Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

ÉTICA, DIREITOS E VALORES HUMANOS

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2008
 
 
 
 
 

 

Quando me convidaram para fazer uma palestra sobre Ética, Direitos e Valores Humanos, numa Escola Secundária, não tive como não aceitar, uma vez que um dia ousei escrever um Manual de Civilidade, onde abordei esses temas, se bem que sob um ponto de vista muito pessoal, baseado mais na minha observação de comportamentos humanos ao longo de muitos anos, do que propriamente no saber livresco.
 
Depois de formulado o convite, pensei: como pude aceitar tal incumbência, eu que não sou propriamente especialista nestes temas? Eu, que sou apenas uma criatura que se interessa pelas coisas humanas? Porém, uma vez dada a palavra, repensei: qual a melhor forma de abordar o tema da Ética, dos Direitos Humanos e dos Valores Humanos para uma plateia de professores e alunos que, com certeza, já leram nos livros tantas coisas sobre a matéria?
 
Pus-me então várias hipóteses.
 
Poderia dissertar sobre a ética e os valores humanos ao longo dos tempos, que obviamente não foram sempre os mesmos desde os primórdios das sociedades organizadas, dependendo essa ética e esses valores, dos humores, mais ou menos sensíveis, humanitários e compassivos, dos poderosos de cada época, porque concordemos ou não concordemos, temos de admitir que a vida do homem e do planeta sempre girou à volta das vontades, boas ou más, daqueles que nos governam.
 
Ou poderia fazer um discurso erudito tanto quanto pretensioso, e citar os dizeres, os saberes e os pareceres dos grandes filósofos, mestres e pensadores, que estudaram em profundidade estas questões, correndo o risco de dizer o que todos já disseram.
 
Ou poderia ainda apresentar um historial desde os tempos do animal humano das cavernas, cuja ética e valores seriam os da sobrevivência imediata, a que vai da mão para a boca, numa tentativa de partilhar o mundo com os animais não humanos, aproveitando, paralelamente, a generosidade da Natureza, nessa altura ainda exuberante, límpida, despoluída e fértil em todas as coisas, estendendo esse historial até à nossa era, à era das armas biológicas, químicas e nucleares, onde a sobrevivência do planeta está na ponta dos dedos de pouco mais de meia dúzia de poderosos, apesar de loucos, cuja ética assenta mais no conceito do destruir do que no do construir.
 
Poderia, por outro lado, abordar a ética nos seus múltiplos aspectos, envolvendo todos os actos humanos, quer a nível das profissões (todas as profissões e cada uma em particular têm a sua própria ética, embora nos tempos que correm essa ética tenha sido atirada ao caixote do lixo, e é o que se vê – cada um por si e ninguém por todos), ou a nível de todas as posturas do homem perante a vida e a sociedade, perante si e o outro, nosso semelhante, e ainda o outro, o nosso dissemelhante mas companheiro na aventura da existência (refiro-me às plantas e aos animais não humanos – não gosto de me referir a estes como irracionais, porque entre os animais ditos humanos, conheço muitíssimos que são, esses sim, animais completamente irracionais, e não é da minha ética misturar os conceitos).
 
Coloquei igualmente a hipótese de abordar os temas da actualidade que interferem com a ética do mais precioso valor humano: a vida, analisando as questões da manipulação genética das espécies animais e vegetais, da clonagem, do aborto, da eutanásia, que dava muito pano para mangas, e por muito que disséssemos e desdisséssemos, nunca chegaríamos a um consenso, pois cada cabeça, sua sentença. Se bem que a minha atitude perante todas as questões que impliquem a vida, a humana e a não humana, é aceitar o que é natural e repudiar as manipulações, quaisquer que sejam, porque mais tarde ou mais cedo, a própria Natureza encarrega-se de colocar as coisas no exacto lugar ao qual sempre pertenceram. É ela que tem a última palavra. Não o homem manipulador. Sobre isto, poderia dar muitos exemplos, mas podemos ficar-nos pelo das vacas loucas e dos animais que são criados à base de hormonas, que os seres humanos ingerem, transformando-se eles próprios em carne tão balofa como toda essa criação.
 
Já reflectiram por que é que uma criança, hoje, de onze/doze anos é quase tão alta como os pais, quando não os ultrapassam? Por que crescem tão aceleradamente ou ficam obesas? Há estudiosos que dizem ser por causa das carnes injectadas de hormonas, e há crianças que só comem carne e gorduras de animais e tudo o que faz mal, mas não é proibido vender: o que faz crescer os animais faz crescer também os humanos, dizem os entendidos. E assim, por este andar, qualquer dia, num futuro não muito longínquo, teremos uma população gigante, mas muito, muito balofa, e pouco, pouco saudável. Mas tal perspectiva não impede quem de direito de proibir tais desmandos.
 
Poderia também falar dos valores no mundo contemporâneo que se diz estarem em crise. Mas os valores de todos os mundos antes do nosso, sempre estiveram em crise. Enquanto existirem homens, os valores humanos sempre estarão em crise. Jamais nenhuma geração esteve satisfeita com o seu procedimento ou com os seus valores. Sempre houve alguma coisa que se deixou por fazer. Muitas lutas que se deixaram a meio, e que as gerações seguintes retomaram, e que também não completaram. E assim, sucessivamente.
 
O que ontem foi, hoje já não é, mas amanhã poderá ser novamente, para tornar a não ser no dia seguinte. É que o mundo parece avançar, mas por cada três passos que o homem dá para a frente, recua cinco passos, e o que pensamos ser progresso, na realidade, é retrocesso. Nunca como hoje, a vida no planeta esteve tão ameaçada, apesar de toda a tecnologia de ponta que o homem se gaba de ter inventado; mas é precisamente devido a essa tecnologia que o mundo está à beira de um imenso abismo, e, dizem os cientistas, mais do que aquilo que possamos imaginar.
 
