Terça-feira, 27 de Abril de 2010

A IGNORÂNCIA

 

 

 

Para mim, o bom é estar à sombra de uma frondosa árvore, quando faz sol

 

 

De pequenino se começa a ser grande

 

Neste capítulo, a primeira ideia que proponho para nela reflectirem é a de que a ignorância é a maior inimiga do ser humano, porque gera medos, enganos, incompetências, violência, males sociais infinitos...

 

Penso que a ignorância será mesmo um dos maiores cancros da sociedade. É a mãe da falta de respeito, por isso, é importante que se combata este mal, e que se dê a devida importância ao Ensino e à Educação.

 

E é de pequenino que se começa a ser grande. Nenhum ser humano nasce ensinado. O cavalinho, sim. Mal deixa o ventre da mãe, intui que as pernas foram feitas para andar, e anda, sem precisar de ajuda. À criança tem de se lhe ensinar a dar os primeiros passos, e depois dizer-lhe que aqueles membros, com os quais se desloca de um lado para o outro, se chamam pernas e servem para isso mesmo: para andar.

 

Por isso é importante aprender. E como aprendemos?

 

Umas coisas são-nos ensinadas pela família, pelos professores, pelos amigos, pelas nossas próprias experiências: se pusermos as mãos no fogo, para saber o que acontece, queimamo-nos. E a dor é insuportável. Então, através dessa dor aprendemos que não devemos pôr as mãos no fogo.

 

Outras coisas, devemos aprender por iniciativa própria. A escola não nos ensina tudo. Morremos sem aprender tudo, porque o tudo é infinito, e ninguém assimila o infinito, pois nem imaginamos o que isso é.

 

É aconselhável , todavia, aprendermos tudo quanto pudermos, para vivermos sabendo das coisas, o que somos, quem somos, o que queremos, o que não queremos, para onde vamos, o que é bom e o que é mau para nós e para os outros, mas principalmente para que saibamos ser humanos e viver em sociedade. Harmoniosamente.

 

Todos estes saberes variam de pessoa para pessoa. Para mim, o bom é estar à sombra de uma frondosa árvore, quando faz sol. Para outros, é ir tostar a pele estirados na areia, debaixo de um sol escaldante.

 

O importante é que na desigualdade de cada um, o nosso saber sirva para servir o outro. Inteligentemente.

A propósito, sabem porque não devemos espetar um prego na cabeça de um cãozinho, feito de carne e osso e sangue como nós e que tal como nós, também sente a dor, chorando até às lágrimas?

 

As respostas podem ser múltiplas. Tantas quantas as pessoas que há no mundo. Tantas quanto o ser, o e o querer de cada uma.

 

Se, contudo, me fazem a pergunta a mim, respondo simplesmente: «Porque não espetaria nunca um prego na minha própria cabeça».

 

 

in «Manual de Civilidade» de Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:19

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Terça-feira, 20 de Abril de 2010

UM ATENTADO À INTELIGÊNCIA E À LUCIDEZ DO SER HUMANO

 

Mais tarde ou mais cedo o feitiço virar-se-á contra o feiticeiro
 

Num blog, intitulado Partebilhas, da responsabilidade de Manuel Peralta Godinho e Cunha, tive o azar de ler um texto, que é um autêntico atentado à inteligência e à lucidez do ser humano.

 

Apenas alguém, que ainda não saiu da Idade da Pedra Lascada, tem a ousadia de escrever tal texto e pedir para divulgá-lo, como se fosse a obra-prima da defesa da tauromaquia.

 

Ao transcrever aqui o texto, a minha intenção não é obviamente defender aqueles que praticam a tauromaquia, mas tão-só o Touro, esse magnífico animal, que tal como eu, tem um sistema nervoso central, que lhe permite sentir dor; tem um corpo onde corre sangue bombeado por um coração, tal como no meu; tem um cérebro que não lhe dá a oportunidade de falar, mas tem um olhar que diz tudo.

 

E solta lágrimas, de dor e de incompreensão. Que mal fizeram eles àquelas criaturas para merecerem tal tortura?

 

A negro vai o que me ocorre dizer, em nome do Touro.

 

Ora o tal texto diz o seguinte

 

OS ANTI-TOURADAS

 

1 Têm surgido ultimamente diversas notícias, tão ao agrado de alguns jornais do mal dizer, com as posições anti-taurinas de associações que se dizem defensoras dos animais.

 

É preciso sublinhar que “Jornais do mal dizer” são aqueles que defendem a Civilização e a Cultura Culta, no século XXI, depois de Cristo. Quanto às associações não “se dizem defensoras”, elas são defensoras dos animais.

 

2A Festa Brava é, desde tempos imemoriais, o espectáculo favorito de um elevado número de cidadãos europeus com destaque para espanhóis, franceses e portugueses. Não obstante ser verdade que houve sempre quem não gostasse de nada relacionado com toiros.

 

«É desde tempos imemoriais», disse bem, tempos da Idade da Pedra Lascada, quer já ficou lá muito para trás. Espectáculo favorito de alguns poucos (entre os milhares contra) espanhóis, franceses e portugueses, povos latinos com uma cultura envelhecida. Os povos europeus civilizados, os nórdicos, por exemplo, que já foram “vândalos”, não constam desta lista, porque evoluíram e deixaram de ser “vândalos”.

