as touradas causam à economia é todo o dinheiro público que é desviado, geralmente de forma disfarçada, para a minoria de pessoas que fazem o verdadeiro negócio com elas, como são os ganadeiros, as tertúlias, etc. É dinheiro que, sem ser conscientes disso, acabam por pagar todos os munícipes da Terceira e também de todas as ilhas açorianas. É dinheiro que, sendo desviado para as touradas, não é utilizado no reforço da actividade produtiva, que cria riqueza, nem nos serviços básicos da população como podem ser a saúde, a educação, etc. E esta quantidade de dinheiro, furtada à economia e à sociedade, segundo alguns cálculos poderia ultrapassar facilmente o milhão e meio de euros anuais.

 

E ainda poderíamos falar doutros prejuízos económicos e sociais como são os custos do atendimento hospitalar dos feridos nas touradas, o número de mortos (que foram dois em 2012), o dinheiro gasto em segurança e policiamento nas touradas, as somas avultadas de dinheiro que vão para fora da região na contratação de companhias continentais e espanholas para as feiras taurinas, o prejuízo para o turismo devido às touradas serem uma actividade repudiada em quase todos os países do mundo, e mesmo nos restantes repudiados também pela maioria da população, o dano que o espectáculo público da violência sobre animais causa na educação social e ambiental das pessoas, etc.

 

Considerando tudo isto, fica claro que a economia terceirense só ganhava com o fim das touradas.

 

Fonte:

https://www.facebook.com/630429840448218/photos/a.630448047113064.1073741827.630429840448218/639562029534999/?type=1&theater

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 09:37

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Quarta-feira, 8 de Junho de 2011

DA POBREZA E DA RIQUEZA

 

 

 

 Se tenho acesso a uma vinha, não vou colher todas as uvas só para mim...

 

 

Os ricos existem para que haja pobres

 

Pobreza e riqueza.

Duas condições de vida. Ambas injustas, porquanto nem a pobreza nem a riqueza são a medida do homem. Ambas condenáveis à luz da razão, porque uma é imprópria e a outra abusiva da natureza humana.

 

O mundo foi criado para que nele vivessem todos os Homens em plena condição de igualdade, sem necessidade de passarem qualquer privação, porquanto na Natureza existe, em abundância, tudo o que é preciso para a adequada sobrevivência de todos os seres viventes.

 

Por isso, a pobreza não tem razão de existir, bem como também a riqueza. No equilíbrio entre uma condição e outra é que assenta a lógica da coexistência pacífica.

 

Porquê é a pobreza imprópria da natureza humana?

Porque todos os seres humanos nascem iguais, com o mesmo direito de usufruir do que no mundo existe à sua disposição. Se tenho acesso a uma vinha, não vou colher todas as uvas só para mim. Colho apenas as necessárias para saciar o meu desejo de as comer. As restantes, deixá-las-ei para outros que tiverem o mesmo desejo.

 

Porquê é a riqueza abusiva da natureza humana?

Porque se todos os seres humanos nascem iguais e com o mesmo direito de usufruir do que no mundo existe à sua disposição, não devo apoderar-me do que é para repartir com todos esses outros. Não vou colher todas as uvas apenas para as acumular e mostrar que sou rico, privando as outras pessoas de saborearem as que deixo apodrecer, porque são demasiado para mim.

 

Uma sociedade só será justa quando todas as pessoas, sem excepção, tiverem o seu pão com manteiga, o seu copo de leite e a sua banana – o essencial – para matarem o seu jejum. Porquê hão-de uns comer dois pães, quando um só bastava, e outros hão-de não comer nenhum?

 

No mundo, o pão existe em quantidade suficiente para alimentar todos os seres humanos. Mas porquê hão-de uns passar fome para que outros vomitem o excesso dos alimentos que não precisam?

 

Uma questão de pura ganância e mesquinhez, que conduz à má distribuição dos bens necessários à sobrevivência justa e condigna de todos os seres humanos.

 

Os ricos existem para que haja pobres. Podes crer. Se os ricos fossem menos ricos, a riqueza estaria equitativamente distribuída, e a pobreza deixaria de existir à face da Terra. Porquê haveríamos de ter seis mãos, quando duas são a medida exacta da nossa mestria?

 

 in «Manual de Civilidade» © Isabel A. Ferreira

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 11:07

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