Porém, em vez de prevalecer o bom senso e procedimentos racionais e inteligentes, temos os valores económicos a falar mais alto, em quase todos os campos. Nenhum país altamente industrializado está preocupado com o planeta, e muito menos interessado em salvá-lo. Primeiro estão os bolsos dos que comandam as economias mundiais. E depois, lá muito depois, é que talvez possa ter-se em conta o buraco de ozono, a poluição, as éticas e os valores humanos e outras coisas que tais. Só que quem assim pensa, não é suficientemente inteligente para considerar que ser rico não serve para nada, a sete palmos debaixo de uma terra seca e destruída.
 
Poderia ainda falar dos Direitos do Homem, tão profanados nos países governados por ditadores, mas também nas democracias, apesar de se dizerem Democracias e Estados de Direito. Contudo, falar dos Direitos do Homem é falar de um assunto já muito gasto, tão gasto que quase já não faz sentido. Talvez seja chegado o momento de inverter os discursos e falar nos tão esquecidos deveres e obrigações dos cidadãos. É que ao que vemos, parece que toda a gente tem todos os direitos do mundo, mas nenhuns deveres. Nenhumas obrigações.
 
Depois de ter considerado todas estas hipóteses, concluí: tudo isto, todos já sabem, já leram, já ouviram, já viram. O que me resta então dizer, para acrescentar algo de novo a um tema velho? Não encontrei nada de especial. Já tudo foi dito; já tudo foi estudado; já tudo foi repetido, vezes sem conta. Mas então o que dizer? Lembrei-me: e se aproveitasse alguns rasgos da minha experiência pessoal? Aqueles que vivi ao longo de vinte anos de prática de jornalismo de intervenção e de investigação, que me pôs diante dos homens, na sua mais profunda nudez de alma, e onde lidei com valores e desvalores, com direitos e violações de direitos, com abusos de poder, corrupção e corruptos, com a falta de ética, no seu mais alto grau, mas também com a enorme capacidade do ser humano de ultrapassar as impossibilidades, as improbabilidades, as dificuldades e recriar-se, sobrevivendo num mundo feito à medida da demência dos poderosos, sustentada pela insanidade dos povos que mantém esses poderosos no poder: por vontade? por medo? por ignorância? Um pouco por tudo isto e por algo mais. Veja-se o caso de Adolf Hitler no passado, e de Saddam Hussein, até há bem pouco tempo. Castradores dos valores e direitos humanos idolatrados por multidões. Não se culpe apenas os maus, porque maus são também aqueles que seguem esses maus, e os aplaudem.
 
Não se consegue esgotar nenhum assunto, e eu não tenho a pretensão de esgotar o tema que me propuseram. Tenho por hábito abordar as matérias pela rama, deixando espaço para a reflexão de quem me ouve ou de quem me lê. Do género: o que é que ela quis dizer com isto? Se forem como eu, têm pretexto para ficarem um dia inteiro a pensar, a investigar, a ler e a chegar a conclusões próprias.
 
Ora é esta a proposta que vos deixo.
 
Até aqui, aludindo àquilo que poderia ter dito e não disse, mas ficou nas entrelinhas, penso que já deixei alguns pontos para reflexão: que mundo, este o nosso? Que valores estes, os nossos? O que queremos fazer de nós? Que mundo queremos deixar aos nossos filhos? Tudo isso está na nossa capacidade, e quando digo nossa, digo na capacidade dos educadores (pais, encarregados de educação ou professores) em ensinar aos jovens a raciocinarem, mais do que a obrigá-los a empinar matérias. E uma das muitas maneiras é começar por fazer-lhes uma pergunta simples, do género: «Se desaprovas que cuspam no teu prato de sopa, deves cuspir no prato de sopa de quem contigo come à mesma mesa ou na mesa ao lado?»
 
Esta é uma sugestão que deixei no meu Manual de Civilidade, logo no primeiro capítulo intitulado: Primeira Noção: O Respeito, que vai desaguar no preceito: não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti. A esta noção voltarei um pouco lá mais adiante. É que ao colocar-se uma questão destas a um jovem, ele obrigar-se-á a um certo raciocínio, e a partir desse raciocínio poder-se-á fazer grandes voos no que respeita ao respeito a ter pelos outros seres, humanos e não humanos, pelos seus direitos, humanos e não humanos, e pelos valores intrínsecos ao homem.
 
A propósito, gostaria de rapidamente contar uma pequena curiosidade em relação ao Manual de Civilidade, onde, obviamente, não esgoto o tema da civilidade, ou do que eu penso ser civilidade, que implica uma ética do comportamento, o respeito pelos valores humanos, o cumprimento dos deveres e das obrigações de cada um, a exigência da observância dos nossos direitos, e a consideração a ter por todos os seres, nossos companheiros de existência no planeta.
 
Era uma tarde de domingo do mês de Fevereiro do ano 2000, e eu havia acabado de ler o livro Os Génios do Cristianismo – Histórias de profetas, de pecadores e de santos, do jornalista do Le Monde, Henri Tincq. A história das religiões, de qualquer religião, e o estudo das religiões comparadas foi sempre uma das minhas paixões, enquanto estudante de História. E a leitura deste livro, e particularmente a história dos nele denominados pecadores – os das guerras santas, os das fogueiras da Inquisição, os Papas e as suas vinganças, os do terror em nome de Deus (com paralelo hoje nos Bin Ladens que aterrorizam o mundo também em nome de Deus) e talvez por me encontrar, nessa altura, mais vulnerável às injustiças, porque havia sido vítima recente da arbitrariedade dos poderosos, revoltou-me relembrar que há homens que torturam homens em nome de valores que nada têm a ver com a nossa humanidade, e esta foi a gota de água que me fez concretizar a ideia que há muito vinha germinando dentro de mim: a de escrever um livro, onde abordasse a minha reflexão sobre o fenómeno humano da civilidade ou da falta dela, numa sociedade cada vez mais esvaziada de valores humanizados.
 
