Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
«PRÉMIO VERGÍLIO FERREIRA/2006» PARA LUÍSA DACOSTA
Copyright © Isabel A. Ferreira 2010

A escritora LUÍSA DACOSTA foi distinguida pela Universidade de Évora com o Prémio Vergílio Ferreira, nesta que é a 14.ª edição deste galardão.
José Alberto Machado, presidente do júri, explicou que a deliberação foi tomada por unanimidade, por aquela ser «uma grande autora que se notabilizou na literatura infantil mas também ao nível das crónicas e das auto-biografias», salientando «ser esta uma forma de corrigir a ideia de que escreve apenas para o público infantil, chamando-se deste modo a atenção para as suas valias como cronista e diarista». (1)
O prémio será entregue, em cerimónia pública, como é habitual, na Sala dos Actos, no próximo dia 1 de Março, dia em que se assinala o aniversário da morte de Vergílio Ferreira.
***
Posto isto, não posso deixar de me congratular com esta boa notícia, até porque apesar de Luísa Dacosta ser considerada uma das maiores estilistas da Língua Portuguesa do século XX, foi sempre muito esquecida, e raramente os seus livros se encontram à venda, e raramente a sua obra é divulgada, como deveria ser.
Foi exactamente por considerar injusto que uma das minhas autoras preferidas estivesse “votada ao abandono”, quando gente literariamente medíocre merece parangonas e páginas e mais páginas de jornais, dediquei-lhe um livro que perpassa toda a sua obra, o seu pensamento e a sua vida, e o qual, devido às dificuldades que um autor menor (mas não inferior, pois não me considero inferior a muitos outros que andam por aí) encontra para divulgar os seus livros, «Luísa Dacosta: “no sonho, a liberdade...”» continua à espera de melhores dias.
PALAVRAS QUE PROFERI NO DIA DO LANÇAMENTO DO LIVRO, NO CORRENTES D’ESCRITAS/2006, NA PÓVOA DE VARZIM, NO DIA 16 DE FEVEREIRO, DIA EM QUE A ESCRITORA COMPLETOU O SEU 79.º ANIVERSÁRIO
Luísa Dacosta nasceu em Vila Real de Trás-os-Montes, e, portanto, possui, a força e a coragem que caracterizam a mulher transmontana, força e coragem que aliadas a uma genuína e saudável rebeldia, a transformaram num ser insubmisso, destinado a construir uma obra isenta de lugares-comuns, de banalidades, de insignificâncias.
Reconhecida pelos estudiosos como uma das maiores estilistas da Língua Portuguesa, do século XX, a sua obra é feita de palavras que flutuam, disfarçadas em seres únicos, etéreos, eternos e encantatórios, que dizem da recusa, da solidão, do sofrimento, da angústia.
Com Luísa, a poesia brota de todas as coisas.
Com Luísa, os enredos são mágicos.
Com Luísa os sons humanizam-se.
Com Luísa, o sofrimento é sublimado.
Algumas das suas principais obras foram escritas no seu moinho de A-Ver-o-Mar, na Póvoa de Varzim, um presente de amor e depois concha de solidão. E lá, naquele lugar, o moinho de paredes brancas foi berço de uma prosa poética invulgar. E é num universo, entre a cadência da vida e a beleza das palavras que se move Luísa Dacosta. Contudo, devido, talvez, à sua recusa em enveredar pela vulgaridade e pelo mediático, conceitos tão entranhados na sociedade actual, cúmplices de uma gritante cegueira cultural, que, infelizmente, tanto valoriza e cultua a mediocridade, uma escritora de tal importância, inclusive, estudada nas universidades do nosso País e até no estrangeiro, não tem merecido o justo reconhecimento, nem a oportuna divulgação.
Sendo eu uma amante da sua escrita, há muito acalentava a ideia de fazer uma longa entrevista a Luísa Dacosta, com o intuito de dar a conhecer a dimensão da sua literatura, tão pouco divulgada nos órgãos de comunicação social, e tão mal acarinhada pelos seus editores. Uma lacuna que entendi necessário preencher.
Nos finais do ano de 2002, propus à autora a entrevista, depois de verificar que o seu último livro, O Planeta Desconhecido e Romance da que Fui Antes de Mim, uma admirável urdidura ao redor da velhice e de um tempo que já foi mas ainda nos pertence, andava alheado das montras das livrarias e das páginas dos jornais, e, desse modo, o seu nome continuava a ser esquecido. Tão injustamente.
Conforme escrevi no Preâmbulo do livro, dar a conhecer o universo da mulher/escritora, com o intuito de despertar os leitores para a sua obra, e de os acompanhar na descoberta do seu mundo, imensamente fértil em palavras delicadamente cerzidas, que são as suas, é o objectivo principal deste livro. Trata-se de um trabalho que, de modo algum, pretende ser académico ou erudito, crítico ou de análise linguística. É apenas um olhar, o meu olhar, despretensioso, de leitora e admiradora da escrita de Luísa Dacosta; a experiência de uma jornalista que segue o percurso literário da escritora desde 1984; uma abordagem pessoal, tendo também em conta o que vivi com Luísa, ao longo de vários anos, e o conhecimento do seu modo desassossegado de ser, e do seu pensamento irreverente.
