Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

A CARTA DO GRANDE CHEFE SEATTLE

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
 
 (A única fotografia conhecida do Chefe Seattle, tirada em 1860)
 
 
 
O MAIS BELO HINO DE AMOR À NATUREZA
 
 
O Chefe Seattle, que viveu entre 1786 e 1866, era o líder das tribos Duwamish e Suquamish, que viviam no território do que hoje é o Estado de Washington, nos Estados Unidos da América.
 
Ele era um indígena, com certeza, o mais inteligente entre o seu povo, para lhe ter sido concedida a honra (naquele tempo os Homens ainda tinham honra) de dirigir os destinos das suas tribos.
 
Seattle não estudou na universidade dos homens, no entanto era daqueles que via para além do visível. Era um Homem que pensava com todos os seus sentidos e sentia com toda a sua razão.
 
Para ele, a ignorância do homem branco era incompreensível: por que exterminaria os búfalos? Por que domaria os cavalos selvagens? Por que encheria os locais recônditos das florestas com a respiração de tantos homens? Por que mancharia a paisagem exuberante das colinas com fios falantes? Onde estava o matagal? Onde estava a água?
 
Na verdade, a vida para um ser pensante é algo de muito sagrado, de muito autêntico, de muito natural; é algo que faz parte integrante da harmonia e do equilíbrio cósmicos, mistérios apenas compreensíveis aos grandes espíritos.
 
O Chefe Seattle era um desses grandes espíritos. Um indígena cuja universidade foi a sua própria inteligência, a sua intuição de ser humano, a sua percepção de um mundo do qual ele era parte integrante, e tudo o que se fizesse de mal contra esse mundo, destruiria o próprio homem.
 
Naquela época, o governo americano, presidido por Franklin Pierce, 14.º presidente dos EUA, considerado um dos piores presidentes da história deste país, teve a intenção de comprar o território pertencente àquelas tribos.
 
Em 1854, o Chefe Seattle dirigiu-lhe, então, as palavras que aqui transcrevo, consideradas o mais belo hino de amor à Natureza, de uma lucidez rara, para quem se dizia apenas um selvagem que nada compreende. Porém, apenas um “selvagem” teria esta percepção da Vida.
 
 E porque a carta é de uma actualidade perturbadora, eis o seu conteúdo:
 
 
O grande chefe de Washington mandou dizer que desejava comprar a nossa terra, e assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil da sua parte, até porque sabemos que ele não precisa da nossa amizade.
 
Vamos, porém, pensar na sua oferta, pois se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que os nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano.
 
A minha palavra é como as estrelas: não empalidecem.
 
Como podeis comprar ou vender o céu ou o calor da terra? Tal ideia é-nos estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou da refulgência da água, como podeis então comprá-los? Cada quinhão desta terra é sagrado para o meu povo; cada folha radiosa de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e insecto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do pele-vermelha.
 
O homem branco esquece a sua terra natal, quando, depois de morrer, vagueia por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta terra formosa, pois ela é a mãe do pele-vermelha. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos. Os cumes rochosos, os eflúvios da planície, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem, todos pertencem à mesma família.
 
Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar a nossa terra, ele exige muito de nós. O grande chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar onde possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar a vossa oferta de comprar a nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.
 
Esta água cristalina que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas também o sangue dos nossos ancestrais. Se vos vendermos a terra, tereis de vos lembrar que ela é sagrada e tereis de ensinar aos vossos filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os feitos e as recordações da vida do meu povo. O rumorejar da água é a voz do pai do meu pai. Os rios são nossos irmãos, eles apagam a nossa sede. Os rios transportam as nossas canoas e alimentam os nossos filhos. Se vos vendermos a nossa terra, tereis de vos lembrar e ensinar aos vossos filhos que os rios são irmãos nossos e vossos, e tereis de conceder aos rios o afecto que daríeis a um irmão.
 