E, nessa mesma tarde, apontei num pedaço de papel os títulos daqueles que vieram a fazer parte dos capítulos do livro. Porém, antes de o publicar, dei o original a ler a um adolescente, tido como sobredotado. Ele aprovou o livro, mas disse-me, assim tal e qual: «Um livro destes tem de incluir os temas do sexo, do progresso e da modernidade. Sem eles isto fica incompleto». Meditei no que o jovem disse, e considerei. Na verdade o sexo tem a ver com direitos, deveres e ética. O progresso tem a ver com direitos, deveres e ética. A modernidade tem a ver com direitos, deveres e ética. O jovem tinha razão. Acrescentei-lhe esses três tópicos, e o livro continuou incompleto, mas não tão incompleto como anteriormente.
 
São pormenores como este que fazem as grandes diferenças entre as mentalidades. Penso que devemos ouvir as crianças e os adolescentes, conversar com eles sobre estes e outros assuntos, porque neles a questão da ética, dos direitos, dos deveres, das obrigações, dos valores, encontram-se no seu estado mais puro, sem os vícios, nem as imperfeições que os adultos, induzidos por um patético complexo de superioridade, introduzem no seu modo de pensar preconceituoso.
 
Ainda acerca do livro, tenho um outro rasgo de experiência, que penso ser interessante referir. Um dia, a directora de uma escola do ensino básico convidou-me para ir falar dos meus livros às crianças (eu na altura tinha apenas o Manual de Civilidade e A História Fantástica de Pepino). Mas antes, as professoras dessa escola adquiriram os livros para poderem trabalhar com os alunos, para estes saberem o que me perguntar, quando eu lá fosse falar com eles. Uma das professoras trabalhou então o conteúdo do Manual de Civilidade com uma turma do quarto ano, crianças dos seus 9/10 anos. Na altura da minha apresentação, estava diante de cerca de 30 crianças a fazer-me as mais diversas perguntas, sobejamente inteligentes, devo acrescentar. Uma delas marcou-me mais do que as outras, porque achei interessantíssima e oportuna: era um menino e perguntou-me: «Tu, que escreveste aquele livro, pões em prática tudo o que lá está escrito?»
 
Boa pergunta. E agora? O que responder?
 
Respondi-lhe então, o que devia responder: eu não sou perfeita; não sou uma super-mulher, mas claro que tento, na medida dos meus possíveis e da minha noção de humanidade, praticar tudo aquilo que escrevi com sentimento, de outro modo, não o escreveria, porque nunca poderia correr o risco que correm os políticos, que nos piscam um olho, como que a dizer: olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço. Não poderia ter escrito tudo o que escrevi naquele livro, se não acreditasse na minha filosofia e em mim própria. E este é o primeiro passo para a prática de uma ética comportamental. Devo respeitar-me primeiramente a mim, para ter condições de respeitar os outros.
 
Uma vez que falei nos políticos, a propósito, foi precisamente um político que me chamou a atenção para um pormenor comportamental que, à primeira vista, escapa à nossa análise. Ao entrevistá-lo sobre o direito que as populações têm de ver a sua cidade limpa de lixos, com contentores lavados, as ruas limpas, sem excrementos de cães; sobre o direito que o povo tem de ver realizadas as promessas que em tempo eleitoral são juramentadas com uma veemência muito persuasiva, o presidente da Câmara em questão disse-me: «Você vem aqui falar dos direitos do povo, mas... e os deveres do povo? O povo não terá o dever de cumprir as regras, as leis, as posturas camarárias? Há regras que devem ser cumpridas, como não deitar o lixo para as ruas, a qualquer hora do dia e fora dos contentores, limpar os excrementos dos seus animais, usando para tal os saquinhos espalhados pela cidade... etc., etc., etc. ...»
 
Na verdade o povo também tem deveres. E na maioria das vezes não os cumpre. Quando trata a direitos, aqui-del-rei que os têm todos e exigem-nos em grandes manifestações. Quando trata a deveres... o assunto muda de figura. Olha-se para o ar, como quem diz: «Isto não deve ser comigo…»
 
E daquela vez, talvez pela primeira vez, tive de dar razão àquele presidente da Câmara. Na verdade, nem sempre o que parece é.
 
Quando a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi proclamada, ninguém se lembrou de chamar a atenção para a questão dos deveres. Tal documento deveria chamar-se Declaração Universal dos Direitos e dos Deveres Humanos, porque para cada direito, há um dever correspondente, do qual o homem se esquece frequentemente, porque não é explicitamente citado. E o que está oculto, não é lembrado.
 
Tomemos por exemplo o artigo 9.º, que diz: «Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado». Ora a este direito corresponde o dever de: «Ninguém pode arbitrariamente prender, deter ou exilar alguém».
 
Chegada aqui, gostaria de contar um episódio dos mais interessantes que já vivi, nos meus anos de Jornalismo, e que tem a ver com o que acabo de dizer. Um dia estive detida arbitrariamente por breves 15 minutos, numa esquadra da polícia. Eu sabia que tinha o direito de não ser detida arbitrariamente, mas também sabia que o agente policial tinha o dever de não me deter arbitrariamente, por isso, solicitei-lhe que me facultasse uma determinada lei, que eu também tinha o direito de ver e ele tinha o dever de facultar. E isto tudo porque saí à rua em defesa de um trovador, que cantava às cinco horas da tarde, numa artéria comercial da cidade, de grande movimento.
 
