Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
JOSÉ SARAMAGO, A BÍBLIA E CAIM
Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
JOSÉ SARAMAGO
Porque gosto de uma boa polémica, de provocadores, de ser provocada, e também de provocar, atrevo-me a deixar aqui a minha opinião sobre a controvérsia que se gerou ao redor do «Caim» de josé saramago *.
Deixada a questão política do lado de fora deste blog, uma vez que não comungo da ideologia comunista conotada com o autor, devo confessar que, apesar disso, aprecio alguns livros de josé saramago. Não todos. Li sofregamente o «Ensaio Sobre a Cegueira» (magnífico) e «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» (interessantíssimo). Os outros, confesso, não os li com tanta “sede”. Fui lendo... Outros, ainda não os li. Estão no “monte”, à espera de vaga.
Contudo, considero saramago um dos nossos grandes autores.
Quando surgiu o seu «Caim» fiquei interessadíssima, porque foi um tema sobre o qual também já havia escrito, em 1998, e que cheguei a publicar, em vários jornais e revistas, inserido num texto intitulado «O Sexo das Palavras». Então pensei: o impacto que a leitura da história de Caim e Abel provocou em mim seria igual ao de saramago?... Fiquei curiosa.
A BÍBLIA
(Página da Bíblia dos Capuchinhos)
Naquela altura escrevi: «Isto do mundo dividido entre o masculino e o feminino não dá com nada. (...) O homem sem a mulher não existiria e o vice-versa também não. Embora, segundo a história bíblica, que foi inventada por homens, a primeira e única mulher da época – Eva – foi criada a partir de uma costela de Adão – o único homem de então. Deste casal, nasceram dois filhos – Caim e Abel. Caim matou Abel. E assim aconteceu o primeiro homicídio da humanidade (quando havia apenas quatro seres no mundo) com a cumplicidade do próprio Deus, pois foi Deus que disse ao assassino, quando este, diante Dele se mostrou com medo que o matassem também: «Quem matar Caim terá um castigo sete vezes maior», e Deus marcou-o então com um sinal para que em toda a parte se soubesse que nenhum mal poderia atingi-lo.
E foi deste modo ilibado pelo próprio Deus em pessoa que Caim partiu para o país de Nod, sem que justiça fosse feita, como convinha a quem inventou a história. Talvez esta passagem bíblica explique porque os nossos bandidos sempre foram tão protegidos pelas leis que temos (também todas feitas por homens).
Depois deste primeiro homicídio, nunca mais houve parança, e as matanças sucederam-se e continuam a suceder-se em massa, nos nossos dias, sob o olhar impávido e indiferente dos homens, enquanto as mulheres, que são um pouco mais poupadas a essas matanças, choram os filhos mortos.
De quatro seres (Adão, Eva, Caim e Abel) ficaram apenas três, a vagar pela Terra imensa. O que se passou depois é um verdadeiro enigma. Diz a Bíblia que o assassino foi para o país de Nod. Caim nunca mais falou com o Senhor, mas não foi por Ele abandonado, apesar de ter assassinado o irmão. Deus premiou-o com o poder de fundar uma cidade e até lhe concedeu uma mulher. O que não nos foi explicado é de onde saiu esta mulher.
E assim, deste modo enigmático, os homens foram-se multiplicando à face da Terra, até dar no que deu: um superpovoamento, onde milhões morrem à fome, e outros milhões vomitam a fartura».
Como não sou saramago, esta minha intromissão no Velho Testamento, não teve qualquer repercussão, a nenhum nível. Ninguém me disse que não deveria ter lido a Bíblia de um modo literalista. Também, até hoje, não ouvi nenhum padre da Igreja Católica explicar o sentido simbólico desta história, ou das outras histórias bíblicas em que Deus aparece como um justiceiro irado.
Quando era menina, como todas as meninas, andei na Catequese. Tinha nove anos. E esse foi o pior tempo da minha vida. A catequista, uma senhora já de certa idade, incutiu-me (a mim e às outras crianças, mas falo por mim) um tal temor a Deus, que à noite tinha pesadelos, dos mais terríveis. Tudo era pecado. Tudo Deus castigava com grande violência, acenando-nos com o fogo do Inferno, para toda a eternidade, e Satanás a picar-nos com a sua forquilha, rindo dos nossos gritos aflitivos, mostrando os dentes ameaçadores.
O medo de Deus era imenso. Ensinaram-me não a amá-lo, mas a temê-lo mais do que ao Diabo. Literalmente. Contudo, esse era um segredo só meu. Nunca o partilhei com os meus pais, como devia.
Essa respeitável senhora ensinou-nos igualmente, que no dia da nossa Primeira Comunhão, ao recebermos o Senhor, não podíamos encostar a hóstia aos dentes, ou “trincá-la”, uma vez que poderíamos ferir a carne de Nosso Senhor, e os nossos vestidos, imaculadamente brancos, ensanguentar-se-iam. Morder a carne de Nosso Senhor (que, na altura, para mim, era uma pessoa), soou-me a canibalismo, desde então).
Ora eu, que era um pouco atabalhoada, vi-me muito aflita para não encostar a hóstia aos dentes, e na aflição de não o fazer, trinquei-a, e foi então que começou o meu martírio. Passei o resto da cerimónia a ver se o meu vestidinho branco estava manchado com o sangue de Cristo. Não dei conta disso, mas estragou-me aquele dia, e todos os dias que vieram a seguir, durante alguns anos. Escusado será dizer que dali em diante, comungar, foi para mim uma tortura.
Como gostava de ler, tive curiosidade de ler a Bíblia. E ao ler a Bíblia, evidentemente, comecei pelo Velho Testamento, e lá encontrei o Deus cruel e vingativo, do qual a minha catequista nos falava, e do qual também nos fala saramago. E nunca ninguém nos disse que o que estava escrito na Bíblia, na verdade, não era o que estava escrito. Era outra coisa. Ora para uma adolescente, o que é, é, o que não é, não é. E penso que sempre assim foi, em todos os tempos. E a Bíblia era (é) para ser lida por gente comum, que nada sabe sobre Exegese (o que é isso?)...
Talvez, por este motivo, josé saramago, que é inteligente e tem sentido crítico, disse o que disse sobre a Bíblia, que obviamente conhece bem: «A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade – A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura! (…) Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca». E no início do seu «Caim» faz uma citação, do que chama «Livro dos Disparates», ou seja, a Bíblia.
Pois na parte que me toca a mim, o meu martírio durou até aos meus quinze anos, altura em que o meu sentido crítico começou a despertar, e cheguei à conclusão de que nada daquilo que me ensinaram sobre as coisas de Deus podia ser verdade. A missa não me dizia nada; comungar ainda me dizia menos; confessar-me, nem pensar, e decidi então acabar com todo o mal-estar que as coisas da Igreja me provocavam.
Procurei um padre franciscano, e com ele desabafei durante umas duas horas, sentados ambos numa pedra, nos claustros exteriores do Convento de Santo António, no alto do Morro com o nome do Santo, no Rio de Janeiro. Contei-lhe as minhas mágoas, os meus temores, as minhas aflições, e principalmente a minha ideia de Deus, que não coincidia com nada do que me haviam dito Dele, até ao momento. Ele ouviu-me, em silêncio. No final, aconselhou-me a seguir o meu coração e o meu instinto, libertando-me, desse modo, de conceitos religiosos totalmente castradores.
A partir de então, comecei a minha busca de Deus (que durou vários anos) de um modo racional. A Bíblia, tornei a lê-la com outros olhos, muitos anos mais tarde, já adulta, e ao contrário de josé saramago, desta vez, não encontrei, no Velho Testamento, o Deus cruel que me atormentou na adolescência. Mas sim um deus inventado pelos homens que escreveram todas aquelas histórias à medida da conveniência política, moral e social, da época, e de acordo igualmente com a incultura e a mentalidade pouco evoluída de então.
