Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

O MEU ENCONTRO COM LEONARDO

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
 
 
 
Certo dia, já muito distante, fui abordada por um ancião, que me conhecia apenas através das minhas palavras, dos meus pensamentos, da minha visão do mundo, do entendimento das coisas, que costumava plasmar nas crónicas que escrevia num Jornal. Reconheceu-me pela fotografia.
 
Ao aproximar-se de mim, dirigiu-me uma frase que está na origem desta breve reflexão: «A Isabel é um espírito que entende os poetas, por isso, há-de compreender-me».
 
(Devo dizer que Leonardo era espírita). Soube-o mais tarde.
 
Dirigimo-nos então para o mais emblemático café da cidade, e, sentados frente a frente, disse-lhe que era toda ouvidos. Na verdade compreendia-o. Não porque ele fosse realmente um poeta. Não era. Mas porque diante de mim estava um homem que precisava de alguém que ouvisse as coisas que tinha para dizer.
 
Quase sempre, o egoísmo embota o nosso entendimento, cega-nos a razão, e faz-nos olhar com indiferença as pessoas que se acercam de nós e abrem os lábios para dizer palavras, numa tentativa de partilhar connosco as suas alegrias, as suas frustrações, ou as suas crenças. Ainda mais quando essas pessoas são idosas, e dentro delas têm o anseio de fazer algo pelos mais novos, os quais, aos olhos de quem oitenta anos de existência (o caso do Leonardo) deram uma experiência de vida riquíssima, poderiam ter um futuro menos amargo se ouvissem as mensagens que eles (os menos novos) têm para lhes transmitir.
 
Leonardo queria falar-me dos malefícios do tabaco, para que eu escrevesse sobre o assunto, nas minhas crónicas. Ouvi-o com toda a atenção, até porque o que ele sabia, também eu sabia. Nunca fui fumadora activa, mas sofria (e ainda hoje os efeitos se mantém) as consequências do fumo passivo. Leonardo tinha toda a razão.
 
Porém, este assunto era apenas o preâmbulo, para o verdadeiro motivo que o levara a dirigir-se a mim.
 
Disse-me então que eu era um espírito do futuro. Ele próprio, já havia por cá andado há muito, muito tempo, tanto que já tinha perdido a conta desse tempo. E muitas vezes. Muitas.
 
E uma vez que eu era um espírito do futuro iria entender as cartas que ele tinha para me entregar. Cartas escritas do além, por Eça de Queiroz e Camilo Castelo Branco. Confidenciou-me.
 
Fiquei completamente aterrorizada com tal probabilidade. Arrepiei-me até à medula. Não acredito, nem desacredito nestas coisas, mas prefiro manter-me afastada delas. Foi o que lhe disse.
 
Contudo, Leonardo insistiu, e colocou-me nas mãos um embrulho, um pouco ensebado, de tanto andar de um lado para o outro, dentro de um saco de plástico, que ele trazia sempre consigo, na esperança de encontrar a pessoa certa para o entregar. Contou-me.
 
Dentro do embrulho estavam dois maços das cartas que o Eça e o Camilo “ditaram” a um jovem de Lisboa, e tinham vindo parar às mãos de Leonardo (já não me recordo como). Informou-me.
 
O facto é que agora as cartas estavam nas minhas mãos, e a minha “missão” era lê-las e reconhecer nelas, ou não, o estilo dos dois escritores.
 
Seriam “verdadeiras”? Leonardo também se interrogava. Por isso, queria entregar-mas para eu averiguar. Eu era daquelas pessoas que entendiam os poetas. Relembrou-me.
 
Como não quis desgostar, nem decepcionar o ancião, decidi aceitar o desafio, até porque a curiosidade começou a minar o meu espírito.
 
E foi deste modo que, por um tempo longo, andei atormentada com toda esta história.
 
A curiosidade era muita. Mas o medo também. Guardei o embrulho das cartas numa gaveta da minha escrivaninha, e ali ficaram, adormecidas, durante algumas semanas, sem que eu tivesse coragem de as ler. Quando me decidia, algo me paralisava. E recuava.
 
