Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

MENINOS ESCRAVOS DO GANA – EU NÃO SOU CÚMPLICE!

 

 

 

 

 

 

Hoje recebi um e-mail enviado por um amigo meu, com uma petição intitulada EU NÃO SOU CÚMPLICE, com o que se passa com os meninos escravos do Gana, dirigida à nossa Assembleia da República, ao nosso Governo, ao nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros.
O conteúdo da petição poderia referir-se a muitas partes do mundo, onde as crianças são exploradas de toda a maneira, mas esta diz o seguinte:
Sei dos muitos casos gritantes de crueldade exercida sobre as crianças em todo o Mundo. Sei da impossibilidade de lhes acudir. Mas sei que posso acudir aos Meninos Escravos do lago Volta no Gana. Basta escrever aqui apenas o meu nome. A minha assinatura representa a Esperança para milhares de crianças prisioneiras, com 3, 4 e 6 anos de idade. Meninos que trabalham 14 horas por dia na pesca do poluído lago Volta, escravos dos pescadores que os compram por 30 euros. Que morrem no lago, porque muitas dessas crianças não sabem nadar. Eu vou ajudar a salvá-las. Porque quero pôr termo a este genocídio. Os Meninos Escravos do lago Volta trabalham 14 horas por dia durante os 7 dias da semana. Pagam-lhes com fome e maus-tratos – têm o corpo coberto de cicatrizes. Todos eles sofrem de doenças graves. Não lhes assiste sequer o direito a sentar-se.Sei que desde 2005 vigora no Gana uma lei que proíbe o tráfico humano. Mas a lei não se cumpre. Não quero ser cúmplice deste CRIME! Não quero ser cúmplice desta IMPUNIDADE!O meu nome vai ajudar a libertar estas crianças. Para que, quem pode tome decisões. Para que um massacre destes não volte a acontecer no Gana nem noutra parte do mundo.O meu nome representa a imagem das Crianças Escravas do lago Volta como se fossem filhos meus!
 Assinei esta petição com a esperança de que algo possa mudar na vida destas crianças e de todas as outras que sofrem inconcebíveis horrores; e de que todos os governantes dos países, que se dizem civilizados e detém poderes para transformarem as coisas (se quiserem), se unam num combate justo contra estas crueldades.
Entretanto, aqui deixo um outro apelo, palavras que podem correr mundo, na esperança de que toquem o coração daqueles que têm poder para poder transformar o mundo num lugar onde haja lugar para que todas as crianças possam ser crianças.
 
Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
AO HOMEM DO PLANETA TERRA
 (Um recado de criança)
 