A Bíblia, para mim, deixou de ter o sentido “sagrado” que lhe era (é) atribuído. E já me apeteceu reescrevê-la à luz do meu conceito de Humanidade e de Deus. Por vezes, escrevo textos onde pode ler-se «o que Deus nunca diria».
Hoje, a Bíblia, nomeadamente o Velho Testamento, para mim, e até que algum padre da Igreja Católica consiga explicar, com lógica, o simbolismo de algumas histórias, como a de Caim, não passa de um conjunto de livros, uns mais interessantes do que outros, sem o Deus, no qual eu acredito, dentro. O Deus em que eu acredito não está lá. O Deus do Novo Testamento aproxima-se do Ser Cósmico, da Luz, da Energia, do que se lhe queira chamar, que rege o Universo, e no qual até Einstein acreditava. O que a Ciência não consegue explicar, aí está Deus.
Não considero a Bíblia, como saramago, o «Livro dos Disparates». Ela é, tal como outros livros ditos “sagrados”, um livro escrito, há milhares de anos, por homens com mentalidade pouco evoluída, e deve ler-se como se lêem as tragédias dos grandes autores clássicos gregos. Nem mais, nem menos. Literatura, da qual se gosta ou não se gosta.
Durante a polémica gerada pelas declarações de saramago, vi padres católicos criticarem o autor, na televisão, mas não ouvi nenhum contar a história de Caim como dizem que deve ser interpretada. Que simbolismo terá este primeiro assassinato da Humanidade, com o aval de Deus?
Ocorre-me então uma pergunta: quando se traduziram e juntaram os livros da Bíblia, pensar-se-ia que ela iria ser lida apenas por exegetas? Se não, ou se traduziam os livros de modo a que pudéssemos ler as duas versões (a literal e a simbólica) ou então não se admirem de haver homens com sentido crítico, a denominarem-na «Livro dos Disparates».
«CAIM» – O LIVRO
Ao ler os dois primeiros capítulos de «Caim», confesso que fiquei decepcionada. Ocorreu-me comentar com alguém que saramago havia envelhecido, e com a velhice perdera a criatividade literária que o conduziu ao Prémio Nobel. Entrara em decadência.
Porém, desta vez (ao contrário, por exemplo, do que aconteceu com «Todos os Nomes»), decidi avançar na leitura, até porque ainda não tinha chegado propriamente à história de Caim. E continuava curiosa. Foi então que me surpreendi. Apesar de não ter os atributos criativos d’ «O Evangelho Segundo Jesus Cristo», a narrativa começava a interessar-me.
Dir-se-ia que josé saramago teve a ideia de escrever sobre o tema, e ainda não o tinha bem elaborado, quando começou a passá-lo para o papel; só ao cabo de algumas páginas, deixando-se conduzir pelas palavras, ei-lo no caminho da verdadeira narrativa saramaguiana.
Devo dizer que achei o livro muito interessante, exceptuando os primeiros dois capítulos, como já referi (o que considerei um autêntico despropósito) e aqui e ali uma linguagem de muito mau gosto, que um laureado com o Nobel não deveria utilizar (no meu entender, claro). A Língua Portuguesa é demasiado rica em palavras e expressões que podem descrever de um modo subtil e lírico, o que nem sempre é delicado e romântico. E a arte de quem escreve também está no modo como descreve determinadas cenas, eventualmente chocantes, tornando-as aprazíveis aos sentidos. Uma poça de água choca pode tornar-se quase um lago, se lhe chamarmos um charco.
Para finalizar, tenho duas observações a fazer: a primeira é que, afinal, interpretei a história de Caim, tal como saramago – literalmente – nem as Bíblias anotadas conseguem explicar o sentido daquela história, de modo a que satisfaça as mentes pensadoras e com sentido crítico; a segunda, é que ao ler o «Caim» de saramago, cheguei à conclusão de que não fora as declarações que o autor fez publicamente sobre a Bíblia, o livro passaria quase despercebido. É interessante, mas não josé saramago no seu melhor.
* Uma vez que no livro «Caim», o autor utilizou letras minúsculas para escrever os nomes das personagens, deduzi que talvez não goste que se utilize letras maiúsculas para escrever o seu próprio nome, daí ter optado por escrevê-lo também em minúsculas.
Terça-feira, 10 de Novembro de 2009
LÁ LONGE... ONDE EXISTE UM PARAÍSO...

Ainda que as palmeiras se agitem, ao aproximar-se a tempestade, mesmo assim... a magia é imensa...
Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
Talvez porque o dia esteja cinzento... e de onde me encontro só vislumbro telhados, chaminés, coisas que nada me dizem...
... Recuo a um passado vivido entre palmeiras, goiabeiras, coqueiros, farta vegetação, onde o canto do sabiá se fazia ouvir sobre todos os outros cantos de pássaros exóticos, de que era fértil a selva brasileira.
Quanta saudade!
Viajo até à formosa ilha de Paquetá, um daqueles paraísos que, suponho, ainda vão resistindo à mão do homem-predador, uma ilha que eu conheci, um dia, era ainda menina, e que jamais pude esquecer. Foi como se tivesse vivido um conto de fadas.
A Baía da Guanabara, onde se situa a Ilha de Paquetá, integra uma das mais belas paisagens do mundo, tendo a seus pés a cidade do Rio de Janeiro, onde nem tudo combina com a exuberante natureza da região.
No tempo em que por lá vivi, atravessava-se a Baía até Paquetá, em pequenos barcos a motor, sempre apinhados de gente, que procurava um refúgio tranquilo naquela ilha, onde a deslumbrante flora tropical, não fora ainda violada pela poluição, de espécie alguma.
Ali as árvores não estremeciam com o roncar dos automóveis ou das infernais motorizadas, pois a sua circulação na ilha era proibida. Lá, só se andava a pé, de charrete, com pneus de borracha, puxada a cavalos, ou então de bicicleta.
Não admirava, pois, que o verde da folhagem fosse mais verde e as flores mais coloridas. Podia ouvir-se o som do silêncio, quando a Natureza adormecia, apenas interrompido, de onde a onde, pelo suspiro de um pássaro solitário.
Lá as areias eram brancas e a vegetação crescia selvagem e livre até às praias, banhadas por águas límpidas que reflectiam a luz do Sol, permitindo ver o fundo marinho envolvido em mistério.
Paquetá tinha a magia de uma ilha tropical, tranquila, quente, envolvente. Todas as madrugadas, a Natureza despertava como se acabasse de ser criada pelo próprio Deus, e, quem tinha o privilégio de lá viver ou passar alguns dias, era despertado também pelo canto de um pássaro que resolvia pousar no ramo mais próximo do chalé. Abria-se então a janela e aquele ar puro com cheirinho a mar entrava-nos na alma, e era como se tornássemos a nascer.
Ao cair da tarde, debaixo da luz ténue do Sol tropical, a vegetação tomava um colorido suave, indescritível, e as águas tranquilas da baía faziam-nos lembrar os tão cantados lagos dos contos de fadas.
Em Paquetá, vivia o próprio Deus!
Claro que a ilha já existia, bela e selvagem, muito antes de os homens a terem descoberto. E ela era tão linda, tão exuberante que homem algum se atreveu a violá-la. Adaptaram determinados locais para o homem lá poder viver. Mas não a destruíram. E era possível nela podermos apreciar belos chalés e palacetes de arquitectura notável, lindas avenidas, floridas e arborizadas, testemunhos de uma civilização controlada, não agredindo a Natureza virgem.
Na ilha tudo era fresco e limpo, e os turistas (estrangeiros e brasileiros) que ali afluíam não se atreviam a conspurcar o lugar, com a sua incivilização. Não podiam! Tal era a magia que Paquetá exercia sobre os homens.