 

3 Todos temos o direito de gostar ou não. Não devemos é querer impor a nossa opinião e obrigar outros a segui-la.

 

Isto não é uma questão de gostar ou não gostar, nem de impor opiniões, mas sim uma questão cultural, civilizacional, evolucionista; uma questão de evolução de mentalidades; uma questão de lucidez.

 

4 Um dos primeiros e mais influentes anti-taurinos foi Antonio Michele Ghiselieri (1504-1572) cardeal no tempo do papa Paulo IV e por este nomeado Grande Inquisidor. Foi ele que organizou a primeira perseguição aos judeus, que passaram a estar confinados em guetos e proibidos de ter mais do que uma sinagoga em cada comunidade. Mais tarde, já como papa Pio V, publicou a bula “De salutis gregis dominici” que obrigava a suspensão completa dos espectáculos tauromáquicos, por os considerar “não de homens mas do demónio”.

 

Não queira confundir as coisas. A Inquisição foi (disse bem, passado) uma coisa abominável, e a tauromaquia é (presente) outra coisa abominável. Por que será que temos aqui um passado e um presente? Não simpatizo com esse tal cardeal, mas ele disse uma verdade: os espectáculos tauromáquicos não são coisas de homens, também não serão de demónios, pois não acredito em demónios. São coisas de mentalidades atrasadas, mofosas, a cheirar a sangue e a escuro...

 

5Não obstante o fervor religioso de Filipe II de Espanha e de Sebastião I de Portugal, estes reis não deram seguimento à ordem do papa. Filipe II confessou-se incapaz de fazer cumprir, em povo tão arreigado à tauromaquia, a bula papal.

 

 Fale-me de gente corajosa, não de paus mandados.

 

6As atitudes anti-taurinas provocam sempre uma reacção.

 

Naturalmente, nos indivíduos que não evoluíram, a reacção é negativa. Pararam no passado. Não sabem como alcançar o futuro.

 

7Assim, por exemplo, quando em 1874 se inaugurou a Praça de Toiros madrilena “de la carretera de Aragón”, a revista anti-taurina “La Ilustración Española y Americana”, publicou, entre outros, um artigo a que deu o título “La ultima plaza” onde fazia o vaticínio que esta iria encerrar um ciclo de praças de toiros em Madrid, porque o toureio estaria condenado a desaparecer em data breve.

 

 

A data pode não estar fixada, ainda, mas chegará o tempo em que os poucos aficionados, que ainda não saíram da Idade da Pedra Lascada, irão fazer tijolos, e uma nova geração culta e civilizada os substituirão, e então o Touro será libertado do opressão e da tortura.

 

8Os intelectuais responsáveis por esta revista mostraram ser maus profetas, péssimos profetas. Na realidade e porque o toureio é um espectáculo popular e com enorme força, cerca de 45 anos depois Madrid teve que resolver se deveria acrescentar a praça de toiros ou construir uma outra, tendo prevalecido a ideia de se construir uma nova a que se deu o nome de Las Ventas del Espíritu Santo.

 

Não, não foram, maus profetas. As profecias demoram o seu tempo a cumprir-se. O tempo do fim virá a seu tempo. Não tenho a menor dúvida que vivemos o “canto do cisne” do abominável espectáculo tauromáquico.

 

9Assim em 21 de Outubro de 1934 foi reinaugurada a nova praça, dado que algum tempo antes, em 17 de Junho de 1931 foi realizada a primeira corrida sem as obras e os acessos estarem devidamente acabados.

 

Feito glorioso, este! Feito de verdadeiros heróis da Pedra Lascada.

 

10Hoje em Portugal e nalguns pontos da União Europeia há quem pense que pode mandar nas vidas, tradições e culturas dos povos, onde a diversidade deveria ser respeitada. Quem são e por quem são constituídos estes movimentos anti-taurinos?

 

Por mim, por exemplo, e por outras pessoas como eu.

 

11 Quantos são os que não querem que se realizem touradas? Quem lhes paga? A quem interessa que sejam destruídas as ganadarias bravas?

 

Muitos milhares, mais do que possa pensar-se. Ninguém recebe dinheiro para ser anti-tourada. O nosso respeito pelo Touro assim o exige. Ao contrário dos grandes negócios das ganadarias e tráficos afins. Aí sim, à custa da tortura e da cultura da morte de um animal nobre, o dinheiro que se mete ao bolso apenas de alguns!

 

12 Os aficionados terão que se movimentar no sentido que seja criado um Observatório Tauromáquico que estude, analise e dê a resposta adequada a estes movimentos de carácter terrorista.

 

Está é de almanaque. Isto é para rir ou para chorar? Os que são a favor da tortura dos Touros são uns santinhos de altar; e nós, que somos contra essa tortura, é que somos os terroristas! Esta realmente é de fazer chorar as pedras!

 

13Como é do conhecimento geral, a corrida de toiros contém uma série de valores éticos representados pelo toureio, reconhecido por elevado número de pensadores e artistas, resultando avultadas manifestações artísticas e culturais no domínio da literatura, escultura, pintura, teatro, fotografia e cinema.