Um policial que por ali passava, entendeu que ele estava a fazer barulho e a incomodar os comerciantes e os transeuntes. Ora o trovador era o francês, Jack Deska, que cantava, belíssimamente, Joe Dassin e Jacques Brell. Assobiava divinamente, e as pessoas rodeavam-no absolutamente rendidas à sua arte. Tal como eu. Mas o polícia entendeu que ele estava a fazer barulho na rua e a incomodar, e a lei diz que não se pode fazer barulho na rua, nem incomodar (mas, nessa altura, só a partir da meia-noite). Meti-me na história, porque a considerei absurda, e disse ao polícia que os músicos de rua existem em todas as cidades civilizadas da Europa, e aquele estava a enfeitar a tarde, naquela artéria. A minha intervenção foi tida como arruaça na rua, e fomos os dois (eu e o trovador) parar à esquadra, a pé, escoltados por dois agentes, porque nos recusámos a entrar no carro da polícia, pois não nos considerámos criminosos, para entrar num carro policial.
 
O povo estava connosco, e seguiu-nos pelas ruas. Os agentes ouviram das boas. Já na esquadra, depois de nos termos identificado, o chefe apresentou ao cidadão francês um papel para este assinar. Eu fiz questão de o ler alto, pois o músico percebia mal o português, e ele tinha o direito de saber o que ia assinar. O que já deixou o polícia mal disposto. O que li era um absurdo e aconselhei-o a não assinar aquele termo de culpa, pois ele não tinha cometido nenhum crime público. O chefe da esquadra, abusando do seu poder, deteve-me imediatamente, por incitamento a desobediência à autoridade, dentro de uma esquadra da polícia. Eu conhecia a lei, e os meus direitos, e também os deveres do chefe da polícia, e os meus deveres. Então solicitei que me mostrasse a lei do ruído. E disse-lhe que quando saísse dali ia fazer queixa, aos seus superiores, da sua arbitrariedade. Cantar na rua às cinco da tarde, não fazia de ninguém um criminoso, por isso o cidadão francês, que não conhecia as nossas leis, não devia assinar um termo de culpa naqueles termos. Resumindo: o chefe da polícia bravateou, mas a história acabou comigo e com o trovador, livres, fora da esquadra, quinze minutos mais tarde, sem grandes consequências imediatas, porque a história continuou mais tarde, e fez correr muita tinta. Mas naquele dia, foi o dever e a obrigação do agente policial e o seu abuso de poder, em confronto com os meus direitos e com os direitos do trovador, que estiveram em causa.
 
Por que refiro este episódio? Porque penso ser fundamental que todos conheçamos os nossos direitos e também deveres e obrigações, para podermos enfrentar as arbitrariedades num caso como este, e saber fazer ver às autoridades quais são os seus deveres, porque considero que a ignorância é a maior inimiga do ser humano, conforme exponho, num capítulo do Manual de Civilidade, dedicado a este cancro social – a ignorância, por isso, entendo que se deve investir mundos e fundos no Ensino e na Educação dos jovens, pois já lá dizia Voltaire: «Quanto mais esclarecidos forem os homens, mais livres serão», só que, ao que constatamos, os nossos governantes não estão interessados em que o povo seja esclarecido e livre, porquanto o ignorante não é capaz de contestar as suas arbitrariedades. Eis porque se investe tão pouco no ensino.
 
Dir-me-ão, mas para cada direito está automaticamente implícito um dever, por isso, não é preciso falar-se em deveres. Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, apenas no artigo 29.º se diz: «O indivíduo tem deveres para com a comunidade». E só. Mas que deveres? O dever de punir arbitrariamente? O dever de culpar? O dever de matar? O dever de aterrorizar? O dever de prender? O dever de guerrear? Que deveres? Este laconismo não serve os interesses dos cidadãos menos esclarecidos, e como ninguém nasce ensinado, é da Ética ensinar os que não sabem.
 
Penso que se falássemos mais nos deveres humanos do que nos direitos, o mundo seria um pouco mais equilibrado. E dentro desses deveres há um simples dito que poderia substituí-los e substituir todas as leis, todas as regras, todos os códigos, todos os castigos: e que é o preceito máximo utilizado desde a antiguidade por um ou outro líder religioso antes de Cristo e depois adoptado pelo próprio Cristo, que é: «Não faças ao outros o que não gostas que te façam a ti». Esta frase encerra e resume toda a ética, todas as regras, todos os direitos, todos os deveres, todos os valores humanos e também não humanos, e não seriam precisos nem polícias, nem leis, nem juízes, nem advogados, nem tribunais, porque cada um encarregar-se-ia de não maltratar o outro, simplesmente porque não gostaria de ser maltratado.
 
É esta regra que, como ser humano, tento seguir, e as leis dos homens não me dizem absolutamente nada. No Manual de Civilidade tenho um capítulo intitulado Ideias, Ideais e Ideologias, onde refiro que a minha lei, é a Lei Natural, porque é natural, que eu, como ser humano, me comporte de uma determinada maneira, de outro modo não poderei considerar-me um ser humano. Não sou daquelas que concordam com o ditame: errar é humano. Isso é um expediente para desculpar os erros do homem. Se errar é humano, então erremos, e estamos automaticamente desculpados. Mas será que errar é humano? Ponhamos a questão de outra maneira: será que é humano errar? Quando errar significa cometer um desacerto que prejudica terceiros, quartos e quintos? Não é, com certeza. Errar é desumano, quando quem erra insiste no erro. Quando muito, enganarmo-nos é humano. Ter um lapso é humano. Mas errar não pode ser humano.
 
Poderia estar indefinidamente a falar sobre tudo isto, mas como o meu objectivo é não esgotar o tema que me foi proposto, nem poderia, finalizarei com a leitura da primeira frase do epílogo do meu Manual de Civilidade: «Não me basta dizer sou um ser humano, preciso mostrar que o sou.
publicado por Isabel A. Ferreira às 15:43

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Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

TERRORISMO

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2008
 
Se és terrorista atira-te a um poço cheio da tua própria imundície

 

 

 

(Pormenor da Rua do Passeo - Ourense)

 

... Um verdadeiro Homem é pacifista por natureza...

 

 

Tocar ao piano um prelúdio de Chopin é da condição humana.