A ideia não foi a de analisar a sua obra sob o ponto de vista literário. O objectivo de Luísa Dacosta – «no sonho, a liberdade...» foi o de acolher o todo – quem escreve e o que escreve – numa visão meramente jornalística, mais próxima do leitor comum, colocando esta questão básica: quem é Luísa Dacosta? E partindo-se do pressuposto de que conhecendo-se aquela que escreve melhor se compreende aquilo que escreve, atinge-se o âmago do meu objectivo: falar da obra de um dos nomes maiores da criação literária portuguesa contemporânea, dos seus motivos, e do que ao redor dessa obra se foi construindo.
Partindo da infância, passando pela adolescência, pela juventude, pela publicação do primeiro livro até à actualidade, a minha ideia foi a de reunir numa só obra o saber da menina/mulher que escreve livros, por que os escreve, e como os escreve, aproveitando excertos das suas obras, para ir divagando sobre as coisas do seu universo e do mundo, e aprofundar um pouco mais o seu pensamento, entremeando com alguns episódios que vivenciei com a autora, procurando despertar o leitor comum para a obra desta que, à margem do mundo, é, sem dúvida, repito, uma das mais fascinantes escritoras portuguesas, pelo modo como usa a palavra.
O livro, além de incluir fotografias inéditas, percorre o pensamento de quem considera o livro um objecto mágico, e a Literatura um veículo que nos leva a tornarmo-nos maiores na nossa dimensão humana.
Ciosa da sua privacidade, a escritora só falou do que entendeu poder partilhar connosco, sem trair as suas mais íntimas vivências. Segredos só seus. Porém, o que foi dito faz jus ao espírito livre de Luísa.
Em suma: este livro é o meu modesto contributo para a divulgação de uma obra lúcida e de uma autora que cultiva uma Cultura Culta.
Por fim, uma sugestão, para quem gosta de ler ouvindo música: Luísa Dacosta – «no sonho, a liberdade…» é um livro que dever ser lido ao som do nosso inesquecível Carlos Paredes.
***
Este livro custa 15,00 Euros (mais despesas de envio) e pode ser adquirido à cobrança, através do e-mail isabelferreira@net.sapo.pt Basta informar o nome e a morada para a qual deve ser enviado o livro (1) no qual se aborda precisamente o aspecto que o júri do Prémio Vergílio Ferreira salientou, como particularidade para atribuir a Luísa este galardão.
Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010
O REGRESSO ÀS TREVAS...
Copyright © Isabel A. Ferreira 2010

Hoje preciso de esquecer o meu cantinho. Sim, sei que ele é muito importante para mim, mas o que noutras partes do mundo vem acontecendo obriga-me a deixar o meu pequeno paraíso.
Hoje apetece-me voar com as “asas” que tenho o privilégio de possuir, e que me conduzem aonde quer que eu queira ir.
Hoje estarei nos lugares onde ainda se luta por direitos, porque os homens nada aprenderam com as lições da História; estarei com aqueles que ainda precisam fazer manifestações contra a possibilidade do retorno da “noite de cristal” – uma das grandes vergonhas da humanidade – ou para reivindicar direitos que já deveriam, há muito, estar sólidos.
Hoje abominarei aqueles cuja existência é um insulto à harmonia cósmica e à vivência dos seres pacíficos.
Hoje, nenhum de nós, que nos dizemos humanos, pode ficar indiferente à xenofobia que pelo mundo grassa; ao reacender de fogueiras nazistas; às atrocidades cometidas nos países onde vigoram ditaduras; à destruição abominável de florestas, de animais, da vida; ao racismo ignóbil de gente contra gente; às injustiças que, em nome de uma ignorância disfarçada de poder, são cometidas contra inocentes.
Não podemos ignorar os crimes que ficam por punir, apenas porque interesses mais altos se levantam, abrindo caminho à corrupção.
A fome grassa em algumas partes do mundo, apenas porque noutros lugares o esbanjamento é criminoso.
Hoje, gostaria que este meu grito de revolta contra aqueles que não sabem ser HOMENS, e também contra aqueles outros que não sabem distinguir o trigo do joio humano, fosse ouvido até nas profundezas dos infernos, para que os demónios soubessem que, à face deste nosso Planeta, há, pelo menos, uma voz a dizer NÃO a esta humanidade vazia de sentimentos e valores humanos.
Há quem aplauda, quem se curve e faça vénias. Há (por incrível que pareça) quem vote a favor de neo-nazistas, de xenófobos, de ditadores. Há quem os siga. Há quem dê razão às suas ideias criminosas.
Ninguém é superior a ninguém, a não ser, através das suas atitudes humanas.
Friedrich Nietzsche foi um filósofo alemão que viveu de 1844 a 1900, e como todos os homens livres, ele teve a liberdade de pensar e de filosofar, e de expor a sua moral baseada numa cultura da energia vital e na vontade de poder que eleva o homem até à categoria de “super-homem”.