 

 

 Aplaudo a ética do Touro

 

Outra de almanaque! «A corrida de touros contém uma série de valores éticos», como por exemplo, torturar um ser vivo até à morte, retirando-lhe o sangue às golfadas, através de farpas que lhe entram na carne, rasgando-a sem dó nem piedade. Muito ético. Arte puríssima... Antiga talvez. Estão todos mortos, esses da literatura, da pintura, etc.,. Se vivessem hoje não seriam pensadores, nem artistas, se assim pensassem ou se assim exprimissem através da arte. Seriam simplesmente uns infelizes analfabetos.

 

14A tauromaquia terá que ser defendida!

 

Pelos mortos, talvez!

...

 

Para terminar, vou citar um comentário de Josefina Maller, retirado da sua página no Facebook, a propósito deste texto:

 

«Fiquei estupefacta ao ler este texto. E pensei: em pleno século XXI ainda existem mentes obscuras, que pensam no escuro, e o que dizem soa a mofo, a ignorância, a estupidificação. Incrível! Festa Brava. Brava, sim. A bravura do Touro perante o ignominioso criminoso toureiro, em vantagem, este com os seus instrumentos de tortura. Festa? Saberão eles o que significa “festa”? Quanto mais querem argumentar a favor dessa “tradição” grotesca, do tempo das cavernas mais profundas, mais se enterram nelas. Evoluí, ó aficionados da tortura, e da morte! Evoluí! Permitam que a luz entre nessas vossas cabeças vazias de civilização. Um só Touro, animal magnífico, vale por milhares de mentes dementes como as vossas. É nestes momentos que se eu tivesse de escolher entre salvar um Touro ou um serzinho desses de morrer afogado, naturalmente, obviamente, optaria pelo Touro».

 

...

 

E eu também. Evidentemente.

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:27

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Segunda-feira, 19 de Abril de 2010

RTP2 ESTREIA NOVO PROGRAMA «Brasil/Portugal – Lá e Cá» JÁ NO PRÓXIMO DIA 25 DE ABRIL

 

© Dauker  

 

 

No próximo dia 25 de Abril, estreia na RTP2 e RTP Internacional, simultaneamente com a TV Cultura (do Brasil), uma nova série de 13 episódios semanais, com duração de 30 minutos, intitulada "Brasil, Portugal – Lá e Cá", série coordenada por Paulo Markun e o nosso Carlos Fino.

 

Dois países ligados pela História, duas emissoras públicas e dois reconhecidos jornalistas juntam-se para uma viagem singular, numa tentativa de aproximar os dois povos, separados por um imenso oceano.

 

A RTP é a parceira desta iniciativa, idealizada pelo jornalista Paulo Markun, presidente da Fundação Padre Anchieta (FPA), e pelo convidado especial do programa, Carlos Fino, que depois de ter passado pela Televisão e ter sido repórter de guerra, neste momento é conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal no Brasil.

 

Este programa tem como atractivo revelar o Brasil aos portugueses e Portugal aos brasileiros. As suas semelhanças e diferenças, curiosidades, subtilezas, resgate histórico e cultural serão abordados em reportagens especiais, conversas descontraídas, reflexões, entrevistas exclusivas e muitas imagens dos arquivos dos canais televisivos.

 

"Lá e Cá" tem como cenário fixo a casa de Paulo Markun, em Santo António de Lisboa  (comunidade fundada por açorianos em Florianópolis, Estado de Santa Catarina, Brasil) e a de Carlos Fino, em Fronteira, no nosso Alentejo.

 

Na conversa entre os dois, que se estenderá por alguns pontos turísticos e idílicos, os temas deambularão entre o Pop e a História, passando por economia, cultura, culinária, arquitectura, meio ambiente, comportamento e outros assuntos que interessam aos portugueses que vivem no Brasil, e aos brasileiros que vivem em Portugal. Todos os debates serão conduzidos, segundo os seus autores, com «saudáveis pitadas de bom humor».

 

No primeiro episódio, depoimentos como o da cantora Fafá de Belém, do jornalista português do jornal "Expresso" Nicolau Santos e da artista plástica residente em Portugal Letícia Barreto trazem pontos de vista individuais que contextualizam o amplo cenário sócio-cultural luso-brasileiro.

No novo site do programa, em www.tvcultura.com.br/laeca, no ar a partir do dia 15, ficarão disponíveis os episódios do «Lá e Cá» logo após a sua transmissão televisiva.

 

(Notícia retirada do Portugal Digital)

 

...

 

Posto isto, tenho a acrescentar, que fui convidada para participar neste programa, com um curto depoimento sobre a minha «Contestação» ao livro «1808» de Laurentino Gomes, que foi um best-seller e chegou a ganhar alguns prémios bem prestigiados, apesar das incorrecções nele contidas e do facciosismo do seu autor.

 

Espero não me desiludir.

 

Na notícia, do Portugal Digital deixei um comentário, que gostaria de partilhar aqui: «Estou curiosa por ver este programa, até porque, em princípio, serei uma das intervenientes. Depois porque espero ver um programa despido de preconceitos e de hipocrisias. Preto no preto, branco no branco. Porém, pela amostra do programa, deu para reparar que em um ou outro momento as coisas não são bem assim. De qualquer modo, tudo o que está fora do seu contexto pode não ser bem interpretado. Aguardo para ver.»

publicado por Isabel A. Ferreira às 11:46

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Domingo, 18 de Abril de 2010

UMA HISTÓRIA BANAL

Gostaria de partilhar com os leitores do Arco de Almedina, uma história banal, que deve passar-se com milhões de pessoas, contudo não as conheço, às histórias e às pessoas, e esta está a passar-se comigo.