Sou daquelas pessoas que pensam que o homem pode preservar o seu próprio paraíso, quando o tem, ou construí-lo, quando o não tem, tudo dependendo do seu grau de inteligência, da sua boa vontade, da sua sensibilidade, da sua lucidez. Por isso, revolto-me ao deparar-me com homens de pouca inteligência, de má vontade e insensíveis a conduzir o destino dos que sabem distinguir entre o inferno e o paraíso.
É verdade que o que é paraíso para uns, pode ser inferno para outros, no entanto, quem mutila o próprio corpo para dele arrancar os próprios pulmões, é um mero suicida, não é um Homem!
Quem teve o privilégio de conhecer Paquetá e outros paraísos, ou viveu outras civilizações, onde a Natureza é respeitada e preservada para o próprio homem dela usufruir, não pode, em toda a consciência, aceitar a vida na selva de cimento em que se transformaram as nossas cidades.
Deus que criou paraísos para o homem viver, e deu inteligência ao homem (e não às pedras) para ele poder discernir, não quer, com certeza, ver destruído o que construiu com tanto engenho e arte.
Deus, ao mostrar o paraíso a Adão e Eva disse-lhes: «Eis o Jardim do Éden, onde podeis viver felizes e tranquilos, se assim o desejardes!»
Dependia, pois, deles, viver eternamente sem «consumirem a própria existência em rudes e penosos trabalhos».
Adão e Eva conheceram o Paraíso e perderam-no, por não saberem preservá-lo. E Deus nada pôde fazer. A escolha foi deles.
Quem de nós não conseguir interpretar o simbolismo do «Jardim do Éden» não poderá nunca entender a magia da Natureza, os segredos da flora e da fauna que rodeiam a Humanidade.
É essa ignorância que eu lamento.
Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
«O PORTUGUÊS QUE NOS PARIU» - LIVRO DE ANGELA DUTRA DE MENESES
Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
QUANDO OS PORTUGUESES SÃO HUMILHADOS E NINGUÉM SE INSURGE CONTRA ESSAS HUMILHAÇÕES...
(Parte II)
Continuando com o tema dos maus-tratos a que o povo português tem sido sujeito por parte de gente preconceituosa e que ignoram o que fomos e o que somos, hoje debruçar-me-ei sobre o livro da jornalista brasileira Angela (sem circunflexo) Dutra de Menezes, intitulado «O Português Que Nos Pariu», publicado no Brasil, no ano 2000, pela Relume-Dumará, e editado em Portugal pela Civilização Editora, em 2007.
Quando me foi sugerida esta leitura, disseram-me: «Se ficou indignada com o livro «1808», de Laurentino Gomes, ao ponto de escrever a sua «Contestação», então com este ainda terá mais motivos para se indignar».
Confesso que fiquei curiosa.
Tratei imediatamente de adquirir o livro. E de facto fiquei estupefacta. Alguns autores portugueses vêem-se rejeitados pelas nossas editoras, com obras válidas, com qualidade literária e que respeitam a Língua Portuguesa. São rejeitados como lixo. Contudo essas mesmas editoras aceitam publicar tudo o que vem de fora, sem qualquer pejo, ainda que maltratando a nossa Língua e o nosso Povo.
É injusto. Muito injusto!
O Português que nos Pariu é um livro híbrido. Nem peixe, nem carne.
Comecemos pelo título, nitidamente conotado com aquela outra expressão vulgaríssima, que se usa para insultar a mãe dos outros (neste caso o pai). Um título infeliz e que diz muito sobre o conteúdo do livro.
Na contra-capa lê-se que a escritora, «propõe uma nova maneira de encarar a História (...) lançando mão de uma linguagem bem-humorada e sem a rigidez dos livros didácticos. (...) A perspectiva da História que nos apresenta é um “olhar índio”. É como se (...) um audaz grupo de índios pegasse numa piroga e desembarcasse nas margens do Tejo para ver de onde (...) tinham surgido aqueles homens brancos e de hábitos estranhos que foram desinquietar as suas vidas».
Fiquei ainda mais curiosa. Um olhar índio. Eu, que quando estudei nas escolas brasileiras a parte da História comum aos dois países, sempre considerei que os indígenas brasileiros, esses sim, tinham muitas razões de queixa contra aquele povo que, um certo dia, entrou no seu território e se apossou das suas terras, transformando-as no quintal deles, e as suas crenças e a sua cultura foram tidas como coisas do “diabo”, que deviam ser banidas e substituídas pelos valores ocidentais da Cristandade.
Angela Dutra de Meneses
No entanto, que desilusão! O “olhar” não foi de índio, mas de uma ex-colonizada que ainda não “encaixou” o facto de aquele território ter sido dado a conhecer ao mundo por um povo pequeno, mas de alma grande (à parte os despautérios perpetrados contra os indígenas e mais tarde contra os escravos vindos de África, o que não tem perdão à luz da razão, mas pode ser admitido à luz dos archotes que então ardiam, por todo o mundo, ainda pouco iluminado, naquele tempo).
Devo dizer que em questão de contextualização, o livro da Angela (não sei o que me parece escrever este nome sem acento circunflexo) é mais correcto do que o do Laurentino, que disse as coisas fora do seu contexto, o que retirou credibilidade à narrativa. No entanto, O Português que nos Pariu contém algumas imprecisões históricas, e é todo escrito num tom nitidamente escarnecedor (não de humor, humor é outra coisa), ao jeito do vídeo da Maitê Proença, uma brincadeirinha... que acabou com uma cuspidela na fonte (e os porcos somos nós!).
Já agora posso igualmente fazer uma referência ao filme da brasileira Carla Camurati, intitulado Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, uma pretensa comédia, que faz uma caricatura pavorosa da coitada da Dona Carlota e do D. João VI, se bem que a interpretação dos actores seja admirável. Porquê esta aleivosia contra um povo que até nem foi dos piores no que respeita ao desempenho colonizador?
Antes de entrar propriamente nos meus comentários, devo dizer que fiz uma breve pesquisa na Internet, sobre este livro, e deparei-me com dois textos que me deixaram perplexa.
Um deles, numa página que suponho ser da editora Relume-Dumará, que inclui um texto não assinado, diz o seguinte (os sublinhados são meus):
Além de um casal luso, alguém sabe fazer um português?
«A receita está no livro O português que nos pariu - Uma viagem ao mundo dos nossos antepassados, de Angela Dutra de Menezes.Junto com a receita, o leitor leva, de brinde, "estórias" da História portuguesa. Fatos que, de um jeito ou de outro, marcaram o caráter brasileiro.
Tudo narrado com bom humor, já que a história oficial é insossa e arrastada. Por que não jogar na mesa que o grande Afonso Henriques provavelmente amargava um insolucionado Complexo de Édipo? Que dom Henrique, o Navegador, não sabia navegar? Que dom Sebastião, o tal do messianismo, não passaria em psicotécnico de nenhum Detran da vida? Descontração não anula a verdade dos fatos. Se o livro dá um "jeitinho" de colorir a História é porque nosso "jeitinho" também é herança lusa.
Nossos antepassados portugueses foram grandes e audazes. Inventaram o Estado-Nação, descobriram novos mundos e, um dia, olhando o mar, concluíram filosoficamente que aquilo era um caminho – para além havia terras. Lá se foram eles; aqui estamos nós.
Cinco séculos se passaram. Sobrou tempo para os portugueses inventarem a palavra saudade, enquanto se esbaldavam no estupro e no saque. Entre a ternura e a porrada, descobriram o Brasil, colonizaram o Brasil e inventaram um país mestiço, miscigenado e sofrido: mas cheio de graça. (...)»
Devo dizer que, de repente, pareceu-me regressar aos meus maus velhos tempos de estudante, quando ouvia estes e outros descalabros sobre a nossa História, nas escolas brasileiras (eu já havia estudado História em Portugal).