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um quinhão de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é vossa irmã, mas sim vossa inimiga, e depois de a conquistar, partis, indiferentes, deixando para trás os túmulos dos vossos antepassados. Arrebatais a terra das mãos dos vossos filhos e não vos importais. Esquecidos ficam as sepulturas dos vossos antepassados e o direito dos vossos filhos à herança. Vós tratais a vossa mãe (a terra) e o vosso irmão (o céu) como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelhas ou missangas resplandecentes. A vossa voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.
 
Não sei. Os nossos costumes diferem dos vossos. A visão das vossas cidades causa tormento aos olhos do pele-vermelha. Mas talvez tal aconteça por ser o pele-vermelha um selvagem, que nada compreende.
 
Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há um lugar onde possa ouvir-se o desabrochar da folhagem na Primavera ou o vibrar das asas de um insecto. Mas talvez assim seja por eu ser um selvagem que nada compreende; o ruído parece apenas insultar os ouvidos. E que vida será a de um homem que não pode ouvir a voz solitária do curiango ou, à noite, a conversa dos sapos em volta de um pantanal? Sou um pele-vermelha e nada compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento a pairar sobre uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou rescendendo a pinheiro.
 
O ar é precioso para o pele-vermelha, porque todas as criaturas o partilham: os animais, as árvores, o homem.
O homem branco parece não compreender o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se vos vendermos a nossa terra, tereis de vos lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha o seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se vos vendermos a nossa terra, devereis mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, cingido pela fragrância das flores campestres.
 
Desse modo, vamos, pois, considerar a vossa oferta para comprar a nossa terra. Se decidirmos aceitar, colocarei uma condição: o homem branco deverá tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.
 
Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de búfalos apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branc, que os abate a tiros disparados do comboio em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o búfalo que nós, os índios, matamos apenas para nos alimentarmos.
 
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.
 
Deveis ensinar aos vossos filhos que o chão que pisamos são as cinzas dos nossos antepassados. Para que tenham respeito pelo país, contai aos vossos filhos que a riqueza da terra é a vida da nossa família. Ensinai aos vossos filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é a nossa mãe. Tudo quanto fere a terra, fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.
 
De uma coisa sabemos: a terra não pertence ao homem, é o homem que pertence à terra. Disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a teia da vida: ele é meramente um fio dessa mesma teia. Tudo o que ele fizer à teia, a si próprio o fará.
 
Os nossos filhos viram os seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo ociosamente, envenenando o corpo com alimentos adocicados e bebidas embriagantes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias, eles não serão muitos. Mais algumas horas, menos uns Invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
 
Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos os sonhos do homem branco; se soubéssemos quais as esperanças que transmite aos seus filhos, nas longas noites de Inverno; quais as visões do futuro que oferece às suas mentes, para que possam formular desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós um enigma, e por serem um enigma, temos de escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez possamos viver os nossos últimos dias conforme os nossos desejos. Depois que o último pele-vermelha tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar sobre as pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe.
 
Se vos vendermos a nossa terra, amai-a como nós a amamos. Protegei-a como nós a protegemos. Nunca esqueçais de como era esta terra quando dela tomastes posse. E com toda a vossa força, o vosso poder e todo o vosso coração, conservai-a para os vossos filhos, e amai-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, e esta terra é por Ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar este nosso destino comum.
 
Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode evitar este destino comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Vamos ver. De uma coisa sabemos, e talvez o homem branco venha, um dia, a descobrir também: o nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgueis, agora, que O podeis possuir do mesmo modo que desejais possuir a nossa terra. Mas não podeis. Ele é Deus da Humanidade inteira, e a Sua piedade é igual para com o pele-vermelha como para o homem branco. Esta terra é amada por Ele, e causar dano à terra é desprezar o Seu criador. Os brancos vão também acabar; talvez mais cedo do que todas as outras raças. Continuais a poluir a vossa cama e haveis de morrer uma noite, sufocados pelos vossos próprios desejos.
 