         Começo por dizer-te
         Que ser criança é natural.
         Ninguém nasce já adulto.
         Repara,
         É como qualquer coisa que começa…        
         Nunca viste nascer seja o que for
         Já na sua forma definitiva.
         Tudo começa por ser pequenino,
         E depois lentamente
         Vai crescendo… crescendo… crescendo…
         Olha para ti.
         Dizem que quando nasceste
         Eras pequenino também.
         Não te lembras?
         Usaste fraldas, chupeta e biberão
         E brincaste com carrinhos, bolas e bonecas…
Despreocupadamente...
         Eu, porém,
Tenho outras preocupações:
        Preocupo-me contigo, que dizes ser homem...
        Diz-me:
        Até onde pretendes ir?
        Repara:
        Eu sou uma criança,
        Nada sei, preciso de aprender tudo.
        Queres ensinar-me?
         Mas rogo-te:
         Não me ensines tudo o que sabes,
         Ensina-me só o necessário.
         Ensina-me a respeitar o meu irmão
         E a Natureza.
         Preciso deles para viver,
         Por isso, não deves destruí-los.
         Ensina-me também a ser poeta
         Para poder cantar os sentimentos bons
         Que sei estarem escondidos dentro de ti.    
         Ensina-me a cantar as belezas da Natureza,
         A Paz, o Sonho…
         É isso!
         Ensina-me a sonhar, se souberes...
         Quanto a mim,
         Acho que não sei sonhar.
         Vivo apenas a vida que para mim escolheste,
         E não sei o que é sonhar…
         Às vezes,
         Penso que estou num lugar
         Onde o ar é puro para respirar;
         Onde há crianças que brincam
         Riem e são felizes…
         Onde há gente grande que se entende
         E sorri, inclusive para mim…
         Num lugar onde os animais vivem em paz,
         As flores são mais coloridas,
         As árvores mais frondosas,
         E não há poluição,
         Nem armas nucleares,
         Nem ladrões, nem assassinos,
         Nem fome, nem guerra,
         Nem terrorismo,
         Nem torturadores,
         Nem escravatura de crianças...
         Um lugar onde tudo está em perfeita harmonia.
         Então pergunto-te:
         Será isto sonhar?
         É possível?
         Eu não sei…
         Mas se é,
         Gostaria de te pedir que transformasses
         Este meu sonho em realidade,
         Pois sei que se quiseres…
Consegues realizar todos os sonhos.
         Um dia sonhaste que podias ir à Lua.
         E foste.
         Se pudeste ir à Lua,
         Por que não podes construir
        Também um mundo
Onde eu possa viver tranquilamente?
         Digo viver, sim,
         Porque o que faço actualmente
         É apenas respirar.
         Se não respiro, sufoco…
         Mas penso que viver não é apenas respirar,
         Viver,
         Para mim, que sou criança,
         É
         Amar, ser amada, brincar,
Sentir, pensar, sonhar, acreditar,
         Aprender, construir, ter sentido crítico
         E ser feliz em liberdade…
         Reparaste que eu não disse
         Odiar, desaprender, desacreditar ou destruir...
         Penso que essas coisas são indignas de ti.
         De ti,
         Que dizes ser homem, que tens um cérebro
         Diferente do dos macacos;
De ti,
         Que tens umas mãos concebidas para construir;
         Uns pés que te permitem caminhar erecto
         E não rastejar, como um verme,
         Pelo chão que tu próprio sujas.
         Então por que te comportas
         Como um animal rastejante?
         Repara,
         Eu sou uma criança.
         Sei que um dia serei grande como tu.
         É a lei da Natureza.
         Mas confesso: tenho medo de crescer.
         Quero ficar sempre menino,
         Porque hoje,
         (apesar de ser criança)
         Penso na paz, no amor, na liberdade…
         Com esperança...
Penso apenas em ser feliz, um dia...
         E tenho medo de que, crescendo, como tu,
         Eu me torne igual a ti,
         Que só pensas em guerra, em odiar, em escravizar,
         Que planeias a tua felicidade
À custa da infelicidade dos outros...
         Mas… Não!
        Tenho de dizer não!
         Nunca serei como tu. Nunca!
         Porque vou aprendendo com os teus erros,
         E vejo que o teu comportamento
         Só leva à destruição.
         E eu,
         Que ainda sou criança,
         Não quero que o mundo seja destruído,
         Porque preciso de viver o meu futuro.
         Tu que não sabes viver a vida,
         Deves aceitar agora as minhas condições:
         Quero um mundo
         Onde eu,
         Criança,
         Possa amar, ser amada, brincar, sentir,
Pensar, sonhar, acreditar,
         Aprender, construir, ter sentido crítico
         E ser feliz em liberdade…
         No entanto…
         Vê o que fizeste:
         Transformaste tudo o que era simples,
         Inocente e verdadeiro, num autêntico caos.
         Destruíste a confiança que eu depositei em ti.
         Sabes o que pensam as crianças?
         Pensam que a infância existe em todos,
E é para ser vivida.
         Ela está dentro de nós.
         Crianças,
         Abri os braços e gritai comigo:
         Também temos direitos!
         Crianças,
         Ponham os pés firmes no chão,
         Não imitem aqueles que se dizem homens,
         E sede aquilo que eles não são.
         … E o menino sonhava…
         E sonhava o menino…
         Mas o que de belo no seu peito existia
         Logo à nascença morria…
         Conheces estes versos?
Não! Claro! Só pensas em guerras!
         Já não acreditamos em ti,
         Nem queremos ser como tu,
         Porque tu só sabes destruir
         Os sonhos das crianças,
         Do menino que eu sou.
         Olha para mim de frente:
         Tens coragem de me negar
         A vida?
Sabes do que estou a falar?
Compreendes-me?
         Tens ideia do que quero?
Do que imploro?
         Quero que inventes coragem
         E comeces a mudar o mundo
         Para que todos os dias
         O Sol possa brilhar
         No jardim da minha infância…
 
publicado por Isabel A. Ferreira às 15:08

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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