 

Por isso, posso partilhá-la com conhecimento de causa.

 

Já há algum tempo, um predador (podem ser mais, não sei) da Internet, anda a “perseguir-me” através deste blog, não sei com que intenção, e já o fez de diversas maneiras. Porém, hoje, achei curioso o seguinte e-mail, proveniente do Brasil, que transcrevo exactamente conforme o recebi, com toda a “preciosidade” de escrita: «Oi... Discupa estar lhe falando isso. Mais seu nome foi comentando num blog, sei que nao é da minha conta mais achei que voce deveria ver isto. Pois estao falando Horrores de você. Tem até uma foto sua por isso acreditei que era vc mesmo que estavam falando. Deletaram o Post que estava os comentários sobre vc. Mais salvei para vc...» e trazia um nome, naturalmente falso, e a respectiva via, para que eu pudesse ir ver os despropósitos que a mensagem sugere.

 

Posto isto, pensei cá para mim, “o cara” (ou “os caras”) voltou à carga. Das outras vezes limitei-me a apagar os vestígios do predador (que já se apresentou com vários nomes, e a bandeirinha brasileira, sempre).

 

Como é óbvio (e aprendi bem a lição) nunca vou aos finalmentes das mensagens, ou seja, não passo do primeiro passo, porque esta gente é esperta: coloca um nome fiável e um assunto também fiável. Mas quando vejo que atrás disso está um predador, paro por ali mesmo, e não lhe dou a mínima importância: primeiro porque nunca me interessei (e não é agora que vou passar a interessar-me) por aquilo que dizem a meu respeito, embora a Internet tenha perigos mais pérfidos. Segundo, uma linguagem destas, naturalmente ou é para disfarçar o predador (que desconfio seja mais (in)culto do que faz pensar)  ou  é um analfabeto de primeira apanha, e “apanhado” da cabeça, por isso não merece mais do que o meu desprezo.

 

Então, perguntarão, porque dei importância a este episódio?

 

Primeiro porque achei piada à mensagem, e ela veio precisamente num momento em que está para ir para o ar, na RTP um programa luso-brasileiro, do qual vou deixar aqui o link, e que abordarei numa próxima oportunidade, até porque serei uma das suas intervenientes (uma vez que vieram a minha casa filmar as minhas declarações, sobre o livro que escrevi a contestar o «1808» do jornalista brasileiro Laurentino Gomes, no qual os portugueses são muito mal tratados).

 

http://www.youtube.com/watch?v=D_clf6cLXpw

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:07

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Segunda-feira, 12 de Abril de 2010

MARIA VELHO DA COSTA NO SEU MELHOR OU MYRA – O ROMANCE

(Origem da Foto de Maria Velho da Costa: Internet)

 

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2010

 

Acabei de ler Myra, o romance vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa, no «Correntes d’Escritas/2010».

 

Nada falta neste romance, que nos esmaga e fere a alma, de tão cru e cruel, de tão verdadeiro e actual.

 

Maria esgaravatou nas trevas, o lado negro do ser humano, e foi tecendo uma história, com os fios mais sombrios da existência. Mas foi também buscar à luz a beleza e a inocência dos seres nascidos na lama, que com o mundo têm de travar uma luta titânica para sobreviver ou então deixar-se morrer.

 

 

O Romance começa com uma frase simples: «Myra atravessou os carris desconjuntados em direcção ao mar», o bastante para nos prender, uma vez que queremos saber quem é Myra, e o que a levou a atravessar os carris desconjuntados em direcção ao mar.

 

E esse desejo de saber mais não nos larga até ao último parágrafo, com um desfecho apenas previsto umas linhas antes, que depois de lidas, nos faz pensar, quase com alívio: «Era precisamente isto que eu faria, se estivesse no lugar de Myra». E ficamos substancialmente aquietados.

 

E no entanto, o desfecho deixa-nos um gosto amargo, que nos acompanha, muito para lá do fim da leitura. Mas o que aconteceu era o único meio de devolver a Myra a sua inocência e talvez o seu sonho.

 

A acompanhar Myra desde praticamente o início do romance está um cão fiel. Humano como o mais humano dos humanos, embora treinado para matar, por desumana gente, um detalhe que empresta ao romance um toque de angústia que não mais nos larga.

 

Ao entrarmos no enredo, um medo latente apodera-se de nós, porque ficamos cativos da fragilidade de Myra, do seu instinto de sobrevivência, do seu sonho, mas também da sua força, pois o ser humano acossado, instintivamente, vai buscar alento ao mais fundo do seu ser, para dar razão à desrazão da vida.

 

E Myra é uma jovem com sonhos carregados de pesadelos.

 

Bem escrito, bem urdido, neste romance Maria coloca lado a lado uma linguagem sublime e a mais rasteira que possa imaginar-se. As suas personagens são reais. Existem, por aí. Infelizmente aos montes. Conseguimos até identificá-las.