Este seu pensamento, porém, serviu de base à doutrina político-social de carácter totalitário e imperialista, baseada na ideia da “raça superior”, por aquele filósofo exposta, e cujos princípios foram adoptados pelo Partido Nacional Socialista, fundado por Hitler (o alucinado), na Alemanha.
E nós bem sabemos no que tudo isso deu. Não foi assim há tantos anos, para já se ter esquecido os crimes atrozes cometidos contra a Humanidade, apenas porque um homem sem cérebro assim o quis.
Há gente, contudo, com a memória curta, e visão ainda mais curta, e inteligência muito mais curta ainda, e essa gente nada sabe, de nada se lembra, tão-pouco nada pensa. Por isso aplaude os criminosos; por isso segue os novos hitlers; por isso, tal como autênticos autómatos, tal como meros desenhos animados, essas pessoas bajulam aqueles que não passam, eles próprios, de criaturas inconscientes, dos cancros malignos das sociedades humanas.
Todos os dias os vemos na Televisão.
Bettrand Russell, um matemático, filósofo e sociólogo britânico, enérgico adversário do uso das armas nucleares, no prefácio do livro «Por que Não Sou Cristão» (tema de uma conferência que ele pronunciou em 1927, em Battersea) tentando explicar a sua hostilidade à ortodoxia religiosa e a sua descrença quanto à existência de Deus, escreveu: «Além do aspecto lógico, há para mim algo mais estranho na escala de valores daqueles que crêem que uma divindade omnipotente, omnisciente e benfazeja, depois de ter preparado o mundo durante milhões de anos, a partir das nebulosas privadas de qualquer vida, se considere completamente recompensada com a aparição final de um Hitler, de um Estaline, e da Bomba H».
Creio que Deus não tem nada a ver com as atitudes dos homens. Deus deixou-nos um paraíso, deu inteligência ao homem e o que é que fizeram dessa inteligência?
Cada vez mais me convenço de que o mal da Humanidade está na ignorância e na falta de cultura dos homens que ocupam cargos de responsabilidade, tendo de dirigir o destino de tantos outros homens, a maioria deles mergulhada também numa involuntária ignorância. Estou a lembrar-me do Haiti. Que país era aquele antes do terramoto? E como é triste ser-se ignorante e não o reconhecer!
Hoje precisei de esquecer este meu cantinho, porque a minha revolta contra as barbaridades que andam a acontecer no mundo e na época em que vivo é enorme.
Os novos hitlers andam por aí e são aplaudidos, são acolhidos como heróis, são reverenciados.
Como posso ficar indiferente a uma humanidade que está a regressar às trevas, em pleno início do século XXI, quando tudo indicava que todos os homens (e não só alguns) poderiam ser, de facto, seres superiores, em relação a um verme, que nada mais pode fazer do que rastejar, e sendo verme, o que faz, faz bem.
Hoje, a minha desilusão é imensa!...
Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010
UMA ROSA PARA ROSA LOBATO DE FARIA

Não dizemos adeus a quem deixa uma obra.
Rosa Lobato de Faria partiu para algures, mas ficou nos seus poemas, nos seus romances, nas letras de canções, nas personagens que interpretou...
Um dia conheci Rosa Lobato de Faria e o que mais me impressionou nela foi o seu sorriso traquina, num rosto belo e nobre. A sua simplicidade, apesar do seu porte fidalgo, foi outro aspecto que me marcou.
Rosa não era uma vedeta. Era uma artista.
Deixo-te esta rosa, Rosa, como tributo à grande Mulher que foste, e o poema que escreveste, antecipando um dia que nenhum de nós deixará de viver...
SE EU MORRER DE MANHÃ
Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.
Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.
Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.
Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.
Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.
Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.
Rosa Lobato de Faria
Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
ESCUTA ESSA VOZ QUE VEM DE DENTRO...
A Internet, sendo bem utilizada, é um caminho para o conhecimento. Através dela, podemos viajar até onde nunca sonhámos ir. Comunicamos com o mundo inteiro, num “clicar” de teclas. Conhecemos pessoas, recebemos mensagens, enfim, esta é a parte boa da Internet. Da má não falarei. Não vale a pena, até porque cada um fará o que bem entender do seu tempo. Isto para dizer que recebi de um amigo longínquo, o texto que passo a transcrever, de autor desconhecido, e que nos faz reflectir. Gostaria de partilhar com os leitores do Arco de Almedina essa reflexão.
ESCUTA ESSA VOZ QUE VEM DE DENTRO...
A felicidade não vem dos outros. Vem de ti. Só tu tens o dom de transformar a tua vida. Se esperas que as outras pessoas mudem, ou façam algo, ou laborem para a tua felicidade, vais esperar eternamente, porque a felicidade é obra somente tua.
Tudo o que é valioso vem de dentro. A pérola está dentro da concha. O ouro está guardado dentro da terra ou dentro da água. O valor do livro está dentro das páginas. O tesouro está protegido dentro do cofre. Por que o reino do céu está fora? Fora de nós? O reino do céu está dentro de nós.