Passou-se algum tempo. Muito tempo. Até que um dia criei a coragem necessária para cumprir a promessa que fiz a Leonardo.
 
Uma tarde, desatei o nó do cordel que envolvia o embrulho feito de papel de costaneira. E lá estavam as cartas, ditadas do além. Tentei começar por Camilo Castelo Branco. Desdobrei uma, ao acaso, cuidadosamente, e já ia a meio, quando o meu coração disparou, numa cavalgada desenfreada, por um campo completamente desconhecido, e, no entanto, tão familiar. Já não me recordo do conteúdo da carta. Costumo esquecer tudo o que não me convém. É um modo inconsciente de me defender. Mas o estilo…
 
Não consegui ler aquela carta até ao fim. As mãos tremeram-me, formigaram, quando comecei a reconhecer o génio inconfundível de Camilo, nas palavras que estavam escritas de um modo vacilante, no papel que eu segurava. Uma fraude? A carta poderia ter sido escrita por qualquer pessoa, que conhecesse bem o estilo de Camilo. Ou não?
 
Não era possível! Num gesto brusco, dobrei a carta, coloquei-a novamente no maço, e embrulhei tudo tal como estava. Atei-lhe o cordel, e durante vários meses, o pacotinho das cartas esteve “esquecido” dentro da gaveta da minha escrivaninha. Esquecido não será bem o termo, pois todas as vezes que eu olhava para a gaveta, sabia que dentro dela estava algo que eu não dominava. Que me assustava. Que me transcendia. Que me incomodava.
 
Nunca tive coragem de ler as outras cartas. Por isso, um dia, enviei um recado a Leonardo, a dizer que precisava de devolver-lhe o embrulho. E, ou porque ele já soubesse (não sei como, mas não posso esquecer-me de que era espírita) ou porque não lhe interessou saber, ou ainda porque na expressão do meu rosto estava estampada a resposta que ele esperava, nada me perguntou. Aceitou-as de volta, simplesmente. Balbuciou um “obrigado”, e partiu, no seu passo trôpego, deixando-me no meio da calçada, com um sentimento estranho.
 
***
 
Os anos foram passando e não mais voltei a encontrar Leonardo.
Até ao dia em que, ao visitar um lar de acamados, vi-o agonizante, já quase inconsciente, deitado sobre o que viria a ser o seu leito de morte. Aproximei-me dele. Coloquei a minha mão sobre a sua mão. Balbuciei o seu nome. Ele abriu os olhos. Olhou-me profundamente sem dizer qualquer palavra, e naquele olhar eu vi o futuro de que ele me falara no nosso primeiro encontro.
 
Poucos dias depois Leonardo partiu, imagino que para o lugar onde as nuvens habitam, deixando-me esta história para contar e uma dúvida: compreenderei, de facto, os poetas?...
publicado por Isabel A. Ferreira às 20:00

link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos
Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

SER ESCRITOR EM PORTUGAL

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
 (Aspecto da sessão de abertura do Correntes d'Escritas, com o escritor Ascêncio de Freitas em primeiro plano)
 
 
É sempre com grande interesse que, na Póvoa de Varzim, acompanho o encontro de escritores de expressão ibérica, denominado Correntes d’Escritas, que este ano celebrou a sua 10.ª edição, com participantes de Portugal, Angola, Argentina, Brasil, Cabo Verde, Chile, Colômbia, Cuba, Espanha, México, Moçambique, Peru, São Tomé e Príncipe e Uruguai, com auditório completamente cheio, numa época em que a Literatura parece estar em agonia.
 
O meu interesse por este evento abrange várias facetas: primeiramente conhecer de perto os escritores e a sua obra; ouvi-los divagar sobre variadíssimos temas, e, à margem deles, anotar o que se diz, observar o que se faz, o que se aplaude e o que se desaprova, e evidentemente, estou também atenta aos interesses que fazem mover a grande engrenagem destas Correntes, particularmente, os interesses dos editores portugueses (quase sempre os mesmos).
 