E fiquei triste, porque verifiquei que nada mudou, e já lá vão tantos anos! As mentalidades continuam preconceituosas. Continua a ensinar-se disparates. Como hão-de os Brasileiros ter uma ideia correcta da sua própria História? Do seu passado? Do que são e do que foram?
Reparem nos sublinhados: a história oficial é insossa e arrastada... Dito mais desditoso! Depende de quem a conta e de como a conta, nenhuma História é insossa e arrastada. Isto depende da inteligência e da sensibilidade de quem ensina História. E o que se diz de Afonso Henriques, do nosso Infante D. Henrique e de D. Sebastião! Quanta ignorância!
O livro não dá um jeitinho de colorir a História. A História que nele se conta está completamente enfarruscada pela fuligem negra que se despega das palavras.
E perdoem-me, mas o “jeitinho” brasileiro de que se fala neste texto, não é, de modo algum, herança portuguesa; é simplesmente o “jeitinho” daqueles que, depois dos portugueses, se tornaram genuinamente brasileiros, mas não souberam “libertar-se” do que eles consideram o “estigma” português. Sim, porque hoje, no Brasil, nada sobra do que foi verdadeiramente português, a não ser as obras de arte, os palácios, a arquitectura que, por exemplo, transformou a cidade de Ouro Preto em Património Mundial da UNESCO. Nem sequer a Língua, que apesar de parecer, não é.
Fixemo-nos no último parágrafo do texto reproduzido: aquilo é de quem renega o seu passado e vive frustrado com o peso de uma ignorância, que não tem graça nenhuma.
Como se isto não bastasse, vagueei mais um pouco pela Internet e deparei com o blog do jornalista português Antunes Ferreira,antigo Chefe de Redacção do Diário de Notícias (1975-1991) e escritor.
Este senhor diz: «Êta livro fascinante. A Civilização Editora que o publica em Portugal merece um muito obrigado, à vontade. Firme. Sentido. Permitiu aos Portugas a leitura de um texto primoroso, cheio de graça, ironia (...) Falo de uma obra, neste caso perfeitamente prima, vinda de quem vem, 189 páginas magníficas (...)»
Sempre respeitei a opinião dos outros, e esta opinião merece todo o meu respeito, mas não a minha concordância: em primeiro lugar porque um Português que se preze não devia encontrar tanto fascínio numa obra que, de certo modo, e camufladamente, nos amesquinha. Em segundo lugar, a linguagem utilizada no livro é de uma vulgaridade tão nua e crua, que não pode ser (no meu entender) qualificada de primorosa e magnífica.
Um exemplo: «A arqueologia prova que os pré-históricos ibéricos já se assemelhavam aos gajos pós-modernos – ora, pois».
A autora dá-nos a receita de como se faz um português: misturam-se vários ingredientes (a que ela chama povos) e lá mais para diante diz: «Cuidadosamente misture os revoltosos (refere-se aos lusitanos), os romanos e as tribos que se lixaram para a invasão romana».
Diz também que «A cidade do Faro, no Algarve, última em poder dos muçulmanos, voltou a pertencer a Portugal». Seria a cidade do faro do cão de água português, que tanto cativou Barack Obama?
Apenas mais uma: «Até hoje, Portugal acredita que os gajos (refere-se aos portugueses emigrados) se esfalfaram de trabalhar em uma pobreza bíblica, desprezados pelos brasileiros, infelizes, desgraçados, maltratados. Só que voltar para lá quase ninguém voltou».
Sou testemunha de que sim, os emigrantes portugueses, no Brasil, menos privilegiados do que eu, esfalfaram-se a trabalhar e eram desprezados pelos brasileiros (obviamente) menos cultos.
Não regressaram a Portugal aqueles que apesar de trabalharem arduamente, não conseguiram juntar dinheiro suficiente para tal. Outros, mais afortunados, ficaram ricos e não regressaram, porque constituíram lá família e posição social privilegiada. Outros, ainda mais afortunados, embora não enriquecessem, puderam regressar à pátria (o meu caso), por se recusarem a viver cercados de preconceito.
Ao contrário, os emigrantes brasileiros em Portugal são tratados como iguais. São respeitados como seres humanos que são. Os Portugueses não costumam escrever livros a escarnecer dos ex-colonos: nem dos do Brasil, nem dos de África, nem dos do Oriente. Aliás, os Portugueses não costumam escrever livros que firam a honra de um povo.
Os Portugueses são um povo civilizado (há excepções, certamente, como em todos os povos). Passada a era dos archotes, evoluíram, e não lhes interessa humilhar ninguém, especialmente aqueles que, por infortúnio da vida, não são belos, cheirosos e ricos.
Voltando ao livro: se a obra é prima, então não sei mais nada!
Além da linguagem vulgar (não a considero nem irónica, nem bem-humorada) é simplesmente vulgar, no sentido mais inferior da palavra, e gramaticalmente imperfeita, há várias imprecisões históricas e piadinhas que mostram (ainda) o desprezo que o brasileiro (é preciso frisar) menos culto tem pelos portugueses.
A Angela ao dizer que Portugal deve ao infante alguns mil quilómetros quadrados, embora naquela época, ninguém falasse em quilómetros, principalmente quadrados não fez mais do que aludir (rodeando a questão) à tão incómoda (para eles) “ignorância” dos portugueses, uma vez que o termo quadrado tem essa conotação.
Para terminar, gostaria apenas de deixar aqui uma sugestão aos Brasileiros que escrevem sobre os Portugueses, e aos editores portugueses:
Aos jornalistas brasileiros que escrevem sobre História, antes de se aventurarem a abordar o que quer que se seja, a esse propósito, sugiro que leiam os bons livros de História, já não digo os da autoria dos historiadores Portugueses mas, por exemplo, os de um prestigiado historiador brasileiro, Manoel de Oliveira Lima, para aprenderem a não se envergonharem do seu passado português. Procurem ler também algumas obras de escritores portugueses, e os vossos maravilhosos clássicos (como Machado de Assis, Jorge Amado, Olavo Bilac, Monteiro Lobato, José Mauro de Vasconcelos, entre muitos outros) para não perderem o jeito da Língua Portuguesa. Não se limitem a ficar com o que aprendem nas escolas. Nas escolas aprende-se o preconceito. E isso é mau.
Aos que publicam em Portugal estas escritas preconceituosas, aconselho a terem mais brio profissional, e a defenderem a Língua Portuguesa e o Povo Português.
Ao contrário do que muitos proclamam, defender a Língua e o Povo não é um conceito rançoso, de antanho, dos tempos das mariquinhas e dos manézinhos e dos chás das caridadezinhas. Essa é uma visão empalada da questão. Quem assim pensa, ficou parado na vida.
Defender a Língua e o Povo, hoje, é simplesmente defender a própria dignidade, a honra, aquilo que fomos e que somos. O eu colectivo.
Dizer sim aos que nos humilham é negar-nos como povo. Não podemos dar razão a quem nos vê como uma gentinha ainda porca, ainda feia, ainda má, ainda ignorante, e deixar que isso corra mundo como uma verdade, nos filmes que os outros filmam, ou nos livros que os outros escrevem...
Basta de estimular as mentes deformadas!
Já não vivemos no tempo dos archotes. As luzes hoje são outras...
Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009
«O AMOR ACONTECE» - FILME DE RICHARD CURTIS

Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
QUANDO OS PORTUGUESES SÃO HUMILHADOS E NINGUÉM SE INSURGE CONTRA ESSAS HUMILHAÇÕES...
(Parte I)
Vem esta crónica na sequência da que dediquei a Maitê Proença, e a propósito de duas situações com que me vi envolvida recentemente, e me deixaram igualmente indignada.