Porém, ao perecerem, vós outros caminhais para a vossa destruição rodeados de glória, inspirados pela força de Deus que vos trouxe a esta terra e que, por algum especial desígnio, vos deu o domínio sobre ela e sobre o pele-vermelha. Esse desígnio é para nós um mistério, pois não entendemos por que exterminam os búfalos, domam os cavalos selvagens, enchem os locais recônditos das florestas com a respiração de tantos homens, e mancham a paisagem exuberante das colinas com fios falantes. Onde está o matagal? Destruído. Onde está a água? A desaparecer. Restará dizer adeus às andorinhas e aos animais da floresta.
 
Este é o fim da vida e o começo da luta pela sobrevivência.
 
***
 
A maioria do território das tribos do Chefe Seattle foi adquirida através da assinatura do Tratado de Point Elliot. Estes povos ficaram confinados à  Reserva Indígena de Port Madison.
publicado por Isabel A. Ferreira às 11:51

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Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

O MEU CÂNTICO AOS SÁBIOS

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
 
 
 
E o que parece impossível acontecerá tão naturalmente como a água brota
da sua nascente…
 
 
 
 
Não prestes atenção ao descontentamento e ele calar-se-á e deixará que tu cantes...
 
(James Whitecom Rilley (1849-1916), poeta norte-americano)
 
Esta manhã, as sombras cobrem o jardim e a chuva molha os telhados. Algo tolda o meu espírito, pois reflectindo sobre a estupidez humana que está a aniquilar o nosso mundo, concluí, tal como André Maurois (1885-1967)romancista e ensaístafrancês) que essa estupidez não tem limite.
 
Disse-o também, certa vez, Renan (1823-1892), historiador e filósofo francês, que só a estupidez humana pode dar-nos uma noção do infinito.
 
Tal reconhecimento entristeceu-me.
Decidi então preencher estes momentos melancólicos, percorrendo os pensamentos de gente sábia e célebre (coleccioná-los é um dos meus mais dilectos passatempos), o que, para mim, constitui um autêntico bálsamo para a alma, compensando, desse modo, toda a decepção que tal reconhecimento me provoca.
 
Dedico-lhes (aos sábios), pois, estas palavras em forma de cântico, para que os homens maus, que são tanto piores quanto mais tentam passar-se por “santos”, possam aperceber-se (se é que têm capacidade para tal) que a vingança é sempre o vil prazer de um cérebro minúsculo, como afirmou Juvenal, poeta satírico latino, que viveu entre 60 e 140 d.C..
 
***
 
Tenho mais medo de três jornais do que de cem mil baionetas…
Esta frase proferiu-a Napoleão Bonaparte (1769-1821), general nascido em Itália, que chegou a imperador de França e dominou um vasto império.
 
Já naquela época, o todo poderoso Napoleão temia a força do hoje denominado 4º Poder, mais do que os golpes de cem mil baionetas, e disso não fazia segredo.
 
Se um temível general, considerado um dos maiores estrategas da História da Humanidade, tremia diante de umas simples folhas de papel impresso, por que não hão-de os homens comuns temerem as palavras que se escrevem e aquelas que ainda estão por escrever, nos jornais de hoje, e que não nos merecem credibilidade porque excessivamente politizadas?
 
***
 
Conhecer os pensamentos dos Homens privilegiados pela Sabedoria, tem a virtude de nos fazer reflectir sobre os homenzinhos de cérebro minúsculo e a Vida. Dá-nos a oportunidade de não prestarmos atenção ao nosso descontentamento, obrigando-o a calar-se, deixando-nos o prazer de cantar.
 
Continuemos, pois, a dissecar pensamentos.
Certa vez, novamente Napoleão, o destemível general, disse que impossível é uma palavra que só existe no dicionário dos idiotas. Pessoalmente não gosto da palavra idiota. Prefiro o termo estúpido. E quem não é estúpido não se detém diante das ameaças e das caras feias dos homens de cérebro minúsculo. E o que parece impossível acontecerá tão naturalmente como a água brota da sua nascente.
 
Sir Winston Churchil (1874-1965), singular estadista britânico e um dos cérebros que levaram à derrota dos alemães na II Guerra Mundial, disse um dia que a coragem é a primeira das virtudes humanas, porque é ela que garante todas as outras. E a coragem de uma mulher, por exemplo, vê-se no modo como ela enfrenta, com humor e sagacidade os golpes baixos dos machos (não disse homens) que não têm a noção do ridículo.
 