JOSÉ SARAMAGO, A BÍBLIA E CAIM

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
 
JOSÉ SARAMAGO
 
Porque gosto de uma boa polémica, de provocadores, de ser provocada, e também de provocar, atrevo-me a deixar aqui a minha opinião sobre a controvérsia que se gerou ao redor do «Caim» de josé saramago *.
Deixada a questão política do lado de fora deste blog, uma vez que não comungo da ideologia comunista conotada com o autor, devo confessar que, apesar disso, aprecio alguns livros de josé saramago. Não todos. Li sofregamente o «Ensaio Sobre a Cegueira» (magnífico) e «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» (interessantíssimo). Os outros, confesso, não os li com tanta “sede”. Fui lendo... Outros, ainda não os li. Estão no “monte”, à espera de vaga.
Contudo, considero saramago um dos nossos grandes autores.
Quando surgiu o seu «Caim» fiquei interessadíssima, porque foi um tema sobre o qual também já havia escrito, em 1998, e que cheguei a publicar, em vários jornais e revistas, inserido num texto intitulado «O Sexo das Palavras». Então pensei: o impacto que a leitura da história de Caim e Abel provocou em mim seria igual ao de saramago?... Fiquei curiosa.
 
A BÍBLIA
 
(Página da Bíblia dos Capuchinhos)
 