Casualmente, num fim-de-semana em que me apetecia ver um filme leve, na televisão, para terminar relaxadamente um dia que fora demasiado fatigante, passei pelo Canal Hollywood e estava a iniciar precisamente o filme O Amor Acontece, tradução portuguesa do original Love Actually, de Richard Curtis (um roteirista neo-zelandês, naturalizado britânico– e isto é importante frisar).
Deixei-me ficar ali. O filme (já de 2003, mas eu ainda não o tinha visto) era uma comédia ligeira, falava de amor (que é algo sempre aliciante), uma das actrizes até era a nossa Lúcia Moniz, e um dos actores o Rodrigo Santoro, o sedutor Frei Malthus, da excelente e recomendável série brasileira Hilda Furacão, enfim, tinha ingredientes em dose suficiente para me cativar, e deixar pregada a um sofá.
Ora o filme contava uma série de histórias de amor, em tempo de Natal, época em que o ar fica misteriosamente impregnado de uma contagiosa benquerença, que, infelizmente, logo se esvai com o chegar de um novo ano, até que aconteça um outro Natal.
Peripécias daqui, peripécias dali, infidelidades, amores cruzados, amores tímidos, o enredo do filme decorria normalmente. A nossa Lúcia Moniz foi trabalhar como empregadinha doméstica, para uma casa alugada por um escritor chamado Jamie (o actor Colin Firth) enquanto este escrevia um livro. A Lúcia (Aurélia, no filme), era uma jovem bonita, atraente, meiga, educada, suave, limpinha, um pouco tímida, que coloria os dias tristonhos do escritor, deixando entrever que entre eles o amor andava no ar.
Quando este teve de deixar a casa, para seguir a sua vida, Aurélia foi dispensada. Ele, gentilmente, conduziu-a até ao bairro onde ela morava, um bairro demasiado sombrio para tão mimosa menina. Esta, ao despedir-se, dá-lhe um beijo na boca, que o deixou boquiaberto, pois era um rapaz tímido. Mas enfim, até aqui, nada a dizer. Tudo perfeitamente normal.
Entretanto, se não estou em erro, esta cena da separação dos dois acontece quase no final do filme. Enquanto os outros casais vão se recompondo, Jamie, a caminho do aeroporto, tem um rebate de consciência, pois Aurélia não lhe sai do pensamento. Decide então reconsiderar e ir procurá-la ao bairro onde a deixou. «Aurélia, onde fica a casa de Aurélia?». Perguntou. Lá lhe disseram. Bateu a uma porta. Abriu-lha um homem anafado, de aspecto besuntão, grosseirão, de fralda de fora, daqueles que até podem existir por aí, mas não são de modo algum o protótipo do homem português.
Quem era então este homem? O pai da Aurélia, em pessoa.
Jamie, que entretanto, por artes e artimanhas, aprendera a falar português, logo ali pediu para casar com a filha. O portuguesinho, embasbacado, pois não era todos os dias que um gentleman pedia a mão das filhas, chamou a que tinha mais à mão, aparecendo então uma mocetona, obesa, feia, horrorosa, grosseirona como o pai, descabelada, desdentada, oleosa, enfim, uma figurinha de fugir, o que também poderá existir por aí, mas não é, de todo, o protótipo da mulher portuguesa.
Ao ver tal criatura, Jamie apressou-se a dizer que não era aquela a sua amada, mas a Aurélia. Onde estava a Aurélia? Nestes entretantos, descendo as escadas, foi se aproximando a restante família de Aurélia, toda ela um pavor: porca, feia, grosseirona.
A Aurélia? Estava a trabalhar num restaurante. Era empregada de mesa. A família (toda) indicar-lhe-ia o caminho. E lá foram, beco fora, em procissão, Jamie e o pai grosseirão da Aurélia à frente, e atrás a irmã obesa, a mãe obesa, e demais família, todos com o aspecto mais seboso que possa imaginar-se.
Uma família portuguesa? Não, com certeza. Uma caricatura desprezível, sim.
Chegados ao restaurante, lá estava Aurélia, radiosa, linda, delicada como uma flor, o que destoava completamente da tal família sebosa. A discrepância era tal que se ficava com a ideia de que dentro de uma pocilga foi possível florescer uma rosa imaculadamente branca.
Aonde quero chegar?
Uma vez mais os Portugueses foram humilhados num filme realizado por um britânico (não interessa se naturalizado ou não). Um filme que teve sucesso, e que transmitiu uma péssima imagem dos Portugueses. Já com a série Os Tudors (do roteirista também britânico Michael Hirst) passada na RTP1, Portugal foi enxovalhado, como sendo um povo sebento, de poucas maneiras, enfim, os britânicos (entre outros) têm a ideia de que os portugueses são feios, porcos, maus e ignorantes, e fica tudo por aí, pois ninguém os contradiz.
(Recorde-se o livro «1808» do jornalista brasileiro Laurentino Gomes, que foi por mim contestado, e os Portugueses, salvo raras excepções, passaram por cima do preconceito do jornalista, transformando-o num best-seller, e e ignoraram igualmente o meu atrevimento, ao contestá-lo.)
Ora em relação à Lúcia Moniz, esta deveria ter-se recusado determinantemente a interpretar aquela personagem, tendo como família uma gente tão sebosa. Aceitava o papel, sim, se o realizador se desse ao trabalho de pesquisar melhor o protótipo das famílias portuguesas que emigram. Em mil, uma caracterizar-se-á, por ventura, como a que foi retratada no filme, porém, a personagem Aurélia, nunca poderia ser aquela menina mimosa e delicada, mostrada no filme, e que vicejou numa família tão pocilguenta.
Já a RTP1 deveria ter recusado comprar e passar Os Tudors, no pequeno ecrã, como forma de protesto contra a ignorância daqueles que têm ideias erradas e fixas, sobre o povo português, que ao que vejo, perdeu o brio e tem vergonha de ser patriota, isto é, tem vergonha de amar o seu país – Portugal. Que vergonha há nisto? Esses portugueses, ou melhor, esses portuguesinhos, que se envergonham de ser Portugueses não merecem ser filhos do pequeno e belo território que os viu nascer.
Voltando àquela noite...
Nessa noite, eu, que queria descontrair-me com um filme leve, irritei-me à brava.
Como se tudo isto não bastasse, e ainda no seguimento dos maus-tratos a que os portugueses estão sujeitos, por parte dos estrangeiros que ignoram tudo sobre o que fomos e o que somos (nem o mínimo sabem, mas nós sabemos o mínimo sobre o Quirguistão), e mesmo por parte dos Portugueses que não reagem a esses maus-tratos (e é por isso que o estudo da HISTÓRIA, banido das nossas escolas, é premente), poucos dias depois, aconselharam-me a ler um livro que foi publicado pela Civilização Editora (edição de Portugal) em 2007, intitulado «O Português Que Nos Pariu», da jornalista brasileira Angela (sem circunflexo) Dutra de Menezes, e sobre o qual o jornal O Globo (Brasil), comentou ser «um dos dez melhores livros do ano».
Porque isto tem muito que se lhe diga, deixarei o comentário desta obra para a segunda parte de Quando os Portugueses são humilhados e ninguém se insurge contra essas humilhações...
Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
UM RECADINHO PARA MAITÊ PROENÇA

Cara Maitê:
A sua brincadeirinha foi de tão mau gosto que estive para não lhe dar importância nenhuma. Quase me apeteceu imitar Cristo na cruz: perdoai-lhe Portugueses, ela não sabe o que diz.
Mas decidi não ficar calada, pois já é tempo de, os que pensam que os Portugueses (na sua generalidade) são porcos, feios, maus e ignorantes, ficarem a saber que em todos os povos, inclusive no Brasil, infelizmente, há porcos, feios, maus e ignorantes.