 

Quem não conhece alguém como Myra? Quem não conhece um cão como Rambo? Quem não conhece uma Dona Mafaldinha, velha artista com amante demasiado novo, o Kleber? Quem não conhece um velho cego e aleijado, que partilha o pão com um velho cão? Quem não conhece um rapaz pardo, elegante, lindo como as estrelas, e cheio de mistérios? Quem não conhece uns mânfios que assaltam carros na estrada e falam assim: «Bute ripar daqui, antes que acena fique ugly mesmo. Saca a garina e o cão marado e ‘bora ir. Chega de guita ao barulho.»

 

Quem não conhece um poderófilo ou outro, por aí?

 

Myra é um romance que fala de afectos. De amores. De ódios. De pobreza da alma e do corpo. De crimes sem castigo. De beleza e de uma feiura extrema. Um romance que nos marca. Que nos toca. Que nos fere. Que nos esmaga. Que nos faz querer gritar: «Basta!» Precisamos de um mundo novo, com seres humanos que tenham a Humanidade do cão Rambo.

 

Obrigada, Maria. O romance Myra deu-me alento para continuar as minhas áridas e impotentes lutas, por um mundo onde existir possa ser sinónimo de exultação e não de inferno.

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:50

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Sexta-feira, 9 de Abril de 2010

PENAS TÊM-NAS AS GALINHAS...

 

 

(Origem da foto: Internet) 

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2010

 

 

As notícias que ultimamente têm vindo a público sobre crimes hediondos praticados no nosso país (que já não é o de brandos costumes e ainda menos o de duras leis) e os perpetrados nos E.U.A. , por exemplo, e as penas aplicadas aos respectivos criminosos, suscitaram-me uma reflexão acerca do abismo existente entre a justiça que se administra num e noutro país.

 

Sei que não vou modificar coisa nenhuma, se disser o que penso sobre o Código Penal Português, porém, ficará o testemunho de alguém que, decididamente, não acredita na justiça do seu país.

 

Bem sei que em Portugal, apesar de tudo, os crimes mais horripilantes não acontecem todos os dias, e que nos E.U.A. (o modelo do que se faz do bom e do pior), eles (os crimes) são o pão nosso de cada dia, e há que existir penas elevadas para tentar travar essa criminalidade (se bem que não resultem, nem sequer a pena de morte, com a qual não concordo, em absoluto).

 

Contudo, tem-se verificado que no nosso país, de há alguns anos a esta parte, crimes que nem ao diabo lembra, aumentaram assustadoramente. E o que acontece? Os criminosos são punidos com peninhas de galinha. Ficam meia dúzia de anos na prisão, e depois, porque até são boas pessoas, comportaram-se muito bem, durante a estadia entre as grades, e principalmente porque a TV os transforma em heróis muito coitadinhos, com entrevistas que fazem as pedras chorar, há que soltá-los. E se uns até se reabilitam, outros, mal se apanham cá fora, retomam a vida criminosa, com maior vigor ainda, cheios de raivas acumuladas.

 

Em Portugal, o violador de um bebé (que não tem como se defender) leva uns oito anos no máximo de prisão (quando não o deixam à solta, apenas com a obrigação de se apresentar de X em X dias na esquadra da PSP). Uma vergonha! Nos E.U.A., aqui há uns anos, aquele pugilista que violou uma jovem de 18 anos (que já tinha muito tino para saber que não se vai para um hotel com um matulão daqueles, tomar chá com torradas) podia ter apanhado uma pena até 60 anos de prisão.

 

Estou a recordar-me também do hediondo “crime da mala” (de Braga) cujos criminosos apanharam uma pena conjunta (45 anos) menos do que a do violador americano.

 

Enfim, no nosso país, um violador, um esquartejador, um matador que mate com requintes de malvadez, se for considerado debilzinho, coitadinho, não pode ir para a cadeia, e a nossa justiça, nesses casos, age como Cristo na hora da agonia: perdoe-se-lhes os crimes, porque não sabiam o que estavam a fazer!

 

Hoje em dia, não podemos dar um estalo (para não ir mais longe) a um ladrão que nos entre em casa. Deus nos livre! Vamos nós para a cadeia, por agressão, e o ladrão não sofre nada, porque não teve tempo de roubar nada.

 

A propósito, não resisto a contar uma peripécia passada comigo, já há algum tempo. Estava eu num determinado sítio a tentar levantar dinheiro de uma máquina automática, em pleno dia, quando sinto uma pressão nas costas, e uma voz grave, de homem, a dizer: «Isto é um assalto».

 

Instintivamente, olhei para o chão para ver onde estavam colocadas as pernas do assaltante, ao mesmo tempo que levantava o calcanhar para lhe aplicar um “golpe baixo” que o neutralizasse. Um golpe, entre outros, que aprendi, no Brasil, para defesa pessoal.

 

Nisto ouvi um “espera lá” gritado, e depois uma gargalhada. Era uma partida de um amigo brincalhão. Não aconteceu nada de grave. O “assaltante” não era um assaltante. Mas se o fosse? E se o golpe resultasse? Talvez fosse parar à cadeia, e ainda teria de pagar uma indemnização ao assaltante, por danos físicos, morais, pedir-lhe muita desculpa, etc., etc., etc,.

 

São as leis que temos. E não vale a pena recorrer à justiça, pois esta fica por aplicar.