Porque os homens só serão grandes se estiverem realmente decididos a sê-lo (os homens e as mulheres, naturalmente). Palavras de Charles De Gaulle (1890-1970), general e estadista francês, que também ficou na História como um grande militar, não só em estatura como nas suas tácticas.
 
 
SOBRE A VERDADE
 
 
A Verdade é a fórmula da alma – Virgílio, poeta italiano (70-19 a.C.).
 
A não-violência e a Verdade são inseparáveis e pressupõem-se mutuamente. Não existe Deus maior do que a Verdade – Mahatma Gandhi (1869-1948), patriota, político pacifista e pensador indiano.
 
A repetição não transforma uma mentira numa verdade – Franklin Roosevelt (1882-1945), presidente norte-americano.
 
A Verdade é a coisa mais valiosa que possuímos. Economizemo-la Mark Twain (1835-1910), escritor norte-americano.
 
Se te propuseres a descrever a Verdade, trata de deixar a elegância por conta do alfaiate – Albert Einstein (1879-1955), físico alemão, naturalizado suíço.
 
Era a este último pensamento que eu queria chegar. Na realidade, naquilo que me diz respeito, quando me proponho a dizer uma verdade que possa não agradar a ilustres estultos, deixo, de facto, a elegância por conta do alfaiate. De outro modo, como poderia ser entendida por eles?...
 
***
 
Ninguém é suficientemente rico que possa comprar o passado, assegurou Oscar Wilde (1854-1900), escritor britânico, de origem irlandesa).
 
Eu digo: ninguém é suficientemente rico que possa comprar a educação, a dignidade, o bom carácter…
 
O que define a educação de um homem ou de uma mulher é o modo como se comportam quando se guerreiam – George Bernard Shaw (1856-1950), escritor britânico de origem irlandesa.
 
Os bem-educados usam jogo limpo. Os mal-educados servem-se de jogos sujos e desprezíveis para derrubar o outro. Por isso, já lá dizia Séneca (4 a.C. – 65 d.C.), tribuno romano que o Sol também brilha para os perversos.
 
Porém, não poderá brilhar para sempre, porque Deus suporta os maus mas não eternamente, como considera Miguel de Cervantes (1547-1616), escritor espanhol e um dos maiores da literatura europeia.
 
A maldição comum da Humanidade é a loucura e a ignorância, afirmou William Shakespeare (1564-1616), dramaturgo inglês. Na verdade, vivemos cercados de loucos e ignorantes, por toda a parte, daí que só os mais pequenos (não em estatura, entenda-se, mas os tais de cérebro minúsculo) precisem de se colocar em bicos de pés para serem vistos – Denis Diderot (1713-1784), escritor e filósofo francês. Por isso, vemos certas pessoas, que todos nós conhecemos bem, a manquelitar pelas vielas, em altas tamancas!
 
***
 
John F. Kennedy (1917/1963), presidente norte-americano cobardemente assassinado, precisamente porque era um daqueles homens que não necessitava de pôr-se em bicos de pés para ser visto, dizia que o conformismo é o carcereiro da Liberdade e o inimigo do Progresso. Pura verdade. Pessoalmente, vivo inconformada, entre outras coisas, com a grande mentira em que se transformou o nosso mundo.
 
Para terminar este meu Cântico aos Sábios, citarei ainda Confúcio, o meu filósofo de eleição, um chinês que viveu entre 551-479 a.C.. Dizia Confúcio que a nossa maior glória não reside no facto de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda. E dizia igualmente que saber o que é certo e não o fazer é a pior das cobardias, por isso, me atrevi a escrever esta crónica, para que os homens maus, que são tanto piores quanto mais tentam passar-se por “santos”, saibam que a torpeza de espírito é apanágio dos estúpidos.
 
 
publicado por Isabel A. Ferreira às 15:41

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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

INDIFERENÇA...