Buscas ser feliz externamente. Queres aquela carreira profissional. Queres aquele homem ou aquela mulher. Desejas possuir um belo físico. Almejas o carro do ano, o mais moderno do que o dos teus amigos. Queres a roupa mais vistosa e, se possível, com marca famosa. Fazes de tudo para seres o mais popular entre os amigos... Buscas a felicidade fora de ti. Por isso és tão infeliz. Ninguém pode fazer o outro feliz. Só ele mesmo.
Não faças promessas impossíveis, do género: far-te-ei muito feliz! É muita responsabilidade. Podemos partilhar felicidade com outra pessoa e não laborar dentro dela, porque isso é obra individual. Nem Deus interfere com o interior do homem. Cada criatura é um universo único.
Não queiras ser igual ao outro. Não queiras copiar o outro: o que ele veste, o que ele faz ou o que ele fala. Sê tu mesmo. Não copies.
Não te prendas com as opiniões dos outros. Se tu achas que é assim diz: «eu acho assim». Não te preocupes com as opiniões que vêm de fora, preocupa-te com a tua própria opinião – aquela que está dentro de ti.
Claro que se fizeres algo errado ou que ofenda ou fira o outro, procura corrigir-te. Há leis que temos de respeitar, leis humanas e naturais. Sê sincero, se não queres ou não gostas de algo, diz: «não gosto». E se ouvires algo de que não gostas, não te sintas infeliz. Não ligues. Não ligar é não te deixares ofender, magoar. Não foi o outro que te magoou, foste tu que te deixaste magoar ou ofender.
Tu é que escolhes o que vais sentir e não a outra pessoa. Os outros não interferem com os teus sentimentos. Apenas tu. Eles estão fora, tu estás dentro. Não te envergonhes daquilo que sentes. Sentir é humano. Só as pedras não sentem raiva, orgulho, vaidade, amor, alegria... Procura conhecer o grau dos teus sentimentos e, desse modo, sê senhor deles, e não escravo. Não reprimas os sentimentos que te envergonham. Educa-os. Reprimir um sentimento é reprimir todos. A repressão adoece a alma.
Assume os teus erros e perdoa-te a ti próprio. O erro leva-nos ao acerto e o acerto leva-nos à ascensão.
Outra coisa importante é sobre o apego. Não te apegues às coisas, às pessoas ou a situações. Um dia as coisas serão transferidas para outros “donos”, as pessoas partirão e as situações modificar-se-ão. Nada está parado no Universo. Os que param, detém-se. Mudança é progresso. As pessoas nascem solitárias, morrem solitárias e solitárias viajam pela eternidade. Não fiques na dependência do outro, deixa o outro livre para crescer também. Cada viajante carrega a sua própria mala, e esta mala chama-se experiência. E a experiência é individual.
Não fiques preso às coisas exteriores. Ouve a voz que te chama, e ela está no teu universo interno. Essa voz convoca-te para entrares dentro de ti e pergunta-te: quem és? Tens de saber a resposta.
Alia-te a ti antes de te aliares às outras pessoas. A solidão que reina em toda a Humanidade, nos dias actuais veio, justamente, para facilitar esse conhecimento. Quando estás em harmonia com os teus amores, amigos e família, não tens tempo para entrar no teu universo interior. O tempo urge e a urgência do teu auto-conhecimento é para fazer-te nascer. E o nascimento faz-se de dentro para fora. Conhece-te a ti mesmo.
Quem és, de onde vens, para onde vais?
São essas as questões fundamentais.
Domingo, 24 de Janeiro de 2010
AO POETA VILA-CONDENSE – A. MONTEIRO DOS SANTOS
Copyright © Isabel A. Ferreira 2010

A. Monteiro dos Santos, na Caravela «Boa Esperança», recordando o seu tempo de marinheiro, o que deu origem ao seu pseudónimo de poeta - Dário Marujo
Parabéns a você/ Nesta data querida/ Muitas felicidades/ Muitos anos de vida...
Hoje é dia de festa/ Cantam as nossas almas/ Ao Monteiro dos Santos/ Uma salva de palmas!...
Como gostaria, caro amigo, de poder cantar assim, hoje, dia em que completarias 66 anos de vida. Não foi muito o tempo que tiveste para viver, mas foi o suficiente para te torna imortal, através da tua poesia, do teu saber, da tua obra...
Nenhuma pergunta havia que não deixasses sem resposta. Eras uma espécie de enciclopédia ambulante. Viveste entre os livros, trabalhaste entre os livros. Soubeste utilizar esta circunstância da melhor maneira.
Mas também foste poeta. Nasceste Poeta.
Lembro-me de que por ocasião do meu aniversário (também em Janeiro, a uns escassos dias do teu dia), quando a nossa amizade estava já consolidada, tu começaste a oferecer-me, a prenda mais bonita que alguém pode receber: um poema.
Se estivesses vivo, hoje, estarias, com certeza, a escrever um poema para me ofereceres daqui a uns dias. Como não estás entre nós fisicamente, e como não podes lançar palavras, daí, onde acredito que vivas, vou homenagear-te, aqui, muito emocionadamente, com o primeiro poema que me dedicaste, já lá vão muitos anos... Um poema que nunca ninguém leu, a não ser eu.