 

Lembro-me de um crime que envolveu dois idosos, barbaramente assassinados, com um martelo de picar carne, há uns anos. A PJ deixou-me entrar no local do crime (a casa onde viviam),  estavam ainda os corpos no sítio exacto onde foram mortos. Eu era a única jornalista. Sem mexer em nada, verifiquei tudo o que me interessava para a reportagem e mais alguns pormenores para a investigação que me propus fazer para ajudar a polícia a encontrar o assassino, uma vez que me revoltei com o que vi.

 

Consegui descobrir quem foi o assassino, homem influente, no meio, que andou à solta até morrer de um cancro, passados uns anos. Nunca foi preso, as autoridades “nada conseguiram apurar” e o caso foi arquivado. O Inspector, que andava a investigar o caso, foi inesperadamente mandado para casa com uma boa reforma. Eu fui contar à polícia o que descobri. Que guardasse para mim as minhas descobertas. Foi uma luta que travei sem glória. Ainda cheguei a ser ameaçada. Não foi feita justiça. E eu que descobri todo o enredo, pormenorizadamente! Revoltei-me, como é óbvio. De vez em quando lá passava eu pelo assassino. Ele sabia que eu sabia. Olhava para mim com uns olhos, que se matassem, já estaria morta. E eu tinha de engolir aquela afronta. Não me deixaram outra opção.

 

Este duplo assassinato (sem culpado) e os dois processos, aos quais estive kafkianamente ligada durante dois anos, abusivamente enredada nas malhas da justiça, deixaram-me completamente descrente da justiça portuguesa.

 

Porque fui aconselhada por um amigo Delegado a “mergulhar” nesses meandros para ficar a conhecer por dentro e por fora o que é um tribunal português, e ainda porque nunca perdi uma história dos inspectores Maigret, Poirot e Holmes, dediquei-me ao estudo desses assuntos judiciais e policiais.

Aquilo que hoje sei poderá valer-me um dia, quem sabe, para escrever histórias verídicas do arco-da-velha.

 

E enquanto no meu país, os bandidos forem os mais e nós os menos, não me cansarei de dizer que penas têm-nas as galinhas!

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:34

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Sexta-feira, 2 de Abril de 2010

AQUELE HOMEM CHAMADO JESUS...

 

(Origem da foto: Internet)

 

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2010

 

Desde aquele longínquo dia, quando no alto do monte Gólgota, um Homem entrou em agonia, pregado numa cruz, entre dois ladrões, como se fosse o mais comum dos criminosos, os seguidores da doutrina por esse mesmo Homem deixada, celebram o acontecimento para lembrar ao mundo o significado daquela que não foi uma morte qualquer.

 

Não direi que todos os católicos celebrem a Páscoa tão levianamente como vivem a própria vida, salpicando de hipocrisias os mais insignificantes actos do seu quotidiano: dizendo-se cristãos mas agindo como pagãos.

 

Contudo, poucos são aqueles que, sendo cristãos, vivem de acordo com os preceitos do Cristianismo, isto é, segundo os ensinamentos deixados por Cristo, os quais têm o dom de fazer os Homens serem mais Homens, e conceitos como igualdade, fraternidade, liberdade e justiça, imprimirem um conteúdo mais humano à nossa vida.

 

Todos nós, uns mais outros menos, algum dia, damos um rumo à nossa existência, inspirados no exemplo de alguém que nos marcou por algum motivo, e que nos serviu de exemplo. Todos nós temos um ídolo, ainda que secreto.

 

Eu demorei a descobrir o meu ídolo, e era das que me gabava de não os ter. Hoje, sem ser fanática, tenho o Homem chamado Jesus, como um exemplo de vida, com a sua humildade, a sua simplicidade, mas também com a força para combater os vendilhões do templo, quando necessário.

 

Um dia, do alto de um Mosteiro sobranceiro à belíssima baía da Guanabara, no Rio de Janeiro, um monge ajudou-me a descobrir, ali mesmo, olhando as águas calmas da baía e o exuberante arvoredo que a rodeava; ouvindo o gorjeio das aves, que interrompiam, de quando em vez, os cânticos gregorianos que alguns monges entoavam no claustro; debaixo daquele magnífico azul de um céu onde não se via sequer uma nuvem – que a vida deve ser vivida de acordo com a nossa consciência, tendo sempre em conta que devemos amar o nosso semelhante como a nós mesmos, tal como o Homem de Nazaré amou o seu povo, por ele lutando e por ele morrendo.

 

Foi então que cresceu em mim um súbito interesse por conhecer, a fundo, esse Homem chamado Jesus, que tão profundas modificações trouxera ao poder estabelecido de Roma, transformações essas que fizeram tremer os poderosos governadores da Província e até imperadores.

Quem era, afinal, esse Homem?

 

Era acima de tudo um anarquista pacifista, no sentido político da palavra. Um Homem que, independentemente da sua condição divina, desafiara o poderio romano que escravizava o povo, e introduziu na Palestina conceitos de reformas sociais nunca sonhadas pelos senhores de Roma.

 

Jesus era também um idealista, considerando o mundo exterior como resultado das ideias, sem qualquer objectividade em si mesmo, tão-somente como a de um trampolim para alcançar um lugar junto do divino Pai.

 

Era Jesus um humanista, pois realçava, acima de todas as coisas terrenas, as qualidades essenciais do Homem, que o tornam uma criatura peculiar.