O saldo, certamente, é positivo, em todos os aspectos.
 
Nestes encontros, porém, temos de tudo um pouco: temos aqueles escritores que verdadeiramente o são, isto é, escrevem para os seus leitores e quando estes os interpelam, são simpáticos, conversam, até fazem perguntas, e nós, como seus leitores, ficamos agradados. E temos os outros: aqueles que escrevem para eles. São antipáticos, e fogem dos leitores como o diabo da cruz. São os que, depois de “fazerem o nome” transformam-se em vedetas, sobem aos seus pedestais, e é dali que nos falam, ou então não falam, limitam-se a encolher os ombros, como quem diz estou demasiado alto para te ouvir. Estes, claramente, decepcionam os seus leitores, e não são, de modo algum, os verdadeiros escritores.
 
Como acompanho desde a segunda edição estas Correntes, habituei-me já a separar o trigo do joio, e do “trigo” selecciono os melhores grãos, e tiro proveito do que realmente me interessa.
 
De tudo isto ocorreu-me divagar sobre o que é ser escritor em Portugal.
 
No meu entender, a arte da escrita banalizou-se. Hoje, qualquer um que tenha um livro publicado é tido como um “escritor”. E eles nascem por aí como cogumelos. Basta aparecer na televisão, com uma vidinha mais ou menos turbulenta ou escandalosa, e logo dali nasce um “livro”, a vender milhares de exemplares, porque o que interessa aos editores é ganhar dinheiro. «A Cultura que se lixe», como os meus ouvidos já tiveram a infelicidade de ouvir. Proteger a Língua Portuguesa ou divulgar a Literatura propriamente dita, já não é da competência dos editores. Pelo menos de alguns.
 
Então, além da proliferação de livros que contam vidinhas e escândalos, os “escritores” da moda, os best-sellers, são os que andam por aí: badalados e mediáticos. A sua sobrevivência depende do mediatismo. Sem esse mediatismo não sobreviveriam. E até há quem fale em “escritores parasitas”, isto é, aqueles que pagam a alguém para escrever livros e depois colhem os louros.
 
É preciso estar no lugar certo, no momento certo, com a pessoa certa para que possa singrar-se no mundo da escrita.
 
Um dia, ouvi (ou li, não sei agora precisar) José Saramago dizer que se o escritor faz um trabalho de escrita, não deveria ter um salário de acordo com o trabalho que realiza? A escrita é a “mercadoria” do escritor, a única coisa que ele tem para vender, então por que não lhe pagam o justo valor?
 
Talvez porque não haja um “justo valor”. Põe-se o problema das horas de trabalho: como contabilizá-las? Existe uma certa frustração na realização do trabalho da escrita (pelo menos no que me diz respeito): gastam-se horas, dias, semanas, meses e até anos a escrever uma obra, que depois fica na gaveta porque ou não se é suficientemente mediático ou não se tem um bom padrinho, para ter o direito de publicá-la; ou se a publicamos não recebemos o justo pagamento. Os intermediários são tantos, que para o criador sobra a ínfima parte. Isto em Portugal, porque lá fora, o escritor recebe uma quantia razoável antes de ser publicado, e depois uma percentagem sobre os exemplares vendidos, o que é mais justo. Desse modo, impõe-se ao editor o dever de divulgar a obra, para este poder reaver o dinheiro investido e mais algum.
 
Em Portugal passa-se exactamente o contrário. Se queremos ser editados pagamos ao editor e este, não tendo investido nada, nada tem a perder, logo, nada faz para divulgar a obra, e esta, sem divulgação, acaba por ficar encalhada, por muito interessante que seja.
 
Há quem pense que a escrita (as Artes em geral) não é para ser paga. É algo que transcende o materialismo. No entanto, quando o apelo da escrita nos invade terá de ser amarfanhado pelas necessidades da sobrevivência?
 