Naquela altura escrevi: «Isto do mundo dividido entre o masculino e o feminino não dá com nada. (...) O homem sem a mulher não existiria e o vice-versa também não. Embora, segundo a história bíblica, que foi inventada por homens, a primeira e única mulher da época – Eva – foi criada a partir de uma costela de Adão – o único homem de então. Deste casal, nasceram dois filhos – Caim e Abel. Caim matou Abel. E assim aconteceu o primeiro homicídio da humanidade (quando havia apenas quatro seres no mundo) com a cumplicidade do próprio Deus, pois foi Deus que disse ao assassino, quando este, diante Dele se mostrou com medo que o matassem também: «Quem matar Caim terá um castigo sete vezes maior», e Deus marcou-o então com um sinal para que em toda a parte se soubesse que nenhum mal poderia atingi-lo.
E foi deste modo ilibado pelo próprio Deus em pessoa que Caim partiu para o país de Nod, sem que justiça fosse feita, como convinha a quem inventou a história. Talvez esta passagem bíblica explique porque os nossos bandidos sempre foram tão protegidos pelas leis que temos (também todas feitas por homens).
Depois deste primeiro homicídio, nunca mais houve parança, e as matanças sucederam-se e continuam a suceder-se em massa, nos nossos dias, sob o olhar impávido e indiferente dos homens, enquanto as mulheres, que são um pouco mais poupadas a essas matanças, choram os filhos mortos.
De quatro seres (Adão, Eva, Caim e Abel) ficaram apenas três, a vagar pela Terra imensa. O que se passou depois é um verdadeiro enigma. Diz a Bíblia que o assassino foi para o país de Nod. Caim nunca mais falou com o Senhor, mas não foi por Ele abandonado, apesar de ter assassinado o irmão. Deus premiou-o com o poder de fundar uma cidade e até lhe concedeu uma mulher. O que não nos foi explicado é de onde saiu esta mulher.
E assim, deste modo enigmático, os homens foram-se multiplicando à face da Terra, até dar no que deu: um superpovoamento, onde milhões morrem à fome, e outros milhões vomitam a fartura».
Como não sou saramago, esta minha intromissão no Velho Testamento, não teve qualquer repercussão, a nenhum nível. Ninguém me disse que não deveria ter lido a Bíblia de um modo literalista. Também, até hoje, não ouvi nenhum padre da Igreja Católica explicar o sentido simbólico desta história, ou das outras histórias bíblicas em que Deus aparece como um justiceiro irado.
Quando era menina, como todas as meninas, andei na Catequese. Tinha nove anos. E esse foi o pior tempo da minha vida. A catequista, uma senhora já de certa idade, incutiu-me (a mim e às outras crianças, mas falo por mim) um tal temor a Deus, que à noite tinha pesadelos, dos mais terríveis. Tudo era pecado. Tudo Deus castigava com grande violência, acenando-nos com o fogo do Inferno, para toda a eternidade, e Satanás a picar-nos com a sua forquilha, rindo dos nossos gritos aflitivos, mostrando os dentes ameaçadores.
O medo de Deus era imenso. Ensinaram-me não a amá-lo, mas a temê-lo mais do que ao Diabo. Literalmente. Contudo, esse era um segredo só meu. Nunca o partilhei com os meus pais, como devia.
Essa respeitável senhora ensinou-nos igualmente, que no dia da nossa Primeira Comunhão, ao recebermos o Senhor, não podíamos encostar a hóstia aos dentes, ou “trincá-la”, uma vez que poderíamos ferir a carne de Nosso Senhor, e os nossos vestidos, imaculadamente brancos, ensanguentar-se-iam. Morder a carne de Nosso Senhor (que, na altura, para mim, era uma pessoa), soou-me a canibalismo, desde então).
Ora eu, que era um pouco atabalhoada, vi-me muito aflita para não encostar a hóstia aos dentes, e na aflição de não o fazer, trinquei-a, e foi então que começou o meu martírio. Passei o resto da cerimónia a ver se o meu vestidinho branco estava manchado com o sangue de Cristo. Não dei conta disso, mas estragou-me aquele dia, e todos os dias que vieram a seguir, durante alguns anos. Escusado será dizer que dali em diante, comungar, foi para mim uma tortura.
Como gostava de ler, tive curiosidade de ler a Bíblia. E ao ler a Bíblia, evidentemente, comecei pelo Velho Testamento, e lá encontrei o Deus cruel e vingativo, do qual a minha catequista nos falava, e do qual também nos fala saramago. E nunca ninguém nos disse que o que estava escrito na Bíblia, na verdade, não era o que estava escrito. Era outra coisa. Ora para uma adolescente, o que é, é, o que não é, não é. E penso que sempre assim foi, em todos os tempos. E a Bíblia era (é) para ser lida por gente comum, que nada sabe sobre Exegese (o que é isso?)...
Talvez, por este motivo, josé saramago, que é inteligente e tem sentido crítico, disse o que disse sobre a Bíblia, que obviamente conhece bem: «A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade – A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura! (…) Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca». E no início do seu «Caim» faz uma citação, do que chama «Livro dos Disparates», ou seja, a Bíblia.
Pois na parte que me toca a mim, o meu martírio durou até aos meus quinze anos, altura em que o meu sentido crítico começou a despertar, e cheguei à conclusão de que nada daquilo que me ensinaram sobre as coisas de Deus podia ser verdade. A missa não me dizia nada; comungar ainda me dizia menos; confessar-me, nem pensar, e decidi então acabar com todo o mal-estar que as coisas da Igreja me provocavam.
Procurei um padre franciscano, e com ele desabafei durante umas duas horas, sentados ambos numa pedra, nos claustros exteriores do Convento de Santo António, no alto do Morro com o nome do Santo, no Rio de Janeiro. Contei-lhe as minhas mágoas, os meus temores, as minhas aflições, e principalmente a minha ideia de Deus, que não coincidia com nada do que me haviam dito Dele, até ao momento. Ele ouviu-me, em silêncio. No final, aconselhou-me a seguir o meu coração e o meu instinto, libertando-me, desse modo, de conceitos religiosos totalmente castradores.
A partir de então, comecei a minha busca de Deus (que durou vários anos) de um modo racional. A Bíblia, tornei a lê-la com outros olhos, muitos anos mais tarde, já adulta, e ao contrário de josé saramago, desta vez, não encontrei, no Velho Testamento, o Deus cruel que me atormentou na adolescência. Mas sim um deus inventado pelos homens que escreveram todas aquelas histórias à medida da conveniência política, moral e social, da época, e de acordo igualmente com a incultura e a mentalidade pouco evoluída de então.
A Bíblia, para mim, deixou de ter o sentido “sagrado” que lhe era (é) atribuído. E já me apeteceu reescrevê-la à luz do meu conceito de Humanidade e de Deus. Por vezes, escrevo textos onde pode ler-se «o que Deus nunca diria».
Hoje, a Bíblia, nomeadamente o Velho Testamento, para mim, e até que algum padre da Igreja Católica consiga explicar, com lógica, o simbolismo de algumas histórias, como a de Caim, não passa de um conjunto de livros, uns mais interessantes do que outros, sem o Deus, no qual eu acredito, dentro. O Deus em que eu acredito não está lá. O Deus do Novo Testamento aproxima-se do Ser Cósmico, da Luz, da Energia, do que se lhe queira chamar, que rege o Universo, e no qual até Einstein acreditava. O que a Ciência não consegue explicar, aí está Deus.
Não considero a Bíblia, como saramago, o «Livro dos Disparates». Ela é, tal como outros livros ditos “sagrados”, um livro escrito, há milhares de anos, por homens com mentalidade pouco evoluída, e deve ler-se como se lêem as tragédias dos grandes autores clássicos gregos. Nem mais, nem menos. Literatura, da qual se gosta ou não se gosta.
Durante a polémica gerada pelas declarações de saramago, vi padres católicos criticarem o autor, na televisão, mas não ouvi nenhum contar a história de Caim como dizem que deve ser interpretada. Que simbolismo terá este primeiro assassinato da Humanidade, com o aval de Deus?
Ocorre-me então uma pergunta: quando se traduziram e juntaram os livros da Bíblia, pensar-se-ia que ela iria ser lida apenas por exegetas? Se não, ou se traduziam os livros de modo a que pudéssemos ler as duas versões (a literal e a simbólica) ou então não se admirem de haver homens com sentido crítico, a denominarem-na «Livro dos Disparates».
 