 

Jesus era igualmente um ecologista, porquanto não descurava as coisas relativas aos seres e ao ambiente que os rodeava.

 

Ele era, sobretudo, um Homem inteligente, um visionário, que conseguia ver muito para além do visível, e sabia usar toda a sua inteligência a favor do Homem, fazendo do amor ao próximo a essência de todo o comportamento das sociedades humanas.

 

...

 

A partir daquele dia, comecei a estudar a figura de Jesus e a tê-lo como um exemplo. E, de todos os grandes Homens que já existiram neste nosso Planeta, contribuindo com os seus conhecimentos e ensinamentos para o aperfeiçoamento da vivência humana, foi Jesus aquele que mais contributos nos deixou.

 

Foi ele quem descobriu a trilogia: Liberdade, Igualdade, Fraternidade (mais tarde utilizada durante a Revolução Francesa), afinal, os princípios que os Homens precisam pôr em prática para viverem a racionalidade que os distingue (ou deveria distinguir) dos outros seres.

 

Infelizmente a Paixão e Morte de Jesus, que hoje o mundo católico celebra, através de várias cerimónias religiosas, não serviram de exemplo para a grande maioria daqueles que se dizem cristãos.

 

Pelo que vemos, ouvimos e lemos todos os dias; pelas atitudes torpes perpetradas por aqueles que nos rodeiam; pelo ódio, pela violência e pela injustiça que nos envolvem, verificamos que, na realidade, nada ficou na memória dos Homens, daquele dia em que um Homem agonizou, pregado numa cruz, no Monte Gólgota.

 

Foram poucos aqueles que entenderam o verdadeiro significado daquela morte.

 

Como o mundo seria diferente, se todos os Homens recordassem, todos os dias, que aquele Homem chamado Jesus nos deixou a mais bela lição de amor ao próximo, que jamais nenhum outro Homem conseguiu igualar!

 

A sua morte aconteceu em vão, pois os homens, cegos pelo poder, nada aprenderam até hoje, e continuam a transformar o mundo num campo de extermínio de seres humanos e de seres não humanos, tal como os romanos agiam no tempo de Jesus.

 

...

 

Nesta Páscoa de 2010, espero que todos aqueles que vão sentar-se ao redor de uma mesa, no próximo domingo, a comer seja lá o que for, para celebrar, com pompa e circunstância, a Ressurreição de Cristo, reflictam bem nos seus actos e descubram quanta hipocrisia se esconde em cada fatia de pão-de-ló, em cada amêndoa, em cada iguaria que ingerem!

 

Não entenderam nada de nada!

 

Contudo, se nem Jesus Cristo conseguiu, quem sou eu para pretender que os homens maus se transformem em cordeirinhos da Páscoa?

 

Tomo, porém, a liberdade de considerar hipócritas todas aquelas pessoas que se dizem cristãs ou católicas, nas ocasiões festivas, e os seus actos do dia a dia mostram que nada sabem dos ensinamentos daquele Homem chamado Jesus, que há mais de dois mil anos nos deixou a mais bela lição de vida.

publicado por Isabel A. Ferreira às 13:31

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Quinta-feira, 1 de Abril de 2010

MÁRIO VIEGAS - EVOCAÇÃO DA SUA ARTE DE BEM DIZER POESIA...

 Copyright © Isabel A. Ferreira 2010

 

(Santarém, 10 de Novembro de 1948 — Lisboa, 1 de Abril de 1996)

 

 

(Origem da foto: Internet)

 

 

Naquela manhã, como era hábito, enquanto tomava o pequeno-almoço, liguei o rádio para ouvir as notícias. E mal eu acabara de o ligar as palavras soltavam-se: «Morreu Mário Viegas». Era o dia 1 de Abril. A primeira coisa que me veio à cabeça foi que tudo aquilo não passava de uma brincadeira de mau gosto do realizador do programa ou do próprio Viegas (sabendo como sabia que era muito brincalhão e gostava de ironizar com as coisas mais sérias). Era o Dia das Mentiras. Logo, não podia ser verdade.

 

Contudo era verdade. Ironia das ironias: Viegas morria no Dia das Mentiras. E passaram já 14 anos. E continua a ser mentira. Viegas ficou entre nós com a sua Arte inteira, genuína, magnífica.

 

Um dia, para quebrar o monótono desencanto de uma vida vivida numa cidade onde o único poema é o mar e os seus insondáveis mistérios e as suas revoltas, mas também singelezas, decidi escrever uma crónica sobre poetas, para poder levar o sonho à minha existência, daqueles que, noutros tempos e noutros lugares, nos deixaram retalhos da própria vida, em forma de palavras.

 

Por essa altura, andava no ar, na RTP1, todos os sábados, por volta das 18 horas, o programa «Palavras Vivas», um autêntico oásis cultural, no grande deserto da produção televisiva portuguesa da época (estávamos em 1991).

 

Para quem gostava de Poetas, de Poesia e da arte de bem dizer, «Palavras Vivas» era, de facto, um programa extremamente bem concebido, onde as imagens, a música, as palavras dos poetas e a voz inconfundível de Mário Viegas nos transportavam para ambiências pertencentes a um passado não muito distante, mas ainda assim passado.