À ISABEL FERREIRA, NO DIA DO SEU ANIVERSÁRIO NATALÍCIO
Se te dói o desgosto que tens
Por campear a maldade,
Por reinar a estupidez,
Por vingar a ingratidão;
Se te dói a mudez de outras almas
Que apenas têm cabeça
Para acenar,
Sem pensar;
Se te agride a bajulice,
Ser humano feito bicho,
Sanguessuga, chupa-sangue,
Invertebrado e malvado,
Rastejante, feito cobra,
Todo feito de manobra.
Se o velhaco te dói mais
Que o maior celerado...
(Eu sei o quanto te dói,
Te magoa, te punge,
Te fere e te entristece)
Aceita
A minha receita:
...
Ergue a tua fronte
Acima do NADA.
Sê mais forte que essas doninhas
Que enxameiam ao teu redor.
Fazendo isto, tu serás mulher
E ninguém será mais do que tu
E serás tu mais que qualquer!
A. Monteiro dos Santos/ Janeiro de 1988
*
Ah! meu amigo, apesar de passados todos estes anos, ainda me dói desgostos e continuo rodeada de doninhas. Porém, nunca deixei de seguir a tua receita, sempre de fronte erguida e acima do nada que me rodeia. Só assim tenho sobrevivido.
Vila do Conde, tua terra natal, e minha terra do coração, já não é a mesma sem a tua presença, a presença de um amigo verdadeiro, daqueles que já não se fazem...
Estejas onde estiveres, ofereço-te esta rosa amarela (símbolo do nosso grupo de poetas), a rosa que fotografaste no pequeno jardim, da pequena rotunda, junto à antiga Biblioteca Municipal, hoje o Arquivo, em Vila do Conde.
Até sempre amigo!
Continuarás connosco, porque os Poetas não morrem nunca.
Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010
MENSAGEM AMIGA

Hoje é um dia muito especial para mim.
E como tenho muita consideração por quem me visita, quero partilhar com todos vós a alegria deste dia, enviando-vos a minha amizade. Um bem precioso. Único.
Sem amigos a vida torna-se insípida, como sabeis.
Desejo-vos todas as felicidades do mundo.
Hoje disseram-me: não percas tempo com quem não está disponível para passar algum tempo contigo.
Reflecti sobre isto. Na verdade, o nosso tempo é demasiado valioso para o perdermos com quem não merece o nosso sorriso.
Disseram-me ainda mais: hoje rodeia-te daqueles que realmente gostam de ti. Não importa se são poucos, o que interessa é que gostem de ti, desinteressadamente.
Ouvi estas palavras com muita atenção.
Ter poucos amigos, mas bons, é uma bênção.
Partilho convosco essa bênção.
E deram-me ainda um conselho: não corras demasiado, as melhores coisas chegam quando menos se espera e, tudo o que chega, chega sempre por alguma razão, e quando alguma coisa termina, não chores, nem fiques triste… Sorri, porque ela aconteceu.
Reflecti sobre isto, e decidi partilhar convosco estes pensamentos. Hoje.
Com a minha amizade.
Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
AINDA A TRAGÉDIA DO HAITI

As crianças são quem mais sofrem, inocentes, o futuro...
Copyright © Isabel A. Ferreira 2010
É inconcebível o que está a passar-se no Haiti.
Um povo, gente simples...
Como puderam os governantes deixarem um país ao abandono, ao ponto de, por ocasião de uma catástrofe desta dimensão, não haver serviços, ou uma qualquer organização interna que pudesse prestar um apoio imediato, logo após o terramoto, e quando chegassem, como estão a chegar, as ajudas humanitárias de toda a aparte do mundo, haver quem coordenasse essa ajuda, para que as coisas pudessem funcionar mais acertadamente?
Onde estão as autoridades haitianas? Governantes, ministros, polícia, bombeiros, médicos, protecção civil? Onde estão? Todos mortos? Como pôde um Governo deixar chegar um país a um nível tão caótico, mesmo antes da catástrofe?
O que andaria a fazer René Préval? A passear-se pelo seu belo palácio?
Será que é legítimo o mundo ficar indiferente ao que se passa nestes países onde os governantes se governam, mas desgovernam o seu país?
O povo é frágil, pobre, desprotegido, analfabeto, o que fazer contra os governantes que os abandonam? Em nome de quê?
Se o Haiti fosse um país bem organizado, bem governado, esta tragédia não teria a dimensão que está a ter: absolutamente inconcebível! Intolerável!
Chegou o momento de reflectir o mundo: é legítimo deixar um povo apodrecer por falta de governação?
Como o Haiti, quantos outros pequenos povos pobres existem por aí? Governados por indivíduos bem alimentados, enquanto o seu povo morre de fome.
Será legítimo não se interferir nessas governações, para salvar os povos desprotegidos dessa miséria, inexplicável em pleno século XXI? Enquanto outros sofrem de obesidade?
Sempre fui adepta de um ditado chinês (os antigos chineses eram sábios, os actuais nem tanto) que diz: «Se vires um homem com fome, não lhe dês um peixe, ensina-o a pescar».
É isso que os povos pobres do mundo precisam: que os ensinem a sobreviver, que lhes dêem meios para sobreviverem. Andar a fazer caridadezinha não resolve os problemas deles, apenas lhes mata a fome imediata. Mas continuam pobres e famintos no dia seguinte. E no outro, e no outro...