Mas a nós, Portugueses, que somos um povo civilizado, não nos interessa andar por aí a maldizer os infelizes, que tiveram a desventura de não ter oportunidade na vida para deixarem de ser porcos, feios, maus e ignorantes.
Não se trata de nós, Portugueses, não termos “sentido de humor” (como a Maitê se lamentou). Até somos muito de rir de nós próprios e das nossas pinderiquices.
A verdade é que não gostámos nada das patetices que foram ditas naquele vídeo patético, sem graça, sem conteúdo. Triste como a ignorância!
Li o que o nosso humorista Nuno Markl escreveu, e ele tem muita razão. O dono daquela casa em Sintra, foi um génio ao colocar aquele “3” como colocou. Isso, sim, é ter sentido de humor, é ter espírito Português.
Por acaso a Maitê Proença já leu Camilo Castelo Branco?
Não? Então leia. E aprenda como se faz ironia. Depois grave os vídeos que quiser.
Esqueceu-se a Maitê que uma coisa é “fazer humor” com inteligência, outra coisa é fazê-lo com ignorância, dor de cotovelo, mau gosto, preconceito, vingança, ou outra coisa do género.
Eu, especialmente, eu, que já vivi no Brasil, e tenho-o como meu País irmão, estou farta daqueles brasileiros (não de todos, obviamente) apenas daqueles brasileiros preconceituosos, que sentem vergonha dos seus antepassados, e da época em que Portugal “governava” (bem ou mal isso é outra história) o Brasil, território dado a conhecer ao mundo pelos Portugueses, e desatam por aí a dizer disparates sobre o povo que lhe deu protagonismo.
Enquanto estudei no Brasil, nunca deixei que os brasileiros ignorantes me humilhassem. Eu tinha sempre um trunfo na manga, para dizer-lhes que só somos pequenos se nos deixarmos ser pequenos.
Continuarei a ser amiga dos brasileiros e a acolhê-los no meu país, com todo o carinho. Não vamos meter a todos no mesmo saco.
A Maitê, por quem eu tinha uma certa consideração, está agora no saco de serapilheira, onde meto todos aqueles que ainda têm muito que aprender sobre Civilidade, Respeito e Coexistência pacífica.
Segunda-feira, 12 de Outubro de 2009
OS ANIMAIS NÃO MENTEM...
Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
Quem me conhece sabe que sou uma defensora acérrima dos animais (de qualquer animal, seja doméstico ou selvagem, do cão, do gato, da formiga ao hipopótamo); dos seus direitos, e de como os considero meus irmãos, porque somos seres da mesma criação, com quem partilho o mesmo planeta e a mesma vida: respiramos o mesmo ar; bebemos da mesma água; alimentamo-nos do que a Natureza nos dá; temos as mesmas necessidades vitais – fome, sede, sono; sofremos as mesmas dores físicas e algumas dores morais – a saudade, a angústia, o medo, a tristeza; somos fustigados pelo mesmo vento; ilumina-nos o mesmo Sol; vela-nos a mesma Lua; abrasa-nos o mesmo fogo; somos atingidos pelos mesmos flagelos da Natureza, pelas mesmas doenças, pelas mesmas torturas que nos infligem os homens que se dizem humanos.
Os que me conhecem sabem também que abomino as touradas; as lutas entre cães, galos, ursos e outros desditosos; os Jardins Zoológicos; os Circos que usam e abusam dos animais; as vergonhosas experiências laboratoriais; o uso de vestuário e outros acessórios de moda feitos com peles dos desventurados...
O que nem todos saberão é por que gosto mais dos animais do que de certos seres que se dizem humanos.
OS ANIMAIS
- São-nos fiéis em qualquer circunstância: nos bons e nos maus momentos; na fartura e na miséria; na saúde e na doença;
- Não mentem nunca;
- São inteligentes;
- Não têm vícios: não se embebedam, não se drogam... Não nos atormentam com a sua libertinagem, porque não são libertinos...
- Não são rancorosos;
- Não usam da violência para maltratar os da sua espécie (ou o homem) a não ser em legítima defesa ou por uma questão de sobrevivência...
- Não matam com prazer;
- Não são cruéis;
- Não sentem ódio, nem escárnio, nem inveja...
- Não poluem as águas, nem o ar, nem o solo...
- Não destroem o seu meio ambiente;
- Não desprezam os seus;
- Não inventam armas mortíferas;
- Não fazem massacres;
- Não são terroristas;
- Não fazem guerra;
- Não são bombistas suicidas;
- Não sequestram, nem violam, nem torturam os seus;
- Não são pedófilos;
- Não impingem o seu modo de vida a ninguém;
- Não são intolerantes;
- São afectuosos, pacifistas...
- Não são hipócritas, nem cínicos...
- São amorosos, perspicazes, laboriosos;
- Não agridem, se não forem agredidos;
- Não são ladrões, nem corruptos, nem traficantes de droga, ou de armas, ou dos da sua espécie...
- Respeitam as leis da Natureza e da Sobrevivência;
- Não andam no mundo só por verem andar os outros: intuem o sentido da vida e vivem-na sabiamente...
É TEMPO, POIS, DE APRENDER COM OS ANIMAIS, O CONCEITO DA COEXISTÊNCIA PACÍFICA E INTELIGENTE
Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
CARTA DE JOEL AO POETA LUÍS DE CAMÕES
Copyright © Isabel A. Ferreira 2009

Amigo Luís,
Para ti talvez seja difícil ler esta carta, no lugar onde te encontras. Por isso, vou ler alto estas palavras que te escrevo, porque sei que o eco da minha voz chegará até a ti.
O que eu tenho para dizer-te é muito simples.
Foste soldado, foste poeta e ninguém te celebrou em vida.
Deixaram-te morrer só, pobre, sem glória, a ti, que perpetuaste o nome de tantos heróis!
Mas sabes, a vida de poeta é mesmo assim. Ninguém o compreende, e queres saber porquê? Porque o pensamento do poeta nasce com asas e ele precisa de voar. E para ver um poeta voar é necessário sensibilidade.
Eu comparo o poeta às aves. O que aconteceria a uma ave se lhe cortassem as asas?
Tu, apesar de tudo o que sofreste, nunca permitiste que cortassem as asas do teu pensamento, por isso, o teu engenho e arte foram imensos. Contudo, foi preciso morreres, para que o teu talento fosse reconhecido.
Nunca vi o teu rosto, conheço apenas o teu pensamento e a dimensão da tua alma, através das tuas obras literárias.
Hoje, parece-me que sempre te conheci.
Sabes, sou amigo dos poetas. De todos os poetas. Compreendo-os. E se dependesse de mim, não ficaria nenhum por celebrar, porque o poeta, de todos os seres mortais, é o mais imortal. É o único que pode voar com as asas do seu pensamento, e deter-se na eternidade.
E como é bom voar com os poetas!
E dentre todos, tu foste o que voou mais alto.
Joel
Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
O LÍRIO, A GOTA DE ORVALHO E A SARÇA ARDENTE...
Copyright © Isabel A. Ferreira 2009
(Fonte: Wikipédia)
O LÍRIO
«Na verde margem do rio Ticino, cresceu um belo lírio. Alta e erecta na sua haste, a flor reflectia as suas brancas pétalas nas águas; e estas quiseram apoderar-se delas. Cada onda que passava levava consigo a imagem daquela branca corola e transmitia esse desejo às ondas que viriam a seguir. Assim, todo o rio começou a fremir, as ondas tornaram-se inquietas e velozes; e não podendo colher o lírio, bem agarrado ao solo e lá no cimo da sua robusta haste, atiraram-se, furiosas, contra a margem, arrastando consigo tudo o que havia, incluindo o lírio puro e solitário».