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2008
 
 
 
 
Se não reparas na flor do caminho, não mereces
a sua beleza…
 
 
O vento passa ligeiro. Os rios correm tranquilos, serpenteando por entre o verde da planície. A flor desabrocha na serra. A lua enfeita de prata as águas do mar. O Sol doira o trigo das searas. A andorinha faz o seu ninho no beiral da casa, onde algumas papoilas dão colorido ao telhado.
 
E tu nem reparas.
 
Lá longe, de onde vêm estranhos ecos, os ventos em fúria arrancam as árvores. As águas jorram dos céus e inundam aldeias. Os vulcões vomitam o fogo que queima as entranhas da terra. Seres humanos morrem de fome e de sede. Doentes. E a ajuda não chega.
 
E tu nem reparas.
 
Nas noites em que os lobos se calam, ouvem-se gritos desesperados. Cabeças humanas rolam pelo chão. O sangue dos Homens mistura-se com a água dos rios e os campos enchem-se de papoilas tão vermelhas como o sangue que escorre das cabeças decapitadas.
 
E tu nem reparas.
 
Fumos negros de um progresso retrógrado escurecem os céus das cidades. Matam as aves do paraíso. Fazem murchar o arvoredo. Dizimam os bosques. E pelo buraco de ozono chegam até nós os elementos que hão-de transformar a Terra num planeta tão inóspito e deserto quanto Marte.
 
E tu nem reparas.
 
Os pássaros do jardim deixaram de cantar, porque já não há jardim. A música do vento deixou-se de ouvir, porque o grito dos loucos soou mais alto. A sombra das árvores foi substituída pelos fantasmas do betão. E as flores deram lugar às latas.
 
E tu nem reparas.
 
A guerra instalou-se. O riso da criança transformou-se em choro. A mãe desesperada lançou ao rio o filho que não podia carregar na fuga. As lágrimas secaram. Secaram os campos. Os rios e as fontes. O elefante retirou-se para morrer só, numa gruta recôndita. E o cisne cantou o seu último canto.
 
E tu não choraste.
 
Tu não reparas na beleza das coisas, nem no desfazer dos sonhos. Não rejubilas. Não gritas. Não te revoltas. Não dizes nada. Limitas-te a comer a tua maçã, à sombra do que resta da tua própria sombra. E sorris. E gritas: «Não fui eu que fiz mal ao mundo. Não sou vento, nem chuva, nem vulcão. Não sou fumo. Não sou governante, não corto cabeças...».
 
É apenas o que te convém dizer, para justificares a tua indiferença?
 
Mas se não reparas na flor do caminho, não mereces a sua beleza.
 
 
in Manual de Civilidade
 
Este livro pode ser adquirido através do e-mail:
 isabelferreira@net.sapo.pt
publicado por Isabel A. Ferreira às 18:47

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Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

AO AMANHECER DE UM NOVO ANO…

 

 

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2008
 
 
 
 
Encontro-me só, na minha sala-de-estar, junto à janela, a saborear uma chávena de café quente, enquanto ouço o silêncio, perturbado apenas pelo monótono tic-tac do relógio, que me dá a percepção do passar do tempo… Lá fora, a chuva molha a estrada.
 
Nunca me senti tão lúcida, tão consciente da minha própria existência, tão profundamente empenhada em aproveitar todos os momentos que a vida terá, com certeza, reservado para mim. Nunca estive tão decidida a vencer (não sei o quê ainda)…
 
Não! Não é manhã para prantos ou tristezas. Não seria justo. É dia sim, de acolher com um sorriso o amanhecer deste Novo Ano.
 
O silêncio e a paz deste momento fazem-me recordar um outro alvorecer nostálgico e cinzento, naquele primeiro dia do ano de 1970, quando me encontrava não numa sala-de-estar, mas percorrendo as ruas estreitas e ainda desertas de Coimbra, saboreando, não uma chávena de café quente, mas o harmonioso silêncio que saudava aquela manhã…
 
Subi então o Quebra-Costas, sem rumo definido. Fui caminhando apenas, e eis-me diante da Sé Nova. Decidi entrar. Fazia-o sempre que me encontrava sem rumo. Procurava a solidão e o silêncio do templo para me reencontrar.
 