O problema de fundo não fica resolvido.
Por que se faz tanta questão de andar a guerrear (gastando-se verbas astronómicas) e não se faz questão de ajudar esses povos pobres a serem autónomos economicamente? E os refugiados, que vivem em campos à espera da tal caridadezinha, anos a fio... por que não ensiná-los a pescar?
O mundo anda às avessas. Quem pode e manda, mostra que manda, mas o que faz não chega para que as coisas mudem.
Espero que a tragédia do Haiti faça acordar o mundo para uma nova ordem. A que existe, está ultrapassada. Está gasta. Está podre. Não serve a Humanidade. Os Grandes juntam-se, aqui e ali, comem, bebem, conversam, para que tudo continue igual. É tudo uma grande farsa.
É chegada a hora de MUDAR.
Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010
A TRAGÉDIA DO HAITI

(Origem da foto: Internet)
Copyright © Isabel A. Ferreira 2010
A HUMANIDADE NÃO PODE FICAR INDIFERENTE
Não posso deixar de aqui expressar toda a minha mágoa pelo que está a passar-se no Haiti, e dirigir a todos os sobreviventes uma palavra de solidariedade, pelo horror que estão a viver.
Não mereciam isto.
Um povo já de si tão pobre, tão desprotegido, tão frágil, tão sem governo, não merecia mais esta provação.
Mas o que é o homem diante da poderosa Natureza?
É nada. Absolutamente nada.
Onde estão os governantes haitianos num momento destes? Se estão mortos, não há nada a dizer senão paz à sua alma. Mas se estão vivos, o que estão a fazer para apoiar o seu povo? Vergonha das vergonhas.
A Humanidade não pode ficar indiferente a esta tragédia, que se adivinha ainda mais trágica dentro de dias.
As descrições que nos chegam sobre o que lá está a passar-se parecem tiradas de um filme de terror, bem como as imagens.
Homens que governam o mundo: ponham os olhos nestas imagens e reflictam. Não podem deixar um povo chegar ao fundo do abismo, desta maneira.
Vêm-se pessoas a deambular pela cidade, rodeadas de mortos, como se passeassem num jardim. O que fazer? Devem sentir-se perdidos no vazio. O que esperar?
Os mortos estão mortos. Os feridos, sem uma ajuda imediata, aumentarão o número dos mortos. Os que se encontram, ainda vivos, debaixo dos escombros acabarão por morrer de dor, numa solidão indescritível, lentamente. Os vivos, sem água e alimentos morrerão também.
É horrível toda esta conjectura.
O mundo deve unir-se para ajudar os haitianos.
É preciso que não haja dúvidas: os que conseguiram sobreviver aguardam ajuda, aquela ajuda que muitas vezes fica pelo caminho, transviada por mãos criminosas.
Espero que esta tragédia não tenha acontecido em vão: é preciso urgentemente que os povos mais ricos ajudem os povos mais pobres, para que numa situação destas a fatalidade não tenha a dimensão da do Haiti.
Esta é na verdade a tragédia maior.
Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010
TEMPOS AQUELES DA MINHA SAUDADE…
Copyright © Isabel A. Ferreira 2010
Tempos aqueles da minha saudade, quando ledos os rios corriam cantando...
Tempos aqueles da minha saudade, quando ledos os rios corriam cantando águas límpidas e tranquilas, por entre margens onde as giestas em flor se debruçavam delicadamente, envolvendo a paisagem de cor e perfume.
Tempos aqueles da minha saudade, quando nas águas desses mesmos rios, seguia, encantada, o bailado dos peixes prateados que, serpenteando a vida, subiam à superfície e mergulhavam contentes, e pareciam sorrir… Ou quando seguia, com o olhar cativo, os barcos à vela cruzando o oceano ou descendo o rio, à boleia do vento…
Tempos aqueles da minha saudade, quando na solidão dos montes, procurava o silêncio e com ele brincava, e olhava o voo deslizante das aves planando suavemente, ora nas alturas, roçando as nuvens, ora junto às florinhas silvestres que matizavam as encostas desses mesmos montes.
Tempos aqueles da minha saudade, quando corria por entre as louras searas ondulantes ou tranquilas, conforme a dança dos ventos, naqueles admiráveis fins-de-tarde, à hora em que cortes celestiais desciam à Terra, nela deixando um rasto de luz dourada, que as moscas-de-fogo absorviam e com ela iluminavam os caminhos, quando a noite cobria de trevas a aldeia.
Tempos aqueles da minha saudade, quando percorria o meu país, em busca das minhas raízes, e me extasiava diante da serena beleza dos campos verdes, nas mornas tardes de Outono, coloridas pelo Sol poente, ou nas madrugadas brancas e frias em tempo de Inverno.