 
A escrita requer determinadas condições: silêncio, isolamento, lugar envolto pela natureza e disponibilidade de horas (todas as horas só para a escrita). As dificuldades económicas do escritor (e dos artistas em geral) são a vergonha das sociedades, dos governos. Há muito desrespeito pelo seu trabalho. Parece que ele tem a “obrigação” de escrever e sobreviver apenas do ar que respira. A Cultura é ainda uma questão menor.
 
Hoje em dia ninguém investe num desconhecido, ainda que a escrita desse desconhecido tenha qualidade. O que interessa é vender, e só vende quem se mostra, quem aparece, quem acontece, quem…
 
No entanto há tão bons escritores portugueses, que nunca são referidos nos jornais, nas revistas da especialidade, na televisão. E eu pergunto-me: porquê?
 
Os escritores contemporâneos meus preferidos são o Fernando Campos, o Luís Rosa, o Altino do Tojal, a Luísa Dacosta, entre outros. No entanto quem ouve falar acerca destes mestres da Língua Portuguesa?
 
Um dia, fui apresentada a um senhor editor de uma conceituada editora portuguesa, na altura da loucura do Big Brother. Ao ser apresentada disseram: Esta é uma escritora que faz edições de autor. E eu acrescentei: Faço edições de autor porque não vou ao Big Brother. O editor disse: Sabe, foi uma encomenda de uma grande superfície…
 
A encomenda era um livro do rapaz que mais mal falava (logo escrevia) no tal programa televisivo. Mas foi um best-seller. Tive a curiosidade de ler um excerto, quando fui a uma consulta médica e dei de caras com uma revista, onde se fazia parangona ao livro, logo na capa. Fiquei horrorizada com a “literatura” à qual a tal conceituada editora dava cobertura. Uma editora que já me havia recusado um texto. Não quero dizer com isso que eu seja uma “Saramago”, mas considero que a minha escrita é um pouquinho melhor do que a do tal rapaz.
 
E se quero ser editada por uma editora tenho de pagar o preço de ser escritora em Portugal. Assina-se um contrato, que nunca é cumprido pela editora. E não há lei alguma que obrigue as editoras a cumprir o que está estipulado no contrato. E as contas que deviam fazer-se semestralmente, passa-se um ano, passam-se dois, passam-se três e o escritor que viva do ar que respira, abundante e gratuito…
 
Será este um modo de servir a Cultura, em Portugal?
publicado por Isabel A. Ferreira às 19:27

link do post | Comentar | Ver comentários (9) | Adicionar aos favoritos
Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

O USO E ABUSO DA MULHER

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
  
A Musa Calíope – inspiradora da poesia épica (Escultura do Museu do Vaticano)
  
 
Para quebrar a monotonia, hoje decidi abordar um tema universal – a mulher – espécimen ao qual nem sempre me orgulho de pertencer.
 
Embora a mulher tivesse representado um papel específico em cada época histórica, aumentando ou diminuindo a sua importância de acordo com os valores culturais, sociais, morais e até religiosos de cada povo, existem apenas dois tipos de mulher: a que explora e se deixa explorar, e a que bate o pé no chão, sejam quais forem as circunstâncias, comandando, deste modo, a sua própria vida.
 
Evidentemente que em cada uma destas tipologias se enquadra uma infinidade de géneros, cada qual com um estigma totalmente diverso do outro. Contudo, o que interessa fundamentalmente destacar são os dois grandes e universais tipos de mulher, que existem desde o aparecimento dos hominídeos na Terra, embora pouco ou nada se saiba da mulher pré-histórica, e sobre esta, os estudiosos gostam muito de fantasiar…
 
Apesar de a mulher ainda ser considerada (pela maioria dos homens) o sexo frágil, um apêndice do próprio homem, mulheres existem que são autênticos baluartes das sociedades, e sem elas, essas sociedades seriam extremamente estéreis. Elas são em grande número, mas não aparecem, não se mostram. Para quê?
 