Ser fiel é atributo do Cão.
Voar é um dom que têm os Abutres.
E governar por meio do terror, espalhar violência e gerar pânico através de boatos alarmantes entre populações indefesas, será um atributo de quem?
De um Homem, não é com certeza. Muito menos de um Cão. E menos ainda de um Abutre. O Homem se é Homem é humano. O Cão possui uma índole pacífica, inteiramente fiel aos seus valores caninos, amigo de quem sabe ser seu amigo. O Abutre é um ser alado, privilegiado, vive nas alturas, acima de todas as coisas, não tendo de sujar os seus pés na lama, a não ser que precise, por uma questão de sobrevivência.
O terrorismo será então um atributo de quem?
De um terrorista, naturalmente. E um terrorista não é um Homem, porque um verdadeiro Homem é pacifista por natureza. Não é um Cão, porque o Cão tem dignidade. Não é um Abutre, porquanto o Abutre está muito acima de qualquer baixeza.
O que será então um terrorista?
Simplesmente isto: uma inútil e desprezível criatura, que destrói o Homem e o que o Homem constrói. Logo, não tem o mínimo valor humano, nem a dignidade de um Cão, nem tão pouco a superioridade de um Abutre.
Porquê então não devemos ser terroristas?
Não tanto porque o terrorista espalha terror. Não devemos ser terroristas porque não é da condição humana. Apenas isto: se fores Homem não és terrorista, se fores terrorista não és Homem. Sugiro até que reflictas nesta ideia: na história bélica das sociedades humanas de todos os tempos nunca interferiu o Homem.
Se algum dia te passar pela ideia ser terrorista, pelo menos, tem a coragem de te atirares a um poço cheio da tua própria imundície, porque se não morreres sufocado pela sujeira que de ti jorrar, ficarás adequadamente ataviado para saíres à rua e praticares os actos sujos condizentes com a tua condição de criatura inútil e desprezível, e nem sequer precisas mostrar-te: o cheiro fétido que deixarás no ar, dirá da tua presença.
O terrorista é sobretudo um cobarde. Disfarça-se com máscaras, escuda-se atrás de armas, esconde-se em bunkers e nunca enfrenta de frente um Homem. E quando nu, na praça pública, pede clemência, como um fraco que é, e a sua cobardia mostra-se, então, em toda a sua plenitude.
Não sei o que pensas acerca disto. Eu prefiro a dignidade de um Cão.
 
in Manual de Civilidade
 
Este livro pode ser adquirido através do e-mail:
 isabelferreira@net.sapo.pt

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:31

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Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

A ÁGUA, O AR E O HOMEM

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2008
 
O ouro é precioso, mas dele não depende a vida
 
 (Bom Jesus de Braga)
É preciso preservar a virgindade da água, ou seja, é preciso mantê-la incolor e transparente, insípida e inodora, para que possa gerar vida...
 
Já imaginaste maior suplício do que morrer de sede, rodeado de água por todos os lados? A propósito vou contar-te uma história.
Era uma vez um rei que reinava na Lídia. Chamava-se Tântalo. Um dia, ofendeu os deuses e foi condenado a um terrível castigo: imerso em água até ao pescoço, todas as vezes que sentia sede e tentava saciá-la, a água baixava e o rei não conseguia bebê-la. De nada lhe servia o precioso líquido se não podia alcançá-lo.
Esta é uma história lendária mas, por vezes, as lendas, tornam-se realidade. Basta os homens nelas interferirem.
A vida existe porque a água existe.
Sem água não há milho. Sem milho não há pão. Sem pão morremos de fome.
Sem água a erva seca. Sem erva os animais morrem de fome.
Sem água, morrem as plantas, os homens e os animais.
Contudo, não basta que a água exista.
É preciso preservar a sua virgindade, ou seja, é preciso mantê-la incolor e transparente, insípida e inodora, para que possa gerar vida.
Mais do que o ouro, os diamantes, as esmeraldas, mais do que todas as riquezas do mundo, a água juntamente com o ar são os elementos mais preciosos e valiosos que temos à face da Terra.
E o homem?
O homem não vive sem beber água pura. Não vive sem respirar o ar puro.
Mas o que faz o homem?
Em consciência e em pleno uso das suas faculdades mentais, conspurca a água que ele e todos os outros seres vivos precisam de beber; polui o ar que ele e todos os outros seres vivos precisam de respirar.
E depois? E depois o homem lamenta-se.
Todavia, as lágrimas do homem não lhe matam a sede, nem se podem respirar. Por isso, a água e o ar não precisam dos lamentos do homem, mas sim do seu respeito. Unicamente.
Daí ser importante preservar a saúde do ambiente, para que a vida no planeta seja realmente vida, e não uma lenta, seca e sufocante morte.
O futuro do planeta Terra não dependerá do modo como forem geridos os seus elementos vitais?
E quem tem o poder de pôr e dispor das coisas? De construir e destruir as coisas? O javali? A minhoca? Não me digas que é o leão, ao qual chamam predador, porque também não é. O leão cumpre apenas a perdurável Lei da Selva.
E o Homem? Cumprirá o Homem a variável Lei da Civilização?...
 
in Manual de Civilidade
 
Este livro pode ser adquirido através do e-mail:
 isabelferreira@net.sapo.pt
publicado por Isabel A. Ferreira às 16:18

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OBJECTIVO DO MANUAL DE CIVILIDADE

 

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2008
 
Dizer coisas que não são ditas à maneira de toda a gente será defeito? Não me cabe a mim julgar.
 
Escrevi este Manual, “vestido” de Civilidade, seguindo apenas o critério do meu pensamento, com o simples objectivo de levantar os véus sob os quais julgo encontrar-se escondida a ideia de civismo, numa tentativa de reabilitar a noção de respeito pelo outro, e de alguns daqueles valores humanos que, nos tempos de hoje, ninguém sabe por onde andam.
 
Eu chamo-lhes valores. Há quem lhes chame virtudes. No fundo, não irá dar tudo ao mesmo? O importante não é o nome das coisas, mas as coisas em si mesmas.
 