Tempos aqueles da minha saudade, quando descobri os férteis vales, as colinas, as fragas solitárias, as encostas cobertas de vinhas da minha terra, e me encontrei diante de magníficas e vastas paisagens, repousantes paisagens, e de bosques povoados de espécies exóticas, pinheiros silvestres, vidoeiros, sobreiros, carvalhos, oliveiras e outras árvores milenares, e outra vegetação arbórea espontânea, e as pequeninas flores: narcisos, troviscos, sargaço-mourisco, alecrim, orquídeas e pimpinelas, que habitavam as serras, os prados, os pinhais e outeiros.
Tempos aqueles da minha saudade, quando descobri as imensas e verdes pastagens, onde pastores solitários apascentavam rebanhos; ou quando visitei povoações antigas, aldeias de granito, velhas azenhas, ruínas de casebres, aldeias inteiras caiadas, ocultas nas serras, onde os dias deslizavam ledos como as águas dos ribeiros que serpenteavam entre as formações rochosas.
Tempos aqueles da minha saudade, que enchem de nostalgia o meu tempo presente…
*
Recentemente, tentei redescobrir os rios, os montes, os prados, as praias e as aldeias do meu país. E fiquei desolada.
Em vez de águas tranquilas e transparentes, encontrei águas negras, transbordando espumas: depósito moribundo de lixeiras fabris, correndo entre margens onde as flores murcharam e deram lugar a troncos secos e a toda a espécie de lixos.
Não mais posso dar os meus habituais passeios à beira-mar, às horas mortas da manhã. O areal coberto de óleos negros, restos de plásticos, ossos de animais e paus, não convidam nem as gaivotas, assíduas frequentadoras das praias, a nelas pousarem. Por isso, alinham-se, desoladas, nos telhados dos prédios.
Até o silêncio que procurava nos montes já não o encontro. O ruído infernal das infernais máquinas agrícolas, invadiu os campos, obrigando os grilos e as cigarras a calarem-se.
Se deixarmos o litoral e nos embrenharmos no interior do país, encontramos quilómetros e quilómetros de áreas florestais destruídas pelo fogo, ainda não reflorestadas, ou belos bosques substituídos pela insuportável frieza do betão. Os nossos belos bosques estão a dar lugar a enormes construções que não servem para nada.
Até as nossas belas paisagens, e as encantadoras aldeias portuguesas que mereceram do poeta Gomes Leal belíssimos versos: «Eu gosto das aldeias sossegadas/com seu aspecto calmo e pastoril/erguidas nas colinas azuladas/mais frescas que as manhãs finas de Abril»; a serenidade das velhinhas povoações está a ser modificada, violada por um progresso pernicioso. Vivemos cercados pela destruição da beleza, da repousante beleza. E não é apenas a paisagem que está a ser destruída. É a vida também.
Não admira, pois, que os nossos jovens vivam desencantados, e se entreguem às “consolas”, se tudo à sua volta é desolador: a poluição, a invasão do plástico, a invasão do betão, a invasão do alcatrão. Gigantesca onda negra que destrói o verde dos campos, o vermelho das papoilas, o amarelo dos girassóis, o azul dos miosótis; que vai substituindo as giestas, os bosques povoados por várias espécies de flora e de fauna, os narcisos, o alecrim, o trovisco; e as aldeias caiadas de branco, as águas dos rios e do mar.
Os nossos jovens vivem rodeados de trevas, onde nem as moscas-de-fogo (que eu tanto gostava de contemplar) se atrevem a entrar. Desconhecem a beleza tranquila do amanhecer em plena serra. Nunca ouviram o silêncio que inunda as colinas à hora em que o Sol se põe. Os seus sentidos estão tolhidos pelo mundo violento que os submerge, que os lança ao fosso cavado por uma civilização em decadência.
E não me perguntem de quem é a culpa. Dos ratos sei que não é, com certeza. Nem dos vermes que, debaixo da terra aguardam, pacificamente os corpos putrefactos de que se alimentam. A culpa não é dos abutres, nem dos lobos esfomeados, que atacam rebanhos; nem dos morcegos sedentos de sangue; nem das moscas, ébrias de lixo; nem dos cães vadios que viram as latas do lixo e ladram à lua; nem dos dinossauros ou dos macacos gigantes ou dos monstros das Bandas Desenhadas.
Também não é minha, que cultuo a Natureza e todos os seres vivos com o mesmo respeito que dedico ao meu semelhante.
Tempos, tempos outros, aqueles, que não se repetirão, porque não sei que loucura invadiu a Humanidade, arrastando-a vertiginosamente para um abismo.
Não destruam, os homens, os pequenos paraísos que ainda vão resistindo no meu país, para que possa haver 7 Maravilhas para mostrar ao mundo.
Porque a mim, no meu canto, só me resta entregar ao vento o grito do meu protesto.
Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010
CASAMENTO HOMOSSEXUAL – O FUTURO COMEÇA HOJE EM PORTUGAL

(Imagem retirada da Internet)
Copyright © Isabel A. Ferreira 2010
(Foi hoje aprovada, na Assembleia da República Portuguesa, a lei que permite o casamento no Civil entre homossexuais. Eis uma antevisão de um futuro, que pode muito bem estar mais próximo do que pensamos)
Rui e Carlos conheceram-se numa determinada noite, no “Gaybar”, um dos mais badalados da cidade. E o amor aconteceu logo ao primeiro olhar.