O ouro, o mais precioso dos metais, não existe à superfície. Não está ao alcance de todas as mãos. Talvez por isso, seja tão valioso. Por que é que as pedras comuns, os seixos, não têm qualquer valor? Porque se encontram a esmo. Todos podem ter acesso aos calhaus rolados. Mas não ao ouro.
 
Aos olhos do homem, a mulher, na sua generalidade, ainda é um ser fútil, que tem a cabeça apenas para usar penteados; é um ser que se molda tão facilmente como um pedaço de plasticina; é um “bibelot”, que o homem exibe, tal como uma cabeça de búfalo embalsamada, produto de uma caça gloriosa; é uma jóia que mostra com ostentação, como mostra o alfinete de gravata incrustado de diamantes; é um objecto que ele usa a seu bel-prazer, tal como usa uma camisa nova.
 
Contudo, quando a camisa fica velha ou surrada, o homem coloca-a no fundo de uma prateleira, como recordação de tempos idos, ou então atira-a ao lixo, e ela anda em bolandas até se transformar em farrapos, ou se melhor sorte tiver, alguém, menos exigente, aproveitá-la-á, até ela ficar completamente desfeita.
 
Infelizmente, esta não é uma imagem do passado. Ela existe desde sempre. E embora seja verdade que a mulher dos finais do século XX e inícios do século XXI alcançou um status na sociedade, como em nenhuma outra época, o certo é que nunca a mulher, particularmente a mulher jovem, foi tão frívola como o é hoje, salvaguardando, evidentemente as inúmeras excepções. Nunca, como hoje, se deixou explorar e ridicularizar. E a falta de respeito que o homem sempre demonstrou ter pela mulher fútil, pela mulher objecto ou pela mulher “bibelot”, está a generalizar-se, pois há a tendência para pensar que todas as mulheres são iguais.
 
Mas há aquelas que batem o pé, sejam quais forem as circunstâncias. Mesmo no tempo da escravatura, sabe-se que haviam escravas que preferiram a morte a submeter-se aos caprichos dos seus depravados senhores.
 
No mundo do trabalho, existiram operárias que morreram a lutar pelos seus direitos. Mulheres revolucionárias que se bateram pelos seus ideais. Mulheres que tombaram pela pátria que gostariam que os seus filhos tivessem.
 
***
 
Exemplificando: temos os concursos de misses, onde a mulher é ridicularizada, e o que é pior de tudo: ela nem sequer se dá conta disso.
 
Claro, há quem goste. Mas há também quem compare esses eventos com os concursos de gado – esta comparação, por incrível que pareça, ouvi eu da boca de um homem culto, relativamente novo, na flor da idade dos entusiasmos. Mas há situações verdadeiramente aberrantes e que nem a todos os homens agradam.
 
Disse-me o referido senhor: «Assim como o gado (cujos donos se esmeram a escovar-lhes o pêlo e mantê-lo com um aspecto extraordinário) se passeia pela feira sob os olhares dos entendidos, que o perscrutam, membro a membro, não vá ter uma perna coxa ou um olho vazado, assim a mulher, ao pavonear-se numa passerelle, com indumentária reduzida, e previamente polida, vira-daqui-vira-dali, expõe ao ridículo, o que ela tem de mais belo e precioso: a intimidade do seu corpo».
 
A este propósito passa-se um fenómeno curiosíssimo. Ao fazermos uma reportagem, se perguntarmos aos organizadores destes certames o que sentiriam se vissem as suas filhas, mãe, irmãs ou mulher a pavonearem-se numa passerelle, respondem imediatamente: «Não misture as coisas. Isso é diferente!»
 
Claro! Outra resposta não poderia eu esperar. Ridicularizar as mulheres dos outros é muito fácil e não tem a mínima importância. Mas quando se trata das suas… Alto lá! A conversa é outra.
 
***
 
Esta reacção, que é autêntica, faz-me lembrar dois episódios passados comigo, em que coloquei em causa, propositadamente, a mentalidade do homem corriqueiro (porque os há invulgares e correctos).
 