Não pretendo ser moralista. Não é esse o meu propósito, quando escrevo nas linhas. No entanto, se nas entrelinhas o pareço ser, terá isso alguma importância? Não andará a moral também tão arredada dos nossos dias?
 
Intento apenas ir ao encontro de noções perdidas algures num mundo que se tornou cego, surdo e mudo aos apelos da humanidade. Por isso, trata-se de um Manual com um cunho pessoalizado e, evidentemente, sujeito a todas as críticas.
 
Devo confessar que nele está contida toda a minha filosofia de vida; todo o meu sentir; todo o meu pensar; todo o meu ser. Toda a minha utopia.
 
Trata-se de um outra visão acerca do mundo. A minha visão.
 
De certa forma, este é o meu grito de revolta contra uma sociedade esvaziada dos valores que eu prezo e não sei onde encontrá-los.
 
Mas este é essencialmente o eco do vazio perceptível nos olhos das crianças e dos jovens que por aí vagueiam, perdidos, sem saberem do futuro, porque lhes dizem: «A água potável escasseia, os alimentos faltam, faltam também empregos, o buraco de ozono aumenta, o ar torna-se irrespirável, bactérias desconhecidas atacam o homem, o homem ataca outros homens, a vida na Terra está em risco de desaparecer…»
 
E eles sabem que isto não é o roteiro de um filme de ficção científica.
 
Perante tão negros horizontes, muitos desses jovens questionam-se: «Se os (h)omens não respeitam o nosso futuro, merecem esses (h)omens o nosso respeito?»
 
A pergunta formulada deste modo torna-se algo difícil de responder e o primeiro impulso é dizer «Não, não merecem qualquer respeito». Porém, se quisermos ser civilizados, a ela responderemos com civismo: «Sim, apesar de os (h)omens não respeitarem o vosso futuro, deveis respeitar esses (h)omens, mostrando-lhes que não sois mesquinhos, mas capazes de agir com muito mais saber e inteligência do que eles».
 
Então porquê uma linguagem de choque num Manual de Civilidade?
 
O modo, por vezes agressivo, manifestado no meu pensamento, é absolutamente intencional. Pretendo evidenciar, com toda a crueza, a diferença existente entre um homem e um “omem, numa linguagem quase chocante.
 
Porquê? Porque, de vez em quando, chocar é preciso, para acordar, ou mesmo agitar até à inquietação, as consciências adormecidas.
 
A pedagogia convencional perde-se no caos em que se transformou as sociedades ditas modernas, totalmente votadas ao culto da mediocridade, da superficialidade e da futilidade, não levando ninguém a lugar nenhum, principalmente os mais jovens.
 
Eu própria já experimentei uma pedagogia de choque, quando me vi confrontada com a abordagem do tema da droga diante de uma criança com apenas sete anos de idade. Ocorreu-me então, na altura, rodeá-la de alguns toxicodependentes com um passado de roubos, prisões, homicídios, vidas destroçadas, vividas nas ruas, os quais, na primeira pessoa e com muitas lágrimas e revolta, lhe contaram a sua passagem pelo inferno.
 
Tentei, deste modo, revolucionar a pedagogia convencional apostando na capacidade da infância para ajuizar das coisas, fria e cruamente.
 
A criança assimilou a mensagem pretendida, não tanto porque soube dizer não à droga, quando teve de enfrentar as suas garras, mas porque ficou vacinada contra essa mesma droga. Sem traumas. Naturalmente.
 
Essa criança era a minha filha, hoje uma destemida jovem mulher.
 
É essa espécie de vacinação que sugiro neste Manual de Civilidade, ao apresentar certos conceitos de civismo através da sua antítese.
 
Por outro lado, um critério oposto esteve na base da escolha das fotografias que ilustram as minhas ideias: exibir a beleza, a harmonia e o equilíbrio existentes na Natureza e que a incivilidade vai aniquilando…
 
Neste Manual, obviamente, não se esgotam todas as hipóteses. Os temas seleccionados, os que considero mais atingidos pela falta de civismo, são intencionalmente abordados pela rama, para dar margem ao leitor de poder acrescentar-lhes a sua própria visão, o seu próprio conceito, a sua própria opinião, a sua própria noção, a sua própria reflexão.
 
A sua própria utopia.
 
Intento apenas sugerir-lhe alguns caminhos que provavelmente poderão conduzi-lo mais além no seu pensar e no seu agir, ao inquietar a sua consciência. Talvez entre o caos provocado pela minha visão do mundo, ele possa vislumbrar o Bem, o Bom, e o Belo, através do seu próprio olhar…
publicado por Isabel A. Ferreira às 16:15

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MANUAL DE CIVILIDADE

 

(Destinado a todos os que deixaram a idade da inocência)
 
Copyright © Isabel A. Ferreira 2008
 
 
Segundo a definição corrente, a palavra Manual significa um «livro de pequeno formato que contém as noções de uma ciência ou arte».
 
Por sua vez, o vocábulo Civilidade quer dizer «o conjunto de regras observadas entre as pessoas bem-educadas».

 

 
 Se juntarmos as duas palavras teremos: Manual de Civilidade.
 
E o que será um Manual de Civilidade?
 
Bem, este é apenas um pequeno livro que visa sugerir algumas noções (e apenas algumas, porquanto o saber é inesgotável), de algo que, apesar de não se encaixar propriamente na definição de ciência ou de arte, pode ser ambas as coisas se lhe chamarmos Civismo.
 
E o que é o Civismo?
 
É tudo o que diz respeito à nossa dedicação pelo interesse público.
Vivemos em sociedade: um conjunto de pessoas unidas pela mesma origem e pelas mesmas leis. Diz-nos o dicionário. Todavia, podemos acrescentar-lhe algo mais. Trata-se de um conjunto de pessoas unidas também por um interesse comum: o de viver em paz, confortavelmente e em harmonia com o todo que as rodeia.
 