Nessa noite, passearam, felizes, com a cumplicidade de uma Lua cheia de luz, pela cidade adormecida.
A paixão foi de tal modo arrebatadora que decidiram juntar os trapinhos, porém, decentemente, para não ficarem “falados” na sociedade.
Procuraram o Padre Arnaldo, muito modernaço, que sim senhor, casá-los-ia, na Igreja de Santo António, como se sabe, um santo casamenteiro.
No dia aprazado, à Igreja, toda enfeitada de açucenas brancas, foram chegando os convidados de um e de outro.
Um pouco mais cedo, como convém, chegou o Rui, no seu smoking preto e flor branca na lapela. Bem penteado. Sapatos de biqueira fina, enfim, um noivo para não se lhe pôr qualquer defeito.
Muito atrasado, como é da praxe, e pelo braço da madrinha Arminda, veio o Carlos, vestido de branco, dos pés ao pescoço, num smoking igualmente muito elegante, e como complemento, trazia um ramo de orquídeas brancas.
Chegados ao altar, ao som da Marcha Nupcial, interpretada por um exímio organista, a madrinha Arminda entrega o noivo ao noivo, fazendo votos para que fossem felizes até à eternidade.
O Padre Arnaldo começou a cerimónia com um curto intróito, fazendo alusão às palavras bíblicas: O homem deixará o pai e a mãe, para se unir ao seu homem, e os dois serão uma só carne.
Seguiu-se a pergunta habitual: É de livre vontade… E os sins foram proferidos sem hesitação. Rui e Carlos trocaram as alianças, deram-se o beijo da consumação do acto, e a terminar a cerimónia, o Padre Arnaldo abençoou-os como é igualmente vulgar: Que Deus vos abençoe e vos conceda os filhos desejados.
Seguiram-se os cumprimentos, as fotos, o banquete, o arremesso do ramo do noivo (quem o apanhou foi o Luís), o baile, e lá mais para o início da madrugada, a lua-de-mel.
Passou-se um ano, passaram-se dois, e algo ensombrava o feliz casamento de Rui e Carlos: o facto de não terem filhos. Foi então que o Carlos, que era Carlos apenas por fora, mas por dentro era Carla, através da inseminação artificial ficou grávido.
Passados nove meses nasce uma linda e meiga menina: a Amélinha, que foi criada com todo o carinho, com todo o amor, com todos os cuidados.
Na altura própria ensinaram-na a falar. E ela chamava papá ao Rui e mamã ao Carlos. Na verdade, eram uma família muito, muito unida e feliz.
Chegado o tempo da escola, Amélinha, lá foi, pela mão da mãe Carlos.
Nesse dia, conheceu os seus novos amiguinhos e amiguinhas, e naquelas conversas de meninos e meninas, perguntaram-se uns aos outros: Como se chama a tua mãe? Como se chama o teu pai? Todos responderam naturalmente: A minha mãe chama-se António e o meu pai Luís; o meu pai chama-se Maria e a minha mãe Ana; a minha mãe é o João e o meu pai o José; o meu pai é a Luísa e a minha mãe a Paula; o meu pai é Joaquina…
Todos responderam com normalidade excepto a Susaninha.
E a Amélinha, menina muito meiga, abeirou-se da Susaninha, e perguntou-lhe: E a tua mamã e o teu papá como se chamam?
E a Susaninha disse, muito baixinho, muito envergonhadinha: A minha mãe chama-se Alice, e o meu pai chama-se Fernando.
Uma mulher e um homem? Que esquisito! Comentaram os outros meninos.
Sim, muito, muito esquisito para todos, excepto para a Amélinha, que aprendera com a mãe Carlos, que o mais importante é o amor. E disse à Susaninha: Não fiques triste! A tua mãe Alice não te ama? O teu pai Fernando não te ama? Susaninha disse que sim. Então? O mais importante é o amor, arrematou a Amélinha.
Nesse dia, as mães dos meninos foram buscá-los à escola.
Amélinha correu, feliz, para os braços de Carlos, sua mãe.
Susaninha correu para a mãe Alice, chorando, muito infeliz.
A mãe perguntou-lhe: O que aconteceu, minha filha? Alguém te tratou mal? E a Susaninha, soluçante, contou à mãe que só ela é que era filha de um homem e de uma mulher, todos os outros meninos, eram filhos ou só de homens ou só de mulheres. A mãe Alice, disse-lhe apenas: Não fiques triste, eu amo-te, o teu pai ama-te, e o mais importante é o amor.
As meninas ficaram amigas. Cresceram e transformaram-se numas belas jovens.
Amélinha apaixonou-se perdidamente por Susaninha, mas Susaninha amava o António (filho da Maria e da Ana), que por sua vez amava o Julião, (filho de João e de José).
A vida separou Amélinha e Susaninha, que seguiram caminhos diferentes. Profissões diferentes. Cidades diferentes.
Nunca mais se viram. Nunca se casaram.
Amélinha sempre fiel ao amor por Susaninha.
Susaninha sempre fiel ao amor por António.
Porém, António casou-se com Julião, e foram muito felizes, apesar de Julião nunca ter podido engravidar.
Coisas que acontecem...!