«CAIM» – O LIVRO
 
 
Ao ler os dois primeiros capítulos de «Caim», confesso que fiquei decepcionada. Ocorreu-me comentar com alguém que saramago havia envelhecido, e com a velhice perdera a criatividade literária que o conduziu ao Prémio Nobel. Entrara em decadência.
Porém, desta vez (ao contrário, por exemplo, do que aconteceu com «Todos os Nomes»), decidi avançar na leitura, até porque ainda não tinha chegado propriamente à história de Caim. E continuava curiosa. Foi então que me surpreendi. Apesar de não ter os atributos criativos d’ «O Evangelho Segundo Jesus Cristo», a narrativa começava a interessar-me.
Dir-se-ia que josé saramago teve a ideia de escrever sobre o tema, e ainda não o tinha bem elaborado, quando começou a passá-lo para o papel; só ao cabo de algumas páginas, deixando-se conduzir pelas palavras, ei-lo no caminho da verdadeira narrativa saramaguiana.
Devo dizer que achei o livro muito interessante, exceptuando os primeiros dois capítulos, como já referi (o que considerei um autêntico despropósito) e aqui e ali uma linguagem de muito mau gosto, que um laureado com o Nobel não deveria utilizar (no meu entender, claro). A Língua Portuguesa é demasiado rica em palavras e expressões que podem descrever de um modo subtil e lírico, o que nem sempre é delicado e romântico. E a arte de quem escreve também está no modo como descreve determinadas cenas, eventualmente chocantes, tornando-as aprazíveis aos sentidos. Uma poça de água choca pode tornar-se quase um lago, se lhe chamarmos um charco.
Para finalizar, tenho duas observações a fazer: a primeira é que, afinal, interpretei a história de Caim, tal como saramago – literalmente – nem as Bíblias anotadas conseguem explicar o sentido daquela história, de modo a que satisfaça as mentes pensadoras e com sentido crítico; a segunda, é que ao ler o «Caim» de saramago, cheguei à conclusão de que não fora as declarações que o autor fez publicamente sobre a Bíblia, o livro passaria quase despercebido. É interessante, mas não josé saramago no seu melhor.
 
* Uma vez que no livro «Caim», o autor utilizou letras minúsculas para escrever os nomes das personagens, deduzi que talvez não goste que se utilize letras maiúsculas para escrever o seu próprio nome, daí ter optado por escrevê-lo também em minúsculas.
publicado por Isabel A. Ferreira às 10:50

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Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

LÁ LONGE... ONDE EXISTE UM PARAÍSO...

 

 

 

 

 

 

Ainda que as palmeiras se agitem, ao aproximar-se a tempestade, mesmo assim... a magia é imensa...

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009

 

 