Mas para as pessoas viverem em paz e harmonia umas com as outras é necessário entre elas existir Civilidade, como já foi referido, é um conjunto de regras observadas entre quem é bem-educado.
 
E temos assim outra noção: a de Educação que, de acordo com o dizer do dicionário, é o «conhecimento e a prática de usos de gente fina».
 
E o que será gente fina”?
 
Não! Não é gente muito magrinha, nem sequer aquela que pertence à alta sociedade. Trata-se apenas de gente que não é malcriada.
 
E o que é um malcriado?
 
É todo aquele que não tem educação, é incivil, ou seja, não cumpre as regras da civilidade, não está preparado para viver com os outros em sociedade.
 
Ora, para se viver em sociedade é preciso aprender, porque ninguém nasce ensinado. E a essa aprendizagem chamamos instrução, na qual assenta todo o nosso comportamento.
 
E o que é o comportamento?
 
É a maneira como procedemos em sociedade.
Para tal, precisamos de saber respeitar os saberes da Civilidade.
 
Sugeri-los, e apenas sugeri-los, porquanto a opção última será a do leitor, é a finalidade deste despretensioso Manual.
publicado por Isabel A. Ferreira às 16:08

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Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

AUTO-RETRATO

 

 

Copyright © Isabel A. Ferreira 2008
 
  
 

 

Não sou um ser extra-terrestre, nem a mulher que veio do futuro, nem sequer sou sofisticada ou bela. Talvez a minha única extravagância esteja numa simplicidade que já não se usa.
 
Às vezes costumam comentar: «Se não fumas, não bebes, não te pintas, nem te enfeitas, não és deste tempo».
 
E eu respondo: «Bom, não fumo essencialmente porque gosto de mim, e desagrada-me o gosto e o cheiro pestilento do tabaco. Não bebo álcool, porque gosto de refresco de limão. Não me pinto porque acho que já nasci colorida, o bastante, nem me enfeito, porque não sou uma árvore de Natal. Que mal tem isto? Sou como sou».
 
Não sou um ser extra-terrestre, mas admito que vivo num outro planeta. Num planeta extremamente tudo: louco, vivo, terrível, belo, barulhento, silencioso, bom e mau. Num mundo onde tudo é cor: as flores, as casas, as pessoas, o céu, a terra, o mar… O meu planeta é louco porque é autêntico. Para sermos autênticos devemos ser um pouco loucos, porque só os loucos vivem realmente. Os outros (os ditos ajuizados) andam por aí desiludidos, às cabeçadas à vida.
 
Não sou a mulher que veio do futuro, mas vivo para além do século XXI. Estou-me nas tintas para os preconceitos, para as manias, para as frustrações colectivas de uma sociedade que não sabe viver.
 
Na minha filosofia de vida não há lugar para lugares comuns. Não gosto de frases feitas, nem de imitar o mundo só porque é moda, nem de frequentar os mesmos lugares, ver os mesmos rostos, percorrer as mesmas ruas, todos os dias. Viver é tão fácil e belo como o voo das aves. Mas os homens complicam tudo.
 
Por vezes, desencontro-me. Não sei se sou eu que guerreio a vida, ou a vida que me guerreia a mim. Só sei que uma de nós declarou guerra à outra, e o conflito parece ser eterno: hoje, quero. Amanhã, não quero. Hoje sinto, amanhã não sinto. Hoje gosto, amanhã não gosto. Hoje, tudo. Amanhã, nada. Hoje, sou. Amanhã, não sou. Hoje, penso. Amanhã, não penso. Hoje fico. Amanhã, não fico. Hoje, sei. Amanhã, não sei. Hoje, estou. Amanhã, não estou. Hoje, bem. Amanhã, mal. Hoje, sim. Amanhã, não. Hoje, eu. Amanhã… quem?... Por isso, refugio-me num universo só meu. Subo a uma nuvem de onde fico a olhar o mundo. É muito menos monótono observá-lo lá de cima.
 
Apesar disso, não sou uma pessoa complicada: amo as flores, os bosques, as crianças, os rios, as aves, os animais, o Sol, a Lua, o mar… Amo a Natureza como ninguém. Amo a simplicidade, e a tentativa de simplificar tudo o que é complicado à minha volta é, com certeza, a base de todo o meu conflito com a vida.
 
Eu vivo. Gostava que todos vivessem também. Eu estou no mundo. Gostava que todos estivessem também. Mas não gostam. Não sentem. Não sonham. Não estão no mundo. Deambulam por ele, como zombies.
 
Identifico-me com o mês de Setembro, com o Outono e com o mar.
Sinto-me Setembro porque o mês prenuncia o fim de uma guerra pacífica (o Verão) e o início de uma paz revoltada (o Outono). Por isso, também me sinto Outono: sou calma, sou folha caída, sou brisa suave, sou natureza palidamente colorida, sou calor morno de um Sol distante.
 
Sou mar, pois foi no mar que em criança tive o meu primeiro encontro com a Morte. Desde então, aprendi a temê-lo, mas também a respeitá-lo e a amá-lo. Foi num areal deserto que brinquei as mais felizes brincadeiras da minha infância, com o meu cão e as aves marinhas. Foi sobre o mar que vivi os momentos mais fascinantes da minha juventude. E é à beira-mar que me refugio, quando a vida me chicoteia.
 
A minha virtude preferida, quer no homem quer na mulher, é a espontaneidade, fazer e dizer o que se entende por bem, no momento exacto, e sem ligar a convenções.
 
A minha ocupação preferida é deitar-me no chão de uma sala escura e imaginar que sou uma laranja.
 
O principal defeito do meu carácter é confiar nas pessoas.
Se pudesse voltar a ter 20 anos e soubesse o que sei hoje, talvez acreditasse na felicidade.
 
A desgraça? É não saber o que fazer dos segundos, minutos, horas, dias, noites e anos que temos para viver.
 