Naquela manhã cinzenta do primeiro dia do ano de 1970, porém, nem tudo era silêncio na Sé. Ouvia-se o som melódico do órgão que um jovem músico dedilhava com suavidade. Sentei-me para ouvi-lo tocar e deu-se o inevitável encontro: eu e a música. E sempre que isso acontece, algo de estranho se passa em mim. Foi então que, envolvida pelos acordes mágicos de um cântico litúrgico, fiz uma reflexão que representou uma nova maneira de estar no mundo.
 
Por circunstâncias várias, encontrava-me só e triste, naquela manhã. Mas que direito teria eu à minha tristeza se havia tanta miséria espalhada à minha volta? Que motivos seriam os meus? Ter amanhecido com o Novo Ano sem qualquer esperança no futuro? Só isso?... E a fome? A doença? As tragédias? A guerra, que atingia directamente tantos seres humanos, mas não a mim?
 
Todos os dias, encontrava nas ruas, nos cafés, nos eléctricos, em toda a parte, gente que precisava de um sorriso, de uma palavra, de um gesto de amizade e de compreensão. E se eu sorrisse, falasse ou compreendesse essas pessoas não estaria a contribuir, de algum modo, para amenizar essas carências? Talvez! Mas não seria tudo. A natureza humana é muito, muito estranha e, ainda que entre sorrisos e palavras de conforto, somos capazes de nos sentirmos abandonados.
 
Que direito teria eu então à minha tristeza? Eu, que podia ver o Sol; que partilhava a mesma natureza do Universo; que tinha pais; que não sentia fome, nem sede, nem frio; que era física e mentalmente sã, porque não estava doente, tinha consciência do que fazia, possuía o dom do discernimento.
 
Que teria eu a menos do que aquela pobre mulher esfarrapada que, segurando um filho nos braços, todos os dias, à mesma hora e na mesma esquina, pedia esmola para poder alimentá-lo? Não seria eu mais privilegiada? Claro que era! E uma lágrima caída dos meus olhos seria um verdadeiro sacrilégio, porque a lágrima é o refúgio dos que sentem na carne a dureza da vida. Eu não tinha o direito de chorar com pena de mim, porque outros chorariam por mim. Tinha sim, o dever de sorrir, de transmitir coragem, de espalhar alegria entre aqueles que não a tinham…
 
Esta foi a minha reflexão naquela manhã monótona e cinzenta do 1º dia do ano de 1970, quando, sentada num dos bancos no interior da Sé, ouvia os acordes de um cântico litúrgico, executado ao órgão por um jovem músico.
 
Quando abandonei o templo, espalhei sorrisos pela baixa coimbrã. Foi a maneira que encontrei para desejar um feliz Ano Novo às pessoas que por mim passavam na rua. Talvez me tivessem tomado por “louca”. Se sorrimos quando tudo à nossa volta é tumulto, é revolta, é vazio, é ódio, é violência, é tragédia, chamam-nos “loucos”, porque não compreendem que um sorriso é a arma dos inocentes, faz parte do lado bom da vida e é o íman que poderá atrair os menos felizes para fora do fosso profundo onde se encontram. Mas talvez, por ser apenas um sorriso, não tenha a força necessária para magnetizar os seres humanos…
 
 
Acabo de saborear a minha chávena de café quente. Continuo a ouvir o silêncio, perturbado apenas pelo monótono tic-tac do relógio.
 
Esta manhã recuei no tempo e recordei uma outra manhã…
Diz-se que “recordar é viver”, sim, porém, sobretudo, é saber vencer as dificuldades e sorrir. Sorrir constantemente… ainda que um tímido sorriso.
E é exactamente com um tímido sorriso que me entrego ao amanhecer deste Novo Ano, deixando para trás os dias trágicos que o ano de 2008 proporcionou ao mundo…
publicado por Isabel A. Ferreira às 15:20

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