Foi através deste texto que descobri, há uns anos atrás, o íntimo de Leonardo da Vinci. O meu primeiro encontro com o mundo exterior do grande sábio italiano aconteceu, porém, quando eu tinha apenas 15 anos e frequentava uma Escola de Língua Inglesa.
Por aquela época, já eu adquirira o hábito da leitura e era frequentadora assídua da vastíssima biblioteca da escola. Foi lá que conheci uma lady inglesa, muito culta e já de certa idade, que ali trabalhava como bibliotecária. Ainda me recordo da primeira vez que entrei naquela biblioteca. Dirigi-me à venerável senhora, num inglês ainda mal pronunciado, para que me orientasse na procura de um determinado livro. A lady, olhando-me com uns olhos exageradamente abertos, disse-me na sua pausada pronúncia londrina: «Incrível! Como a sua expressão me faz lembrar Mona Lisa!»
Mona Lisa! A Gioconda. O nome não me era estranho. Sim, o célebre quadro de Leonardo da Vinci. Já o conhecia, mas... o que é que uma jovem de 15 anos teria em comum com uma madona italiana do século XV? Tal possibilidade entristeceu-me. Porém, a senhora bibliotecária lá teria as suas razões para fazer tal afirmação.
Apesar de nunca ter percebido esta estranha apreciação, o certo é que, a partir desse dia, tornámo-nos grandes amigas, e é a essa lady que devo todo o meu conhecimento não só sobre o velho sábio italiano, como sobre outros grandes nomes da história da humanidade.
Depois deste episódio, comecei a dedicar algum do meu tempo a olhar o sorriso enigmático de Mona Lisa, na esperança de nele descobrir algo de comum à minha própria expressão. Mas, se por um lado nunca encontrei nada que justificasse a asserção daquela senhora inglesa, por outro, aprendi a compreender e a ter por Leonardo da Vinci, um dos génios mais versáteis de toda a humanidade, uma admiração tal que, não fosse a minha aversão pela idolatria, teria feito dele o meu herói.
Entretanto, há alguns anos atrás, ao entrar numa livraria, deparei com um título que me chamou a atenção: «Fábulas e Lendas de Leonardo da Vinci». Ao manusear o livro, abri-o, por acaso, onde estava escrita a fábula «O Lírio». Eu sabia que Da Vinci tivera uma incansável e insaciável curiosidade e nutria um sentimento muito profundo por todos os seres vivos. Era um observador apaixonado dos fenómenos da natureza. Sabia também que a sua torturada imaginação o levou a penetrantes observações em quase todos os ramos do saber. Chegou até a ser um exímio músico. O que eu desconhecia é que Leonardo era um admirável contador de fábulas e lendas e, ao ler «O Lírio» mergulhei repentinamente no íntimo do sábio e descobri a subtileza, a sensibilidade e a magia do seu mundo.
(Fonte: Internet)
A GOTA DE ORVALHO
Porquê este encómio a Leonardo? Perguntarão, talvez, os leitores. Pois ele vem a propósito de um belíssimo filme que vi sobre a genialidade da figura e da obra de Da Vinci. Neste filme, impressionaram-me três aspectos de tal forma que não consegui calá-los, nem resisti à tentação de partilhar o sentimento que em mim despertaram. O primeiro, foi reconhecer a grandeza do cérebro humano que, se tiver a sorte de animar um espírito sensível, quanta maravilha pode trazer à vida do homem!
O segundo, foi descobrir, através da imaginação de Leonardo, a versatilidade de um dos elementos da natureza que mais temo e, ao mesmo tempo, mais admiro – a água: a violência das águas revoltas do mar e a suave tranquilidade das águas de um rio; a força destruidora de uma cachoeira e a brandura de uma gota de orvalho. Só um homem sábio, sensível e mágico poderia descobrir tal subtileza no universo.
(Fonte: Internet)
A SARÇA-ARDENTE
O terceiro aspecto foi o facto de o realizador do filme não ter “matado” Leonardo da Vinci. Deixou-nos com a bela figura de um velho génio no final da vida.
Entre as pedras solitárias, de um solitário jardim, ficou-nos a imagem de uma sarça-ardente que, assim como a que sempre ardeu no íntimo do sábio, não mais se apagará na memória dos homens.
Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009
O CISNE

(Fonte: Wikipédia)
O cisne dobrou o flexível pescoço para a água e viu-se reflectido.
Então, de repente, compreendeu a razão da sua fraqueza e daquele frio que lhe atenazava o corpo fazendo-o tremer como de Inverno: e sem qualquer dúvida soube que a sua hora havia soado e que precisava de se preparar para a morte.
As suas penas eram ainda brancas como no seu primeiro dia de vida. As estações e os anos tinham-se passado sobre ele sem lhe manchar as vestes imaculadas; podia pois desaparecer, concluir em beleza a sua existência.
Erguendo o belo colo, dirigiu-se lenta e solenemente para debaixo de um salgueiro, onde costumava repousar durante o calor. Era quase noite. O ocaso estava agora tingido de púrpura e a água do lago tinha um tom violeta.
E no silêncio que havia em tudo, o cisne começou a cantar.
Até aí, nunca encontrara acentos tão plenos de amor pela natureza, pela beleza do céu, da água e da terra. O seu canto dulcíssimo espalhava-se no ar, velado de nostalgia, até que, pouco a pouco, se foi extinguindo conjuntamente com a derradeira luz do horizonte.
– É o cisne – disseram comovidos os peixes, os pássaros, todos os animais do prado e do bosque – é o cisne que morre.
in Fábulas e Lendas – Leonardo da Vinci
Terça-feira, 15 de Setembro de 2009
EVOCANDO O TROVADOR JACK DESKA, UM SAUDOSO AMIGO...
Copyright © Isabel A. Ferreira 2009

Era um melancólico fim de tarde, já no longínquo mês de Setembro de 1991. Havia chovido e a rua encontrava-se cheia de poças de água, onde se reflectiam as nuvens.
Eu descia a rua em direcção a casa, tentando não molhar os pés, pois calçava sapatilhas. Seguia distraída com o leve burburinho que me rodeava.
De súbito, fui despertada por um assobio harmonioso, cristalino, fascinante, e depois uma voz doce e ao mesmo tempo vigorosa: «Ne me quitte pas, ne me quitte pas, ne me quitte pas...».
Segui aqueles sons, já completamente rendida à perfeição daquela interpretação, que não sendo do inigualável Jacques Brel, deveria ser de alguém com um espírito semelhante, ou sofredor de um mal de amor.
Uns passos mais adiante, deparei-me, então, com o dono daquela voz, que me fascinou, rodeado de uma pequena multidão. O som que me entrava na alma pregou-me ao chão, e ali fiquei, com os pés enfiados numa poça de água, escutando o Trovador, a interpretar Brel, magnificamente.
Que importava a rua, cheia de poças de água! Que importava o chão, o cimento, os ladrilhos feios, se estava diante de um Trovador, dos autênticos, daqueles que cultivam a música e a poesia com amor!
Que importava a fealdade que me rodeava se eu tinha diante de mim a arte personificada?
Esqueci-me de tudo. E ali fiquei cativa da voz daquele menestrel do século XX, até que um aguaceiro me despertou para a realidade.
Havia descoberto um artista? Não resisti e aproximei-me do jovem, que entretanto se abrigara debaixo do toldo de uma ourivesaria. Precisávamos conversar, disse-lhe.
Soube então, logo ali, que outros antes de mim o haviam descoberto: já fora duas vezes à televisão (aos programas «Às Dez» e «Bom Dia»); já saíra nas páginas d’ O Primeiro de Janeiro, do Diário de Coimbra e do Miroir de Paris.
Sim, era possível, porém, os “outros” haviam descoberto o cantor de rua, o goliardo leigo (que ele dizia não ser).