Gosto de todas as flores, porque em todas elas encontro a magia da cor, da beleza, da forma e da harmonia perfeita…
 
As cores minhas preferidas? Gosto do vermelho das papoilas, do amarelo dos girassóis, dos verdes das folhagens e do azul do céu.
 
Se eu não fosse o que sou, gostava de ser um cavalo negro e selvagem, solto numa planície onde pudesse correr desenfreado e jamais ser domado por homem algum.
 
O meu lugar preferido parar viver? Longe das multidões, numa pequena cabana, no meio das árvores, ou num jardim cercado de água e habitado por pássaros, para lhes ouvir o canto; um lugar onde houvesse música envolvente nas ruas e, principalmente, onde as pessoas não fossem insípidas.
 
Os meus autores e poetas predilectos são todos aqueles que se expressam através da linguagem do amor; que são autênticos e livres, e sabem tirar partido das suas vivências para poder transmitir-nos, de um modo pessoal, as suas mensagens.
 
Quanto a pintores, de Miguel Ângelo a Picasso, todos quantos conseguem pintar a dor, a alegria, a luz, a cor, o luar, o amanhecer, o pôr-do-sol, a penumbra, e retratar os sentimentos humanos num olhar, num gesto, num sorriso ou num pranto.
 
Música? De Chopin aos Beatles todos os compositores que me façam vibrar, dar ao pé, sonhar, ou simplesmente baloiçar o corpo.
 
A minha divisa favorita é a da tartaruga: «Piano, piano se va lontano…», e nunca desanimar.
 
A crueldade é a coisa que mais me causa aversão, e a maior angústia é ver o sofrimento das crianças, dos velhos e dos animais.
 
As faltas que me inspiram maior indulgência são as cometidas por ignorância, e a minha qualidade preferida é a simplicidade.
 
Quanto à minha situação espiritual, neste momento, é a tentativa da busca do tempo perdido…
publicado por Isabel A. Ferreira às 11:09

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Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

MATANDO O TEMPO...

 

 Copyright © Isabel A. Ferreira 2008
 
 
 
 
 
 O vento sopra com fúria. A chuva cai desnorteada. O mar revolta-se. As pessoas agitam-se como que confundidas. Apressadas, sobem e descem as ruas. De onde vêm? Para onde vão?... Não sei, nem me interessa.
 
O “café” está cheio de gente. Não! De homens. Aqui há só três mulheres além de mim. Uma, aliás, acaba de sair.
 
Da mesa onde me encontro, vejo o mar. Olho a sua revolta. Estou a fazer horas. Que ironia! Como se tal fosse possível! Estou é a perdê-las, uma a uma. Rapidamente. Não! Demasiado lentamente para me aperceber de que as desperdiço não fazendo nada. Ou melhor, gasto-as, gastando papel, tinta, palavras e pensamentos inúteis. Gasto-as sonhando de olhos abertos, esperando que algo aconteça e me afaste desta tempestade.
        
Tempo perdido!...
Lá fora, a chuva continua a cair insistentemente. E as pessoas correm. Na certa, sem saberem para onde. E molham-se também, sem quererem molhar-se. E os automóveis circulam, devagar. E o barulho é intenso. E o meu cérebro rodopia. Corre. Entra em órbita. Espanta-se. Rebenta...
 
E as conversas são loucas.
A recente visita do Papa à Austrália. Para uns bem-vindo. Para outros inutilidade.
 
– Peregrinos somos todos nós. Ele (o Papa) é apenas um peregrino privilegiado. Os países gastam milhares de contos com estas visitas. Não faziam melhor os Governos gastá-los a matar a fome aos povos que morrem por não terem o que comer?
 
Esta é a conversa de um idoso. Um descrente, talvez! Um anti-Papa. Ou simplesmente um descontente!
 
Outro dia foi dia de greve geral! Os pobres deviam fazer greve também –diz o mesmo homem a um pedinte, deficiente mental, que se encostou a uma cadeira à minha frente – Hoje não ganhaste nem para a gasolina – continua o idoso – As pessoas não te deram quase nada. Levas pouco dinheiro. É melhor ires embora. Por causa dos ladrões, claro!
 
Conversa de quem não tem mais nada para dizer, numa tarde de chuva. Conversa para matar o tempo e a consciência de quem a ouve!
 
Tarde agitada, esta! Mais homens. Tomam a sua bica, apressadamente, e saem como autómatos. Conversas. Correrias. Chuva. Rebuliço. E a minha revolta, nesta tarde tempestuosa, vai aumentando. É do vento. Da tempestade. Da fúria do mar. É do medo do nada. Do vazio.
 
Vou embora. Não! Não quero! Estou bem aqui. Ouço as conversas. Olho o movimento. Que confusão! O vidrado dos meus olhos quebra-se. E os meus sentidos fogem. E os meus sentimentos confundem-se. Sinto-me entontecer... Ah!... Eis que uma lufada de ar vem refrescar-me a fronte!
 
Outro homem. O dos longos cabelos brancos. Cabelos à poeta. Será poeta? Talvez! Pois poetas não somos todos nós quando nos sentimos sós?...
 
Estou farta do barulho deste “café”. Apetecia-me estar noutro lugar. Não! Aqui está-se bem. Mas... este sujeito da mesa ao lado está a ver o que escrevo. Incomoda-me. Porque não irá embora? É boa!... E porque não mudo eu de mesa?
 
Um casal idoso está na mesa junto à janela. Cabelos brancos. Olhares cansados, olhando a chuva, a tempestade, a fúria do mar. Não falam. Olham apenas. Mas vê-se que não se sentem sós. O silêncio entre dois seres pode transformar-se na melhor das companhias, quando existe cumplicidade.
 
Cansei-me de todo este ruído. Da chuva. Do vento. Do mar. Das pessoas. Das caras. Das vozes. Cansei-me desta tempestade...
publicado por Isabel A. Ferreira às 15:27

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