 

Ele próprio, Mário Viegas, grande actor, um homem com uma cultura poética extraordinária, era um autêntico poeta, na forma como nos dava a conhecer os nossos maiores poetas, por entre ambientes românticos, que despertavam (pelo menos em mim) uma saudade de tempos nunca vividos, de lugares nunca visitados, de homens nunca conhecidos.

 

Decidi dedicar-lhe essa Crónica.

 

Recordo-me do programa sobre Camilo Pessanha, cujo livro de poemas «Clepsidra», levou Mário Viegas a procurar uma paisagem de um rio de águas claras, arvoredo e velhas pedras. Insignificâncias para uns, mas para o poeta, autênticas jóias raras que adornam a existência. O poeta do tormento e da nostalgia, marcado por sarcasmo cáustico, sendo a sua obra considerada um dos grandes marcos do simbolismo português. O poeta que imortalizou as pedrinhas.

 

Nas coisas mais simples e mais naturais está a poesia da vida, contudo, essas coisas apenas os verdadeiros poetas conseguem ver, sentir e transformar em palavras.

 

Se não fossem eles, os poetas, as humildes pedrinhas que jazem inconscientes no leito dos rios, não viveriam na memória dos Homens comuns, porque esses nunca se lembrariam de as olhar com olhos carinhosos. Essas pequenas insignificâncias da Natureza, a quem ninguém mais dá valor, a não ser os poetas.

 

Mário Viegas, que era, sem a menor sombra de dúvida um dos nossos melhores “dizeurs” (na minha opinião, obviamente) deu-nos a conhecer um pouco da vida e da obra de grandes poetas portugueses, introduzindo-nos, igualmente, outros intelectuais de cada época.

 

Logo no seu primeiro programa, tendo como cenário o Círculo Cultural Scalabitano, em Santarém, sua terra natal, Mário Viegas apresentou-nos alguns poetas com quem manteve relações de amizade, como Raul de Carvalho (questionando na altura o espólio “perdido” do poeta); José Gomes Ferreira; e o (também meu) saudoso Zeca Afonso, dando-nos oportunidade de ouvir algumas das suas mais belas canções.

 

Recordando Ruy Belo, Mário Viegas conduziu-nos por Santarém, terra onde o poeta viveu e estudou; por S. João da Ribeira onde nasceu e quis ser sepultado, e por Vila do Conde, terra de gratas recordações do poeta.

 

Dizendo alguns dos seus mais expressivos poemas, Mário Viegas deu-nos a conhecer a poética de Ruy Belo, para mim, na altura, um quase desconhecido.

 

Depois veio a evocação de Fernando Pessoa, numa antiga casa em Campo de Ourique, vazia e abandonada, onde viveu o poeta. Através desta evocação, contactámos também os amigos de Pessoa, e ficámos alertados para a necessidade de preservar os “lugares sagrados” que são os pousos dos poetas.

 

Mário de Sá Carneiro foi relembrado entre um cenário insólito, como insólita foi a sua vida, vivida em grandes tormentos.

 

Um dos programas mais vibrantes foi o dedicado a Almada Negreiros, no Teatro da Casa da Comédia, onde Mário Viegas além de recordar essa figura ímpar da Cultura Portuguesa, leu, com extraordinário fulgor, como só ele sabia, o célebre Manifesto Anti-Dantas, uma obra-prima do humor culto português.

 

De seguida, do alto de Santo Amaro, tendo como cenário de fundo a cidade de Lisboa, Mário Viegas falou-nos de Cesário Verde, “o poeta de todos os poetas”, conforme ele próprio referiu. Momentos inesquecíveis e de rara sensibilidade e beleza.

 

...

 

A crónica que dediquei a Mário Viegas e ao seu programa terminei-a assim: «Por tudo o que me tem dado, pela fuga que me proporciona, agradeço publicamente a Mário Viegas, as palavras dos nossos poetas, às quais ele incute com a sua arte de “bem dizer” um inspirado sopro de vida, fazendo renascer cada poeta, em cada poema, a cada momento.»

 

Para que Mário Viegas tivesse conhecimento dessa homenagem que lhe prestei, enviei-lhe pelo correio o jornal, onde ela foi publicada.

 

Passado uns tempos, ele escreveu-me um postal, a agradecer-me, onde contava que estava a escrever-me de “fofo” para o ar, porque partira um pé, uma costela e uma vértebra, numa queda que dera, quando andava a fazer quatro peças em dois teatros diferentes. E numa dessas correrias...

 

...

 

No dia 19 de Março de 1991, veio à Póvoa de Varzim, fazer uma palestra, convidado pela Cooperativa «A Filantrópica» no tempo em que era seu director o Luís Alberto Oliveira. Sabendo da minha admiração pelo Viegas, o Luís convidou-me para o jantar que aquela instituição cultural ofereceu ao convidado.

 

 

 

 

É a fotografia desse jantar que aqui reproduzo, estando de frente o Mário Viegas, junto do actor João Nuno Carracedo, que por sua vez está ao lado do pintor poveiro Francisco Nova. De costas, estou eu (a da trança) a iniciar um brinde, a Maria da Luz, mulher do Luís Alberto, que está a seu lado.

 

Hoje, passados 14 anos sobre a sua morte, recordo-o com muita saudade.

Este é  o meu contributo para que Mário Viegas, apesar de já ter partido, esteja sempre entre nós.

publicado por Isabel A. Ferreira às 09:28

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