A mim coube-me descobrir, para além daquele olhar azul, límpido e pleno de nostalgia, o verdadeiro, o autêntico Trovador. O mensageiro da liberdade, da fraternidade, da igualdade. O arauto da paz, do amor, da paixão, mas também da raiva e da revolta contra as injustiças de uma sociedade imensamente desequilibrada e desarmoniosa.
Entrámos numa pastelaria, enquanto chovia, e foi aí que, subtilmente, fui entrando no mundo de Jack Deska, o Trovador.
Jack Deska nascera em Villepinte, uma pequena aldeia perto de Paris, em 1 de Maio de 1963. Depois de uma infância um tanto atribulada, decidiu correr mundo, levando consigo a sua viola (violão ou guitarra clássica), um amplificador e a sua arte de rua.
Um dia descobrira que a música era a chave para a felicidade e para a comunicação. Tímido, por natureza, sem a sua viola não conseguia comunicar.
Depois de ter vivido em grandes cidades como Amesterdão e Berlim, Jack passou por Ibiza, onde um agente da lei lhe sugeriu que “desandasse” dali e fosse para o «lixo da Europa», isto é, Portugal.
O Trovador pôs-se então a caminho. Quis conhecer o “lixo” de que lhe falara o agente. E foi nesse “lixo” (que Jack considerou o paraíso) que se fixou, durante cinco anos. Tinha vindo para ficar. Viveu durante algum tempo na “Pensão do Norte”, no Porto. Gostava do nosso país, porém, sentia que os jovens portugueses eram psicologicamente velhos.
Para muitos deles, a liberdade tinha o significado de “libertinagem”, o que para Jack era extremamente lamentável.
O Trovador cultivava a liberdade, tal como os pássaros. Não com asas físicas, mas com as asas do pensamento. Ele não era um marginal, só porque cantava na rua. Nem sequer um mendigo, pois nada pedia, quem quisesse atirava-lhe uma moeda para a caixa da viola.
Jack Deska era, sobretudo, um sonhador. Um idealista. Temia o sucesso (se algum dia viesse a tê-lo), porque a sua privacidade ficaria comprometida. Por isso, preferia as ruas para cantar Jacques Brel, Joe Dassin, Edith Piaf Gilbert Becaud e as suas próprias composições. O sucesso talvez o privasse de ir comprar o seu queijo, todas as manhãs, um ritual que Jack não dispensava. E isso amedrontava-o.
Gostaria, sim, como qualquer cantor, de gravar um CD. E um dos seus sonhos era actuar no palco do Coliseu do Porto, onde Rui Veloso (de quem era um grande admirador) já pisara tantas vezes.
Eu, como sabia o que era sonhar e realizar sonhos, se ninguém o fizesse antes de mim, levá-lo-ia eu a actuar no Coliseu, num dos espectáculos que, anualmente, lá organizava para o público mais jovem. Era um sonho que o Trovador veria realizado. Prometi-lhe. Ele delirou.
Contudo, o seu sonho ficou por realizar. Morreu poucos meses antes de subir ao palco do Coliseu, como já estava programado.
Jack Deska tinha um companheiro: o seu inseparável ratinho branco, a quem carinhosamente chamava o Trovadorzinho, que, aninhado junto ao seu pescoço, de olhinhos fechados, ouvia, como que hipnotizado, a actuação do seu amigo, e a sua voz de menestrel e o seu fascinante assobio, semeando arte pelas ruas.
Um Trovador atravessou aquela tarde. Foram muitos aqueles que o viram e ouviram. Porém, de entre essa multidão, que lhe ia enchendo a caixa da viola com moedas, talvez ninguém tivesse se apercebido de que estava diante de uma alma poética, de um sonhador, de uma mensageiro da arte, e não de um simples “mendigo”, como o consideraram.
Um Trovador passou pela cidade, num fim de tarde, no já longínquo mês de Setembro de 1991 e, nesse dia, a arte enfeitou a rua...
***
Depois daquele encontro, eu e o Jack tornámo-nos grandes amigos. Vivemos impensáveis peripécias kafkianas, numa esquadra de polícia, onde estive detida por uns escassos dez minutos, por defender a Arte do Trovador.
Do Trovadorzinho, para quem o Jack arranjou uma companheira, fiquei com a recordação do meu Ratolinha, igualzinho ao pai, e também muito amoroso, que gostava de partilhar comigo a maçã do meu pequeno- almoço, e aninhar-se no meu pescoço, enquanto eu escrevia.
Um dia, Jack Deska conseguiu comprar um carro velho, para mais facilmente poder deslocar-se pelo país. Perdi-lhe o rasto, durante uns dois anos. Tinha ido para a Alemanha, de onde me enviou um postal, a dizer de si e das suas mágoas.
Passou-se algum tempo mais, já não me lembro quanto, descia eu a mesma rua, também num fim de tarde, talvez no ano de 1997, e tornei a ouvir um assobio, que me era familiar. Segui-o, como outrora. E lá estava o Jack, numa esquina, a cantar Et si tu n'existais pas, de Joe Dassin. Estava mais magro, mais velho, mais esfarrapado, mais amargurado.
Quando me viu, parou de cantar Dassin e passou imediatamente para Brel, com Ne me quitte pas... A minha canção preferida. E ali fiquei novamente pregada ao chão, rendida à voz e às palavras do Trovador.
Fomos depois lanchar à “nossa” pastelaria, onde me contou as suas desventuras por terras alemãs. Andava perdido. Fora para esquecer o seu amor impossível. Um músico de rua não convinha à “professorinha” que ele amava. A família dela era absolutamente contra aquele romance, e estávamos numa época em que o peso de uma sociedade conservadora impedia um amor assim, tal como no tempo de Romeu e Julieta.
Porém, a saudade da sua amada trouxera-o de volta a Portugal. Tinha esperança, agora que os tempos eram outros. Mas não resultou, uma vez mais. E uma vez mais ia partir. Desta vez para sempre. Confidenciou-me. E aquela foi a última conversa que tivemos, e a última vez que o vi.
Partiu para Villepinte, sua terra natal, na sua carripana.
Mais um tempo se passou, sem notícias. No dia 10 de Outubro de 1998, já ao fim da tarde, recebi um telefonema da sua “professorinha” (como ele amorosamente tratava a sua amada) a contar-me da sua morte, dias antes, a 7 daquele mês.
Desta vez, vinha de vez, para ficar com ela. Iam viver juntos em Coimbra. Ao atravessar Espanha, porém, numa auto-estrada, Jack sentir-se-ia mal e encostou o carro na berma, não muito distante de um Posto de Gasolina. Alguém reparou que aquele carro, já estava ali parado à demasiado tempo, e foram averiguar.
Jack Deska estava morto, debruçado sobre o volante.
A rua fora o seu lugar de vida. A estrada o seu lugar de morte. Talvez a emoção de vir, finalmente, ao encontro do seu grande amor, lhe provocasse o enfarte de miocárdio que o vitimou.
Devido à burocracia e à recusa da sua família em que fosse enterrado em Coimbra (como ele um dia preconizara, para ficar mais perto da sua amada) o seu enterro realizou-se quase um mês depois.
O féretro foi acompanhado ao som das canções que Jack celebrizara em vida e que o grupo de amigos, que o velou, cantou em sua homenagem, a caminho de uma campa, onde ficou sepultado, no Cemitério da Conchada, em Coimbra.
***
Por que evoquei, Jack Deska?
Porque foi num dia assim, como o de hoje, que o conheci. E hoje, ao descer aquela rua, não ouvi o seu assobio, nem aquele Ne me quittes pas,cantado com o coração em chamas, tal como Jacques Brel o cantava, por sofrerem ambos do mal de amor.
Além disso, este é um modo de manter vivo um Trovador excepcional, condenado ao esquecimento, por temer o sucesso, que o impediria de ir comprar o queijo, que partilhava com o seu Trovadorzinho, todas as manhãs...