O primeiro caso deu-se com um desses jornalistas de meia-tigela, que há falta de matéria-prima para me derrubar do pedestal de mulher, senhora-do-meu-nariz, várias vezes recorreu à calúnia, à mentira, à provocação – o argumento de quem não tem argumentos. Normalmente dou ao desprezo tais baixezas de atitude, mas daquela vez o indivíduo havia ultrapassado todos os limites. Eu não podia deixar passar a oportunidade de o por no seu lugar. Telefonei-lhe, e depois de me identificar, disse-lhe apenas isto: «Ouça, aconselho-o a que, quando tiver ganas de difamar alguém, comece pela sua mãe, pelas suas filhas (ele tinha duas) e pela sua mulher». Escusado será dizer que o sujeito desligou imediatamente o telefone e nunca mais se atreveu a escrever o meu nome no jornal que dirigia.
 
O outro episódio passou-se com alguém do sexo masculino (que não cheguei a conhecer) e que diariamente tocava a campainha da minha casa, tarde da noite, para perguntar se ali vivia a Carlinha, a Mariazinha, a Antoninha, enfim… Isto aconteceu uma, duas, três vezes, apanhando-me sempre desprevenida. À quarta vez, já farta destes desmandos, decidi utilizar aquela arma secreta que desarma os falsos heróis. À pergunta se ali vivia… reconhecendo a voz, respondi-lhe (e desculpem-me a liberdade da linguagem): «E se fosses chatear a tua mãe?» O resultado não se fez esperar. Ouvi um berro: «A minha mãe não é para aqui chamada». E ainda mais outro: «A minha mãe não é para aqui chamada, ouviste?»
 
Sim, eu tinha ouvido, muito bem. Claro, a mãe do indivíduo não era para ali chamada, mas a mãe dos meus filhos podia ser incomodada, às horas do seu descanso, por um qualquer fulaninho. Nunca mais o atrevido se atreveu a importunar-me.
 
Uma vez mais, pude comprovar que a mãe, as filhas, as irmãs e a mulher dos outros, podem ser ridicularizadas, desrespeitadas, difamadas ou incomodadas que não tem qualquer importância, porém, quando viramos o bico ao prego, cai o Carmo e a Trindade!
 
***
 
A mulher nem é superior nem inferior ao homem. Socialmente, moralmente, intelectualmente. Apenas diferem fisicamente. Então, por que faltará coragem à mulher para agir de forma a não se deixar inferiorizar pelo homem?
 
Outro dia, em conversa com certo cavalheiro já de avançada idade, que me mostrava fotografias de umas “beldades” da sua época, comentou com um ar deleitado: «Isto é que são mulheres!» E eu respondi: «Sim, isto é que são mulheres, mas vocês não as escolhem para casar
 
«Claro que não! Os “bibelots”, os objectos de adorno, as jóias servem apenas para enfeitar a nossa vida. Nada mais!» Resposta pronta do cavalheiro.
 
Que conceito fazem os homens da mulher?
Diz-me: «A culpa é dela. Ela é que gosta de se mostrar, de ser fútil, de ser objecto, “bibelot”!...»
 
***
 
Já é tempo de a mulher se libertar verdadeiramente, não se deixando ridicularizar, como se deixa, quando se pavoneia diante do homem, que apenas a vê como um alfinete de gravata, incrustado de diamantes.
 
Usar e abusar da mulher é coisa fora de moda.
A mulher deve apresentar-se tal como uma musa que inspira o poeta: sensata, sensível, feminina, misteriosa, bela no seu recato… mas a bater o pé quando é preciso!
 
 
 

 

 

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 19:58

link do post | Comentar | Ver comentários (2) | Adicionar aos favoritos
Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

NA OUTRA MARGEM DO SONHO…

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
 
 
 Eles sonham com campos em flor.
Sonham com trabalho.
Sonham com uma vida vivida em Paz.
 