Talvez porque o dia esteja cinzento... e de onde me encontro só vislumbro telhados, chaminés, coisas que nada me dizem...
... Recuo a um passado vivido entre palmeiras, goiabeiras, coqueiros, farta vegetação, onde o canto do sabiá se fazia ouvir sobre todos os outros cantos de pássaros exóticos, de que era fértil a selva brasileira.
Quanta saudade!
Viajo até à formosa ilha de Paquetá, um daqueles paraísos que, suponho, ainda vão resistindo à mão do homem-predador, uma ilha que eu conheci, um dia, era ainda menina, e que jamais pude esquecer. Foi como se tivesse vivido um conto de fadas.
A Baía da Guanabara, onde se situa a Ilha de Paquetá, integra uma das mais belas paisagens do mundo, tendo a seus pés a cidade do Rio de Janeiro, onde nem tudo combina com a exuberante natureza da região.
No tempo em que por lá vivi, atravessava-se a Baía até Paquetá, em pequenos barcos a motor, sempre apinhados de gente, que procurava um refúgio tranquilo naquela ilha, onde a deslumbrante flora tropical, não fora ainda violada pela poluição, de espécie alguma.
Ali as árvores não estremeciam com o roncar dos automóveis ou das infernais motorizadas, pois a sua circulação na ilha era proibida. Lá, só se andava a pé, de charrete, com pneus de borracha, puxada a cavalos, ou então de bicicleta.
Não admirava, pois, que o verde da folhagem fosse mais verde e as flores mais coloridas. Podia ouvir-se o som do silêncio, quando a Natureza adormecia, apenas interrompido, de onde a onde, pelo suspiro de um pássaro solitário.
Lá as areias eram brancas e a vegetação crescia selvagem e livre até às praias, banhadas por águas límpidas que reflectiam a luz do Sol, permitindo ver o fundo marinho envolvido em mistério.
Paquetá tinha a magia de uma ilha tropical, tranquila, quente, envolvente. Todas as madrugadas, a Natureza despertava como se acabasse de ser criada pelo próprio Deus, e, quem tinha o privilégio de lá viver ou passar alguns dias, era despertado também pelo canto de um pássaro que resolvia pousar no ramo mais próximo do chalé. Abria-se então a janela e aquele ar puro com cheirinho a mar entrava-nos na alma, e era como se tornássemos a nascer.
Ao cair da tarde, debaixo da luz ténue do Sol tropical, a vegetação tomava um colorido suave, indescritível, e as águas tranquilas da baía faziam-nos lembrar os tão cantados lagos dos contos de fadas.
Em Paquetá, vivia o próprio Deus!
Claro que a ilha já existia, bela e selvagem, muito antes de os homens a terem descoberto. E ela era tão linda, tão exuberante que homem algum se atreveu a violá-la. Adaptaram determinados locais para o homem lá poder viver. Mas não a destruíram. E era possível nela podermos apreciar belos chalés e palacetes de arquitectura notável, lindas avenidas, floridas e arborizadas, testemunhos de uma civilização controlada, não agredindo a Natureza virgem.
Na ilha tudo era fresco e limpo, e os turistas (estrangeiros e brasileiros) que ali afluíam não se atreviam a conspurcar o lugar, com a sua incivilização. Não podiam! Tal era a magia que Paquetá exercia sobre os homens.
Sou daquelas pessoas que pensam que o homem pode preservar o seu próprio paraíso, quando o tem, ou construí-lo, quando o não tem, tudo dependendo do seu grau de inteligência, da sua boa vontade, da sua sensibilidade, da sua lucidez. Por isso, revolto-me ao deparar-me com homens de pouca inteligência, de má vontade e insensíveis a conduzir o destino dos que sabem distinguir entre o inferno e o paraíso.
É verdade que o que é paraíso para uns, pode ser inferno para outros, no entanto, quem mutila o próprio corpo para dele arrancar os próprios pulmões, é um mero suicida, não é um Homem!
Quem teve o privilégio de conhecer Paquetá e outros paraísos, ou viveu outras civilizações, onde a Natureza é respeitada e preservada para o próprio homem dela usufruir, não pode, em toda a consciência, aceitar a vida na selva de cimento em que se transformaram as nossas cidades.
Deus que criou paraísos para o homem viver, e deu inteligência ao homem (e não às pedras) para ele poder discernir, não quer, com certeza, ver destruído o que construiu com tanto engenho e arte.
Deus, ao mostrar o paraíso a Adão e Eva disse-lhes: «Eis o Jardim do Éden, onde podeis viver felizes e tranquilos, se assim o desejardes!»
Dependia, pois, deles, viver eternamente sem «consumirem a própria existência em rudes e penosos trabalhos».
Adão e Eva conheceram o Paraíso e perderam-no, por não saberem preservá-lo. E Deus nada pôde fazer. A escolha foi deles.
Quem de nós não conseguir interpretar o simbolismo do «Jardim do Éden» não poderá nunca entender a magia da Natureza, os segredos da flora e da fauna que rodeiam a Humanidade.
É essa ignorância que eu lamento.
publicado por Isabel A. Ferreira às 19:09

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