Eles acreditam nos homens. Esperam um milagre. Eles tentam compreender o desequilíbrio dos mais fortes. A loucura dos que governam.
 
Nos tempos livres, eles fazem poemas como este:
 
À força de nos fazerem acreditar no Sol,
sentimos o seu calor nas nossas peles.
À força de nos impingirem mais um dia,
cremos que somos mais adultos.
À força de nos provocarem
sentimos a força do palavrão a defender-nos.
À força de nos ignorarem
precisamos de agredir para sermos ouvidos.
À força de nos calarem tantos sonhos
acreditamos na impossibilidade de viver.
À força de tanta fraqueza,
somo incapazes de subir alto, ao alto de nós,
para gritarmos que sonhar
é o primeiro passo para a partida…
 
***
 
Em dias de tempestade, eles escrevem prosa como esta:
 
Arrefeceu de repente. E eu não sei porquê. O som mudou. As cores mudaram. As flores murcharam, apesar do tempo primaveril. Porquê?... Não sei!
 
E é esta ignorância que me magoa. Que me maltrata. Quando as coisas não correm bem, ficamos esquecidos na prateleira. É como se Deus se esquecesse de abrir as janelas do Céu para deixar entrar o Sol.
 
 O mundo parou de girar, só porque não compreendo os dias, os momentos sombrios, carregados de uma agressividade que transforma as palavras em algo que fere, que abre chagas e deixa cicatrizes.
 
Hoje a indiferença arrefeceu o meu Sol. Não pude sorrir e tudo se transformou, de repente. Que vontade de desistir! Entrei em seara alheia. Roubei as melhores espigas e, nesse acto, transformei-me em joio. E ali fiquei. Pregada ao solo por fortes raízes. Mas de que adianta, se sou apenas joio?
 
Se pelo menos esta tempestade me arrancasse as raízes e me transformasse novamente em espiga loira, no meu próprio campo!
 
Mas a tempestade não é demasiado forte. Preciso de ir buscar forças ao inferno para que a minha metamorfose seja possível. Porque sei que a força dos anjos não será suficiente para fazer mover a minha vida.
 
 
***
 
Eles são jovens.
Vivem na outra margem do sonho.
 
publicado por Isabel A. Ferreira às 11:51

link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Mais sobre mim

Pesquisar neste blog

 

Dezembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

ANTÓNIO COSTA - O “TATICI...

PARABÉNS FUNCHAL!

SODA CÁUSTICA OU AS CRÓNI...

GRUPO EDITORIAL LEYA VEND...

NEM OS HOMENS DAS CAVERNA...

OUVI DIZER QUE ANGRA DO H...

CONTRA A CRUELDADE DA TOU...

A ANEDOTA DE FIM-DE-ANO –...

TOURADAS E FADO – 125 ANO...

SANGUE DE ÉGUAS PRENHAS E...

Arquivos

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Direitos

© Todos os direitos reservados
RSS

ACORDO ORTOGRÁFICO

EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA, A AUTORA DESTE BLOGUE NÃO ADOPTA O “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990, DEVIDO A ESTE SER INCONSTITUCIONAL, LINGUISTICAMENTE INCONSISTENTE, ESTRUTURALMENTE INCONGRUENTE, PARA ALÉM DE, COMPROVADAMENTE, SER CAUSA DE UMA CRESCENTE E PERNICIOSA ILITERACIA EM PUBLICAÇÕES OFICIAIS E PRIVADAS, NAS ESCOLAS, NOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, NA POPULAÇÃO EM GERAL E ESTAR A CRIAR UMA GERAÇÃO DE ANALFABETOS.

BLOGUES

O Lugar da Língua Portuguesahttps://blogcontraatauromaquia.wordpress.comhttp://mgranti-touradas.blogspot.pt/https://protouro.wordpress.comhttps://protouro.wordpress.comhttp://animasentiens.com/http://www.matportugal.blogspot.pt

CONTACTO

isabelferreira@net.sapo.pt